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Detox Literário.

Junte Deus, um relógio, um coronel e chame Sebastião (Screw Loose)

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Raramente, percebemos que fazemos parte de uma singular engrenagem; responsável por fazer este mundo girar. Excepcionalmente, conseguimos enxergar onde exatamente, os nossos atos interferem na roda e no alheio. Nada é aleatório! É fato! Comprovado, registrado, firma reconhecida em cartório e dipostos nos manuais, que tudo o que fazemos; cada respiração; cada gesto, mesmo involuntário; cada olhar; cada palavra solta, interferem no voar das borboletas. Um beijo, um tapa, o desprezo, a facada, a manipulação… Tudo faz com que a engrenagem em que estamos conectados, siga em direção ao caos.

Sebastião, igual a todo mundo, também não imaginava que fosse parte dessas engrenagens. Nem lembrava de como tinha sido fundido, só lembrava da fome, dos animais maiores que ele, sempre afringindo violência ao seu corpo, à sua alma, espírito e mente. Talvez, isso tenha contribuído para torná-lo forte, então, não reclamava. Retrato de uma natureza feroz. Fisicamente era um homem poderoso, alto, esguio, de temperamento frio, distante das paixões. Não lembra de ter brincado, de ter relaxado a ponto de sorrir. Não lembra.

De tanto rodear o matadouro, arrumou a ocupação de matar bois. Gostava disso. Gostava de assistir o bicho, de repente, ao receber a bordoada, assumir o olhar caído em névoa, tombar atônito e sem tempo algum para reflexão, inflexão, motivação, desespero, medo… Morria de surpresa. Sebastião tinha certeza que os animais nem sofriam.

Foi o Coronel Santos Dias quem lhe reconheceu o talento em matar e deu-lhe a primeira missão: levar as contas do inferno a um desafeto.

E Sebastião que gostava de matar bois, também gostou de matar homens. A sensação era diferente. O golpe menos violento. Sim, os matava com um golpe de martelo. A única diferença, comparando homens e bois na hora da morte é que os “cabras” sabiam do cruel destino. Entendiam a derrota e choravam, esbravejavam, fediam de medo e mais… A imensa maioria apelava à Deus.

Sebastião perguntava, quem é que vocês chamam? Quem é Deus?

— Quem é Deus? Sebastião perguntou ao Coronel. Estavam num lugar deserto, cercados de mandacarus, ponto de encontro para recebimento das missões e pagamentos dos assassinatos. — Esse nome que eles gritam. E nossa senhora? Quem é? Falam da senhora sua irmã? O coronel riu com muito gosto, tossiu, perdeu o folego. Quanta ignorância! Pensou! Que bicho bruto era aquele?

— Nossa senhora? Minha irmã? Aquela jararaca? E ria comprometendo as pregas.

Sebastião só esperava uma resposta e aquela risada sem necessidade, começou a lhe deixar aborrecido. O coronel, talvez, vendo o semblante duro do seu assassino mais letal, guardou o riso “afolozado”, acendeu um charuto, não sem antes oferecer um, ao bruto e disse: “Vamos andando”. “Até o lugar em que nos separamos, acho que dá tempo de lhe contar uma ou duas coisas sobre Deus”!

Sebastião pensou em cobrar também, uma resposta sobre nossa senhora, mas desistiu. Primeiro porque já não tinha certeza se aquela que os moribundos evocavam na hora da morte, se tratava mesmo da irmã do coronel e ainda que fosse, o Coronel não ia querer debater com a gentalha – igual ele, as intimidades da sua camarada de sangue. De resto, Dona Conceição, a dita irmã do coronel era uma veterana, solteirona, invicta, silenciosa, de olhar feroz, beiços sempre espremidos uns contra os outros e braba! Foi uma estupidez supor que alguém quissesse sua companhia na hora do sufoco.

— Deus… Iniciou o Coronel. — É o Todo-Poderoso! Responsável por tudo o que você enxerga aqui ao redor. A poeira na minha bota, as folhas de palma, os lagartos, as formigas, as cobras, os bois… Tudo o que existe! E nesse balaio está a gente, também.

O assassino pensou um pouco e cheio de dúvidas, perguntou:

— Criar esse mundão todo, com tudo que tá dentro, deve ter sido um trabalhão! Por que alguém se meteria a fazer isso? O que Ele ganhou? A terra se enche de mato e erva daninha. Os bichos só se ocupam de comer e cagar. A gente morre sem saber o que é viver… Porque Ele perdeu seu tempo com esse mundo?

— Sebastião, você sabe o que é uma engrenagem?

