EntreContos

Detox Literário.

A Majestade (Carmélia Alves)

E porque um dia lhe disseram que suas asas eram cortadas

olhava o céu, e jamais voava

 

Que ela cantava para mim, é do que mais me recordo agora. Lembro-me disso e das cores. Quando havia cores, cantávamos e isso era bom. Quando não, uma parede cinza, só isso, mais nada. Esse era o meu mundo. Era o que eu tinha para chamar de meu. Além disso, só o nada. E só. E ele é bonito, sabia? O nada. Um momento em suspensão em um poleiro, um ponteiro de relógio travado em um número qualquer… O nada é gelado. E seco. É aquele frio que sopra em nossa barriga pelada em noites de lua e cheias de estrelas. Ali, seu corpo flutua e só ele passa por você. O tempo. E as cores. Cantando. Cada uma com seu som. Sua voz. Única. Elas são únicas. Todas elas, sabia?  Assim como nós. Todos. Únicos. Uma única eu, um único você, as cores e o nada. Isso é tudo o que há. Isso é tudo o quanto havia. Antes. 

O nada dói. Um oco no estômago naquela noite, sabe? A tal que é fria e cheia de estrelas. Uma noite azul, sem igual… Como na música. Como naquela que soava o mundo naquele dia, o primeiro de todos em minha lembrança. Antes disso, só ele, o bendito do nada. 

Lembro-me de imensos olhos a me espiar, de sentir as dores terríveis do mundo, e depois, da coisa toda se apagando dentro de um saco de papel. A mão apertada, indicador e polegar em um nó, nem tão forte, nem tão lasso, forca perfeita apenas para imobilizar-me o pescoço que, naquela hora, parecia-me tão fino, tão nada. Em seguida, enrolada em papel jornal, lembro-me das grades, a porta se abrindo e do punho firme metendo-me lá. No mundo. O meu mundo. O mundo único que pude conhecer. Eu era um peixe expulso d´água, passarinha acuada de penas molhadas enrolada de modo grosseiro em uma folha dos classificados. Vende-se gaiola, pude ler. Vende-se. O resto todo ficou lá. Não sei. Não sei onde é lá. Na rua. Na praça. Nas árvores. Não sei. Já é tão difícil lembrar-me de mim mesma… 

Que sei eu do resto? De nada. Não sei. Só sei que um dia, balançando em meu trapézio, vi o rosto de uma mulher. Não era bonita. Não era. Vi seu rosto em uma foto. E isso foi meses, anos depois daquilo tudo de saco e classificados, séculos, já disse que não sei. Aquele rosto estava lá, estampado no jornal que forrava o chão de minha gaiola. Eu a vi e foi ali que comecei a acompanhar a sua história. De longe, pelos jornais. Ela tinha os olhos tão tristes… Asas, por outro lado, não as tinha. Como eu. Não tinha. As minhas asas? Cortaram-nas quando ainda apenas uma penugem. Tão acanhadas que delas nada mesmo me sobrou. Nada. Nem mesmo uma cicatriz. Eu era pequena. Como minha gaiola. Pequena. Bem pequena. Disso sei, porque, conforme eu crescia, conforme passava-se o tempo, a vida, os dias, ela se ia tornando aos poucos mais e mais diminuta. 

Diminuta, porém limpa. Assim era. Ao menos em dias de sol, dias de cor, aqueles nos quais cantávamos. Nesses dias, a mãe – era assim que minha dona gostava de ser chamada -, aparecia por lá com aqueles olhos de brilho, e me encarava através de suas lentes por uns minutos, examinava-me, chamava-me de majestade, e, então, soprava-me o alpiste, trocava-me a água, o jornal, e assoviava essas melodias todas que sei dizer de cor. Noite azul, dorme nenê… E aquela outra. A de um passarinho que, na gaiola, fez um buraquinho e voou… 

Voou.

Como eu? Não. Como disse, eu não voo. Não posso. Não sei.  

Vez em quando, dias de sol, a mãe que me possuía fazia um afago aqui, no topo da minha cabeça, esse mesmo em que me faltam as penas, vê? E eu gostava. Eu fechava os olhos de leve e em minha cabeça, surgia nítido o rosto daquela outra. Aquela de quem a voz eu desconhecia e cuja história, pude ler em um jornal amarelado e cheio de cocô de pássaro. 

Em dias de sol, éramos felizes. Nesses dias, havia alpiste limpo, às vezes até uma fruta. Banana, um pedacinho só, encaixado no cantinho da grade. Laranja, maçã e até alface. Pena eu tinha, quando ao bicar um pedaço da fruta, a fatia caía para o lado de lá. O de fora. Aquele que eu jamais visitara. Não conhecia. Só via o mundo pelo buraquinho, o do vidro quebrado na parte de cima da janela. Por ali entrava a vida. Os raios de sol em névoas de poeira, pequenos e curiosos insetos, abelhas, mosquitos, besouros, uma vez, até um pássaro, como eu, mas diferente, menor. Mal tive tempo, porém, de conhecê-lo. Mal tive. Ele pousou por uns minutos no topo de minha gaiola, os dedos firmes segurando o arame, o peito arfando aos pulos. Olhou-me rapidamente, e depois, se foi, se debatendo loucamente no vidro, antes de fugir pela mesma fresta por onde entrou. 

A fresta. Por ali me chegava a vida. Por ali vinha a chuva, o vento, os cheiros de fora e até a voz de uma criança. Uma menina. Ouvia-a sempre em dias de festa. Cantavam para ela. Parabéns para você, nesta data tão querida. Em dias de chuva, porém, dias sem cor, tudo o que eu tinha era a companhia da parede e do jornal. Nesses dias, ela não vinha. Eu a esperava, e esperava… O tempo passando sem passar. Eu bebia da água. Verde. Depois marrom. E comia do alpiste já seco. O jornal se misturava aos poucos com o cheiro acre entre as manchas de excrementos de pássaro. E lia… Eu lia. A mãe da menina desaparecida no pátio do Hospital São Francisco de Assis, aquela mesma dos olhos tristes, dizia que jamais desistira de buscar por ela. Que não desistira. Jamais. Assim ela dizia. 

