EntreContos

Detox Literário.

Amálgama (Rodrigues)

O homem acordou cheio de picadas pelo corpo, a mão suja com sangue ressecado grudado na faixa e descansando em cima do peito resfolegante. Não tinha saída. A próxima hora não se negava a surgir e o Sol escondia-se por entre as copas fechadas da mata densa. Não há luz que as consiga perpassar, e o calor e a umidade abafam qualquer noção de tranquilidade que insurja.

Os troncos sacrificados na ponta da machadinha, vertendo o leite encorpado que tanto edifica sonhos nos lugares mais distantes do país, parecem assombrar seu campo de visão multiplicando-se entre as folhagens, arbustos, flores, insetos e pássaros que por vezes passam contando os seus segredos como num canto inerte e frio do acauã.

O acauã canta para afastar os demônios e doutrina brancos, índios e negros em uma apatia monossilábica e repetitiva que dura uma vida. Eles passam o resto de seus dias a tremer, conjurar maldizeres, arranhar-se e dormir em redes isoladas de comunidades, moradas sozinhas e tristes onde entoam infelizes: “acauã, acauã, acauã…”.

O mistério amazônico parece perturbar o homem que, sozinho em meio ao excesso de seu esplendor, indaga-se sobre o porquê de tal terra iluminada ser motivo de tantos enigmas e pouca solução clara que a faça servir ao próprio povo que de seu solo se criou. A fome esmaga a divagação espontânea, jogando-o novamente na lida da vida de seringueiro seco que tem até mesmo o farelo alugado ao patrão.

Arregaça as mangas e esfrega as botas à beira do Rio Negro, espelhando o rosto suado e manchado na água lustrosa e fina que se espalha ondulante como moldura ao homem em busca de nutrição. Com um sorriso parco, demonstra a alegria que espalha-se pela água e infere a lágrima do animal gordo e enorme que, distraído, se deixou espetar pelo arpão.

Na descendência da arte de matar do índio, o trabalhador puxa o bicho pro bote que quase vira com os muitos quilos, então  retorna à margem e abre a barriga do peixe-boi. Tira suas vísceras, faz fogo farto para a muita comida, delicia-se com a carne viscosa e morna que parece matar a sede e a fome. Com fé, agradece pelo desjejum enquanto queima para despejar a gordura animal na parte que restou. Guarda a mistura pastosa num pote e segue novamente através das águas procurando sentir o cheiro de troncos das seringueiras frescas do frio da manhã. “Acauã, acauã”…

Caminha por entre um montante de árvores, risca-as uma por uma, de cima até o meio desenhando no talho o funil por qual escorrega a seiva em transe contínuo a desembocar no balde de lata que começa a receber pingo por pingo e preencher o vazio de seu operador. Repete o mesmo processo em uma fileira de vegetais que parece nunca acabar e para somente quando a mão verte sangue entre os dedos e atrapalha seu trabalho indicando que muito tempo se passou.

Arruma o chapéu, alinhando o cordão que segue o contorno do queixo pontiagudo, coça a barba protuberante e, ajeitando-se no meio do barro, embebe-se com o suco acumulado dentro do caule herbáceo e verde que acaba de decepar com o facão. Não muito hábil, tropeça por entre o solo embargado de sedimentos até que retorna ao bote. Estica-se em meio aos mesmos tecidos engordurados que sempre carrega e deita sentindo ainda o cheiro do sangue do animal que o alimentou. Abre o pote, engole alguns pedaços e arrota com os pés descalços. Satisfeito com a primeira parte do dia de trabalho, calculando lucros e dívidas, deixa-se levar no cochilo que, porventura, se fez merecedor.

O tumulto do entorno que forma música de vasta instrumentação pelo vento que sopra nas cordas, pedras, riachos e copas, acaba por assinalar a composição que finaliza o sono sem profundidade do homem cansado a boiar no bote. A hora parecia marcada, e ele naturalmente retorna ao meio das seringueiras a observar de bom grado os baldinhos que já quase transbordam. Faz o processo inverso e vai retirando com cuidado um a um, despejando a seiva em recipiente longo ao qual deixa pendurado no cinto. Ajusta mais um e após terminar a coleta figura com o sobrepeso balançando ao redor das pernas.

