Capítulo 1
Não teria problema algum. Já tivera incontáveis oportunidades, mas não havia ainda chegado a hora. Enquanto isso, planejava. Fazia isso desde pequena. Planejar. Era tudo o que fazia. Planos que nunca executava. Não podia. A mãe, como uma sombra opressora, vivia com seus olhos oniscientes fixos nela, esperando a tão profetizada encarnação do mal que revelaria o demônio que realmente era. Irene passou também a aguardar seu inevitável fim. Enquanto aguardava, planejava.
Teria que esperar que ele cochilasse, o que não demoraria mais do que meia hora. Era tão comovente esse desapego ingênuo do velho. Não sabia ainda que sua vida dependia da vontade dela, e que cada dia que passava, mais perto estava da morte. Enquanto isso, como um animal indefeso, que se esfrega na mão do seu carrasco, ele dorme em perfeita confiança diante dela, enquanto ela varre o chão de sua casa e tira o pó dos móveis com um pedaço de flanela.
Assim que fizesse algum tempo que o velho estivesse dormindo, calçaria suas luvas, pegaria uma faca, aquela de cabo de madeira, mais fina e comprida, que estivera afiando, e enfiaria com força e precisão entre a quarta e quinta costela do lado esquerdo do peito. Um golpe e tudo estaria acabado. Deixaria a faca lá, estancando o sangue. Tiraria as luvas e terminaria de organizar a casa. Sairia, trancaria a casa como sempre e iria para sua morada, no fim da rua. Demoraria dias para que alguém descobrisse.
Seu Pascoal se mexeu na poltrona e Irene voltou a atenção para a cristaleira. Pegava cada peça, sem uso desde a morte de dona Catarina, tirava o pó e a colocava no lugar.
O velho e a esposa eram muito apaixonados, pelo menos era o que parecia. Sempre juntos, gentis e carinhosos um com o outro, trocando pequenos gestos que para qualquer outro passariam despercebidos, como a mão pousada nas costas ao cruzarem a sala, o jeito como ele ajeitava o cabelo dela sem nem perceber, o riso baixo que dividiam por coisas bobas, quando passavam em frente à sua porta. Para ela, aquilo não era banal. Era raro. Era quase impossível.
Por isso, ela observava o casal. Ficava quieta, quase invisível, absorvendo cada detalhe, como se pudesse aprender ali uma língua que nunca lhe ensinaram. Às vezes, se pegava imaginando como seria ser tratada daquele jeito… com paciência, carinho. Eles eram, sem saber, o único exemplo de amor e cuidado que tivera na infância. O único que fazia o mundo parecer, ainda que por instantes, menos cruel.
A morte da velha a chocou, nunca havia lidado com aquilo antes, lembrava bem do dia do velório, a mãe fez questão que ela comparecesse, que visse um cadáver com os próprios olhos.
— É assim que uma pessoa fica depois de morta. — cochichou para a filha com um risinho mórbido.
Ela, ainda criança, com os olhos arregalados, viu dona Catarina no caixão, branca como uma vela e com a pele da textura da cera. O cheiro de flores a enjoava, mas o que mais a marcou foi o estado de seu Pascoal. Totalmente aniquilado.
Não houve despedida, nem aviso. Um infarto, seco e brutal, na cozinha. De pé diante da pia, talvez lavando uma xícara, talvez pensando em algo simples. O corpo simplesmente caiu tal qual uma manga madura do pé. Ele só ouviu o barulho surdo contra o chão. Quando chegou, já não havia nada a fazer. A vida tinha ido embora sem cerimônia, como se nunca tivesse estado ali.
Foi fascinante, no entanto, para ela ver como o velho se apagou, começou a ver muito de si nele, que assim como ela, era agora um morto vivo. Crescendo em seu peito, surgiu um tipo de felicidade estranha pelo sofrimento dele, se antes a felicidade a fascinava agora a sua miséria a confortava. Talvez, de forma inconsciente, tenha sido ali o momento que escolheu sua presa.
Balançou a cabeça para espantar seus devaneios e pegou uma taça de cristal, pesada, toda trabalhada, olhou para ela por um bom tempo, era linda. Poderia quebrá-la e fazer, com um caco bem afiado, um corte profundo e limpo, bem na jugular. Haveria sangue em abundância. Teria que ter mais cuidado com pegadas e respingos. Seria menos prático, mas muito mais impactante. Vermelho vivo, viscoso e quente, espalhando por toda a casa. Tentador.
Seu pai ficaria orgulhoso. Já sua mãe, se reviraria no túmulo, em êxtase de vidente, e se pudesse, rogaria mais uma praga, para que a alma da filha queimasse sete vezes mais no inferno. Irene sorriu com a ideia. Não a do inferno, mas de sua mãe, que, ao invés do merecido descanso, estivesse ainda obcecada por ela, inquirindo cada pensamento, sondando cada impulso ou vontade. Era justo que fizesse isso muito mais depois de morta, já que fizera a vida toda.
Não tinha uma lembrança da mãe sorrindo de verdade. Sempre o olhar decepcionado, a voz ríspida, o dedo apontado. Tinha certeza que as cantigas de ninar que a mãe cantava quando a embalava para dormir quando pequenina, se é que tenha feito isso realmente, eram maldições. Pelo que se lembrava, nunca havia recebido um abraço sequer da mãe. Com certeza não havia sido amamentada. A mãe teria horror a isso. Dona Olga devia tê-la dado para a adoção, ou até mesmo a afogado na banheira, como sempre dizia.
A primeira vez que a ouviu falar isso ainda estava gravada em sua mente. Tinha cinco anos. Dona Olga esfregava seu couro cabeludo com sabão em barra, a espuma caindo em seus olhos. Chorava baixinho. A mãe furiosa a arrastava até o chuveiro aberto e tirava toda a espuma.
— Você é fingida como seu pai. Que o diabo o carregue! Cala a boca, menina besta.
Continuava esfregando com força os cabelos finos demais, que viravam um emaranhado impossível de desembaraçar. Irene tentava não chorar, mas, em vão, lágrimas jorravam de seus olhos e soluços escapavam.
— Você é um demônio, igualzinha ao seu pai. Eu devia ter te afogado na banheira quando era muito pequena pra se defender.
E a imagem de um bebê tentando desesperadamente respirar dentro da água ficou presa em sua memória, e, vez ou outra, boiava até a superfície para aterrorizá-la. Nunca mais entrou em uma banheira. Nem quando estava sozinha.
Seu Pascoal parou de roncar por longos segundos, o silêncio chamando Irene de volta à realidade. Esperou atenta até que a respiração voltasse com um ronco barulhento.
“Esse velho ainda vai morrer dormindo e vou perder a minha chance!”
Terminou de limpar a casa, colocou as marmitas da semana, que havia preparado, e deixou esfriando, no congelador, e foi acordar o velho.