E eu a adotava. Sonhava que era minha aquela mãe, que era eu a razão daqueles olhos tão tristes. Sonhava com o dia em que ela viria voando e, devolvendo-me as asas podadas, mostraria que sim, também ela sempre as tivera, só as mantivera escondidas, para que ninguém desconfiasse que, na verdade, sempre soubera onde estava ela, sua passarinha. Na gaiola. 

Uma pena… 

Ela caía denunciando a falta de um belo banho de sol.

As penas caíam. O tempo passava. E eu crescia, apertando-me ainda mais naquele meu mundo que eu já sabia de cor. Agora literalmente, eu devorava cada letra, cada pedacinho daquele jornal já lido e relido.    

Coisa boba. 

O tempo passava por mim e eu por ele. E assim, a chuva logo cessava, as cores todas voltavam, o sol, meu jornal era trocado, a água limpa, o alpiste. Eu agora já tinha ânimo para fazer aquilo que sabia de melhor. Saltar de poleiro em poleiro. Um, dois, três. E só. O quarto caíra há séculos junto com o pedaço da banana disputada com as moscas pequeninas. Em dias de sol, aquela mãe que me cabia, aquela que não era a minha, aquela que me possuía, abria um pouco as janelas, só um pouquinho, deixava que os raios lambessem o canto de minha jaula. E assoviávamos. As duas. Juntas. Eu era a majestade, a sabiá que um dia faria um buraquinho e ela, a menina que, gostando tanto de mim, chorava, chorava e chorava minha fuga inesperada… 

Que nada. Inesperada mesmo, foi a vez em que ela, abrindo a porta para a troca do jornal, deteve-se por um minuto e pousou o dedo convidando-me para o passeio. O peito agitado, as penas ouriçadas, aceitei prontamente o convite grudando meus dedos aos dedos dela. Com força. Crispada. Eu era o mundo naquele instante. Eu era tudo. Medo. Festa. Amor. Euforia. O pânico de lançar-me, a mim mesma, olhos cerrados ao precipício. Abri o bico. Sorri. O pio desajeitado que ecoou de minha língua, estava longe do canto azul dos assovios de sol. Ela girou comigo em suas mãos. Eu protejo você, ela dizia. Eu lhe protejo. E perguntou-me se eu queria voar. Assenti. Queria. Oh, sim, como eu queria. Aprontei-me para o momento tão sonhado, estirei-me em euforia, pronta para o mundo, acho mesmo que sorri. Mas não. Súbito, algo nela se transformou. Algo que fiz, não sei. Talvez o som desafinado de meu sorriso em festa. Talvez, a singular beleza de nunca antes em meu canto. Não sei. Só sei que ela juntou as sobrancelhas finas em uma carranca, e fechou seu rosto e janela para nunca mais. 

Eu lhe protejo e ingrata. Foi tudo o que disse sem se voltar.        

No jornal, os cabelos da mãe, a outra, a que perdera sua menina no berçário em um hospital, prateavam junto ao tempo. E a um sorriso leve que agora ela ensaiava. Mãos dadas com um menininho, no rosto um arremedo de recomeço, ela se juntava ao grupo de mães, outras, tantas. No peito, estampada na camiseta, a foto da menina crescida. Tecnologia de ponta, dizia o jornal, o rosto adivinhado, projetado em mistura de pai, mãe e menino. Tive inveja daquele menino. Coisa estranha. Não vou mentir. Senti muita, muita inveja daquele pequeno, segurando as mãos da mãe do jornal. 

Do lado de fora, o dia andava agitado, e quente. Eu podia ouvir a voz da menina das festas. Risos, bolo, sorvete, parabéns para você, canção que eu também já conhecia. E de cor eu cantava, imaginando a criança aplaudindo, o tempo passando por ela, e por mim. Risos, presentes, choros, joelho ralado no chão. Coisas que eu não conhecia de perto, mas que intuía fazendo tudo e o único que eu sabia. Assoviar. No sol, na chuva, na cor e em dias cinzentos. Assoviar melodias sopradas aos ouvidos do mundo, através de um vidro com seu buraquinho.  

Na previsão do tempo, o sol esparso por entre as nuvens prometia o tédio para os próximos dias. No obituário, alguém publicara a imagem de Nossa Senhora com o Menino Jesus em seu colo, trazendo um pássaro pousado em uma de suas mãos. Era bonito. O marido da mãe de jornal falecera e o filho saudoso de quem falava o proclame era agora já quase um rapaz. 

Uma pena…  

Várias delas já me faltavam. E eu coçava as costas no lugar das asas que me podaram, a fim de livrar-me um pouco dos parasitas. Os pobres bichinhos, tão pequenos, tão nada, eram agora meus únicos companheiros. Há tempos que aquela que me possuía já não vinha me visitar com frequência. Trazia nessa época um sorriso caído, metade do rosto paralisado em expressão única. Já não cantava. Trocava-me a água sem lavar a vasilha. Jogava o alpiste no chão, junto ao jornal. E resmungava. Que eu era inútil, um estorvo, passarinha velha a ocupar seu velho porão. E seu tempo. 

A janela já não se abria. 

Apenas o buraquinho permanecia lá, deixando passar o sol por entre o canelado do vidro imundo. 

Ah, se eu pudesse voar… Era o que eu pensava quando, assim do nada, divisei o castanho do lado de lá. Do lado de fora. Alguém espiava. E me via. Obviamente me via, já que eu o via também. 

