EntreContos

Detox Literário.

A Maldição dos Eternos (Ponce de León)

Nasci com uma condição rara, alguns chamam de doença, mas não acredito nisso, digamos que é apenas a vida tentando retornar seu curso. 

Hoje é meu octogésimo sexto aniversário, e tenho corpo de uma pessoa de oitenta e seis anos. Imagino que isso seria algo normal a centenas de anos atrás, mas hoje, no século XXXI, meu caso é algo único, ninguém havia envelhecido em mais de cinco séculos. 

Pelo que aprendi nas aulas de História e Sociedade Antiga, no século XXV, cientistas descobriram como alterar o genoma humano e reverter a oxidação e envelhecimento das células. O processo recebeu o nome comercial de Gold Apple e era realizado quando a criança ainda estava no ventre da mãe. A alteração agia de forma ativa conforme o metabolismo se tornasse mais lento – por volta dos 24 anos -, estagnando completamente o envelhecimento e degeneração humana. 
Nas primeiras décadas o tratamento era acessível somente aos multimilionários e pessoas do alto escalão, porém, com o passar dos anos, a economia sentiu a necessidade de mais pessoas trabalhando e menos idosos sendo um “gasto morto” para o governo – essa fala é deles, não minha – , afinal, se as pessoas não envelhecem, não há necessidade de aposentadorias e teremos trabalhadores e consumidores ativos por tempo indeterminado.

Como forma de suprir esse mercado e buscando tirar proveito desse nicho de pessoas que não podiam pagar pelo “suco de maça” – apelido pelo qual ficou popularmente conhecido processo-, grandes corporações financiaram a alteração genética daqueles que não tinham condições, em troca, tornavam detentoras de todos seus direitos sociais e trabalhistas, até que o financiado conseguisse pagar o procedimento realizado. Essa situação de trabalho escravo “consensual”, levava em sua maioria mais de cem anos de trabalho para ser sanada. Muitos cometiam suicídio antes disso.

Em pouco tempo quase toda população já possuía em seu DNA o fator de não envelhecimento, a partir da terceira geração geneticamente alterada, essa condição já era passada de pai para filho, sem a necessidade da intervenção humana.
Levou menos de 500 anos, desde a criação da Gold Apple, para que o último ser humano idoso morresse. 

Como forma de controle populacional o governo estabeleceu que todo recém-nascido fosse feito estéril, só casais que cumprissem metas de trabalho, que beiravam o impossível, ganhariam direito de ter um único filho, que nasceria através de inseminação artificial, conforme data e condições pré dispostas pelo Estado.

Com o tempo, a imagem da pessoa idosa, porém, sabia, foi se apagando da sociedade. Todos possuíam a mesma idade, independentemente de serem pais, filhos, avós ou bisavós, todos possuíam 30 e poucos anos.

Não preciso me esforçar muito para explicar o quão espantoso foi quando cheguei ao quadragésimo aniversário e segui envelhecendo. Fiz exames e testes da mais variada estirpe, nenhum resultado apresentava nenhuma explicação válida entre a diferença de minha existência e a dos demais, a não ser as rugas e os fios brancos que surgiam novos a cada ano que passava.

Não pense você que sou desses caras que gosta de ser visto, pelo contrário, sempre preferi estar à sombra dos acontecimentos, e fiz tudo para permanecer assim, mas é impossível passar desapercebido quando seu rosto é o único que mostra através de sulcos na pele a história que você viveu até ali.

Fui capa de todas revistas na época. Tanto publicações holográficas, quanto de redes neurais, faziam questão de dar close nas rugas que me adornavam o sorriso.
Custei muito a entender porque eu os interessava tanto; pobre homem, destinado a envelhecer até morrer, o corpo cada vez mais frágil, o andar cada vez mais lento, o contador de minutos ligado desde que nasceu, esperando a hora de dar o sinal e desligar.

Pelo menos foi isso que pensei durante muito tempo, achei que tinham pena, quando na verdade, eles eram dignos de enternecimento, não eu. 

Esqueci que um dia, pensei ser como eles e minha existência também era sem sentido. Quando não se tem pressa da vida, tudo o que você realmente gostaria de viver fica para amanhã. E apesar de você ter a eternidade pela frente, esse amanhã nunca chega.

Com o tempo seus pais, irmãos, filhos, não fazem diferença entre si, todos vivenciam as mesmas coisas, vivem da mesma forma, possuem o mesmo estilo de vida, tem a mesma idade aparente. Todos iguais. Cada dia é só mais um dia de trabalho.

Um corpo tão jovem quanto o seu, não consegue traduzir a vida que tem ali por trás; Olhos que não envelhecem, não falam das belezas que enxergaram; Pernas resistentes não sabem dizer com sinceridade o caminho que fizeram até ali; E um rosto sem marcas, nunca contará boas histórias.

Durante muito tempo me julguei amaldiçoado por envelhecer, mas hoje, na reta final de meu caminho aqui, percebo que amaldiçoados são eles. Por ter a maldição dos eternos, e não envelhecer, nunca saberão a felicidade que esta no sabor agridoce de se viver de verdade.  

  — Muito Obrigado Sr. León por sua entrevista. Em nome do site Entre Contos gostaríamos de ressaltar que nos sentimos lisonjeados por ter aceitado nosso convite. Assumo, que antes de conhecê-lo, desconfiava de certo “exagero” das línguas que lhe falavam respeito. Mas devo admitir que nunca estive em presença de alguém tão vivido e de alma tão jovem, quanto o Sr. 

 

Ponce de León morreu poucos dias após a entrevista. Nosso site ganhou muita notoriedade com a publicação e subimos de C2 para B1 no ranking em nosso sistema solar. A morte de León foi o maior destaque já visto na mídia, sendo noticiada em todo universo observável. Somente nosso entrevistador e os amigos mais próximos obtiveram a honra de presenciar a sua despedida.  Encerro nosso artigo especial sobre as comemorações de 100 anos do Dia de León, com a fala de nosso repórter, nas linhas finais do Neurolivro Bibliholográfico A Maldição do Eternos.

“ …e quando o brilho em seu olhar se apagou, tendo a partida como seu único caminho, um sorriso sincero lhe estampou o rosto, mostrando que até ali, na morte, foi mais vivo, do que qualquer eterno, jamais poderia ser.”   

 

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.