EntreContos

Detox Literário.

A vizinha (Sopro)

Ela tinha cabelos longos. Estava sempre com uma xícara de café, parada no alpendre. Eu ouvia conversas e risadas vindas de sua casa, embora não houvesse movimento. Pela noite, a vitrola ressoava alto. Sombras de dança.

Foi quando eu passei por ali, ali pela frente, voltando da padaria com meu maço. Mendigos mexiam o lixo do sobrado. Pegavam tudo o mais depressa possível temendo que alguém aparecesse. A impressão que era de que um jantar quase inteiro fora desperdiçado.

Esperei que fossem embora e passei pelos detritos. O sol batia quente e já era possível ver os primeiros insetos se aproximando. Um brilho explodia embaixo de um papelão. Abaixei e puxei, era uma bandeja de prata amarrada em alguns papéis. O reflexo amarelo flutuava bêbado pela fachada da casa. Uma das cortinas da frente se mexeu e, assombrado, fui embora.

Em casa, limpei a bandeja com álcool, depois a deixei separada junto aos papéis, para que secassem. Horas depois, retornei aos objetos. Meu interesse maior era em uma espécie de livreto, agora ressecado, cheio de manchas e borrões. Era um catálogo de produtos populares: eletrodomésticos, móveis e quinquilharias. Na últimas páginas havia uma seção intitulada “Discos para a Família”.

Observei marcações à caneta, alguns discos circulados, outros marcados com um X como se alguém os escolhesse. Enquanto folheava, uma frase escrita à caneta vermelha no rodapé de uma das páginas me chamou a atenção: “Eu só quero que você me ame”. Parecia ter sido escrita por alguém que tremia muito. Anoitecia.

Tomei um banho e fui para um quiosque qualquer. Havia um aconchegante: a iluminação vermelha e fraca subia como um véu revestido pela fumaça dos incensos. Um lugar esotérico. Acendi um cigarro e caminhei pelas mesas. Bebi várias doses e perdi a noção do tempo. Uma moça com uma mecha rosa no cabelo chamou minha atenção, mas estava acompanhada. Solitário, peguei o caminho de casa.

A bebedeira deixou meus passos pesados, me perdi pela vila. Comecei a cantar, embriagado e sem rumo. Por sorte, desemboquei na minha rua. O sobrado da vizinha projetava uma sombra: faca apontando para o asfalto. Apertei o passo evitando encarar o local.

Acordei ressacado. Ainda era manhã, eu não tinha descansado o suficiente, e a casa da vizinha já cantava. Pela minha janela, via os muros cheios de musgo, a tinta branca descascada das estruturas. Nenhum movimento, exceto pelo jogo que o vento fazia com as cortinas. O volume alto das canções melancólicas perturbava. Era bom. Eram músicas como essas que todo mundo já ouviu em algum lugar, mas que ninguém consegue lembrar o nome.

Tomei um café e saí em passos rápidos na direção daquele sobrado. Bati na porta dela e nada. Após um momento, uma voz veio dos fundos da casa. “Já vaaaaaaaai”. Fiquei aguardando, ansioso.

Ela abriu e me encarou. Tinha os cabelos amarrados atrás do pescoço, olhos pretos e acolhedores. As bochechas formavam sombras circulares sob seu olhar. Nariz grande e pontiagudo, a testa escondia-se entre os fios suados da franja.

– Está querendo me pedir alguma coisa, garoto? – disse-me e deu uma risada.

– Na verdade, eu queria que…

Mas não tive coragem de reclamar.

– Ah, já entendi o que você quer – disse ela, antes de subir as escadas.

Então o som foi diminuindo aos poucos até sumir. “Estava muito alto, né? Desculpa, eu me esqueço da vida quando escuto essas músicas. Me esqueço da vida em absoluto”.

Agradeci e esperei que ela me mandasse embora. Algo me mantinha parado ali. Elogiei seu bom gosto cantarolando o trecho de uma canção recorrente: “Praia branca, tristeza, mar sem fim…”.

– Você é muito gentil.