Curiosidade. Medo. Euforia. Adrenalina. Havia gente do lado de fora. Gente diferente. Não minha dona, tampouco a criança dos aniversários, agora uma jovem já desinteressada em tentar, em vão, espiar a passarinha que cantava no porão. Não. Aquilo era algo novo. Dois olhos. Castanhos. Sérios. Trocando pelo acesso externo, aquele vidro do buraquinho, por um outro, novinho, mas fechado. Espiou-me. Viu-me antes de fixar o novo vidro com uma massa cinzenta. Fingiu não me ver, percebi. Coisa estranha. Quem sabe, nem tanto. Há tempos eu sabia já ter perdido os encantos de melodiosa cantora. 

Os dias agora passavam longos. E os jornais traziam anúncios de ofertas de supermercado. Coloridos. Sorvetes. Sabonetes. Desinfetantes. Aves congeladas para as festas de final de ano, aquilo me arrepiava. Minha dona, as unhas vermelhas enterradas em seus dedos de mãos inchadas, dera agora para se zangar com meu jeito. Dizia-me tosca, ingrata. Uma perda de tempo em sua vida, que se perdera por culpa minha, que se gastara protegendo-me dos perigos do mundo, que se acabara me ensinando a cantar. Prometia não voltar. Mas voltava. Arrastava uma das pernas. Resmungava coisas ininteligíveis. Jogava água, alpiste, jornal, tudo assim, de qualquer jeito. 

Um dia, na tentativa de organizar a forragem da gaiola, pude rever a mãe de jornal. Imensa. Impressa em fotografia de destaque bem ao centro da primeira página. Anos depois, a polícia reabrira a investigação. Novas pistas sobre o paradeiro da menina sequestrada indicavam na direção de alguém que a viu, em um vislumbre. Viram-na. Novas pistas, dizia a manchete. E aquela mãe, cansada, exibia seu sorriso exausto.    

Do lado de fora, os ruídos distorcidos pelo calor do vidro eternamente fechado, trazia sussurros igualmente desconexos. Cativeiro. Sequestro. Monstro. Loucura. 

Mãos na nuca. Algemas. Gritos. Prisão. 

E então… 

Meu mundo explodiu. 

Meu mundo. O único que tive a chance de conhecer. Com seu alpiste, e insetos, e jornais cheios de cocô de pássaros. De pássara. Eu. 

Meu mundo. Aquele que me abrigou da chuva e do sol, e dos tais perigos da vida, explodia na luz de uma porta por onde quem sempre entrara fora a mãe que me possuía e que agora tirava fotografias a serem estampadas nos jornais dos dias seguintes.  

Eu era dela. Sua passarinha. Eu cantava, mas jamais aprendera a voar. Que eu não tinha asas, é o que ela me dizia. Que eu não tinha asas, era o que eu repetia.  

Trouxeram-me para o lado de fora. Andando. Não voando como em meus sonhos mais coloridos. No sofá, uma velhinha amparada por um rapaz, custei só um pouquinho a reconhecer, ali, sentada, aquela mãe dos meus jornais. Disseram-me que seu choro era de felicidade. Que ela encontrara a filha há tanto perdida. Finalmente. Encontrara-a. Alegrei-me. E sorri tão alto por ela que, acho mesmo que cantei. Pessoalmente, era ainda menos bonita que a protagonista nas fotos de minhas histórias preferidas. As dela. As minhas, é o que disseram. As minhas. Estranhei.

Minhas.  

Não.  

Jamais eu tivera na vida algo único para chamar de meu. 

Minhas? 

Não. 

Uma pena…

Uma ou outra que ainda me restam.  

Asas. Não as tenho. Penso mesmo que nunca as tive. De fato, não voo. Não sei. Não voo, não voo não. Isso, porém, creiam-me, nada mesmo significa. Nada. Nada mesmo. 

Não sou menina. 

Eu não sou. 

Chamo-me Majestade, e sou, aquilo que sempre fui, não vê? Nada mais que uma velha passarinha.

25 comentários em “A Majestade (Carmélia Alves)

  1. Rafael Penha
    30 de novembro de 2020

    RESUMO: O relato de vida de uma mulher sequestrada ainda bebê e crescendo no cativeiro, se comparando a um sabiá.

    COMENTÁRIO: Um conto no melhor estilo poético. Narra uma história triste com delicadeza ímpar.

    A personagem principal é empática graças a seu infortúnio. Narra sua história como se pássaro fosse, enfatizando assim a privação de sua liberdade. No entanto, é uma personagem estática. Ela termina a história da mesma forma como começou. Mesmo com sua liberdade ao final, a personagem não evoluiu em nada, não aprendeu nada, permaneceu imutável.

    A habilidade com a língua também se destaca, formando passagens bem descritas e sensíveis que, se narradas de outra forma, não atingiriam semelhante ternura e tristeza.

    O enredo na minha opinião é simples. Uma pessoa presa, sofre pela prisão, não conhece o mundo, acompanha o desenrolar da investigação a seu respeito com inércia. Não se rebela, não tenta fugir, não desenvolve carinho ou sentimento por seus captores. A personagem é totalmente imutável, sonhando com cousas que sequer conhece. O ponto alto em seu desenvolvimento é sem dúvida o paralelo com um sabiá e a poesia com que o tema é abordado, principalmente em seus momentos de esperança ou de dificuldades.

    O tema do certame para mim ficou pouco abordado, talvez de forma implícita, esteja no fato de se ver como um pássaro, uma espécie de defesa mental contra as agruras do cativeiro. Ainda assim, enxergo mais como metáfora, que propriamente, como loucura.

    Em suma, um conto onde todo o potencial é explorado na metáfora do pássaro e na beleza literária, mas na minha opinião, ficou devendo no enredo e no desenvolvimento da personagem.
    Um abraço.

  2. Alexandre Coslei
    30 de novembro de 2020

    RESUMO:

    Menina feita prisioneira reflete, comparando-se a uma ave.

    ABERTURTA:

    O primeiro parágrafo segue por um perfil descritivo, que não revela a história nem cria tensão. Margeia o poético, não cria expectativas muito concretas. Talvez crie curiosidade por não oferecer nenhuma pista do que vem a seguir.