Retira os potes e coloca-os enfileirados, pasmo pelo volume farto, manuseia a terra de forma a edificar um monte  alto, perfurando-o por baixo até que se transforme em um forno pequeno de barro. Aninha madeira no vão e depois incendeia, dando escape ao vapor bravo que sai pelo buraco na superfície da composição. Defuma a seiva até que resseque e, gradualmente, ao manuseio prazeroso das mãos, endureça e vire uma peça arredondada e morna a ser ensacada junto às outras, dando peso ao produto final, valioso e esmerado do artesão.

Ainda marcado pelo calor, rescende à alma a memória repulsa advinda dos cercados em que passara grande parte da vida, a miragem dos casebres de barro apinhados de famílias, senhoras magras e puídas alinhadas em fila na busca pela água abundante, porém roubada pela falta de ações que a façam chegar naqueles rincões esquecidos do sertão, onde a morte planejada pela falta de políticas públicas banaliza a mortalha e extirpa até dos próprios afetados a compaixão. “Nossa vida não vale nada”, era o mantra que ouvia dos convictos criados em profusão.

Tirara a sorte grande? Não podia saber. Mas no retorno lembrava que toda aquela abundância ao seu redor – da mesma forma que a secura pregressa – amontoada e inerte por todos os lados, também não parecia de grande alento nem para ele e nem para os ali viventes, lembrava mesmo um pote de ouro a escapar de um túnel, ao final, sem luz. Estranhava estar ali, entremeado por tanta riqueza e, na contramão, tanta miséria.

Ele pesa a matéria adquirida, com uma balança, a qual também é cobrada pelo patrão, arremata-as com cordas e retorna ao quarto, banha-se e finalmente pensa nas bolas cozidas que haverá de vender amanhã. Puxa a garrafa de aguardente e pensa ser um rei ao virar uma dose e sentir o relaxar dos músculos. Embriagado, se ajeita como pode no colchão duro e engordurado do barracão.

Alimenta-se também de sonhos onde rememora os boatos de pescadores e revive de forma autêntica a memória da existência do animal gigante que por vezes emerge dos rios para observar os homens sem nada fazer, por prazer puro de paralisá-los demonstrando o que somente um movimento de suas presas ou força corpórea poderia fazer. O mito de observação contínua da Cobra Grande revira-se conforme a boca ou extensão do rio, por vezes mudando-o para animal carniceiro e devorador de crianças e adultos, conforme a predileção do contador.

Na visão sublime e idílica, está sozinho na beirada do bote e, quando o animal sobe abocanhando seus pés, ele grita em desespero: “acauã, acauã, acauã!”, o que faz a besta-serpente retrair e sucumbir novamente nas águas. Depois, o homem caminha por uma vereda de vitórias-régias e se depara com um agrupamento de amazonas. Ao vê-lo, as guerreiras fogem em desespero, fazendo-o acordar com o pensamento de que faz parte de um grupo de pessoas execradas pelo ninho da selva e, triste, ajeita-se na janela enquanto bebe água na xícara, dolorido da noite mal dormida, e se arruma como pode no respingo frio do chuveiro lembrando da hora de saída da embarcação para a cidade. O sonhos retorcendo-se em redemoinho pela água, agora ao cimento do chão, e o sentimento de sua própria monstruosidade, que se auto-atribui.

Junto a outros caminhantes, que parecem uma tropa de iguais, lembra-se por alto ter ouvido no rádio, certa vez, que muitos como ele, cerca de um milhão de homens em busca do sonho da borracha, tinham rumado àquela região. Enfrenta, ajeitado na multidão de chapéus, no barco, discussões empíricas sobre o quanto o valor da atividade vinha diminuindo nos últimos anos. Os estrangeiros, pelo que parecia, tinham engatado concorrência pesada em países dos quais os nomes ninguém conseguia pronunciar, mas, sim, canalizar o ódio, e então, perdido no meio desses tumulto de críticas, piadas e, claro, mais causos mágicos, desce parvo e inebriado com novas ideias que se articulavam vagarosamente nos passos tímidos que dá agora no Porto de Manaus.