— Seu Pascoal… — cutucou o velho no ombro. — Já terminei, estou indo embora.
Ele acordou assustado, tentando lembrar onde estava. Quando se ambientou, sorriu para ela.
— Já vai, minha filha? Muito obrigado, não sei o que ia fazer se não fosse você. Deus te abençoe, você é um anjo.
Irene sorriu sem graça. Anjo. Demônios também eram anjos, só que caídos. Até que combinava bem.
— Semana que vem eu volto, não se preocupe.
Quando trancou a porta, já o ouvia ressonar novamente. Não teria dó nenhuma de matá-lo. Na verdade, estaria fazendo um favor. Que tipo de vida era aquela? Dormir na poltrona o dia todo. Depender de uma vizinha para ter a casa limpa e refeições decentes? Viver sozinho, sem a esposa que amava e sem nenhum filho que cuidasse de sua velhice. Isso não era jeito de viver.
E por que o ajudava? Por causa do acesso que teria a ele, podendo matá-lo quando quisesse. Quando estivesse pronta. Apertou o casaco no corpo tentando se proteger do vento frio, enquanto vencia os poucos metros até sua casa. Havia também a culpa, culpa pelo que ainda faria.
“Pai, se estiver ouvindo, me ajude a provar que posso. Que sou mesmo igual a você, um monstro, sem coração, sem esperança de salvação”. Rezava ao pai da terra, não ao do céu. Jamais tinha levantado um pensamento sequer ao céu.
— Demônios não têm o direito de falar com Deus — dizia dona Olga em qualquer oportunidade.
Capítulo 2
Chegou em casa, a mesma que viveu a vida toda com a mãe. Era uma casa antiga, de paredes amareladas pelo tempo, com rachaduras finas que serpenteavam como veias cansadas. O ar carregava um cheiro persistente de coisas guardadas: poeira, gordura antiga, um leve mofo que nunca ia embora, como se estivesse impregnado nos ossos da estrutura. Nada ali respirava frescor. Tudo parecia parado, suspenso em um tempo que se recusava a passar.
Os poucos móveis permaneciam exatamente onde sempre estiveram, pesados, escuros, com quinas duras e superfícies marcadas por anos de uso e descuido. Não teve coragem de mudar nada. Ela saberia, e a puniria, tinha certeza. Por isso, andava na própria casa de olhos baixos, nas sombras, como uma visitante indesejada, atenta a qualquer movimento dúbio, fora da rotina e do aceitável. Mas os pensamentos… Acreditava estarem livres de escrutínio. Fizera o teste. Se a mãe os podia ouvir, nunca revelou, não de uma forma minimamente aceitável.
— Eu sei o que está pensando, menina do diabo. Se pudesse levaria sua mente com sabão de cinza assim como lavo sua boca!
Mas se ela soubesse mesmo no que estava pensando, com certeza não a deixaria viva. A teria matado como se matavam as bruxas, devolvendo-as ao inferno.
Seu único divertimento era planejar. Havia planejado a morte da mãe de incontáveis formas, todas extremamente satisfatórias. Na verdade, não, gostava de imaginar finais, não o início, ou o meio… mas sim o fim. O instante exato em que a mãe deixaria de existir, e com ela, o peso constante que ocupava cada canto da casa, cada pensamento, cada respiração, cada trauma.
Em algumas dessas fantasias, não havia esforço. Ela simplesmente desaparecia. Sumia de dentro da própria existência como se nunca tivesse estado ali. Em outras, a justiça vinha disfarçada de destino. Algo maior, inevitável, tomava-a de forma súbita, quase impessoal. E Irene ficava ali, imóvel, observando, sem interferir. Apenas com uma maravilhosa sensação de equilíbrio, como se o mundo estivesse, enfim, corrigindo um erro antigo.
E claro, havia aquelas brutais, em que havia muito sangue, muitos gritos e desespero. Aquelas em que ela brincava com as peças desmontadas do corpo dela.
Seu pai teria adorado. Ele a entenderia. Costumava ansiar para que ele viesse resgatá-la da mãe. Mesmo que ele fosse tão mau como a mãe dizia, ela também era, não era? Eles deviam estar juntos. Seria bom que estivessem juntos. Mas agora que a mãe estava morta, esse pensamento vinha acompanhado de um medo novo, desconfortável. E se ele não fosse nada disso? E se fosse apenas um homem comum, gasto pelo tempo, sem força alguma? Alguém que também se curvava, que também tinha medo, que também fora esmagado pela mesma presença que a esmagava? Isso partiria seu coração. Preferia idealizar um homem realmente mau, que fizera a mãe sofrer muito, como ela merecia. Alguém que realmente justificasse tudo aquilo, que desse forma ao caos em que crescera.
Ouviu o zumbido de asas que sempre a deixava alerta, seguido do tec, tec, batendo no forro. Olhou para cima e viu o marimbondo, grande e marrom escuro, voando sobre ela.
— Mãe, eles vão me picar!
Se viu com pouco mais de três anos, aterrorizada, apontando para um deles.
— E deviam mesmo. Eles não fazem nenhum mal para pessoas boas, só para pessoas ruins, como você.
Eles haviam feito um ninho dentro do forro, e a menina havia implorado para que a mãe se livrasse deles, mas ela insistia em mantê-los.
— Eles vão te vigiar melhor do que eu. Saberão quando fizer uma coisa má e virão te punir.
E eles continuavam lá, sempre pairando sobre ela, como anjos vingadores. Ironicamente, nunca havia sido picada. Ainda.
O zumbido a tirou do devaneio. Admirou-se com a escuridão da sala. Olhou ao redor, para a poltrona de sua mãe, quase podia vê-la sentada lá. Carrancuda, murmurando impropérios, fazendo bicos de crochê nos panos de prato.
— Por que, mãe? O que eu fiz para a senhora me odiar tanto?
A pergunta escapou de sua boca antes que pudesse contê-la. Irene cobriu a boca em pânico. Fechou os olhos à espera do que viria. Mas só veio o silêncio. Pior do que o ódio é o desprezo.
Soltou o ar devagar, tentando controlar a respiração.
— Não pode responder, não é… Porque você está morta. Está morta e enterrada. Apodrecendo. Nem o inferno seria suficiente para você, sabia?
A poltrona vazia a incentivava a colocar para fora uma vida de dentes trincados, unhas cravadas nas palmas, suor escorrendo gelado pelas costas.
— Não pedi para vir a esse mundo, não a escolhi como mãe, não fiz nada que merecesse o seu ódio! Não tive culpa de nada!
Falava aos berros. Tremendo. Levantou do sofá duro, coberto com um plástico amarelado e grudento, e acendeu a luz. Precisava se acalmar, estava totalmente transtornada. Ainda esperava que algo horrível acontecesse, talvez sua mãe entrando pela porta da frente, coberta de lama, com a carne apodrecida, cheia de larvas, os cabelos ressecados, ainda firmemente presos no coque, as órbitas sem olhos, o nariz carcomido e a boca aberta em um grito eterno.