    DESENVOLVIMENTO:

    No desenvolvimento, o autor cresce, nos alimenta a conta-gotas, nos fazendo tatear pela narrativa e pela busca do seu sentido. O conto ganha interesse e volume. Bem escrito, alinhavado com capricho e técnica.

    CONCLUSÃO:

    A narrativa se encerra com o desfecho do quebra-cabeça poético. Surpreende, mas creio que nem foi essa a intenção. O texto é harmonia do início ao fim. Muito bem realizado.

    Desejo boa sorte e sucesso.

  3. Elisa Ribeiro
    25 de novembro de 2020

    Mulher, em criança raptada no berçário e presa em um porão até a idade adulta, narra seus tempos de cativeiro.
    No argumento, o tema do desafio surge como escape para a realidade insuportável de uma menina mantida em cativeiro desde o berçário até tornar-se adulta. A loucura – acreditar-se um pássaro – como um mecanismo de defesa/adaptação da personagem. Um argumento inédito até aqui — a loucura que surge como única possibilidade para a continuidade da vida — explorado com inteligência e sensibilidade pelo autor.
    Inteligência em construir um texto em que a história vai se desenrolando aos poucos. Migalhas da trama, em paralelo com as dadas à personagem, vão sendo fornecidas lentamente ao leitor no ritmo do relato sem pressa da menina-passarinha criando um tensionamento narrativo preciso que faz avançar. O relato fragmentado da vítima, com uma linguagem substantiva em que sobram palavras-frases, poderia cansar o leitor em outra circunstância; não aqui, graças a tensão crescente em desvendar o quadro inteiro que só se completará nos últimos parágrafos.
    A sensibilidade do autor aparece na forma sutil como manipula a emoção do leitor. Nem melodrama, nem lágrimas, nem grandes surpresas. A emoção também surge em migalhas. Uma pena perdida aqui, um mísero raio de luz acolá, o alpiste, fragmentos do mundo exterior que chegam pelo jornal, a outra menina que aniversaria do lado de fora. As perdas da menina-pássara surgem lentamente, apresentadas sem drama pela narradora nada confiável cuja compreensão do mundo é amortecida pela ilusão construída como defesa para os maus tratos.
    A linguagem me pareceu precisa e adequada à narradora. Há uma musicalidade, resultante sobretudo das repetições e do uso das palavras-frases que rima com as referências às músicas que acompanham no desenrolar do enredo a personagem. Gostei muito. O texto também me pareceu muito bem revisado, não notei nenhuma falha gramatical ou de digitação.
    O final, em que a menina-pássara parece recusar a piedade do leitor em sua autossuficiência de passarinha e orgulho de Majestade, fecha de forma magnifica esse conto em que nada sobra e nada falta.
    O que gostei: de tudo mas vou destacar aqui a forma como os contrastes tão brutais arquitetados no enredo: a menina-presa x a menina livre, a mãe verdadeira x a mão dona se integram suavemente à trama ajudando a construir o efeito de “amortecimento emocional” do leitor em paralelo com o da personagem.
    O que não gostei: mais uma vez aqui no desafio, de não ter sido eu a escrever esse conto.
    Parabéns pelo excelente trabalho.
    Sorte no desafio. Um abraço.

  4. Giselle F. Bohn
    23 de novembro de 2020

    Menina mantida em cativeiro faz considerações de sua vida como se fosse um pássaro na gaiola.
    Sensacional! Pra mim, ao menos, é definitivamente um dos melhores contos deste desafio! Uma trama excelente, que vai se desnudando, confundindo-nos a todo o momento, assim como parece confusa a narradora – e não é pra menos. Há detalhes estranhos? Sim, muitos. Se fora roubada ainda na maternidade, como aprendeu a ler? Como sabia o que era um “parabéns pra você” e tudo o que acompanha uma festa de aniversário? Como sabia o que eram algemas ou mesmo prisão? Agora, isso importa? Nem um pouco. Li uma segunda vez e o conto se provou ainda mais genial do que à primeira leitura. Coisa de mestre mesmo, de quem sabe o que está fazendo.
    Na parte técnica, vi uma ou outra vírgula que me intrigou, mas, sinceramente, isso não fez a menor diferença!
    Parabéns e boa sorte lá no pódio! 🙂

  5. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá. Este é um conto mais complexo do que parece à primeira vista. É a história de um pássaro e o seu relacionamento com a dona, que sofre de depressão pela perda do filho, ainda bebé. Assistimos ao desenrolar do drama através das fotografias dos recortes de jornal que forram a gaiola do pássaro.
    A estrutura é genial, a escrita é fluída, se bem que é algo repetitiva e confusa. Para além disso, tem erros básicos de gramática e pontuação que têm de ser revistos antes de qualquer tipo de publicação.

  6. Luciana Merley
    21 de novembro de 2020

    A Majestade

    Olá, autor
    Uma menina sequestrada e mantida por toda a vida em cativeiro conta sua história como se fosse um pássaro.

    Impressões Iniciais – Um texto realmente admirável. Entendi que, como a menina foi sequestrada enquanto bebê, ela cresceu sem reconhecer-se humana, já que foi sempre tratada como se fosse um pássaro pela sequestradora. Por outro lado, ela possui alguma referência de “mundo” e sabe ler. A loucura estaria nela, na outra, em ambas? Vi um comentário sobre a síndrome de Mogli, não conhecia, mas faz bastante sentido também.

    COESÃO – A narrativa, apesar de acontecer a partir de um narrador não confiável em primeira pessoa, mantém um foco de tensão em torno do cativeiro, tanto do físico, quanto do da mente da personagem. O clima de imprevisibilidade nos mantém presos à história.

    RITMO – Muito bom, tenso, e muito fluido graças à grande habilidade do autor na construção das sentenças.