Assim como a indiada avistou Maíra no horizonte, o deus representante da civilização, a ingenuidade continuada propaga-se na visão do seringueiro ao ver os barcos do estrangeiro adentrando as cortinas azuis e brancas do Novo Mundo, agora já meio gasto. O ar preenche-se com o vapor barato das chaminés negras das embarcações e perpassa acima dos homens acinzentados que estão em fila esperando a pesagem e pagamento.

Espaço! – ele pensa. Tudo que se precisa é de espaço e trabalho para que a vida possa seguir, espaço e trabalho. E, se assim, fosse, logo estariam todos milionários, pois no país o que não falta é espaço, mesmo que se pense o contrário, e ao pegar as notas puídas da mão do rapaz da pesagem, sua face procura esboçar felicidade, a articulação entre as partes levantando os lábios com esforço num prosseguir lustroso e apequenado ao fundo dos olhos e, se o capital pouco ajuda, o castanho do rio, espalhando-se por todos os lados, demora um pouco, mas faz com que ele guarde as notas molhadas de suor no bolso e se encha de esperança novamente para prosseguir.

Após o balanço da volta, chega ao barracão inusitadamente enjoado, mas, para usar o banheiro novamente, precisa antes acertar o mês de gastos com o patrão, que assobia ironicamente por marcar presença. Paga com penúria a pena a que está exposto, vomita e logo está sem dinheiro algum de novo, pois amanhã é mais um dia de trabalho árduo e, assim como reza a lenda de alguns poucos, um dia ele irá prosperar.

13 comentários em “Amálgama (Rodrigues)

  1. marcoaureliothom
    27 de junho de 2020

    Olá autor(a)!

    Antes de expor minha opinião acerca da sua obra gostaria de esclarecer qual critério utilizo, que vale para todos.

    Os contos começam com 5 (nota máxima) e de acordo com os critérios abaixo vão perdendo 1 ponto:

    1) Implicarei com a gramática se houver erros gritantes, não vou implicar com vírgulas ou mínimos erros de digitação.

    2) Após uma primeira leitura procuro ver se o conto faz sentido. Se for exageradamente onírico ou surrealista, sem pé nem cabeça, lamento, mas este ponto você não vai levar.

    3) Em seguida me pergunto se o conto foi capaz de despertar alguma emoção, qualquer que seja ela. Mesmo os “reprovados” no critério anterior podem faturar 1 ponto aqui, por ter causado alguma emoção.

    4) Na sequência analisarei o conjunto da obra nos quesitos criatividade, fluidez narrativa, pontos positivos e negativos, etc.

    5) Finalmente o ponto da excepcionalidade, que só darei para aqueles que realmente me surpreenderem.

    Dito isso vamos ao comentário:

    RESUMO: Conto sobre um seringueiro e sua dura rotina diária, semelhante a Escravidão do Século XXI.

    CONSIDERAÇÕES: O autor (ou autora) deu a impressão de ser jornalista, pois a narrativa é o registro frio e cruel de uma realidade que está acontecendo exatamente agora, enquanto faço estes comentários e enquanto você os lê.
    O tem Amazônia está totalmente incluído em sua narrativa, mas eu senti falta de algum acontecimento, de alguma trama, que não fosse a descrição de uma situação que já é conhecida e exibida rotineiramente em documentários de denuncias de trabalho escravo no Norte do Brasil.
    Fiquei com a impressão de que faltou o conto, sobrou a redação.

    Independentemente da avaliação, aproveito para parabenizar-lhe pela obra e desejo sucesso na classificação final.

    Boa Sorte!