Não conseguia respirar. Puxava o ar em respirações curtas e rápidas. Correu para o quarto, trancou a porta, e se jogou na cama de solteiro que ficava ao lado de outra igual, que era da mãe. Ela apertou os olhos com força, tentando empurrar a imagem para fora da cabeça, mas já era tarde. A outra cama estava ali, intocada, sempre esteve, esticada com o mesmo rigor de anos, como se ainda repousasse um corpo. Mesmo ausente ela ainda podia ver.
Era sua visão desde a infância, a mãe deitada naquela cama com rigidez quase militar, mãos cruzadas sobre o peito ou apoiadas ao lado do corpo, como se até o descanso precisasse obedecer regras.
A imagem mudava, vinha os dias mais recentes, quando a doença começou a marcar presença, não com fragilidade como imaginou que aconteceria, mas dura e irritadiça. Ela nunca se rendia. O rosto contraído de dor, olhos atentos, julgando…controlando.
E então o último dia. Quando a única presença naquela cama eram os vestígios de suor e vômito. Estava morta, ela viu… ela tocou nas suas mãos geladas, fechou seus olhos frios, sentiu seu coração silencioso. Foi o momento mais sublime de sua vida. Ela estava morta, não haveria mais o que temer. Não é?
“Ela não pode entrar aqui, não pode. Ela está morta! Está morta! Está morta!” Repetia sem parar. “Pai, me ajuda, me ajuda, me ajuda.”
Não soube quando dormiu.
— Dorme com os olhos abertos, menina, porque o seu pai pode vir te buscar a qualquer momento e te levar para o inferno com ele.
E ela tão pequena ainda, cobria a cabeça com o cobertor e pedia em pensamento que o pai viesse logo, porque era inimaginável um lugar que fosse pior do que ao lado da mãe.
Quando acordou, os músculos doíam, retesados pela tensão constante, a cabeça pulsava, como se uma prensa a esmagasse de forma ritmada. Apenas mais um dia normal.
Capítulo 3
Ainda não havia se acostumado ao silêncio. Desde que a mãe morreu quase não falava com ninguém. Não tinha amigas. Antes tinha colegas de escola, que também não gostavam dela. Ninguém gostava. Cochichavam a seu respeito, pareciam saber mais sobre sua vida do que ela mesma. Mas o pior eram os olhares de piedade.
Quando terminou a escola, queria desesperadamente conseguir um emprego, quanto mais longe, melhor. Precisava juntar dinheiro para ser independente. Iria embora e jamais olharia para trás. Porém, a mãe tinha outros planos, e exigiu cuidado constante para suas dores imaginárias.
— Você precisa prestar para alguma coisa, afinal de contas!
Dona Olga nunca mais fez nada em casa, nem na cozinha. Tudo ficou ao seu cargo. No final, teve até que dar banho e trocar as fraldas da mãe, que parecia ter um prazer perverso em dar o máximo de trabalho que pudesse. Irene fazia tudo com o contentamento mórbido de presenciar o sofrimento da mãe. E quando as dores, que não eram tão imaginárias quanto pensara, aumentaram a um nível quase insuportável, foi a época mais feliz da vida de Irene. Ouvir os gemidos de agonia da mãe eram sua recompensa.
Sorriu com a lembrança. O café quente na xícara e o pão de forma torrado, coberto com manteiga, lhe davam uma sensação estranha de segurança e prazer. O som da chuva lá fora, enquanto ela estava protegida era reconfortante. Ainda estava aprendendo a estar em paz. Paz. Será que sabia realmente o que era estar em paz? Achava que jamais encontraria paz, talvez só quando seu pai enfim viesse buscá-la.
Será que ele existia de verdade? E se fosse mesmo um demônio? O que sua mãe fizera para que um demônio tivesse prestado atenção nela? Sempre tinha achado que sua mãe era daquele jeito por causa do que seu pai havia feito com ela, mas pensamento bem, talvez um demônio só reparasse nela por causa de como ela era, atraído pelo seu caráter odioso e perverso.
Balançou a cabeça espantando os pensamentos.
— Por que ela ainda ocupa todos os meus pensamentos?
— Eu preciso saber de tudo o que se passa nessa sua cabecinha de aberração, para te impedir de fazer qualquer mal, você não entende agora, mas estou tentando te livrar de ser o monstro que no fundo você nasceu para ser. — tirou o gatinho, que estava acariciando, de suas mãos.
Tinha só sete anos e estava feliz de ter encontrado um serzinho quente e macio que gostava de dar e receber carinho. Não entendeu na hora, mas agora entendia.
Pensou em seu Pascoal, tão gentil com ela, tão indefeso… Era um dia nublado, escuro, e o vento quase carregava o que encontrava na rua. Ela estava presa em casa com a mãe, atendendo cada capricho dela.
“Se eu fizesse uma coisa muito ruim mesmo, como será que ela reagiria? Mas teria que ser uma coisa horrível, como… matar alguém… isso! Ela com certeza surtaria!”
Uma euforia tomou conta de seu ser em antecipação.
“Mas quem? Teria que ser um alvo fácil, descomplicado… mas quem? Uma das filhas da dona Neusa? Não, como iria ficar sozinha com uma delas? Impossível. Talvez a dona Ivete, ela é velha e magra o suficiente, acho que eu poderia cortar o pescoço dela, e ainda teria o bônus dela ser a melhor amiga da mãe…”
Seus olhos brilhavam de expectativa.
“Mas… ela nunca ia me deixar em uma situação favorável. Jamais. Então, só poderia ser o seu Pascoal! Isso! Ele seria perfeito! Velho, indefeso, sozinho, e nunca imaginaria que eu pudesse matá-lo!”
E assim seu destino havia sido selado. Já haviam se passado vários anos. Matar alguém de fato era muito mais difícil do que apenas planejar. Quando a mãe morreu, ficou muito decepcionada consigo mesma, por ter demorado tanto a agir, perdendo a oportunidade de ver como ela reagiria. Mas talvez tivesse sido melhor assim, não ter dado à mãe o gosto de ver que sempre estivera certa. No entanto, prometeu para si mesma que um dia faria, custasse o quanto fosse. Teria coragem de matar o velho, justo quando a mãe não poderia ver, nem se vangloriar de ter previsto o quanto ela era má. O prazer que sentiu com esse pensamento foi ainda maior do que se tivesse esfregado na cara da mãe o sangue de seu Pascoal.
Seu pai a entenderia, com certeza. Imaginava como ele seria. Alto, forte e furioso.
“O que você fez com ela, pai? Espancou ela até a deixar desacordada? Torturou-a lentamente, por dias, meses e anos? Me colocou dentro dela contra a sua vontade? Fez ela te amar e partiu seu coração? Ou só a abandonou quando eu nasci? Talvez você não a suportava mais e foi embora… deveria ter me levado junto.”