    IMPACTO – Excelente. Lembrei-me das histórias reais, contadas em documentários, dos homens que mantiveram vítimas sob cárcere durante décadas. Essa dúvida entre a loucura (óbvia) da sequestradora e a loucura adquirida pela prisioneira, ou a loucura de ambas, é o que provoca “o gosto na boca” do texto.
    Essa questão do ‘saber ler” foi a parte que me intrigou, mas considerarei que o autor decidiu omitir essa informação sobre a aprendizagem em cativeiro.

    Desculpe se não consegui captar todas as nuances do seu texto, mas gostei demais do que li. Um abraço.

  7. Anna
    16 de novembro de 2020

    Resumo : Uma menina é sequestrada e mantida em cárcere privada e conta sua história como se fosse um pássaro enjaulado.A menina é libertada no final.
    Comentário : Creio que a loucura esteja no sequestrador e na garota traumatizada. Quantas crianças devem sofrer isso ?

  8. Andre Brizola
    15 de novembro de 2020

    Olá, Carmélia.
    Um conto sobre a vida em cativeiro de uma menina sequestrada. Contado através do ponto de vista da garota, perturbada pela vida em confinamento, que se reconhece como pássaro engaiolado.
    A opção pela narração em primeira pessoa tende a deixar o enredo bastante intimista, aproximando o leitor à realidade da garota aprisionada. Imagino que fosse essa mesmo a intenção, aproximar personagem e leitor, uma vez que a trama reside no reconhecimento gradual da situação, conforme ela mesma vai pinçando detalhes de sua própria história através das manchetes de jornal. Uma narrativa em terceira pessoa teria deixado tudo muito óbvio, então foi um acerto tremendo deixar que a própria personagem guiasse os rumos dos acontecimentos. Acredito que o ponto alto aqui é a construção da garota, e não do enredo. Ela tem profundidade, é “colorida”, e absorve mais cores do enredo que se desenvolve ao seu redor. O enredo, a ambientação, a antagonista, são todos acessórios. Importantes, essenciais, mas acessórios.
    Não pude deixar de fazer um paralelo com Louca Obsessão, romance de Stephen King (guardadas as devidas características de cada autor). Digo isso pois me parece que a sequestradora nutre pela cativa algo além do puro prazer de ter o poder sobre outro ser humano. Tal sensação me surgiu com a frase “inesperada mesmo, foi a vez em que ela, abrindo a porta para a troca do jornal, deteve-se por um minuto e pousou o dedo convidando-me para o passeio”. Existia proteção, mas existia também o rancor, tal qual a sequestradora criada por King. Totalmente dentro do tema do desafio
    Mas não se trata de um conto de fácil assimilação. O enredo está escondido atrás de uma carga alta de simbolismos, que nos exige mais do que uma leitura para captar certos detalhes e nuances. É um texto que ficou bastante bonito e elegante, mas que fica razoavelmente inacessível para o leitor médio. E, mesmo assim, creio que aparecerá em uma posição no topo da classificação.
    É isso, boa sorte no desafio!

  9. Paula Giannini
    15 de novembro de 2020

    Olá, Contista,
    Tudo bem?
    Resumo: Após sequestro, não socializada, menina desenvolve a Síndrome do Mogli.
    Meu ponto de vista:
    Escrito em primeira pessoa, o conto traz uma narrativa a partir do futuro da protagonista. Sequestrada e aprisionada, ela interage e reage ao mundo a sua volta, inclusive com sua sequestradora, a partir daquilo que lhe é oferecido: jornais, condições sub-humanas no que toca a alimentação e até a água, uma música que me parece alternada de longos silêncios e um buraco na janela de sua masmorra. Assim, o leitor, ao travar contato com o universo da menina, vai aos poucos desvendando também o da sequestradora.
    Em quem reside a loucura na trama? Na menina-passarinho ou naquela que a prende? Em ambas, e, provavelmente, até na mãe que teve sua filha arrancada dos braços. Tal dor, certamente enlouquece uma mãe.
    Já conhecia a Síndrome de Mogli, mas, fui pesquisar para descobrir se a condição se encaixaria aqui. “Embora pouco comum, a Síndrome do Mogli trata-se de um distúrbio diagnosticado em jovens que não foram socializadas com indivíduos da mesma espécie, sendo incapazes de interagir com outros seres humanos” e a literatura médica, infelizmente, traz vários casos assim. No entanto, embora a Síndrome seja real, o conto traz, de certa forma, um flerte com a realidade fantástica em sua estrutura. As notícias do mundo exterior chegam através das páginas de um jornal, a mãe-sequestradora dança com a “passarinha” em seu dedo e por aí vai.
    Interessante notar que há uma outra menina do “lado de fora”. Bem tratada, com direito a festas de aniversário, ela parece funcionar como um contraponto à menina “abusada”, apertando ainda mais o parafuso da loucura da sequestradora.
    Gosto de prosa poética, e, mais que isso, de textos que abrem portas para o irreal e o sonho, ainda que em um tema tão triste.
    Como disse a todos por aqui, se acaso algo está em desacordo com a obra, basta desconsiderar.
    Desejo sorte no desafio.
    Beijos
    Paula Giannini

  10. opedropaulo
    15 de novembro de 2020

    RESUMO: Uma menina que pensava ser um passarinho é mantida cativa por uma monstra que pensava ser sua mãe, enquanto acompanha a difícil jornada de sua mãe, que acredita ser uma desconhecida.

