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Detox Literário.

Monarca – Conto (Thiago de Castro)

Caiu como um raio, um mau humor súbito e justificado, não acredito que morreu, indignava-se, não acredito. O plano por água abaixo, a quase realização, vontade interceptada, tanto tempo no bom trato, dissimulando, para o filho da puta subir assim, tranquilo. O mais maldito dos homens, morrer dormindo, vingança não expressada, o cancro entalado, em quem descarregar? 

Valia descontar nos parentes? Um filho, uma irmã, a mãe do condenado, absolvido pelo acaso de um infarto? Não podia respingar o troco em terceiros, apesar da vista grossa ao longo de todos esses anos, do mesmo sangue correndo nas veias, deles e dela. Sim, dela, um tio distante, parente de não sei quem lá, não sei que grau, mas parente, próximo, próximo demais, grudento, melado, ela acometida pela camisa desabotoando do umbigo para baixo, constantemente, do zíper asqueroso, as mãos de barata. Os registros na memória, entalhados a força de ferro, sem esmero artesão, acha que esqueceu? Ruídos aflitivos, manchas no tecido da lembrança, ora vermelhas, ora leitosas, ora salgadas. Filho da puta, morreu dormindo, murcho e seco.

Esse murchar foi um caminho sem volta, de velho coitado, segundo os parentes. Ela alvoreceu com os anos, antítese a mediocridade do monstro. Conforme aflorava, entendia o que passou, nomeava o asco que sentia do tio: ódio. Cultivava o desejo de morte, primeiramente, depois o de matar, matar pela cara de leso, falso inocente, cara de peixe morto, ingênuo, pela faísca nos olhos semicerrados quando ela atravessava a sala. A invadia inteira com um olhar monárquico, recaído sobre terras que lhe pertenceram indignamente. Nenhum rei tem o direito de ser rei. O velho não ousava abrir a boca, a família suspeitava e ignorava na mesma medida. Ela entendia e aguardava.

Até que ele calou de vez, veio o derrame; castigo divino? Pouco, era pouco. Queria ajuda do cão pra capar a bimbinha do tio, vender a alma pelo direito de enviar a dele para o inferno. Deus já estava esquecido nas quinas obscuras dos abusos. Não tinha providência nesse acaso. Era só isso mesmo, um acaso, assim como a morte por enfarto não era um livramento de seus intentos. O derrame afetou a fala do velho, mas parecia entender ainda alguma coisa, piscava com aprovação ou desaprovação, mudo. O olhar monárquico intocável. 

Quantas vezes não desejou cessá-lo com um tapa, nos aniversários ou churrascos onde ele a espiava descarado na cadeira de rodas, a mão sobre o órgão falido. Um tapa público, muito pouco. Considerava assunto pessoal, vingança íntima. Devia ter agarrado uma chance, ido ao encontro do tio e sussurrado em seu ouvido, eu lembro de tudo o que você fez, seu velho brocha, e vou descontar pouco a pouco, tá me entendendo? Vou me oferecer pra cuidar de você nos últimos dias, logo acaba o curso de enfermagem. Por que não eu, alguém da família, com vontade, jovem, de confiança? Sim, eu mesma, vou te envenenar aos poucos, arrancar uma a uma as unhas dos seus pés, te dar comida azeda, enfiar o cabo de vassoura no teu rabo, tá me entendendo?

Um risco de água cedeu por baixo dos óculos escuros, absorvido pelo pretume do vestido. Frustração, auto penitência, passa cada coisa na cabeça numa hora dessas.

O acaso o levou antes de qualquer chance. Levou dormindo, assim como morrem os ditadores apátridas, dormindo, cinicamente aminéticos, impunes. Espero que tenha visto o demônio quando arregalou os olhos alucinados na escuridão, a garfada no peito. Que o demônio tivesse a minha cara. 