Todas as possibilidades davam a Irene uma sensação de vingança pelo que havia sofrido. Talvez a mãe não merecesse na época o que lhe aconteceu, mas com certeza fez por merecer em todos os anos seguintes.
— Bem feito!
Falou em voz alta. Olhando para a escuridão da tarde que já a cercava. Mais um dia que havia perdido em divagações. Mais um dia de vida que sua mãe roubava dela. Mesmo depois de morta. Quando ela se libertaria? Quando fosse má o suficiente? Quando fizesse a alguém todo mal que sua mãe havia feito a ela?
Sua boca se abriu em choque. E se sua mãe só estivesse tentando se livrar de todo o mal que o seu pai havia feito a ela, maltratando o máximo que pudesse a filha dele? Mas que culpa ela teria? E que culpa seu Pascoal tinha? Alguém inocente sempre teria que sofrer.
Deixou que as lágrimas corressem livremente, afinal só conseguia dormir quando estava quase se afogando nelas.
Capítulo 4
Quando acordou, sua mãe estava sentada em sua cama. Não o cadáver putrefato que rondava suas fantasias, mas sua mãe de antes da doença.
— Enfim acordou! Não faz mais nada na vida além de dormir?
A voz que não ouvia há quase um ano a paralisou e o medo surreal de que esse ano sem a presença dela tivesse sido apenas um sonho e que na realidade ela ainda estaria viva e saudável, era insuportável.
— Não se preocupe, não ficarei muito tempo. Tenho mais o que fazer. Só queria te dar um recado.
Irene não conseguia se mexer, nem respirar. Tentava manter os fiapos de sanidade que ainda lhe restavam.
— Você não tinha coragem antes, e continua não tendo. Acho que no final das contas eu tenha me enganado sobre você. Está longe de ser como o seu pai. Parece mais comigo, que nunca tive coragem de fazer o que devia ter feito.
— Não! — conseguiu gritar.
Acordou assustada, suando, sentada na cama vazia, puxando o ar como se estivesse muito tempo debaixo d’água.
— Foi só um sonho. — repetiu até ter certeza.
Um sonho horrível, pior do que seus pesadelos monstruosos. Se fosse realmente como a mãe, preferia já estar morta. Precisava provar a ela que era diferente! Que podia matar qualquer humanidade que ainda vivesse nela. Precisava matar seu Pascoal. O quanto antes. De verdade. Sem planos. Sem desculpas. A hora era agora.
A certeza tomando conta de sua mente trouxe mais aflição do que o alívio que achou que sentiria. Antes era só um planejamento doentio e inocente, que não fazia mal a ninguém e lhe trazia um certo prazer, agora era uma enorme pressão sobre seus ombros. Mas não tinha escolha, precisava provar que não era como a mãe.
Será que tinha coragem? E se não tivesse? Teria que lidar com a verdade de ser apenas uma pessoa comum, injustiçada pelo mundo, pela vida, pela mãe. E seria definitivamente diferente do pai. Seu único apego, ainda que fosse imaginário. Isso seria insuportável.
Era então a hora do último planejamento, agora para valer. Iria acabar com a solidão do seu Pascoal e mandá-lo para os braços da sua amada esposa. Precisava ser rápido e indolor. Limpo e eficiente. O dia da semana em que o ajudava estava chegando. Agiria normalmente, como sempre. Sairia como se ele ainda estivesse vivo. Depois, torceria para que o encontrassem antes de sua próxima visita. Seria horrível ter que chamar a polícia, mesmo sendo uma ótima forma de não entrar para a lista de suspeitos.
Sentia calafrios só de pensar que havia chegado a hora. Sua mente entrava em conflito, ora em antecipação mórbida, ora em repulsa horrorizada. Andava como uma autômata, fazia as tarefas de casa, se alimentava e ia ao mercado, sem prestar atenção a nada, não conseguia lembrar de uma pessoa que havia encontrado, ou do que havia comido, ou se tinha tomado banho naquela semana. Queria que o dia chegasse rápido, mas também que demorasse séculos, só que, assim que finalmente marcamos uma data, o tempo corre até ela, por mais que tentemos impedir, e logo o grande dia amanheceu encontrando Irene desperta, sentada na cama, abraçando com força os joelhos e com os olhos arregalados.
“É hoje, filhinha! Como está se sentindo? Animada?”
Imaginava a sombra do pai sobre ela, a voz grave, o tom amoroso e encorajador.
— Sim. Animada.
Tentou sorrir.
“Não! Eu não quero fazer isso, eu não vou conseguir, não sou como você, sou como ela! Covarde!”
Ele não poderia ler seus pensamentos e sentimentos. Não queria desapontá-lo, nem a si mesma, nem a mãe. Queria provar que ela estava certa o tempo todo, que havia merecido todo o mal que tinha recebido, que a vida era justa, afinal. Justiça. Ela precisava desesperadamente de justiça.
Levantou da cama ainda ao amanhecer, mesmo que ainda faltassem horas para seu Pascoal estar esperando por ela. Lavou o rosto com água gelada, deixando que o choque a puxasse de volta para o corpo, e então ergueu os olhos para o espelho.
Os olhos vermelhos, fundos, denunciavam a noite mal dormida. A pele, pálida demais, quase translúcida sob a luz fraca. Os cabelos finos, esvoaçantes e opacos, exatamente como os da mãe, caíam sem vida sobre os ombros. O nariz grande, o queixo pontudo… talvez fossem do pai. Ou de algum outro rosto perdido na linhagem que nunca conhecera. Dona Olga nunca havia mencionado ninguém de sua família. Não sabia se tinha avós, tios ou tias. Sempre foram apenas as duas.
Não sabia quem era.
Nunca havia realmente pensado sobre isso antes, mas agora seria consolador ter conhecido outros familiares. Saber mais sobre suas próprias origens. O que teria acontecido com eles? Sua mãe os havia abandonado ou eles teriam fugido dela? Ela seria órfã? Fora criada por lobos? Podia ter simplesmente escapado do inferno carregando a filha do diabo no ventre. Era o que fazia mais sentido.
Talvez ninguém fosse inteiro. Talvez fosse só isso mesmo: pedaços. Fragmentos herdados, costurados sem cuidado. Um emaranhado de vozes antigas, de gestos repetidos, de inclinações que não escolheu. Às vezes tinha a sensação de que havia algo ali dentro, mais de um algo, disputando espaço, querendo subir à superfície, tomar o controle, dizer: sou eu.
Mas quem? Seu olhar desceu devagar.
O corpo, já de mulher, parecia não lhe pertencer por completo. Havia curvas onde antes havia ossos retos, suavidades que surgiram sem que ela pedisse. Os ombros eram estreitos, os braços delicados, o peito pequeno, quase tímido, como se ainda estivesse indeciso em existir. A cintura afinava e se abria em quadris discretos, um corpo que poderia ser considerado bonito ou ao menos suficiente.