    COMENTÁRIO: Ótima abordagem do tema, num texto fluido que nos leva ao interior da mente de uma pessoa cuja psique foi fragmentada para fazer acreditar que é, na verdade, um pássaro sem asas e engaiolado. O uso da primeira pessoa serviu muito bem a esse propósito, limitando a perspectiva e as ações da personagem a alguém verdadeiramente alienada de sua humanidade, ao mesmo tempo em que atribuía ambiguidade à sua relação com a captora e ao verdadeiro significado do jornal. O fato de ter me deixado na dúvida sobre o que estava lendo pela maior parte do texto poderia ser tão somente por uma leitura desatenta de minha parte, mas garanto ter lido com atenção e, de fato, atribuo à habilidade da autora a omissão da verdadeira natureza dessa estória. Há uma opção narrativa que me incomodou que foi o uso de frases curtas e parágrafos de uma linha só, que, por um lado, enfatizam certos trechos, assim dotados de impacto na narrativa, mas, por outro lado, acredito ter sido um recurso excessivo. Há erros de revisão e, no inverso do excesso que acabei de criticar acima, achei os parágrafos iniciais longos e um pouco abstratos. Mas, terminando o conto e os relendo, vê-se que a perspectiva de “renascimento” dá completo sentido à forma como introduziu a estória, então compõe bem com o texto. Ou seja, uma premissa muito boa conduzida com um admirável controle narrativo que aqui e ali peca pela repetição das ênfases, mas chega ao fim com uma reviravolta chocante.

  11. Ana Maria Monteiro
    15 de novembro de 2020

    Olá, Autor.

    Resumo: Uma menina é sequestrada ainda muito pequena e criada em cativeiro onde chega a acreditar que é um passarinho em uma gaiola. No final é libertada e sente uma natural dificuldade em adaptar-se à realidade.

    Comentário: o conto está muito bem escrito e é, sobretudo, uma metáfora poética. O tema foi bem abordado, embora, na minha perspetiva, a verdadeira e única louca seja a sequestradora.

    A menina, sendo o texto na primeira pessoa, torna-se incongruente. Uma pena, porque a escrita é de excelente qualidade e o conto uma pequena maravilha. No entanto e enquanto leitora, não me é permitido aceitar que a própria soubesse ler e não tivesse uma real noção do próprio corpo, que não é de pássaro.

    Talvez que escrevê-lo pela voz de um narrador se revelasse uma tarefa impossível, mas seria a perfeição. Assim, fica essa sensação de impossibilidade, por mais bela que seja a voz.

    O autor (penso que seja autora) revela uma extraordinária capacidade de jogar com as palavras e uma sensibilidade apurada, uma maturidade invejável na arte de escrever e uma imensa capacidade de criar emoções e empatia no leitor.

    A minha única ressalva é pois essa: a narração deveria ser exterior e não interior. Quanto ao mais, um trabalho laborioso e magnífico.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  12. Jefferson Lemos
    14 de novembro de 2020

    Resumo: a história da passarinha que, presa em sua gaiola, reflete sobre sua vida e sobre as coisas que a cerceiam. No final o plot apresenta uma resolução bem desoladora, apesar de tudo.

    Olá, cara autora!
    Apesar de ter lido o conto esperando por essa reviravolta, que realmente aconteceu, gostei do seu texto. No que diz respeito à escrita, o início foi difícil. Frases curtas demais, deixando a leitura bem atravancada. Entendo que é um recurso para passar ainda mais a sensação de claustrofobia da personagem, mas não sei se funcionou muito bem, pelo menos em mim. Depois a narrativa começa a ficar fluida e se desenvolve bem. Essa maneira que foi narrada deu um tom de distanciamento entre a personagem e as coisas que acontecem no decorrer da história.
    Quanto ao mote do conto, achei uma ideia bem diferente, mas que não me ganhou por todo. É um conto bom, com uma escrita bacana e uma história bem diferente, apesar de já imaginarmos o final. O final é bem tocante.

    Parabéns e boa sorte no desafio!

  13. angst447
    13 de novembro de 2020

    RESUMO
    Menina é sequestrada no berçário por uma mulher que a prende em um porão. A menina cresce enjaulada, e acredita ser um pássaro em sua gaiola. Quando anos mais tarde é resgatada pela polícia e vê a mãe já velhinha, ainda se diz passarinha com as asas cortadas.
    AVALIAÇÃO
    O conto recorre a metáforas, jogos de imagens e palavras e brinca com a imaginação do leitor. Levamos um tempo para concluir que se trata de uma passarinha, mas depois a narrativa nos conduz a outra saída.
    O(A) autor(a) apresentou uma ótima construção de trama e personagens que se entrelaçam e sustentam tanto o suspense quanto a poesia.
    O início é mais lento, pois instala-se na mente da menina/passarinha: o nada. Com o passar dos parágrafos, a leitura ganha mais ritmo e fluidez.
    Boa sorte e que todos os pássaros possam voar livres.

  14. Leandro Rodrigues dos Santos
    12 de novembro de 2020

    Paralelos de vida, um quarto, uma gaiola, uma menina, uma mãe, fechando as possibilidades de conhecimento do mundo, devido a intensificação das suas podas.

    Tecnicamente tem erros principais de colocação pronominal, ao meu entendimento não conhece as maiorias das regras e suas colocações, sugiro a pesquisa (qualquer coisa é só comentar que tento auxiliar). Em contraponto utilizou de conjugações verbais assertivas, principalmente no uso do pretérito imperfeito, na manutenção do acontecimento ‘no presente’ trouxe uma sensação a mais da prisão. Vejo que fluiu com as repetições sendo conectivos entre os parágrafos, gostei do uso das mesmas.

    Por muitas vezes trouxe a dúvida se a tratativa era de uma menina ou de um pássaro, bem abordada essa temática. Gostei disso.

  15. antoniosbatista
    12 de novembro de 2020

    Resumo: Menina é raptada e mantida presa num porão. Ali, seu raciocínio é danificado por conta do cativeiro e lavagem cerebral praticada por sua raptora.

    Comentário; Argumento muito bom, original. Frases curtas, claras. A concisão dá ao texto uma estética limpa, proporcionando na leitura um raciocínio fluido e compreensão rápida. No princípio achei que a personagem/narradora, fosse um pássaro preso na gaiola. As revelações foram feitas aos poucos, demonstrando a habilidade do autor (a) em criar um ambiente com uma atmosfera sombria, cheia de dúvidas e mistérios. O efeito é positivo e descobrimos ao final, a realidade espantosa e contundente. Boa sorte no Desafio.

