EntreContos

Detox Literário.

Mestiço (Cândida)

Com o tempo acostumara-se ao rangido agudo que escapava das rodas. Com o desequilíbrio enjoado que fazia seu corpo pender de um lado para o outro enquanto a carroça investia lentamente contra as ruas ora apinhadas, ora ermas. O material recolhido, contudo, tendia a minimizar o balanço involuntário, estabilizando o avanço resoluto. Nessas horas, sentia-se melhor. Talvez até mesmo o cavalo se sentisse melhor.

Palavras fugiam de sua boca em murmúrio, encaixando-se ao trote do animal, os cascos raspando o asfalto num cloc, cloc incessante. De fato, havia algo musical na maneira como os sons se misturavam, enquanto seus olhos, sempre atentos, vasculhavam as esquinas, os contêineres, os tamborões. Lixo é vida, aprendera desde cedo. E por sorte havia bastante para ele e para os outros como ele. Bastava carregar a carroça e entregar na usina, na borda da cidade. Assim conseguia comer e dar de comer. A ele mesmo, ao animal, aos seus.

Dia após dia, levantar, sacudir o cansaço. Comer alguma coisa, qualquer coisa. Iniciar a marcha com o sol se derramando num horizonte avermelhado, com a chuva salpicando-lhe o corpo, com o frio, com o calor, com o vento lhe assobiando preces insensíveis, depois repetidas em sussurros que jamais seriam ouvidos. Puxar, recolher, entregar. Melhorou muito quando conseguiu o cavalo. Ah, o cavalo… Por causa dele construíra aquela carroça com a força dos próprios braços.

Meses. Anos. Juntos. O trote cadenciado cerzindo o trânsito intenso, desviando dos olhares de reprovação dos motoristas, dos nomes de que eram chamados. Divertiam-se discretamente, porém, com as expressões de espanto das crianças, as bocas ovaladas em surpresa por vê-los ali, tão surreais, tão inesperados. Algumas delas puxavam os braços dos adultos que as acompanhavam, apontando para a carroça, como que exigindo um passeio. Nesses momentos, quase sem querer, ele erguia as rédeas e armava com elas uma onda que se propagava no ar até desmanchar-se sobre as costas do cavalo. Se estivesse inspirado, soltaria um grito indefinido, a que o animal responderia com um relincho, para delírio dos pequenos.

Papelão, plástico e madeira. Era disso que viviam. Reciclagem era o nome. A transformação do lixo em coisas novas. Há tempos explicara ao cavalo, afinal ele tinha o direito de saber. Alguns lugares como construções ou fábricas eram mais promissores do que outros para consegui-los, mas também eram os mais concorridos, o que acabava gerando discussões e até brigas com outros carrinheiros. Quando um rapaz lhe ameaçou com uma faca, ele achou melhor se afastar, evitar o conflito. Não que tivesse medo de se ferir, mas pelo cavalo. Não podia arriscar. Já não era forte o bastante para defender o animal. Por isso agora se dirigia aos grandes condomínios que, mesmo não sendo tão bons como as indústrias da periferia, acabavam fornecendo o mínimo e, às vezes, boas surpresas.

Encontrar comida para ambos era parte da rotina. Ainda que contasse com um pouco de dinheiro, obtido do pagamento que recebia pelo material que levava à usina, o ideal, sempre, era conseguir alimento sem pagar. Locais próximos de restaurantes, bares e fins de feira eram mais promissores, já que os tambores de lixo não raro escondiam restos. Legumes, frutas. Espigas de milho. Sim, as espigas. O cavalo as adorava. O som de sua mandíbula despedaçando-as com vontade era prova irrefutável de seu apreço. Coma bem, dizia a ele. O importante é estarmos fortes, já não somos meninos.

Reparava-lhe o pelo, antes brilhoso, agora comprido e desuniforme. A crina empapada que lhe descia pelo pescoço tomado por protuberâncias e manchas esbranquiçadas. Os músculos flácidos, as costelas que lhe seguravam a pele. E os olhos. Um dia tão atentos, tão vivos, hoje se perdiam num vazio opaco, cansado. Por vezes, ao mirá-los, o homem tinha a sensação de estar diante de um espelho.