Mas ela não conseguia enxergar assim.
Havia algo de errado em ocupar aquele espaço. Como se fosse um erro ter crescido. Como se não tivesse sido autorizada.
Em algumas noites, quando o silêncio da casa ficava insuportável demais, ela buscava alguma sensação que a puxasse de volta para si mesma. Um calor breve, um alívio qualquer, algo que provasse que ainda estava viva, que o corpo não era só um invólucro tenso e vigilante.
Podia sentir os olhos amaldiçoados de sua mãe a espreitando nas sombras. Dizendo que ela nunca teria o amor de ninguém. Que no máximo a usariam e descartariam como um trapo sujo.
Capítulo 5
Não conseguia comer nada. Só o cheiro do café esfriando na xícara revirava seu estômago. Olhou fixamente para os ponteiros do relógio contando cada segundo. Dona Olga estava sentada à sua direita e a sombra do pai à sua esquerda.
— Eu sabia que essa menina tinha o capeta no corpo.
“Minha menina! Estou tão orgulhoso de você!”
Irene tentou normalizar a respiração. Virou para a mãe e perguntou?
— Se a senhora tinha tanta certeza, por que não me afogou na banheira como sempre quis?
Olhou para o lado da sombra do pai.
— E se está tão orgulhoso de mim, por que nunca veio me buscar?
Voltou os olhos para o relógio.
— De qualquer forma, a minha… vida — riu histérica — teria sido muito melhor.
— Vão embora. Os dois. Eu preciso fazer isso sozinha.
Fechou os olhos e respirou profundamente. Queria poder se repartir ao meio, metade iria correndo se enfiar debaixo do cobertor e chorar até a morte, e a outra pegaria qualquer das facas que vivia afiando e cravaria no coração daquele velho, e de todos os vizinhos que encontrasse em seu caminho. Depois os esquartejaria e espalharia os pedaços pela cidade.
Sua cabeça começou a latejar, levantou e foi até o armário de remédios. Seria tão fácil acabar com esse dilema. Acabar com tudo. Pegou o que restou dos remédios da mãe, todos tarja preta. Olhou tanto tempo para eles que quando voltou a si, estava quase na hora de sair de casa. Colocou tudo de volta, pegou um analgésico, colocou na boca e mastigou o comprimido. O sabor amargo a jogando de volta à realidade. A hora havia chegado. Ela iria matar uma pessoa.
Vestiu uma calça jeans, camiseta e tênis, colocou um par de luvas de látex no bolso do casaco. Não se preocuparia com suas digitais pela casa toda, já que tinha um motivo justo para estarem lá, só não poderiam estar na faca. Usaria também uma faca que pegaria na cozinha de seu Pascoal, aquela que havia preparado cuidadosamente.
Olhou ao redor da casa fria, e nem os fantasmas dos pais apareceram para se despedir. Tentou parar de tremer, andar normalmente, sem chamar a atenção, sorrir para os vizinhos. Não podia parecer suspeita. Mas não conseguia parar de tremer, sentia um suor gelado descer pelas costas e estava com dificuldade de controlar a respiração. Seria um milagre se não desmaiasse no caminho.
— Irene, minha filha, faz tempo que não te vejo. O que tem feito?
Dona Maria, que sempre estava varrendo a calçada, independente da hora, a encarava esperando uma resposta.
— Nada demais… ham, tô tentando achar um emprego, mas tá difícil.
Colocou as mãos, que tremiam, no bolso do casaco.
— Está difícil pra todo mundo mesmo… ainda bem que sua mãe te deixou uma pensão, né? Que Deus a tenha. — Levantou as mãos juntas acima da cabeça.
— Sim… ainda bem… eu tenho que ir, dona Maria, o seu Pascoal deve estar me esperando.
— Vai sim, minha filha, ninguém vai poder pagar o que você está fazendo por ele. Você é uma moça ótima!
Despediu-se sem olhar nos olhos da vizinha e andou o mais rápido que podia até chegar na casa do velho. Não aguentaria mais nenhuma interação.
“Um anjo. Uma ótima moça. Um demônio. Uma assassina. Uma covarde.”
Era engraçado ver como cada pessoa a via. Como ela seria de verdade? Qual daquelas versões?
— Cheguei, seu Pascoal! — anunciou, guardando o casaco.
— Irene, minha filha! Deus abençoe! Não sabe como é bom poder contar com você.
Sorriu para ele, baixou a cabeça e foi para a cozinha fazer a comida para as marmitas. Pensou em não fazer, mas seria muito suspeito. Tentou fazer tudo exatamente como sempre. Sem pressa, sem erros, para conseguir se acalmar, imaginou que não seria hoje o grande dia, que era apenas um dia normal, como todos os outros, que terminaria tudo e iria embora, com o velho ainda vivo.
Começou verificando o que havia na geladeira e na despensa, o velho comprava sempre o básico, pedia tudo o que queria por telefone. Sempre as mesmas coisas. Sem surpresas. Tentou não pensar em nada, só no que estava fazendo. Gostava de cozinhar. Não para a mãe, que reclamava de tudo, mas para ele sim. E para si depois da morte da mãe. Fazer o que quisesse comer, da forma como gostava e saborear em paz era um dos poucos momentos de prazer que se permitia.
Conseguiu se distrair preparando o arroz com feijão de sempre, a carne moída com batatas e os legumes cozidos no vapor. Deixava as folhas limpas e secas, guardadas em um pote com papel toalha para que durassem. O velho mesmo preparava a salada na hora das refeições. Fez também um bolo mesclado. Era o preferido dele.
Deixou tudo pronto na cozinha e começou a organizar a casa. Nessa hora seu Pascoal já estava roncando na poltrona. Cada vez que olhava para ele, sua espinha gelava. Precisava terminar tudo antes de matá-lo. Sabia que iria querer sair o mais rápido possível depois. Não podia deixar nada fora do lugar.
A cada cômodo que limpava, a dor na cabeça e os calafrios aumentavam. As mãos tremiam tanto que seria difícil acertar bem o coração do velho. E só de pensar em errar, e o deixar vivo e sofrendo, enquanto olhava com uma interrogação para ela, quase a fazia desistir de vez. Mas não desistiria.
Limpou tudo com mais capricho do que o habitual. Demorou mais do que deveria, deixando tudo impecável. Logo ele acordaria e perderia sua chance. Esse pensamento trazia alívio e urgência. Quando não faltava mais nada a ser feito, foi até o cabide ao lado da porta e tirou as luvas do bolso do casaco e calçou-as, foi até a cozinha, pegou a faca e ficou parada ao lado da poltrona onde seu Pascoal roncava.