Vai começar, alguém informou, a cerimônia, a encontrando num banco afastado do salão. Sinalizou com a cabeça um sim. Felizmente ninguém pergunta se está tudo bem no velório, dá pra chorar à vontade, ainda que de ódio. O evento no fim, os parentes pingados como tinta preta na água, dispersos no saguão, bocejantes, a casca do tio no meio, caixão aberto, semblante tranquilo, em desafio. Mal rondou o corpo durante a vigília, tão perto de acabar, o asco mais repelente ia perdendo o sentido. Acanhou um passo diagonal em direção ao corpo, um primo qualquer ocupou a vista, num abraço, tardando a marcha, proferiu algumas palavras louvando o tio, das quais ela ouviu e dissimulou em favor de sua grandeza, de sua vontade de vida, mesmo mudo, limitado. O primo um tonto. A visão periférica ainda no caixão, quem preparou o corpo? Quem escolheu o terno, as flores, quem ajeitou o rosto transfigurado, quem esqueceu de lacrar os olhos definitivamente? Pareciam, do ângulo oblíquo de cima do ombro do primo, semicerrados. 

Saiu brusca do abraço, alterando a rota desbaratinada, amanhecia, o pastor havia atrasado, mais tempo naquele inferno, rompeu em choro compulsivo, “gostava tanto assim do tio?”, estranharam os parentes, o primo sem entender. Só lágrimas, caindo em gotas espessas amaldiçoando o solo que cobriria seu algoz, segredo não dito. Só isso? O soluço variava, louco e dolorido, transmutado em urro, traduziu-se em força.

O ombro armado bateu na madeira como um tanque, o caixão oscilou perigando queda. Antes dos parentes horrorizados intervirem, ela empurrou o defunto, munida de agudo grito, “cretino!”, o corpo estatelou ridículo, honesto com a índole em vida. Arfava, menos insatisfeita, a avó passando mal, a mãe constrangida, o primo pasmo, o conhecimento dos motivos da cólera inibia os demais de qualquer reprimenda. Cuspiu no cadáver, desimpedida, chutou as costelas como a um saco de lixo, um monte de merda, o barulho do baque sepulcrou qualquer reação da plateia. O morto no chão, saciada, partiu batendo os saltos sob a luz tímida da alvorada.

O zelador chegou para avisar que o pastor já esperava no local de enterro, junto do coveiro, e diante da cena incomum, o caixão tombado, flores despedaçadas, o morto empertigado pelo primo, lhe responderam, foi um acidente, só um acidente.

10 comentários em “Monarca – Conto (Thiago de Castro)

  1. opedropaulo
    3 de outubro de 2020

    Só se pode estrear uma vez, o que para uns pode ser cruel, mas você não precisa se preocupar, se é que te acometeu. Esse texto é excelente. O ódio e o ressentimento estão em cada linha, mas cada qual num ângulo diferente, e o texto nos leva do passado ao presente, da realidade à mente da personagem, toda essa movimentação feita com sutileza e velocidade entre as palavras do texto. Aliás, uma narrativa que é tecida quase ao ritmo do pensamento, misturando o sentir e o descrever.

    Meus parabéns e seja bem-vindo ao EntreContos.

    • Thiago de Castro
      6 de outubro de 2020

      Obrigado pela calorosa recepção!

  2. Bianca Cidreira Cammarota
    3 de outubro de 2020

    Não só nas palavras pude sentir o ressentimento, a raiva e o motivo da fúria (mesmo antes de literalmente ser revelado o abuso). A frustração não só do ato, como bem do acobertamento do mesmo pelos familiares por omissão e indiferença está latente em todo o texto, a ira a orquestrar o ritmo.
    Gostei muito mesmo do texto! A forma, em alguns momentos, expressando a rapidez do pensamento da protagonista a ponto de atropelar-se expressa toda a vingança e indignação reprimidas durante anos.
    Quero ver mais textos nesse tom! As palavras nada politicamente corretas (e isso é um elogio mesmo!) são uma catarse para todos nós, embrulhados em papel celofane nessa sociedade tão hipocritamente “correta”.