  2. Daniel Reis
    27 de junho de 2020

    2. Amálgana (Bonifácio)
    Resumo: o duro cotidiano de um seringueiro, que não tem perspectiva outra a não ser o seu trabalho e a miséria do extrativista amazônico.
    Comentário: em relação à PREMISSA, a escolha pelo personagem seringueiro foi um diferencial, tratando da dimensão humana diante do tema amazônico. No tocante à TÉCNICA, me parece que a linguagem ficou muito próxima de um “Globo Repórter” pelo aspecto descritivo e escolha das palavras, um ponto que eu acredito que o autor possa amenizar numa revisão. Quanto ao EFEITO NO LEITOR, fui uma leitura interessante, ainda que um pouco “afastada” do emocional, prezando pelo distanciamento do autor – e, consequentemente, do leitor. Boa sorte no desafio.

  3. Amanda Gomez
    27 de junho de 2020

    Resumo 📝 A história de um seringueiro. O conto retrata minuciosamente toda a sua rotina diária na floresta Amazônica. Seus devaneios e sonhos e desilusões.

    Gostei 😁👍 um conto que chama imediata atenção pela escrita. Perfeita. Eu não tenho nem metade do vocabulário usado aqui com tanta facilidade. Bom, pelo menos lendo parace que o autor escreveu de olhos fechados. Essa Ambientação permite ao leitor se aprofundar na história. Estamos lá com o seringueiro, olhando um pouco distante sua vida, todos os passos da colheita até o final do dia. Ele vive um ciclo vicioso de nada. Todos os dias parece ser igual. Causa também uma sensação claustrofóbica, imaginei ele como um hamster pedalando na sua roda dentro da gaiola. Achei interessante também as coisas que passam pela mente dele. Tão conformado com sua realidade…ao mesmo tempo que ali… Lá quase inconsciência tem perguntas e uma revolta domada.

    Não gostei🙄👎 De nada específico. Eu fiquei me perguntando aonde o conto iria me levar. Mas antes da metade eu entendi que seria isso. E tudo bem. Tá completo.

    Destaque📌 Estranhava estar ali, entremeado por tanta riqueza e, na contramão, tanta miséria.

    Conclusão = Um texto bonito e rico em detalhes que cumpre bem o que se propôs. Da um contraste muito interessante. Entre a história difícil que é contada com a maneira bonita que o faz.

  4. Regina Ruth Rincon Caires
    23 de junho de 2020

    Amálgama (Bonifácio)

    Resumo:

    A história do seringueiro da floresta que mostra a dureza do ofício. A moenga do trabalha muito, vive mal, paga, paga, paga… Nada sobra. E o novo dia nasce, e de novo, e de novo, e de novo…

    Comentário:

    Texto denso, encorpado de sentimentos. O autor, mestre na narrativa, conduz o contar como se levasse o leitor pela mão. Texto completo. Bem escrito, com descrições tão perfeitas que, durante a leitura, é possível sentir o mormaço da floresta fechada, o calor do fogo para solar a borracha, o desconforto do corpo sujo e do sono prejudicado, a força despendida para forrar o estômago, o roçar de corpos descuidados nos barcos e nas filas de venda do produto. E a raiva de pagar e nada sobrar. Narrativa visceral.

    Se há deslizes, nem percebi. Há muita poesia triste, chorume. Tal qual o canto do acauã. Bonifácio, seu texto leva o leitor ao muro das lamentações com um papelzinho escrito: Senhor, por amor, melhore o mundo…

    Acredito que o título seja a mistura, a liga de todas as gentes desiguais que se fundem em uma coisa só. Não por gosto, mas por falta de horizonte. Quanto ao pseudônimo, se não for homenagem a alguém, o significado do nome Bonifácio é “submisso”. Seria isso?