Ele estava tão vulnerável. Tão indefeso. Logo não existiria mais. Dormiria para sempre. Seria bom. Ela mesma queria ter tanta sorte. Rezaria por ele se soubesse como. Ele era um homem bom, iria para o paraíso, com certeza, não precisava se preocupar com isso, precisava se preocupar com a própria alma, que se não estivesse ainda condenada, estava prestes a ser. Os calafrios tomavam seu corpo todo. A cabeça parecia que iria explodir. Fechou os olhos com força, quando abriu, viu tudo em dobro por alguns segundos, balançou a cabeça. Era agora ou nunca.
Irene sofre desde sempre nas mãos da mãe, Olga. Esta acredita que a filha é um demônio, o mal esperando para se revelar, uma cópia do pai, que a menina jamais conheceu.
Agora, Irene planeja matar o vizinho idoso, de quem ela cuida. É um plano frio, o tipo de maldade pura de um Festim Diabólico, um matar por matar, para provar que posso. Ou quase isso. É também uma necessidade de mostrar que a mãe tinha razão, pois se ela não tivesse, teria sido em vão todo seu sofrimento na infância.
Para o leitor fica a dúvida. Irene é mesmo má ou foi sua mãe que a moldou? Para mim, a má dessa história é a mãe e Irene é uma vítima. Mas vamos ver o que a autora nos reserva…
Há também a figura misteriosa do pai. Quem será ele, qual terá sido a história dos pais?
O texto prossegue, mostrando o estado mental de Irene, seus pensamentos obsessivos, mórbidos, a presença constante da mãe, mesmo morta.
O contraponto luminoso a toda essa escuridão que rodeia Irene é seu Pascoal e seu amor por dona Catarina. Neste ponto da história, ele parece estar vivendo seus últimos minutos. Irene planeja mata-lo e está convencida de que este é o momento. O texto termina num momento crucial, que nos deixa na expectativa da continuação.
A história é contada em terceira pessoa, mas com o ponto de vista de Irene. Ela está convencida de que é má, de que pertence ao mal, de que está condenada. Mas há alguns sinais do contrário. Dona Maria, a vizinha, lhe diz que ela é uma ótima moça. E ela se questiona sobre a forma como as pessoas a veem.
Nós, leitores, acompanhamos a história por seu ponto de vista, um ponto de vista contaminado pelo ódio da mãe e pela idealização feita do pai e também nos perguntamos quem será realmente Irene?
Será que seu Pascoal morrerá e ele será apenas o primeiro de uma sucessão de assassinatos? Ou ele será uma chance de redenção para Irene, uma chance de aprender a viver livre de ódio? Estamos vendo o nascimento de uma serial killer ou uma história de redenção?
Qualquer uma das alternativas é muito interessante e mal posso esperar.
Agora, sobre os pontos de atenção, eu assinalaria apenas um. A narrativa está excelente, ótima ambientação, personagens sólidos, mas está com cara de conto. Até o momento, há poucos personagens e um único núcleo narrativo e me pergunto se você contará com material suficiente para desenvolver um texto mais longo. Talvez você já tenha pensado nisso e os próximos capítulos vão revelar desdobramentos e mais detalhes dos outros personagens. Nesse caso, me ignora e manda ver porque está muito bom. 😊
Finalizando, vamos ao meu comentário sobre o capítulo 5.
Irene se vê entre a mãe (Olga) e o pai, cada um assumindo uma postura diante dela. O pai dizia estar orgulhoso, a mãe sempre a criticando. Ela os questiona, sentindo-se dividida. Por que a mãe não a matou afogada como pretendera fazer? Por que o pai não veio buscá-la?
O encontro com uma vizinha, D. Maria, a faz titubear. Enquanto a senhora a via como uma moça bondosa e prestativa, a mãe parecia ter odiado a sua existência desde sempre. Afinal, Irene era boa ou má?
No capítulo 5, há o contraste entre a simplicidade das tarefas cotidianas (limpar, cozinhar, cuidar) e a complexidade dos pensamentos de Irene. Gosta de cozinhar e de saborear a comida, prepara as refeições de seu Pascoal com carinho, mesmo sabendo que vai matá-lo. O capricho serve para quê? Camuflar a cena do crime?
O final do capítulo nos prepara para um clímax: era agora ou nunca. Mas ainda há muita história para acontecer, não? Ansiosa para descobrir o que Irene fará e quais serão as consequências dos seus atos.
Tecerei alguns comentários/palpites sobre o capítulo 4.
Irene acorda com a presença da mãe. O espírito de Catarina ronda pela casa, ou será apenas alucinação de uma filha atormentada pelo remorso? Terá Irene provocado a morte da mãe?
Nossa protagonista permanece isolada em seu mundo, lidando com pensamentos e memórias que atiçam o seu desejo de matar seu Pascoal. Reafirma que a sua intenção é livrá-lo da solidão e o conduzir aos braços da esposa amada. Será que ela não está projetando a própria vontade de se libertar da solidão em que vive? Ou usa isso apenas como desculpa para não parecer tão má ao planejar o assassinato de um inocente?
O pai também aparece como presença sobrenatural, a incentivando a cumprir o plano. Ela o julga destemido, corajoso, embora também maligno.
Irene se questiona quanto à ausência de parentes, como se a sua ascendência fosse inexistente. Não havia provas da sua origem, sempre foram só ela e a mãe. Irene não consegue se enxergar como alguém que pode ser amado, não se autoriza a ser uma mulher feita, inteira.
Agora me dei conta de que estou imaginando a história se passando em outro século, talvez o XIX, vestidos compridos e simples, casas humildes sem decoração, tudo em tons neutros, sem qualquer exuberância.
Também percebi que a história de Irene me fez lembrar de um livro que li há décadas: Sybil. Escrito por Flora Rheta Schreiber, trata-se de uma não ficção sobre o tratamento de Sybil Dorsett ( pseudônimo de Shirley Ardell Mason ) para transtorno dissociativo de identidade (na época denominado transtorno de personalidade múltipla). Há no livro uma mãe perversa como possível desencadeadora do transtorno. Talvez essa tenha sido a ligação que fiz entre as duas narrativas.
Quanto a pequenas falhas de revisão:
Nesse capítulo houve aumento da tensão psicológica, o clima de terror domina a narrativa. O que virá depois?
Percebi que troquei nos últimos comentários o nome da mãe de Irena: é OLGA e não Catarina.
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Atenção: esta é uma análise gerada por Inteligência Artificial, no contexto do presente Desafio, com base em fontes selecionadas pela Autora.
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A análise a seguir examina a Primeira Parte, do romance de Priscila Pereira, sob as lentes técnicas e teóricas das fontes selecionadas, abrangendo desde a construção psicológica até os aspectos formais da narrativa.