  16. Regina Ruth Rincon Caires
    11 de novembro de 2020

    A Majestade (Carmélia Alves)

    Resumo:

    A história narrada com a interação menina/passarinha. Uma beleza de texto poético que transita entre uma relação espinhosa entre mãe e filha.

    Comentário:

    Assim que li o pseudônimo, minha imaginação já começou o voo. Voou, voou, voou… Cantei muito isso. E o texto acabou por me levar.

    Linda narrativa, muito bem escrita, inteligente, trabalhosa. Palavras escolhidas com pinça, certeiras, justas. Um primor!

    A autora (acho que é mulher) mostra total domínio da linguagem, enxerta frases curtas, dosadas e o efeito é sensacional.

    Texto denso, que mexe com sentimentos soterrados por tempo demasiado longo, de difícil superação. A cura será trabalhosa.

    A menina narrada em forma de passarinha (comparação) é poesia pura. Tudo figurado, a assimilação pelo leitor exige a mesma sensibilidade do autor. E a absorção é o melhor do conto. Encanta.

    Parabéns, Carmélia Alves, você me tirou do chão!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  17. Fabio Monteiro
    8 de novembro de 2020

    Resumo: Uma estranha relação entre mãe e filha. Pelos impropérios observados a filha seguiu boa parte de sua vida presa dentro de um quarto. Ela faz comparações entre um pássaro preso numa gaiola e sua vida.

    Não é raro este tipo de situação. As antigas internações psiquiátricas eram assim. Errado. Na verdade eram bem piores.

    O pássaro recebe cuidados, alimentos. O paciente psiquiátrico internado mal comia.
    Nas internações feitas em meados do século XIX haviam torturas inimagináveis. A prisão era a de menor gravidade dentre elas. A protagonista teve sorte até em boa parte de sua vida.
    Explorou bem os cenários na descrição de sua narrativa autor(a).

    O interessante é o desfecho. Quando livre, a protagonista não sabe o que fazer. Viveu tanto tempo presa e acuada que perdeu o sentido de viver.
    De novo, não é raro este tipo de situação.

    Boa Sorte autor(a)

    O texto ficou um pouco longo para mim. Mas as frases são muito bem construídas.

  18. Fheluany Nogueira
    7 de novembro de 2020

    Menina sente que é um pássaro na gaiola e, ainda, de asas cortadas. No desfecho é libertada, mas não sabe como lidar com isso.

    Texto cativante, com forte carga metafórica e rítmica bem explorada (as frases curtas e colocadas cuidadosamente). Senti a existência de um(a) autor(a) que sabe cuidar com seriedade e carinho daquilo que escreve.

    Parabéns pelo trabalho elaborado e sensível. Impressiona o fato de ser notória a preocupação com a técnica, porém conseguindo expressar-se sem complexidade.

    Boa sorte! Abraço.

  19. Fernanda Caleffi Barbetta
    4 de novembro de 2020

    Resumo
    Menina sequestrada vive em cárcere e imagina ser uma passarinha engaiolada. No final, é encontrada e libertada.

    Comentário
    Um belíssimo texto, bem escrito, emocionante.
    Muito legal a sua ideia de relacionar o cárcere da menina sequestrada com a sensação de um pássaro na gaiola. Entremear o texto com referências musicais foi a cereja do bolo.
    Há trechos lindos, que merecem ser citados, como este: “O nada. Um momento em suspensão em um poleiro, um ponteiro de relógio travado em um número qualquer… O nada é gelado. E seco. É aquele frio que sopra em nossa barriga pelada em noites de lua e cheias de estrelas.”
    Gostei das frases curtas que dizem muito, às vezes, apenas uma palavra, bem encaixada, seca, direta, no lugar certo.
    Gramaticalmente perfeito não fosse a falta de um “é” (Eu lhe protejo e ingrata), mas isso nem vou considerar.
    A loucura seria da menina em se achar um pássaro ou da mulher que a aprisionou? Prefiro pensar que seja da menina porque não gosto de relacionar maldade com loucura. Parece sempre uma desculpa.
    Parabéns pelo belo texto.

  20. Bianca Cidreira Cammarota
    4 de novembro de 2020

    Menina cativa em um porão, sequestrada desde pequena, imagina ser um pássaro.

    Carmela, realmente é um conto… belíssimo, tocante, bem construído, fruto de uma alma sensível com mãos habilidosas.

    Na descrição lírica e cadenciada, discretamente você nos revela a verdade sofrida e nos faz sofrer também. Envolve o leitor em sua história em arco crescente. Geralmente sou prolixa nos comentários, mas a emoção está tão grande em mim que trava meus dedos no teclado.

    O que disser, se meu coração canta? Fu arrebatada… como há muito não o era. Arrebatada para o mundo de ternura, mesmo sombria pela ação funesta de outrem. Arrebata para o mundo de cores e de cinza, de cantos mudos, de esperança e desesperança, de escape para se manter viva em asas cortadas.

    Carmela… que suas mãos que constroem mundos prossiga a lembrar que somos humanos.

    Muito obrigada, de coração

  21. Leda
    3 de novembro de 2020

    Resumo:
    Em seu cárcere, uma menina descreve a sua prisão , como se fosse uma passarinha na gaiola.

    Comentário:
    A Majestade é de um desenlace único, leve e saboroso. Tão leve que chega a flutuar .
    Por um bom tempo acreditei ser um pássaro preso em uma gaiola. Cheguei a me afeiçoar com o sofrimento do bichinho. Pude vizualizar suas asas aparadas e sentir o seu triste canto.
    Nesse parágrafo desabei
    ‘Pena eu tinha, quando ao bicar um pedaço da fruta, a fatia caía para o lado de lá. O de fora. ‘
    Não tenho muito o que comentar seu conto é simplesmente maravilhoso. Um dos melhores, ou que mais gostei.
    Pássaros, nasceram para serem livres, crianças para brincar e aprender ler.
    Te desejo muitos sucessos!

