EntreContos

Detox Literário.

A Escolha de Noninha (Jornalista)

Ao completar meio século de vida, recebi como presente uma missão no mínimo curiosa: ir atrás de dicas para envelhecer bem. Sim, meu chefe ousou me passar a inusitada tarefa sob o som de estampidos de lacres de cervejas e brindes calorosos misturados a piadas politicamente incorretas. Ali mesmo, na mesa do boteco onde estávamos, funcionários e chefia, todos reunidos para comemorar o meu aniversário. Achei a proposta um tanto ofensiva, como se fosse urgente a busca por atenuantes dos efeitos da velhice. Da minha velhice.

Passada a ressaca física e emocional, fui atrás de possíveis fontes de conhecimento que pudessem me esclarecer quanto à possibilidade de retardar o envelhecimento. 

Marquei consulta com um famoso geriatra que, depois de uma longa e caríssima entrevista sobre os pormenores da minha vida – desde o berço até aquele momento em que me encontrava sentada em uma cadeira cara, mas desconfortável para meus ossos já supostamente envelhecidos – dignou-se a passar os seus conselhos profissionais.

– Faça exames clínicos a cada trimestre, alimente-se com moderação e de forma saudável, pratique atividades físicas, evite o stress e procure dormir bem.

Quando achei que ele havia terminado de listar suas recomendações nada originais, o célebre doutor continuou a elencar dicas valiosas, revelando uma dicção de locutor aposentado. 

 – Além disso, você pode fazer alguns exames complementares e realizar procedimentos específicos, e também tomar vitaminas e nutrientes vitalizadores. 

Eu, que já estava com meio corpo fora do assento, levantando-me para agradecer sei lá o quê, aterrizei novamente na cadeira e esperei por longos minutos o médico transferir sua sabedoria medicinal para o bloco de receitas. 

– É tudo bastante simples. Basta ter disciplina e seguir o plano certo para uma longevidade funcional.

Sorri e agradeci a atenção, mesmo sabendo que Carlos Henrique, meu chefe, iria me comer o fígado por ter gasto uma fortuna com aquela consulta. 

Saí do consultório um pouco mais velha do que entrei. Despedi-me da recepcionista com um aceno e fui direto para o hall dos elevadores, ainda com o calhamaço de receitas nas mãos. O volume de papel pareceu-me mais pesado à medida em que o elevador descia ao térreo. Assim que alcancei o saguão do sofisticado edifício, encontrei um par de lixeiras camufladas em um canto, mas devidamente nomeadas. Escolhi a de lixo limpo, pois afinal sou uma cidadã consciente e recicladora. 

Por uma dessas coincidências que só cabem em minha vida, assim que pus os pés na calçada, encontrei uma amiga dos tempos de faculdade. Demorei um pouco a reconhecê-la, tonta entre os seus gritinhos de entusiasmo. Fiquei confusa diante do que me pareceu uma aparência modificada de forma precisa e atualizada com uma certa frequência.  

– Menina, quanto tempo! 

Por uma contradição de raciocínio, acabei me sentindo acalentada por aquele abraço. Primeiro, porque ela havia me chamado de “menina”, depois, por ter se lembrado de mim após décadas sem me ver. Era boa a sensação de poder enfim relaxar, sem ter que me transformar em alguém estranho a mim mesma. 

Animadas com o súbito reencontro, fomos tomar um café, que virou dois, ou talvez três. Quem estava contando além do garçom? Gabriela gesticulava de forma bem efusiva, empurrando os biscoitinhos polvilhados com açúcar e canela para a beira do pires, como se expulsasse algum vírus perigoso. 

– Sabe como é, né, amiga, depois de uma certa idade, temos de cortar as calorias.  

Mas se a idade era “certa”, por que cortar o lado mais doce?

– Ainda mais agora que chegamos aos cinquentinha. – Completei o raciocínio de Gabriela procurando manter um tom bem-humorado.  

Gabriela arregalou os olhos, surpresa com o meu descaramento.

– Fale por você, querida. Eu acabo de completar 45, e não vejo a hora de voltar aos 42 anos no ano que vem. 

Ela não só estava usando a fórmula batida de decrescer o processo etário, como estava dando pulos para trás na tentativa vã de resgatar um passado sem rugas. Achei até graça do esforço persistente, embora vão, de ostentar o frescor da juventude. Depois, pensei que tudo aquilo era ainda mais triste, pois a contagem regressiva era real, mas do tempo que ainda lhe restava de vida. 