Então me convidou para entrar.

– É tão novo para conhecer essas músicas… – ela emendou.

– Na verdade eu não conheço. Mas você ouve tanto essa que eu meio que decorei uns trechos.

– É da Elizeth Cardoso.

– Conheço só de nome.

O corpo da mulher exalava um aroma familiar. Cheiro de roupa guardada por muito tempo, como as minhas. Pediu-me para aguardar na sala enquanto preparava um café na cozinha. Voltou com duas xícaras em uma bandeja, colocou uma delas à minha frente, na mesinha de centro.

– Açúcar ou adoçante?

– Açúcar, por favor.

Bebemos em silêncio. Ela levou a bandeja com as xícaras vazias. Algo estourou no chão. Levantei para auxiliar no que fosse. A mulher estava agachada, e pude notar a parte de cima de seus seios. Agachei ao seu lado, ajudando-a na caçada aos caquinhos.

– Você é bem bonitinho, sabia? – ela disse.

Meus joelhos fraquejaram e me inclinei para frente. Ficamos bem próximos. A cada vidro retirado, por vezes, nossas mãos se tocavam. Foi quando ela disse.

– Eu tenho sessenta e um anos.

– Parece bem mais nova.

– Você desvia o olhar, hein?

– Eu não estou olhando nada.

– Está sim. Mas você finge não olhar. Sabe por quê? Porque eu sou velha, certo? E você acha que me deve respeito…

Fiquei sem reação.

– Você olha pra mim nessa roupa, o que você acha que eu sou? Acha que eu não posso gostar de música, que eu sou uma velha antiquada.

– Não, eu não pensei nada disso – respondi.

– Não pensou, mas sentiu!

– Eu…

– Você acha o quê? Que eu não posso gostar de música? Deve achar também que eu não tenho vontade de fazer sexo!

– Mas…

– Ora! Pergunta pra sua mãe se ela não gosta de sexo. Não é porque eu passei dos sessenta que eu não sinto vontade de foder. De foder, é! Isso mesmo que você ouviu! De sentir um pinto dentro de mim. Até a sua avó gosta de pinto, se quer saber! Você quer olhar isso aqui? Então olha!

Tirou a blusa e beijou a minha boca. Nos entrelaçamos, cada pedaço do corpo, e fomos agarrados até um cômodo minúsculo. Comecei a cheirar seu corpo todo. Ela me colocou deitado no chão, então desceu as calças até os joelhos, puxou meu pinto para fora com avidez e depois sentou por cima de mim. Suava e ofegava, deslizava as mãos nos azulejos. Depois de um grito, caiu ao meu lado. Fiquei ali, beijando-a e me masturbando até gozar em seu quadril.

Ela se levantou e subiu as escadas. Depois de me recompor, ouvi barulho de chuveiro. Ajeitei meu cabelo no espelho, lavei o rosto e voltei para casa. Tentei relaxar, ler alguma coisa, mas não conseguia manter a concentração, o cheiro da vizinha, por vezes, passeava pelo meu nariz, e então o gosto bom e amargo daquela boca voltava.

No dia seguinte, fiquei todo o tempo sentado no sofá, à frente da janela que dava vista à casa dela. Lia o jornal e tomava café, cheirava o sexo ainda presente nos dedos, aguardando por alguma movimentação. Fiquei pensando sobre o fato da minha avó gostar de pinto, minha bisavó gostar de pinto ou boceta ou quem sabe os dois juntos. “Que sujeitinha incrível!”.

Sai das divagações quando dei de cara com o apresentador do programa policial gritando e rindo ao mesmo tempo. Uma situação deprimente. O vento entrava gelado, com um cheiro bom, resolvi dar uma caminhada. O quiosque estava vazio, somente alguns casais. Peguei uma mesa e pedi somente uma cerveja para relaxar. Observava a praia, alguns cachorros faziam uma farra. O céu estava rosado e expandia-se por tudo. Paguei a bebida e caminhei por um tempo, mas eu estava realmente inquieto e resolvi voltar.

