EntreContos

Detox Literário.

Eu já disse que te amo hoje? (C. Bechstein)

Desde a primeira vez em que o viu, encostado num canto, teve a intuição de que ele seria tudo. Exatamente o que ela precisava e queria, a vida inteira. Ainda distante, parecia tão misterioso, tão interessante. Amor à primeira vista. Foi ela quem tomou a iniciativa, aproximando-se dele. Não mais se separavam. Passaram a viver juntos, quase o tempo todo, um para o outro.

E toda a alegria, riso e encantamento dos primeiros momentos espalhou-se e transbordou, ultrapassando paredes, incomodando vizinhos. 

Ao se descobrir. 

Ao se conhecer.

Ao se experimentar. 

Ao se amar, intensa e profundamente. 

Em suas mãos, sentia a vibração, ao roçar as coxas. Apaixonada. Os olhos brilhavam ao apresentá-lo à família e aos amigos, radiante com o simples pensamento de que continuariam sendo um do outro, para sempre. 

Só que o “para sempre” é sempre muito tempo.

Brigavam feio também, e muitas vezes, como acontece com os amores intensos. Drama, dor, lágrimas e rancores. Então, ela se afastava. E ele continuava à espera, à espreita de sua passagem.

E, em cada reencontro, havia a reconciliação.

Daí amavam-se com velocidade e prazer, paz e harmonia.

Então ela dizia a ele: “eu já te disse que te amo hoje?”.

Mas, enquanto ela evoluía, ele estava envelhecendo muito. 

Depois de anos, não eram mais os mesmos. 

O silêncio só aumentava. Paulatino. Inevitável.

Como se o riso antes fácil se escondesse atrás de um sorriso amarelecido pelo hábito do descuido, e a vibração inicial cedesse lugar à ausência do toque, à rotina da distância. Cada vez menos tempo dedicado e disposição de se encontrar e se ouvir. O mecanismo deteriorou-se permanentemente, deixando alguma coisa presa, engatada. E os defeitos de cada um acabaram por abafar o que restava daquele encantamento dos primeiros tempos. 

Um dia, quando ela já havia perdido o interesse, saiu de casa.

Os pais dela, solidários, ainda cuidavam dele. 

Até que ela voltou e sentou-se à sua frente, ereta, muito séria. E ele pôde finalmente se abrir. Mesmo que fosse só para uma breve despedida. Porque, por ela, a decisão já estava tomada. 

Melhor assim.

Colocar à venda e deixar que fosse embora seu velho piano e os planos e sonhos que teve, desde quando era criança.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.