    Parabéns, Bonifácio!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  5. Tereza Cristina S. Santos
    22 de junho de 2020

    O conto tem como personagem central o seringueiro na mata densa e destaca o canto do acauã. O acauã canta para afastar os demônios e doutrina brancos, índios e negros, seu canto conjura maldizeres, é repetitivo e dura uma vida. O seringueiro luta pela sobrevivência do dia a dia, a beira do Rio Negro pesca para se alimentar e consegue capturar com o arpão o peixe-boi. Após a refeição, caminha entre as árvores, dá um talho em cada uma delas e a seiva cai no seu balde de lata. Depois do cochilo, retorna das seringueiras e recolhe os potes, pesa a matéria adquirida com uma balança e se prepara para vender o produto. No outro dia, no porto de Manaus, o seringueiro estava na fila esperando pesarem a mercadoria para receber o pagamento. Colocou as notas molhadas que recebeu no bolso, acertou o aluguel do mês com o patrão e não perdia a esperança de um dia prosperar.
    O texto é bem estruturado, possui início, meio e fim. Apresenta uma descrição com detalhes da floresta Amazônica.O autor consegue desenvolver as idéias com coerência.O argumento do texto está dentro do tema proposto.

  6. pedropaulosd
    14 de junho de 2020

    RESUMO: O seringueiro prossegue num penoso dia de trabalho, pega o seu pagamento, quita parte da interminável dívida com o patrão. Repete. Esperança.
    COMENTÁRIO: O conto me lembra o personagem Fabiano de “Vidas Secas”. Termina onde começa; se desumaniza; tem origens no sertão. Sua prosa é bastante elaborada, os cenários são desenhados com fluência e nos fazem sentir o trabalho árduo que absorve o personagem, pois além de enxergar perfeitamente as etapas do trabalho metódico, é possível entrever o cansaço e um pouco das reflexões do protagonista, como por exemplo no momento do cochilo, que julga merecido, ou da pesca pela qual agradece. São dois detalhes que dizem muito sobre ele, pois essa virtude de encontrar alento na penúria é a que o acompanha do início ao fim. A coragem de recomeçar. A mesma astúcia s mostra presente quando brevemente somos informados de lembranças tentas do seringueiro, assim sabendo de onde ele vem, informação que torna a ser importante quando ele reflete sobre os milhares iguais a ele que vem perdendo importância. É também um momento de um dilema que é também uma divagação entre riqueza e pobreza e como a barreira entre uma e outra parece intransponível. Às vezes o texto se torna um pouco truncado, as sentenças ficam longas demais e o excesso de detalhes se tornam mais distração do que boa caracterização. Mas, vencidos esses trechos, é um conto bem envolvente e imersivo, que encorpa muito bem a ambientação que demanda o desafio

  7. Gustavo Araujo
    12 de junho de 2020

    Resumo: o dia de um seringueiro amazonense, desde a retirada da seiva, passando por devaneios em meio à floresta, sua luxúria e suas lendas, até o instante do pagamento.

    Impressões: o conto marca pelo virtuosismo. Tudo se encaixa perfeitamente: as descrições da floresta, as crendices que permeiam sua exuberância e, em especial, os anseios do homem, esse personagem que ao mesmo tempo é estranho à vegetação mas que ainda assim serve como amálgama de todos os seus elementos. Sobressai-se, é fácil perceber, a questão social: o trabalho penoso, literalmente a conta gotas que alimenta a esperança de uma vida mais próspera – especialmente se comparada à daqueles que sequer têm a chance de um emprego – mas que desmorona no momento em que os acertos com o patrão são feitos. De todo modo, resta a ele a esperança – e o que mais restaria, não é verdade? – de que amanhã o dia será melhor e assim, aos poucos, com perseverança, talvez um dia a sorte lhe permita um aceno.

    O que mais me chamou a atenção é que o conto basta em si. Nada parece sobrar ou faltar. Enquanto eu lia, ficava imaginando para onde as linhas iriam me levar, temendo que minhas expectativas não restassem preenchidas. Mas o que vi foi suficiente para entender que essa crônica, esse retrato de um dia a dia que nos é tão distante, padece de uma verossimilhança no valor exato, o que é fantástico. Não é, devo confessar, meu tipo favorito de literatura, mas é inegável seu efeito no meu eu-leitor. Funcionou quase como a lendária anaconda a me devorar a mente. Enfim, um conto superlativo, do tamanho da nossa floresta mais linda. Parabéns ao autor e boa sorte no desafio.