  22. Angelo Rodrigues
    3 de novembro de 2020

    Resumo:
    Menina sequestrada, mantida em cativeiro por muitos anos, finalmente é recuperada pela polícia e levada até sua mãe verdadeira. Tão distante do mundo humano, a menina-passarinho já não se reconhece como menina, mas como um pequeno pássaro que se afogou na loucura de uma longa prisão.

    Comentários:
    Gostei do conto. Simbolista, mimético, não se revela de cara. Vai enredando o leitor, vivendo o mimetismo de pássaro até se revelar.

    Um conto bem elaborado.

    Em princípio, quando todas as informações ainda remetem a um pássaro real, fiquei me perguntando: seria um conto sobre um pássaro humanizado. Achei que, sendo assim, além de estar fora do formato do certame, não cairia bem. Com o tempo o conto foi se revelando, mostrando a subjetiva compreensão do mundo de uma menina submetida a um longo cativeiro.

    Interessante a engenharia construída pelo autor, que faz com que a menina tome conhecimento do mundo por meio das folhas de jornal que forram a sua “gaiola”. Assim ela compreende o seu cativeiro.

    Um conto que corre o risco de não ser compreendido, basicamente pela linguagem profundamente simbólica que adotou. Uma menina que, longe do mundo, criou para si mesma uma simbiose com seu local de cativeiro, tornando-se frágil, de asas cortadas, submetida à vontade de quem a dominava.

    O epíteto usado pelo autor “E porque um dia lhe disseram que suas asas eram cortadas, olhava o céu, e jamais voava”, mostrou-se bastante apropriado, revelador. Diria que é, até certo ponto, a chave para compreender o conto.

    O mesmo se dá com a revelação de Carmélia Alves:

    Sabiá lá na gaiola/ fez um buraquinho/ Voou, voou, voou, voou/ E a menina que gostava/ Tanto do bichinho Chorou, chorou, chorou, chorou/ Sabiá fugiu pro terreiro/ Foi cantar no abacateiro/ E a menina vive a chamar/ Vem cá sabiá, vem cá/ Sabiá lá na gaiola…/ A menina diz soluçando/ Sabiá, estou te esperando/ Sabiá responde de lá/ Não chores que eu vou voltar

    Boa sorte no desafio.

  23. Lara
    3 de novembro de 2020

    Resumo : Um passarinho conta como é sua vida na gaiola, no final o passarinho se revela uma menina sequestrada que vivia em cárcere privado.
    Comentário : Não sei se entendi bem o texto. Mas me pareceu que a garotinha se sentia como um passarinho enjaulado e por isso escreveu sua experiência como passarinha de gaiola.Me corrija caso esteja errada.

  24. Anderson Do Prado Silva
    3 de novembro de 2020

    Resumo:

    Jovem relata seu cárcere privado.

    Comentário:

    Texto saído da pena de um gênio, mas não de um desses pobres gênios incompreendidos a escrever literatura de vanguarda, experimental, a subverter todas as regras gramaticais e disso fazer palco para suas ousadias, como se isso fosse coisa nova e não a própria essência da literatura e seus sucessivos movimentos, cada um a tentar sobrelevar e corromper o anterior. Não, não é desses gênios que temos aqui.

    Neste texto, deparamo-nos com um escritor cioso de si, que, mesmo podendo entregar muito, entrega apenas o necessário, o suficiente, cônscio talvez de que “a dose faz o veneno”.

    Como todos os imortais antes dele, busca no presente o inédito, pois, do presente, só os presentes podem falar. Pela segunda vez no desafio, fui arrebatado, não pela inteligência, mas pelo coração. Não que a inteligência tenha sido deixada de fora, não é isso. É que aqui, a inteligência que sobreleva não é a do escritor, mas a de seus personagens e enredo.

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio!

  25. Thiago de Castro
    3 de novembro de 2020

    Resumo: Um pássaro preso compartilha suas reflexões diante do cativeiro em que se encontra. Paralelamente, retalhos de notícias sobre crianças desaparecidas permeiam os jornais de sua gaiola, implantando um mistério que, ao final, se revelará diretamente ligado ao bicho enjaulado, sua dona e acontecimentos do mundo externo.

    Comentário:

    Que texto lindo. Acho que o primeiro a me emocionar. Toda a narrativa gira em torno da perspectiva de um pássaro contando sobre sua relação com a dona, as notícias de crianças desaparecidas e seu desejo de liberdade diante do aprisionamento, até se tornar resignação.

    Há uma construção inteligente aqui, onde as peças do mistério que permeia o conto nos são apresentadas em migalhas e, feito bicho de cativeiro, inocente e desorientado, eu fui caindo em todas as pistas falsas que o conto me deu: a louca é a dona do passarinho que, quando está em períodos de crise abandona os cuidados? O passarinho é delírio de alguém contando? O conto apela para o surreal? A loucura estará na mãe que perdeu a filha? Enfim, todos esses lampejos de uma história que acontece externamente a gaiola nos chega enquanto acompanhamos a rotina do pássaro se definhando ao longo dos anos (muito bem descrita, por sinal), na sua prisão, captando pedaços do mundo que lhe chegam através de um buraquinho para, no desfecho, se revelarem claros diante do leitor, numa revelação catártica que amarra todas as peças. Quem conta é a menina, que, em anos de cativeiro, cresceu crendo ser outra coisa.

    Vou ter que ler de novo para curtir melhor a construção dessa história, as pistas deixadas desde a epígrafe, as referências musicais (elas inspiraram a história?), enfim, toda a riqueza desse texto.

    Um bom suspense que merece estar entre os primeiros. Alta qualidade!

    Parabéns e boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado em 3 de novembro de 2020 por em Loucura.