1. Resumo Geral e Ambientação
O texto apresenta Irene, uma mulher solitária e profundamente traumatizada, que trabalha cuidando da casa de Seu Pascoal, um viúvo vulnerável e gentil. A narrativa alterna entre o presente doméstico — varrer o chão, tirar o pó de cristais e preparar marmitas — e um mundo interior fervilhante de planos de assassinato contra o velho. Irene vive sob a sombra de sua falecida mãe, Dona Olga, que a rotulava como uma “encarnação do mal”, e busca, através do ato violento planejado, validar uma identidade “demoníaca” herdada de um pai ausente e imaginado. A ambientação é claustrofóbica e decadente; a casa de Irene é descrita como um lugar de “rachaduras finas que serpenteavam como veias cansadas”, onde o ar carrega o mofo e a gordura de um tempo parado. O trecho termina no clímax do planejamento, com Irene de faca em punho, prestes a atacar Pascoal enquanto ele dorme.
2. Conexão com o Leitor e Valores Universais
O texto conecta-se com o público ao explorar o valor universal da busca por identidade e o peso da herança familiar. Irene representa o indivíduo que tenta se definir em oposição ou em conformidade com o que os pais projetaram sobre ele. Segundo C.S. Lewis, um livro é “verdadeiro à vida” quando ressoa com experiências humanas reais, mesmo que retrate eventos raros ou dramáticos. O leitor pode não planejar um assassinato, mas reconhece a agonia de ser rotulado (“Um anjo. Uma ótima moça. Um demônio.”) e o esforço para descobrir qual dessas versões é a verdadeira. A obra toca na “frantumaglia” — termo usado por Elena Ferrante para descrever o redemoinho de fragmentos e destroços que compõem a vida interior e que podem aterrorizar o sujeito.
3. Aspectos Psicológicos e Filosóficos
A psicologia de Irene é um campo de batalha entre o superego opressor (a mãe) e o id desenfreado (o desejo de matar).
4. Aspectos Técnico-Literários
5. Afinidades Literárias
6. Qualidades e Defeitos
Qualidades:
Defeitos:
Conclusão
“Primeira Parte” é um início promissor que estabelece uma base sólida para um romance psicológico. A autora demonstra habilidade em construir uma protagonista complexa e uma atmosfera de tensão crescente. Se evitar a tentação de explicar demais o trauma e focar na “escrita convulsa” que Ferrante defende — aquela que desequilibra e deforma a realidade para extrair a verdade — a obra tem potencial para ir além do suspense convencional e tocar em feridas humanas profundas.
Agora vamos às minhas considerações sobre o Capítulo 3:
Irena começa a ficar mais “nítida” como personagem, inserida no seu dia a dia, com a caracterização da sua casa. Há um contraste evidente entre a casa vazia e a mente de Irene, repleta de pensamentos conflituosos. Nem mesmo no vazio físico e existencial do lar, a protagonista encontra a paz. Pelo jeito, paz só existe de fato no significado do seu nome.
A mãe de Irene ganha espaço na narrativa. Ela parece ser a origem dos problemas da filha, que relata ter sido indesejada por Catarina e abandonada pelo pai. Mas tudo de ruim, Irene põe na conta da mãe. Apenas por um momento, levanta a hipótese de Catarina ser má porque o marido a fez assim. Os pensamentos de Irene apresentam uma espécie de círculo vicioso: “sou-má-por- causa-da-minha-mãe-que-é-má-por-causa-do-meu-pai-que-é-mau-por-causa-da-minha-mãe-que-acha-que-a-má-sou-eu”.
Irene se diz rejeitada desde o ventre da mãe, nem as colegas de escola gostavam dela. Todos cochichavam a seu respeito e a olhavam com pena. O que afinal eles sabiam sobre a história dela? Por que era digna de pena?
A princípio, Irene não acredita nas dores da mãe, acha que tudo é fingimento, apenas um meio de mantê-la sob o julgo materno. Depois, fica satisfeita por ver que Catarina sofre de verdade. Aí eu me pergunto se não teria sido a própria Irene a causadora da doença fatal.
Quanto à revisão/coesão, minhas dicas são:
Até o próximo capítulo!
Percebi que troquei o nome da mãe de Irene: é OLGA e não Catarina.
CRÍTICA APÓS LEITURA DO CAPÍTULO 5
Talvez seja o mais tenso do romance até aqui. Não pela violência, que continua sendo mais psicológica do que física, mas porque finalmente chegamos ao momento de execução, e você conduziu isso com bastante competência. A máquina que você montou nos quatro capítulos anteriores chega ao seu ponto de maior pressão aqui, e a estrutura não desmorona. Isso não é pouca coisa.
A abertura com os fantasmas dos pais é um dos melhores momentos do romance. Brevíssima, quase telegráfica, e brutalmente eficaz, gosto muito disso e utilizei bastante no Hugo Benevides kk. Irene responde às vozes internas com a crueza de quem já não tem paciência nem para os próprios delírios. A frase sobre a banheira, endereçada à mãe e a pergunta ao pai funcionam simultaneamente como resumo de toda a psicologia da personagem e como despedida. Ela está se desligando das âncoras internas antes do ato. Gostei muito dessa escolha narrativa.
A sequência do armário de remédios é o trecho mais corajoso do capítulo. Você não desvia, não suaviza, e ao mesmo tempo não explora o momento de forma sensacionalista. Irene simplesmente fica olhando. E na contenção desse olhar há mais horror do que em qualquer descrição explícita. O comprimido mastigado, com seu sabor amargo devolvendo-a à realidade, é uma imagem que funciona em vários níveis ao mesmo tempo. Físic, simbólico, quase sacramental. Esse é o tipo de detalhe concreto que eleva um texto de bom para muito bom.
Dona Maria varrendo a calçada ficou excelente. Não só como recurso de tensão, mas porque a fala dela, “ninguém vai poder pagar o que você está fazendo por ele, você é uma moça ótima”, reverbera de um jeito perverso dentro do que está acontecendo na cabeça de Irene.
A cozinha me surpreendeu. Irene cozinhando com capricho, pensando nos detalhes da comida, no bolo favorito do velho, tem algo de ritualístico que é muito perturbador exatamente porque parece carinhoso. Você tocou num ponto que os melhores textos sobre violência tocam: ela quase sempre convive com ternura, às vezes no mesmo gesto. Esse paradoxo estava implícito nos capítulos anteriores, mas aqui você deixou pousar com mais calma, e funcionou.
Agora, os pontos de atenção.
O tremor e os calafrios de Irene são mencionados muitas vezes ao longo do capítulo, as mãos tremendo, o suor gelado, a dificuldade de respirar. Entendo a intenção, que é transmitir o estado físico do pânico, mas o recurso se repete com frequência suficiente para começar a anestesiar o leitor em vez de tensioná-lo. Talvez valha, numa segunda etapa, reduzir essas ocorrências e deixar uma ou duas delas com mais espaço e detalhe, para que carreguem o peso de todas as outras que foram retiradas.
Também sinto que a frase “Era agora ou nunca” no encerramento do capítulo ficou um pouco abaixo do resto. Depois de um capítulo inteiro construído com imagens muito específicas e originais, terminar num clichê narrativo, mesmo que propositalmente seco, cria uma pequena dissonância. Talvez o encerramento ganhasse mais força se ficasse na imagem do velho roncando na poltrona, na faca na mão enluvada, sem verbalizar a urgência. O leitor já está lá com ela. Você não precisa dizer.