  8. Fabio D'Oliveira
    12 de junho de 2020

    Resumo: Acompanhamos a rotina de um seringueiro, assim como conhecemos seus sonhos e suas angústias.

    Olá, Bonifácio.

    Seu dicionário é riquíssimo, sabia? O texto inteiro representa seu conhecimento, não apenas das palavras, mas também do ambiente e da profissão que escolheu retratar. Mostrou um pouco de pecado na pesquisa (dificilmente um único homem consegue pescar um peixe-boi da forma como seu protagonista fez), mas creio que tenha sido uma distração boba. Seu potencial nesse quesito é gigantesco.

    A narrativa é densa demais, porém, o que me desagradou um pouco. E com o uso constante de adjetivos, sem dosa, acabou deixando a leitura pesada. Não foi fácil, para mim, que procuro uma literatura mais leve, no geral. Reservo minha paciência das leituras difíceis para os clássicos inevitáveis, haha. Achei algumas construções frasais estranhas, devo admitir, torci o nariz para alguns trechos. Inclusive, tome cuidado com repetições de ideia. Olhe essa parte:

    “A próxima hora não se negava a surgir e o Sol escondia-se por entre as copas fechadas da mata densa. Não há luz que as consiga perpassar, e o calor e a umidade abafam qualquer noção de tranquilidade que insurja.”

    Você afirma que as copas são fechadas e,em seguida, que a mata é densa, dando literalmente a mesma ideia. Também completa que o Sol se escondia nas folhagens e que nenhuma luz alcançava o interior do matagal, também repetindo a mesma ideia. Isso se repete em algumas outras partes. Tome cuidado, pois isso empobrece o texto.

    Não tenho nenhuma reclamação diante o enredo. Sua escrita, mesmo me cansando e falhando um pouco na técnica, pareceu-me adequada á história retratada. E há certo toque poético no texto, o que me agradou bastante. Você soube retratar muito bem a vida do seu personagem, ficou muito bonito e triste, de verdade. A vida do trabalhador, enganado pelos sonhos e promessas ilusórias, é de um sofrimento sem medida. Você soube retratar os altos e baixos do protagonista, seus pensamentos de forma verossímil. Você arrasou nessa parte. Se sua escrita fosse mais fácil, tenho certeza que iria adorar o conto como um todo!

    Desejo para ti toda a felicidade do mundo!

  9. Emanuel Maurin
    9 de junho de 2020

    Oi Bonifácio, tudo de bom pra ti.
    Resumo:
    O conto fala sobre a vida e luta de um seringueiro que trabalha a beira do Rio Negro, que logo no começo do dia, toma picadas e tem as mãos ensanguentas. Terminado a primeiro turno do trabalho, segue até o rio, entra no seu barco com um arpão e sozinho sem ajuda de ninguém tira o peixe boi d’água, e, prepara o almoço. Saciado, coloca a gordura do animal numas latas pra comer mais tarde. Volta ao trabalho, depois vai vender em Manaus os bolos de borracha que ele mesmo coletou e chamuscou no fogo.
    A apresentação está bem estruturada, a narrativa e o desenvolvimento da trama fluem, mas não senti emoção no conflito que ao meu ver foi vencer a fome pescando. Daí fiquei me perguntando “como” e quanto “tempo” levou o seringueiro a pescar e jogar um peixe enorme sozinho no barco, “desossar”, depois “cozinhar”, “comer” e “guardar” a gordura e as sobras nas latas. Pra mim o conflito principal do seu personagem foi vencer a fome, porque pelo que entendi a única coisa que ele faz é trabalhar pra comer, já que quando acerta as contas com o patrão não lhe sobra nada.
    Boa sorte.

    • Bonifácio
      9 de junho de 2020

      Você tem toda razão, o peixe-boi pesa de 480 kg pra cima, então seria preciso no mínimo 2 pessoa para colocá-lo no bote. Enfim, erros que a gente comete. obrigado pelo toque.

