EntreContos

Detox Literário.

Lentamente (Raio)

─ Lá vem ele, falou rindo e abrindo os braços. 

O netinho de onze anos não se fez de rogado e partiu para cima dele com o mesmo gesto festivo. 

─ Oi vovô Theo, gritou. 

Ele ficou em dúvida se continuava como estava ou colocava as duas mãos nos respectivos ouvidos. O pai, atrás, confirmava no gesto. 

─ Calma, abraçando, levantando-o e jogando, parcialmente, para o alto (supino de sessenta e agachamento de oitenta facilita) com olhar feliz dele e alegria contagiante. – Tudo bem, filho?! Abraçando. 

O garoto aprovou, porque fez o mesmo nos dois como se fizesse parte da mesma idade e irmandade. O avô soltou e o menino saiu correndo, antecipando o grito antes de chegar na cozinha.

─ Oi vovó Miriam. 

Parcialmente assustada, riu e abriu os braços. 

─ E a Lindinha!? 

Ele abraçou mais um pouco, desfez e deu de ombros para o assunto. Ela sorriu mais um pouco, mediante a comprovação dos certos ciúmes que todos conhecem, mas respondeu, prontamente e com detalhes. 

─ A mamãe foi comprar no shopping um vestido para ela ir “na” festa com a gente. Na festa vovó, a senhora não vai?!

─ Não estou sabendo de nada, Vitinho. 

─ A festa do meu amigo da escola, meu melhor amigo, confirmando com a cabeça. 

Não deu tempo porque ouviu o marido gritar. Foi até a porta e o viu, como sempre, ajoelhado e braços abertos, com toda a alegria possível. 

─ Minha Linda, lindinha do vovô. 

E a menina, sete aninhos, uma graça, antes de chegar até ele, girou duas vezes, segurando a barra do vestido, florido, parando e chegando aos poucos, salientando o cuidado que ele deveria ter em abraçar. Ele o fez, fingindo apertar e piscando para o filho. A nora, da porta da sala, mesmo antes de entrar, mesmo carinho no olhar. A pequena mais do que satisfeita. Ele continuou assim até que a pequena passou a mão nos seus cabelos grisalhos, ainda fartos, desmanchando. Ele adora quando ela o faz, diferente com respeito a qualquer outro ser humano. E, lentamente, arrumou. Ela desfez e mais duas dessa visita inusitada e pronto. Ele largou. Ela pegou na sua mão direita e foi puxando por ele. Parou um pouco, perto da nora, com olhos marejados e, discreta e amorosamente, fez a mão esquerda deslizar pelo seu rosto, com o lado externo deles, lentamente, comprovando o quanto a admira e respeita. O filho sabe como é isso. Lembranças e saudades comprovam em cada segundo do seu pensamento. 

─ Chega, vô. 

Afirmou com ênfase ao verificar uma atenção maior para a mãe e a irmã. A avó esperou a menina chegar e fez festa e ele apreensivo. 

─ Chega, vó. 

Todos sorriram e ele não pestanejou em sentar-se à frente da televisão, ligar e desconsiderar a todos. 

***

─ Oi Zico, tudo bem?!

Chegou eufórico, como sempre na atividade normal do dia a dia que lhe parece estar sempre quente e em ebulição.

─ Tudo bem, Vitinho. Viu só o tanto de presente que eu ganhei, mostrando a enorme caixa, devidamente embalada em papel celofane, azul brilhante. ─ Vem, vamos…

─ Zico, filho, aonde você vai? Tem certeza de que todos os seus convidados já chegaram!?

A mãe, atenciosa nesse detalhe em atender primeiro ao pedido dele de convidar todos os colegas de classe e indo e voltando de deixar o pai, a mãe e a irmã na mesa já separada com outros dois casais e mais duas crianças. Na verdade, os adultos à mesa, porque a criançada já se colocou juntas, conhecidas ou não, no fundo do salão, onde o que não falta são brinquedos para todos os gostos. 

─ Tem razão, mãe. Oi, Ivete, já estão todos aqui?! 

A menina verificou nas duas folhas e dois somente faltantes. Atenção e esperou mais um pouco, não sem deixar o aflito do Vitinho partir para a farra. E dá-lhe cutucão, apertos, pequenos empurrões. 