Enquanto avançavam pela cidade, ele se pegava imaginando o passado do animal. Era um ritual, na verdade um passatempo. Qual teria sido sua história antes de ser-lhe dado como pagamento de uma dívida de sangue?

Sim, havia lhe concebido uma infinidade de vidas. Uma das que mais gostava era a de que nascera num circo. Que desde potro participara de apresentações concorridas, de grandes carrosséis. Que fora ornamentado por bridões, cabrestos, selas e mantas douradas, que exibia orgulhoso penachos altos de cores vivas, que fora montado por belas mulheres de longas pernas que nele faziam acrobacias para os aplausos de uma multidão encantada.

Havia também aquela em que ele pertencera a um rico empresário, que nele tinha investido tempo e treinamento até transformá-lo num campeão das corridas. Ah, sim, era essa sua história favorita. O cavalo, seu cavalo fora um corredor, um animal imbatível nas tardes de domingo do jóquei clube. Montado por um rapaz pequeno, leve e sorridente que colecionava troféus graças a ele. Podia vê-lo cruzando o disco final sob a narração acelerada de um locutor esbaforido enquanto o público vibrava e atirava chapéus para o alto em comemoração.

Sim, sim… A pelagem podia estar desfiando em velhice agora, mas certamente o cavalo tivera seus tempos heroicos. Como ele próprio, que quando rapaz explorara os confins da grande floresta ao norte em busca de cidades perdidas e tesouros, vencendo o calor, as doenças e a desesperança junto a aventureiros resolutos e incansáveis.

Que ninguém se engasse. Ele e seu cavalo haviam vivido histórias fantásticas. Qualquer pessoa que os observasse atentamente poderia perceber que a existências de ambos fora invejável. Que um dia despertaram admiração pela imponência, pela força e pela inteligência. E que a única razão para não desfrutarem de uma aposentadoria à altura era o fato de não se conformarem com o cativeiro. Nem no circo, nem nas corridas, nem em meio às árvores gigantes teriam a liberdade de que gozavam nas ruas, levando à frente por dias a fio aquela carroça torta e improvisada. Eram, por assim dizer, inconformados, animais que privilegiavam os instintos em detrimento de glórias efêmeras.

O reflexo um do outro.

Certa tarde, enquanto as nuvens se assomavam ameaçadoras sobre os edifícios mais altos, homem e cavalo progrediam lentamente por uma ladeira. A jornada tinha sido generosa, com material suficiente para um bom pagamento. Era inevitável fazer contas. Depois de um raciocínio rápido, não conseguiu evitar um sorriso. Até que começou a chover. Uma precipitação fina e tímida de início, mas que não demorou a ganhar força. Praguejou e parou a carroça. Por sorte, estava preparado. Tinha consigo uma lona plástica, imediatamente esticada e amarrada sobre tudo o que haviam recolhido. Precisava proteger o material, já que não conseguiria o preço justo se estivesse encharcado.

Lembrou-se de um posto de gasolina ali próximo, cuja cobertura generosa poderia abrigá-los sem maiores problemas. Vamos, disse ao cavalo, com um leve movimento das rédeas. Puseram-se em marcha, mas subida íngreme atrasava o avanço. Ele tentou encorajá-lo, prometendo-lhe ração extra, mas foi inútil. De onde estava, via apenas a cabeça do animal levantando-se e abaixando-se em espasmos curtos no esforço para tracioná-los.

A chuva tronou-se mais intensa, obrigando os carros que passavam a diminuir a velocidade. Ouviam-se buzinas e palavrões. Estavam numa avenida movimentada. Em meio ao aguaceiro, uma cena inesperada tomou forma. Três vultos surgiram das sombras. Eram garotos, daqueles que já se consideram homens. Vestiam camisas velhas e manchadas. Nos pés tortos tinham chinelos gastos. Estavam molhados de cima a baixo, mas não pareciam se importar muito. O mais alto segurou o cavalo pelo freio, obrigando-o a parar. Era alguém com experiência no assunto. Os outros se aproximaram da carroça. Um deles sacou um canivete e cortou as cordas da lona plástica. Desculpa, vovô. A gente precisa dela, disse, a voz vacilante revelando-lhe a idade tenra. E num segundo desapareceram todos, pulando nas poças ao redor, rindo.