  10. angst447
    8 de junho de 2020

    RESUMO:

    Um seringueiro enfrenta a lida diária com a esperança de um dia melhorar de vida e se livrar da exploração do patrão. O seu dia a dia se resume a retirar a seiva das árvores (látex), alimentar-se como pode, dormir mal, e vender o produto do seu trabalho para assim conseguir o seu sustento.
    ————————————————————————————————————–

    AVALIAÇÃO:

    * T – Título: Curioso, sem entregar o enredo.
    * A – Adequação ao Tema: O conto aborda o tema proposto.

    * F – Falhas de revisão:
    O sonhos > Os sonhos
    […] se auto-atribui > o “auto” nem seria necessário aqui, mas acredito que
    tenha sido para enfatizar o sentido. O correto então seria se autoatribui

    * O – Observações:
    Narrativa muito bem estruturada, com cuidadosa descrição do cotidiano do
    protagonista. A caracterização tanto do personagem quanto do ambiente
    revela a habilidade do autor em criar imagens. A linguagem é tão densa
    quanto a floresta. O ritmo apresenta-se mais arrastado, o que se encaixa bem
    à trama desenvolvida.

    * G – Gerador (ou não) de impacto:
    A descrição do cotidiano do seringueiro é feita com tamanha habilidade que
    torna a leitura difícil em algumas passagens. Faz com que o leitor reflita sobre
    a realidade do personagem que afinal é similar a muitas outras realidades na
    Amazônia. Impactou!
    * O – Outros Pontos a Considerar:
    Os elementos característicos do cenário da Amazonia estao bem integrados à história contada. O autor tratou de um tema da natureza (com sua primitividade) de uma maneira quase sofisticada.
    Parabéns pela sua participação!

  11. Gabriela
    8 de junho de 2020

    O conto relata o trabalho de um seringueiro, desde seu dia no seringal, a pesca para se alimentar, a ida para Manaus e o recebimento de seu parco salário.
    Ao ler o conto, não resta dúvidas de que estamos na Amazônia.
    Tem história, ao mostrar que o personagem era nordestino e como muitos fugiu da seca para tentar a sorte no seringal.
    Tem folclore quando relata a lenda da cobra grande e do acauã. Gostei da repetição da palavra, ficou em mim…
    Tem detalhes dos costumes amazonenses quando relata a pesca de um peixe-boi.
    Descreve aspectos sociais do trabalhador que ganha para se manter no trabalho, porque no final, o que deve ao patrão é quase o mesmo tanto que recebe.
    E tem sonhos!
    É a Amazônia em cada palavra!!
    Boa sorte!

  12. antoniosbatista
    8 de junho de 2020

    Resumo= A história de um seringueiro trabalhando na floresta, suas aventuras e desventuras, o ambiente hostil, o sacrifício, tristezas e esperanças, trabalho árduo e o pouco ganho.
    Comentário= Gostei do argumento, da escrita. Não sou especialista em literatura, tampouco em gramática, às vezes tenho que consultar o dicionário, mas penso que algumas conexões frasais não combinaram, algumas frases me pareceram obscuras e forçadas demais e sentido um tanto confuso como na frase: “ Na visão sublime e idílica, está sozinho na beirada do bote(…)”. Não seria “imagem, (cena)” em vez de “visão, (ato de Ver)”? O sentido de uma palavra não combinou com a outra e muito menos com o sentido da frase. Acho que uma cena para ser impactante, não necessita de muitos floreios. Veja por exemplo, essa descrição de uma cena com escrita simples, impressiona pelo ambiente e ação: “Já era uma hora da manhã, a chuva tamborilava lúgubre nas vidraças e minha vela quase já tinha se extinguido quando, à sua luz bruxuleante e quase consumida, vi os olhos amarelos e opacos da criatura se abriram, inspirou com força, e um movimento convulsivo agitou-lhe os membros”. Mary Shelley. Frankenstein.
    De qualquer forma, e apesar do meu parco conhecimento/entendimento, considero o seu conto uma obra criativa, uma boa história com um personagem forte e marcante. Boa sorte Bonifácio.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado às 7 de junho de 2020 por em Amazônia, Amazônia - Grupo 1 e marcado .