Nas semanas seguintes, consultei profissionais de várias áreas para abranger todos os pontos possíveis relacionados ao envelhecimento. Entrevistei padres, pastores, dois rabinos e até um pai-de-santo. Conversei com profissionais liberais, artistas e donas-de-casa. Ouvi gente solteira, viúvas tristes, e outras muito alegres. Participei de rodas da terceira idade que se referiam à velhice como “melhor idade”. Melhor idade? Depois da maioridade, só vi boletos e responsabilidade. 

Recorri ainda a filósofos, a magos, a alquimistas de dores alheias. Demonstrei interesse pelos revezes e até pelos risos dos palhaços de outrora. Vigiei minhas palavras para não espantar os velhinhos como um bando de pombas. Indaguei sobre o peso dos anos e os benefícios da sabedoria. Eram tantas histórias, alegres e tristes, que falavam de asilos, doenças, abandonos, silêncios contidos, aventuras reveladas. Eu já não me sentia capaz de reproduzir em palavras o curso fluente daquele rio de memórias. Alguns dos entrevistados disseram que também havia o lado bom de envelhecer, mas já não lembravam qual era.  

Durante a pesquisa, deparei-me com pessoas beirando a insanidade, que acreditavam deter o segredo da eterna juventude, enquanto tentavam me convencer que a Terra é plana. Mas logo se esquivavam quando surgia a proposta de uma conversa franca sobre os anos finais de amadurecimento, o temido intervalo entre o tudo e o nada.  

Acumulei material suficiente para escrever um livro, talvez de autoajuda, ou quem sabe um manual de coach da terceira idade. Assustada com a avalanche de informações, resolvi ser o mais objetiva possível e tentar encontrar uma forma de resumir tudo o que havia apreendido durante o meu trabalho investigativo. 

Consegui, depois de muitas horas de trabalho, listar os fatores que levariam a um envelhecer mais saudável e digno. Hesitei em começar a escrever a matéria sem antes sujeitar os dados obtidos à análise de alguém capacitado para filtrar a informação realmente significativa entre tantos pormenores científicos e meros palpites. 

Depois de muito refletir, decidi procurar a pessoa que sempre me pareceu ter uma postura coerente diante dos obstáculos, e ainda assim transpirar sabedoria e leveza.  

A resposta estaria com ela. A mais sábia.   

Isabella Maria Donatti, a matriarca, já era uma senhora quando eu nasci. Existem documentos e fotografias comprovando sua identidade longínqua. Dona de enormes olhos esverdeados que a idade recobriu com uma película de tom lilás. Catarata, talvez. Ou licença poética do tempo, por que não? Os cabelos bem tratados, mais finos e ralos a cada ano, ligeiramente arroxeados por uma tintura que só ela conhecia a medida exata da mistura de tons. Sua arte secreta, misteriosa alquimia que parecia diverti-la imensamente.  

Noninha, como é ainda chamada por todos, sempre foi a tia do cabelo roxo que, sempre sorridente, expunha a intimidade dos sobrinhos e netos nas rodinhas familiares. Tia querida e madrinha de minha mãe, Dona Bella parece não se cansar de trocar receitas e anedotas. 

Há boatos, que circulam entre os álbuns de família e porta-retratos delatores, sobre as peripécias da vida de Dona Isabella. Noninha não tem papas na língua, nem mesmo se preocupa com a sua reputação. Era livre antes mesmo de todas as mulheres começarem a sonhar com a liberdade. Autêntica, irreverente, sem se preocupar em seguir a moda ou fazer graça para ser aceita pela sociedade. Noninha ainda se finge de sonsa quando lhe perguntam sobre as aventuras da juventude. Muda de assunto e sorri com os olhos, como se guardasse segredos, talvez inconfessáveis, para si mesma. 

Fui, então, visitar Dona Bella, a querida Noninha. Conversamos sobre os tempos, idos e vindos, e finalmente falei sobre a minha reportagem. Ela pareceu interessada, dizendo que o assunto lhe era um bocado familiar.

Animada com a recepção calorosa, peguei minhas anotações e, sem cerimônias, li tudo de uma só vez, tomando folego aqui e ali, despejando todos os conselhos que havia recebido durante as últimas semanas nos seus ouvidos atentos.