Lá estava o sobrado da vizinha me desafiando novamente, projetando-se à rua como um convite obscuro. Ao contrário das outras vezes, passeei lentamente pelo breu. Então senti cheiro de cigarro vindo de algum lugar.

Subi a escadinha de madeira do alpendre, ouvindo estalos. A cheiro da fumaça tornava-se mais forte e queimava meus olhos. Apalpei o braço do sofá velho que ali era mantido há tempos, corri as mãos pela superfície. Estava vazio, sentei-me. A nicotina fantasmal caminhando ao meu redor. Senti algo me tocar. Sai do sofá e subi na cerca de madeira que dava para a calçada, saltei e trotei para casa. Logo que entrei, uma música alta ressoava:

“Praia branca, tristeza, mar sem fim

Lua nova, mulher, pobre de mim”.

Dessa vez não foram somente as canções. Vozes, vozes que já me eram até familiares, de homens e de mulheres, gritos e risos de crianças. Algo muito esquisito.

Dormi bem pouco, o barulho intermediava meus sonhos e me confundia. Busquei um afastamento mental ao me masturbar, mas o gosto da vizinha volta e meia mordia minha língua. Me senti um idiota. Voltei a observar o sobrado por trás das cortinas semi abertas. Uma luz azulada brotava de um dos cômodos. Aquilo me hipnotizou. Foi quando me peguei marchando de forma robótica na direção do sobrado.

No alpendre não havia mais sofá e a porta estava entreaberta. Preocupado, bati algumas vezes, mas ninguém aparecia. Não esperei mais e entrei. Tudo estava vazio. Era como se tivessem saqueado a casa, deixando apenas alguns pertences esquecidos pelo chão.

Passei pela cozinha, não havia geladeira ou fogão, apenas a mesa, comidas e panelas espalhadas pela pia. Fui pelo corredor, observando outros cômodos, todos vazios.

Subi as escadas. A luz azulada vinha pela fresta da porta de um quarto fechado. Bati. “Quem é?”. “É o vizinho”. “Entra!”. Estava sentada em uma banqueta, fumava um cigarro iluminada pelas imagens mudas que vinham do tubo de uma TV.

Alguns homens carregavam um vaso no quintal enquanto o operador de câmera – um garoto que aparentava nove anos – oscilava entre filmar seu rosto e o resto da casa. As imagens passavam tremidas pela cozinha e pelos quartos, focando nos passantes do lugar: mulheres e garotinhas em vestidos de festa que desapareciam como vultos a cada frame.

Um close nas plantas espinhosas do jardim, os homens terminavam de mudar o vaso, espadas-de-são-jorge, alecrins… Após um corte, o vídeo apresentava a vizinha ao lado de um homem que segurava uma criança. Aparentavam estar na casa dos 40. A criança olhava de um para o outro, parecendo indecisa sobre em qual colo ficar. Parecendo feliz.

A vizinha pausou o vídeo. Pediu que me sentasse no chão, ao seu lado. Empunhou uma garrafa e passou para mim. Puxei a cortiça e dei um gole longo. A coisa era forte. Chacoalhei a cabeça e pigarreei.

– Beba mais, é o que sobrou.

– O que aconteceu?

– Nada de mais, garoto.

– Sua casa, sua casa está sem móveis, sem quase nada.

– Achei que não fosse notar.

– Está brincando?

– Herdei uma porção de dívidas. Acho que essa foi a forma de pagá-las. E só não me levaram porque nesse estado eu renderia alguns centavos.

– Você não é deste mundo!

– Já ouvi isso, muito.

– Quando entrei aqui e vi a casa assim… Senti um aperto.

– Pensou em quê?

– Achei que você tinha sumido também.

Ela me puxou. Ficamos nos encarando por um tempo. A vizinha tirou a blusa e comecei a cheirar e lamber seu corpo. Posicionei a mão no meio das suas pernas, e ela as fechou, pressionando as coxas contra os meus dedos. “Até os fantasmas gostam de foder”, ela disse.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.