    • Thiago de Castro
      6 de outubro de 2020

      Muitas dos termos vulgares e palavrões foram inseridos numa reescrita. O desejo era satisfazer o leitor, mesmo que tardiamente, de toda frustação e trauma gerado pelo tio.

      Obrigado pelo comentário 🙂

  3. Anderson Do Prado Silva
    3 de outubro de 2020

    Existem muitas formas de se exercer o poder sobre alguém. O abuso é uma delas, mas existem outras. Uma outra é nutrir alguém uma irrealizável ambição de vingança. Neste conto, vemos isso: a abusava inviabilizada. Depois de suportar a crueza do abuso, a protagonista passa a nutrir profundos e até perversos desejos de vingança, mas quando esta (a vingança) se torna finalmente concretizável, o tio-abusador falece de causas naturais. Durante a vida, esse tio-abusador exerceu irrestrito poder sobre a sobrinha, ocupando-lhe o corpo, a mente e o coração, mas mesmo depois, já morto, esse velho-cretino ainda está lá, soberano, ditando desejos e anseios. A monarquia seguirá, porque a vingança não foi plena: no chão, um corpo já morto, insciente, impune. Por outro lado, há a família, cuja história, cuja complacência, aparece unicamente no último ato: “foi um acidente, só um acidente”. Não há consolo para a protagonista, não há amparo: nem mesmo com a família ela pode contar. Parabéns, Thiago! Estou orgulhoso com a sua estreia! Sinto-me senhor de um cadinho de seus méritos por tê-lo trazido para cá (perdoe-me por isso)!

    • Thiago de Castro
      6 de outubro de 2020

      Anderson, obrigado pela análise que captou tão bem as intenções deste texto! Com certeza, sua insistência foi essencial para que eu figurasse aqui no meio de tanta gente incrível!

      Mais uma vez, obrigado 🙂

  4. Giselle F. Bohn
    3 de outubro de 2020

    Amei este conto! Bem escrito e envolvente. As descrições são precisas e nada sobra; bem do jeito que eu gosto.
    A única frase que me causou estranheza foi essa: “O morto no chão, saciada, partiu batendo os saltos sob a luz tímida da alvorada.” O sujeito não concorda com o verbo, já que “saciada” aí é apenas o aposto.
    Mas isso é o de menos. Um conto incrível. Espero ler mais textos seus! Parabéns! 🙂

    • Thiago de Castro
      6 de outubro de 2020

      Obrigado pelo comentário Giselle, talvez faltou um pouco de coerência na elaboração da minha frase, pois quem parte saciada é a personagem após a suposta vingança. Aliás, não sei se mantenho o verbo numa próxima edição, porque ao longo do conto, a vingança de fato jamais acontece, ou seja, não há satisfação plena da protagonista.

      • Giselle F. Bohn
        6 de outubro de 2020

        Verdade, Thiago! Ela de fato não estava “saciada”! Fiquei presa à forma e nem atentei ao significado! 😅
        O conto é incrível, meus parabéns!

  5. Cilas Medi
    3 de outubro de 2020

    Vingança tardia, pós morte. Semblante aflito, pós martírio. Assim se faz quando não se completa o que gostaria de ser e fazer. Nada é o pior quando nossa vontade é preterida. Vingança tem que ter o ato, o desafio, o contraditório, o farfalhar. Assim é o que nos traz a paz, refletida no ato, derrubando o corpo, achincalhando a imagem refletida a todos. Náusea familiar. Todos compreendem a intenção, mas consideram, somente, um pequeno ou até um último acidente, antes da morte e entrega aos vermes, do qual foi um lídimo representante. Ódio. Parabéns!

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Informação

Publicado em 3 de outubro de 2020 por em Contos Off-Desafio.