— Sei não, senhor!

— Imagine esse relógio. Disse o velho de barbas brancas e pelos desalinhados, mostrando o relogio que tirou do braço. — Dentro, tem uma engrenagem que faz ele caminhar certinho e me mostrar os segundos e as horas. As engrenagens possuem rodas de tamanhos variados e com todo tipo de dentes, muitos dentes, poucos dentes… É isso que faz com se vá para frente, ou para trás, de um jeito mais corrido ou mais lento. É como um trem guiado por um maquinista cego. Esse maquinista é Deus!

O jovem matuto, logo imaginou que o o velho senhor estava delirando por causa do sol em sua cachola.

Sem conhecimento desse julgamento “abusado” o coronel continuou sua pequena palestra. Lhe agradava falar com aqueles ignorantes; lhe fazia bem, exibir sua compreensão do mundo. Afinal ele era ou não, um coronel? Continuou expondo sua metáfora.

— igual a esse relógio, nós, no mundo somos tudo uma corrente soldada. Tudo junto, tudo misturado. Se confundem os parafusos, as roscas sem fim, as molas, as manivelas, as rodas dentadas… Cada peça criada com uma função.

— As engrenagens? Titubeou, Sebastião.

— Iguais a isso tudo, somos nós, peças da grande engrenagem criada por Deus! Eu sou uma peça que movimenta alguma coisa. Na verdade eu sou uma grande peça que movimenta muita coisa.

— E foi esse Deus que?

— Criou primeiro o lugar! Depois o encheu de gente, e, para alimentar essa gente, criou os bichos, as frutas, a mandioca, o milho, a cebola… Tudo! Para que a criação crescesse, criou as mulher para ser mãe!

— Mas o que faz essa coisa toda, Coronel?

— Progresso! Riqueza!

— Mas poucos prosperam e são ricos! Aqui mesmo, tem o senhor e… Tem só o senhor!

— Por que Deus não podia criar uma engrenagem de peças iguais. Algumas tinham que ser maiores, mais poderosas assim como eu! Pessoas capazes de suportar o peso do mundo em suas costas.

Depois de dizer a ultima fala, o coronel sentiu-se envaidecido como uma galinha que põe um grande ovo! Que bela frase tinha cunhado – “Pessoas capazes de suportar o peso do mundo em suas costas”.

— E eu?

— Você também tem seu valor, meu filho! Mesmo um pequeno parafuso é necessário para firmar as peças maiores e importantes!

À noite, em seu casebre miserável, construido de barro segurado por estacas, coberto com telhas usadas, de lotes diversos e por isso, irregulares, muitas quebradas, tendo a visão da iluminação lunar, Sebastião pensava na conversa com o Seo Dias e foi na hora em que a lua surgiu curiosa, pela fresta do teto, que ele desenhou em sua própria mente, a imagem da terra, como fosse um relógio. E tentou organizar tudo o que conhecia, das coisas e seres que ocupavam o mundo, como fossem partes das faladas engrenagens. O homem era sem dúvida a peça mais importante. Era quem plantava os pastos que alimentas os bois, que alimentam os homens. O homem, que nascia sabendo que tinha que aprender as regras do caminho, crescer, amadurecer, trabalhar o campo ou se fundir às máquinas, casar e morrer. Mas, não sem antes produzir um filho, a próxima peça nesse trilho. Mas havia homens que fugiam dessa corrente. O coronel era um deles, nunca trabalhou, não precisava – o pai possuía dinheiro que vinha desde o avô. Não casou-se – preferia deitar-se com as meninas que ele escolhia, filhas dos sitiantes. Irene, irmã de Sebastião, tinha sido uma das que o coronel “comeu”! Filhos, também não apareciam na conta, somente abortos! E quase adormecendo, pensou em sua própria condição. Onde ele estava conectado? Sua única função no mundo foi destruir. Contra tudo o que ouvira do coronel na conversa daquela tarde – ele era a assombração, o rio seco, a fruta podre, a saúva, a ferrugem, serpente… Não era uma peça, reconheceu com uma certa tristeza em seu peito. Era um martelo. Uma serra, um facão, o pé de cabra… Sentiu-se melhor. Se o relógio de Deus tinha um defeito, precisava de um “cabra” para ajustar os ponteiros. Talvez, fosse ele, o martelo de Deus, usado para esmagar e arrasar o mecanismo que não contribuisse para relógio marcar direitinho; as seis da tarde, as cinco da manhã e a hora da morte. Segundo antes de se apagar feito uma vela que o vento assopra, decidiu: amanhã, iria matar o coronel.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.