─ Eles chegaram, o Vitinho percebeu e apontou. 

Duas senhoras e um casal. Foram apresentados e os dois riram da situação e depois se comportaram, na verdade com medo da descompostura da mãe. 

─ Viu só, confidenciando, o Farofa tem duas mães. 

─ Grande coisa. Vamos logo, eu quero aproveitar ao máximo, falou esperto. 

Passou pelos pais dando adeusinho e lá se foram os quatro para o fundo.

***

O celular tocou e ele atendeu:

─ Alô! 

Oi vô, não precisa gritar

─ Por que não, insistindo na prática. Rindo (a vingança do velhinho) sem som. 

─ Olha só, vô, deixa eu contar o que aconteceu na festa

Irritado com o segundo grito. 

─ O que eu posso fazer por você, provocou. (Eu acabo contigo hoje, estou com o pensamento em dia, agora à noite e durante toda a madrugada) ─ Pode falar, criatura.

Olha só, vô, se você vai ficar tirando sarro eu não falo mais nada. 

─ Será um prazer…. está bem, eu escuto. 

Então, na festa…, mas antes disso fala para a vovó que eu adorei a macarronada… estava uma delícia…desculpas por ter saído bravo da sua casa… vou poder voltar quando!? 

Ouviu a risadinha, sarcástica e avaliou, pensando: (essa criatura, esse moleque é mesmo danado)

─ Sua mãe está aí, não é, mandando você falar isso tudo!?

─ Acertou em cheio. Vamos no estado amanhã, quer dizer, quase hoje, são onze e meia e a minha mãe disse para eu ligar só amanhã…. mas sabe como é, quando eu estou disposto eu desobedeço…. e quando fico de castigo por ser desobediente….

Dá um tempo, você vai falar sobre a festa ou sobre você?! Calma, respira fundo. 

 Olha só vô, tinha carrinho, roda gigante de três metros de altura… para os menores, claro, porque eu e os meus amigos… sabia que eram vinte e cinco da minha classe, dez meninas e eu não me dou bem com duas delas, só porque são bonitinhas são bestinhas… sabe como são as mulheres… vô, você está aí, vô?!

Rindo a mas não se conter, segurando na boca para não emitir som, tirando a mão, lentamente, escondendo o rosto da tela e disparando em contraponto ao neto. 

─ Estou, claro que estou, não está ouvindo não eu tentar falar?! Tem um garoto que até nem respira. 

─ Pô, vô, tem horas que você é pior do que eu. 

Ele concordou somente com a cabeça e um largo sorriso.

Então, tinha os carrinhos de eletricidade na bunda, sabe, aqueles que ficam com uma chapa…. o bate-bate, sabe como é?! Bem, tinha balanço, estrutura de uma máquina de subir e despencar, maior legal, salgadinhos, bastante garçom e garçonete e a gente pegando de montão para comer. Minha mãe veio ver e foi embora logo, porque as crianças…. elas gritam para fazer qualquer negócio… então, vô, sabe…

Não, não sei não, você não me contou ainda…

─ …. o que?! Ah, deixa para lá…. eu fiquei muito feliz, nunca me diverti tanto, quer dizer, já é claro, no estado de futebol… 

─ No estádio…

…. também, com você e o papai… o estádio, já entendi…

─ … se entende, porque não fala certo, já está em idade de saber das coisas… (acabo contigo hoje, pestinha)…

─ … e já sei, já sei, estádio…. então, o bolo de aniversário era do nosso time, com trave, goleiro, três jogadores de cada lado… claro, né, o bolo era grande, enorme, mas não cabe todo mundo…. e cantaram os parabéns, ele ficou todo vermelho de vergonha e nós tiramos o maior sarro dele…. doze anos, vô, ele está ficando velho… daqui a dois meses o senhor vai ter um neto mais velho um ano… 

─ …. pronto, pronto, respira, está falando de vários assuntos ao mesmo tempo…. respirou?!

─ Desliga, desliga, vocês dois já estão há mais de meia hora conversando. 