– Não se descuide. Mantenha a autoestima. Sorria sempre, mas de forma contida, para não acentuar ainda mais as rugas. Ou aplique Botox. Recorra aos ácidos, aos cremes, aos deuses. Talvez seja a hora de uma plástica? Coma bem, mas pouco, e a cada dia, coma menos. Prefira dormir. Evite o estresse. Faça exercícios regularmente. Não fume. Nem mesmo aquele cigarrinho dito mais natural. Não beba. Bem, talvez uma taça de vinho por dia seja até aconselhável. Vinho tinto por causa dos… sei lá, mas tem que ser tinto.  Mantenha uma atitude positiva e a coluna ereta. Fique atenta à quantidade daquilo que come. Você é o que come. Seja flor. Coma brócolis. Tenha boas relações sociais. Deixe-se acompanhar por gente alegre. Proteja a pele dos raios solares que podem ser muito nocivos. E como já orientava alguém na voz de Pedro Bial: Por favor, use protetor solar. Durma bem. Não só precisa dormir, mas tem que dormir bem. Busque o conforto na religião. Tenha fé, irmã. Desenvolva atividades que ajudem a manter o cérebro ativo: faça palavras-cruzadas, crochê, toque um instrumento musical, aprenda um idioma, leia, jogue no computador, faça artesanato e socialize. Ninguém é uma ilha. E quando esquecer de algo, anote o que esqueceu para não se esquecer de novo. Se achar isso muito complicado, esqueça. Esteja a par do que acontece no mundo. Ignore a parte podre das notícias. Melhor nem ler jornal. Nem veja TV. Esqueça o mundo. Movimente-se apesar das limitações – lave o carro, cuide da casa, suba escadas, faça compras a pé. Abra-se para o amor, mas prefira adotar um cão a um companheiro senil. Proteja o coração, comece com uma pequena oração. De todos os nãos, faça uma nova canção. Ou o que parece mais seguro: não tenha mais um coração.  Mantenha o bom humor. Ria de tudo, de todos, até de si mesma. Seja independente, mas aceite ajuda quando necessário. Poupe dinheiro para os dias mais difíceis. Mas não acredite que eles virão. Memorize senhas. Decore frases que façam lembrar dessas senhas. Melhor ainda, não use senhas. Percorra o caminho de Santiago a pé, de bengala, ou mesmo de andador. Se não der, descanse a curiosidade no mouse do computador. Não exagere na carne vermelha. Não coma carne vermelha. Não coma carne. Beba água, beba mais água. Já bebeu água? Corte o açúcar. Corte a lactose. Corte o glúten. Mas não corte os pulsos. Saiba a hora de parar, mas continue a nadar. Pesquise o seu DNA. Descubra o histórico familiar de doenças e esqueça. É tudo bobagem mesmo. Guarde as boas lembranças no coração. Se for cardíaca, subloque o porão das memórias. Seja sensata. Tenha metas, mas evite os riscos. Tema as metas. Evite o stress. Stress ou estresse? Evite revisores chatos. Não se aborreça à toa, nem comigo, nem com ninguém. Evite tomar garoa, mas beba água. Muita água. E passe protetor solar. 

Respirei fundo para recuperando o fôlego. Então, olhei para Noninha, tentando decifrar alguma reação em seu rosto. Nada. Ela apenas ouviu meu surto verborrágico, sem me interromper uma única vez. A atenção retida, a respiração contida.  

– O que acha, Noninha?

Ela ajeitou-se na poltrona, pousou as mãos sobre as minhas com carinho e piscou um olho, que no momento julguei ser uma ametista.

– No meu tempo, as coisas eram diferentes.

Não me dei por satisfeita com aquela resposta evasiva. Minha intuição de jornalista me levava a crer que Noninha sabia muito mais do que queria revelar.  

– Mas a senhora está tão bem aos…99 anos? É isso? Pois então, está aí inteirona, lúcida e mais feliz do que muita gente. Qual desses conselhos acha que devo seguir? O que devo escolher para ter uma velhice como a sua?

Ela balançou ligeiramente a cabeça e sorriu. Um sorriso de quem não tinha nada a perder, nem tempo, nem dentes, e respondeu quase em um sussurro.

– Eu escolhi viver.   

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.