O homem desceu da carroça tão rápido quanto pôde. Queria correr atrás deles, mas os músculos arderam em protesto depois de alguns metros. Moleques. Mereciam uma lição. Não era certo, não era. Sentiu uma dor no joelho, uma pontada nas costas. Há quanto tempo não corria? Por um segundo imaginou-se desatando o cavalo da carroça e os dois, ele e o animal, galopando à caça daqueles ladrõezinhos miseráveis. Lembrou-se então de que ele mesmo havia roubado a lona da caçamba de um carro estacionado, algumas semanas antes, lá deixada por alguém inocente demais ou apressado demais. Talvez fosse, afinal, a tal justiça divina.

Riu com esse pensamento. Um sorriso amargo, na verdade, já que todo o material que havia na carroça ficaria arruinado. Tinha que chegar ao posto de combustíveis o quanto antes para salvar alguma coisa, do contrário, o jantar ficaria para o dia seguinte. Ao subir na carroça percebeu os braços magros latejando. A contração dos músculos cobrava seu preço sem demora. Teve certeza, ali, de que sua eternidade o abandonara. Desculpa, vovô. Sentou-se e apanhou as rédeas. Passou a mão sobre o rosto, sentindo com a ponta dos dedos a barba rala e empapada. Não tinha espelho consigo, mas sabia que seu reflexo lhe insultaria com a máscara da realidade.

Pelo menos não roubaram mais nada, disse em voz alta, tentando sufocar a revelação em meio à chuva ainda forte. Vamos, gritou, lanhando as costas do cavalo. O animal bufou e balançou a cabeça, mas não se mexeu. Vamos, meu baio, disse-lhe, as rédeas golpeando-o num estalo vigoroso. Não podemos ficar aqui. O cavalo, contudo, manteve-se inerte. Vamos, vamos, repetiu, as ordens e os incentivos, ignorados.

Desceu novamente da carroça e caminhou até o animal. Postou-se diante dele, notando como as gotas da chuva lhe desciam pela fronte, desenhando pequenas linhas d’água até o nariz. O que houve, meu amigo? Notou-lhe os olhos, aqueles olhos um dia lustrosos, perdidos em algum ponto distante. Está cansado? A inutilidade da pergunta o atingiu de pronto. Claro que está. Quem não está? Percebeu-lhe as narinas dilatadas, a respiração curta e ofegante.

Sentiu um gosto amargo. Você não pode desistir, meu velho. Com as mãos tentou puxar-lhe pelos arreios. Venha!, disse mais uma vez, inútil, inaudível. Sem forças, viu a si próprio no semblante do companheiro exausto. Um arremedo do homem que um dia fora.

Porque os animais morrem?

Abraçou a cabeça do cavalo e cerrou os olhos.

Como será um circo de verdade? Como será uma corrida?

Deixou-se quedar ali. Numa fração de segundo, lembrou-se da própria juventude na lavoura, da época em que se misturava aos grãos, à colheita, aos sacos carregados. Das diferentes fazendas que conhecera graças aos músculos poderosos que lhe brotavam das costas e dos braços. Das mulheres e dos homens a quem amou. Recordou as estrelas, as colinas, o ar quente da noite. E os jogos. As dívidas, os estiletes. O sangue. O mergulho. A miséria.

Viver. Sobreviver.

Desculpa, meu amigo.

Subiu na carroça uma vez mais. Com a única certeza de futuro diante de si, encolheu-se, sucumbindo ao frio das gotas que, enfim, amainavam. Me ajuda, baio velho, ainda temos lenha para queimar, disse, lutando contra a resignação, balançando as rédeas novamente, como sempre fazia. Como sempre fizera por anos e anos.

Com um relincho leve o cavalo pôs-se em marcha. Lento, resoluto, cadenciado.

É só a chuva, disse a si mesmo.

Só a chuva.

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.