Olhou para ela dando atenção um mínimo que seja para tentar reordenar o cérebro a pensar corretamente, o que há de mais valia. A esposa, queridíssima, companheira da sua velhice e o neto, companheirão da sua alegria ao tentar aborrecê-lo. 

─ Um instante só. 

Gritou de volta porque o garotinho estava berrando no celular, por ele.

─ Vô, vovô o que foi?! Fala comigo, olha só você só sabe me criticar… 

 Está vendo, Miriam, está escutando, não é? Já vou terminar. 

Achando graça na situação, já que não é a primeira e não será a última, até a condição do garotinho encontrar uma namorada e ter menos insistência com ele (eu não sei se me divirto mais com ele ou com ela) e, durante o pensamento, viu o celular mudar de mão. 

─ Vitinho, neto querido, chega por hoje, já são onze e quarenta e cinco minutos para ser exata e, se você e o seu avô não pararem com isso, vou ligar para a sua mãe, está me ouvindo?! Chega por hoje… vou desligar. 

Não, vó, olha só, só mais um minuto, um minutinho só para eu poder falar um assunto sério para o meu avô, por favor, estou implorando… mãe, já sei, vou desligar…

Está bem, então, um minutinho. 

Riu, mas afastou para o garotinho não ver, dois assuntos: o marido acompanhando na risada, dedões para cima concordando do fato de a nora ter surpreendido o meliante, teimoso como uma…(depois eu verifico quem e o que é), disputando e evitando do marido pegar, afastando-se da cama, onde ele fica estatelado. Outro assunto é que os dois têm sentimentos contrários ao que melhor aproveitar: ela corrigindo provas dos alunos, do período normal e do pessoal semianalfabeto do curso noturno. Prazer em ver e sentir o quanto eles se esforçam para melhorar a leitura e a compreensão de texto. Velhice deve ser igual à criança: brincar de aprender, de não se sentir sozinha, de poder participar da vida alheia, valendo fofocas, avisos de levar o guarda-chuva, tricô, crochê, pintar pano de prato para as feiras beneficentes. Nada melhor do que isso tudo para se sentir próspera, atuante e vencedora. 

Ele, alguns projetos na assessoria que faz como próspero engenheiro, arquiteto, com curso de filosofia para o gasto diário, como afirma e o faz suplantar a mulher no sentido de querer amar nos momentos mais inoportunos, tipo final de noite, após as deliberações com o neto. Não existe velhice tranquila.

─ Pronto, chega Miriam, passa que eu vou terminar. 

Disfarçando do riso, ficou sério e colocou o rosto para o menino ver. 

Então, vô, tudo bem aí com a sua namorada!!!… meio ciumenta não é não?!  

Afastou e o casal segurou a gargalhada com a provocação.

─ É sim, falou rápido. 

─ Sou mesma, seu pestinha. 

Puxou o celular e sacrificou o pouco de controle que tem sobre ele com a língua para fora. 

Aí, vó, gostei. Não vou fazer de volta porque a minha mãe está do meu lado, mas vou ficar devendo… e a risada, sonora, alegre, entusiástica sobrou para os dois lados. ─ Vem, Lindinha, manda um beijo para o vovô e a vovó. 

A pequena olhou um tempo, esnobando o fato, segurou nele e vendo do outro lado os dois dando adeusinho e beijinho. Desconsiderou e largou o aparelho que o irmão mantinha retido, mas fez um beicinho e saiu andando. 

─ Que mal educada… sabe vô, agora deixa eu perguntar o assunto…

Você tem dúvida que eu vá deixar?! Manda logo…

… que é o seguinte: o que você acha de mais importante que aconteça em sua vida na velhice… sabe, uma situação que considere boa, legal…

─ Tá, já entendi…. vejamos: que você e eu envelheça, lentamente…. é, lentamente…

Silêncio, vendo o garoto franzir a testa e finalmente, como sempre, um grito de vitória.

Entendi!!! Legal. Para a gente aproveitar a amizade mais tempo juntos… legal… chau vô, chau vó, um beijão. Boa noite!!! 

Desligou. Um tempo parado, emocionado. 

Retornou rápido à realidade. Jogou as provas para o lado, tirando da cama e puxando a sua Miriam adorada. Vai amá-la com todo o amor do mundo. Lentamente. 

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.