APANHADO GERAL — CAPÍTULOS 1 A 5
Chegando ao fim dessa primeira grande etapa, posso dizer com clareza: você está escrevendo um romance psicológico sólido.
O que funciona de forma consistente é a voz narrativa. Ela se manteve coesa do primeiro ao quinto capítulo, algo que não é trivial quando se trabalha com fluxo de consciência e dissociação como recursos centrais. Irene é complexa sem ser apenas enigmática, perturbada sem ser apenas violenta, e você foi construindo camadas sobre camadas sem que nenhuma cancelasse as anteriores. A herança geracional da violência, a relação com a mãe morta, a fantasia do pai demoníaco como explicação para si mesma, enfim, tudo isso forma um núcleo temático coerente e rico.
A atmosfera também se sustenta. O romance tem um clima constante que não depende de um único recurso e sim de uma série de escolhas acumuladas: os espaços domésticos, os ritmos cotidianos, os silêncios entre as falas dos fantasmas.
O que ainda me preocupa, olhando o conjunto, é a economia do mundo ficcional. Cinco capítulos dentro de uma mente e de poucos ambientes físicos funcionam muito bem para uma novela. Para um romance, vai ser necessário ampliar o campo de visão em algum momento, não necessariamente com subtramas convencionais, mas com mais mundo ao redor de Irene, mais resistência do real contra a clausura da sua psicologia. Dona Maria, por exemplo, apareceu brevemente aqui e já tem presença. Existem personagens ao redor que poderiam ganhar espessura e complicar a narrativa de formas interessantes.
O assassinato, que parece prestes a acontecer, vai definir muito do que o romance pode ser a partir daqui. Estou curioso para ver o que você faz com o depois.
Parabéns, Pri. O texto tem vida própria. Isso é o que mais importa.
Aqui estou eu de novo para analisar mais um capítulo da sua obra literária.
Capítulo 2
Gostei da forma como você conduziu a narrativa, ficou mais densa, dando um tom mais tenso à trama. Talvez pela questão psicológica/psíquica da protagonista, não temos certeza do que acontece de fato.
Boa caracterização do ambiente, a casa de Irene. O foco parece ser a presença sombria da mãe, Catarina, que paira sobre a vida e pensamentos da protagonista. Ainda estou em dúvida se a autora seguirá pela linha do sobrenatural ou se tudo não passa de delírios de uma mente perturbada.
Há a menção ao pai de Irene, como ela imagina a figura paterna. Prefere que ele seja mau para que a sua ausência se justifique. A maldade parece ser mais aceitável para Irene do que a covardia, a incapacidade de lidar com Catarina. A moça não precisa de um herói bondoso, mas alguém com quem possa se identificar, um homem forte, capaz de fazer coisas terríveis.
Surgem os maribondos, que aterrorizavam Irene quando criança. A simbologia do marimbondo abrange trabalho árduo, proteção, disciplina e transformação. O inseto pode ser considerado um mensageiro de prosperidade e equilíbrio. Popularmente, a presença de seu ninho indica proteção do território e, em muitas crenças, sinal de riqueza e boa sorte (informação adquirida no Google pela IA). Aqui, Irene (paz) e o maribondo (prosperidade) formariam uma dupla ideal, no entanto, naquele lar, o que não há é paz, muito menos boa sorte.
E o foco volta para a mãe, as circunstâncias da sua doença e da sua morte. Mas será que Catarina morreu mesmo? Ou foi mais uma história criada na imaginação de Irene? Afinal, ela tinha muitos motivos para querer a morte da mãe. Talvez até desejasse matá-la.
Dicas de revisão:
Por enquanto é só. Logo mais comento o capítulo 3.
Oi, Pri, tudo bem? 🌼
Antes de mais nada, parabéns 👏🏻por ter decidido enfrentar este enorme desafio. Finalmente, o seu romance 📖 vai nascer.
Vou me ater mais ao primeiro capítulo neste comentário, mas serei bem palpiteira, tá?
Logo nas primeiras linhas, já senti a tensão ⚡de um texto voltado ao terror 😱, no caso, terror psicológico 😨.
Também percebi no primeiro parágrafo uma repetição que não sei se foi proposital ou não:
Note que dentro de um mesmo parágrafo houve quase a duplicação de uma frase:
A mãe 👿 (terrível, bruxa, maligna) é logo apresentada, mas talvez fosse preferível não entregar logo de cara que ela está morta. Afinal, até a Irene fica em dúvida quanto a isso. Você poderia deixar o mistério se expandir um pouco mais além para captar o interesse do(a) leitor(a).
Achei interessante a escolha do nome IRENE para a protagonista, uma vez que significa “paz” 🕊️, “a pacificadora” ✌️ ou “pacífica”. Talvez seja a capa, a máscara que esconde a verdadeira personalidade da moça. Todos enxergam nela tranquilidade e harmonia (menos a mãe, mas será que a mãe existiu mesmo ou é uma fantasia gerada por algum transtorno psiquiátrico? 🤔). Seria interessante deixar o(a) leitor(a) com essa dúvida.
Ainda sobre a questão do nome Irene, não sei se a repetição de PAZ em determinado trecho, já apontado pelo colega Givago, busca enfatizar a ideia de que tudo o que ela não tem, apesar do significado do seu nome, é paz. No entanto, devo alertar: é um recurso arriscado.
PASCOAL significa “aquele que nasceu na Páscoa” 🐇ou “relativo à Páscoa”, portanto, traz a ideia de renascimento e renovação. Irene (paz) planejando matar ☠️Pascoal (renascimento) Contraste de personagens, ou tudo acabará com o renascimento da paz?
Ora, ora, dona Priscila, a ironia continua: a mãe-bruxa se chama OLGA = O nome Olga significa “santa”, “sagrada”, “abençoada” ou “consagrada”. 🙌
Pitacos quanto à revisão/coesão ✔️ou ❌:
O corpo simplesmente caiu tal qual uma manga madura do pé. Ele só ouviu o barulho surdo contra o chão. > A mulher (dona Catarina) simplesmente caiu tal qual uma manga madura do pé. Ele só ouviu o barulho surdo do corpo contra o chão. Ou Ele só ouviu o barulho surdo do corpo ao atingir o chão.
Eu já li o texto inteiro, mas vou seguir comentando por capítulos. Por enquanto, estou gostando bastante dos diálogos (dão fluidez à leitura), expressam naturalidade e podem ser considerados verossímeis dentro do contexto apresentado.
Estou intrigada com esse planejamento de Irene. Quais seriam suas reais intenções para matar o coitado do velho? Aliviar seu sofrimento? Provar para a mãe que era capaz de uma grande maldade? Provar a si mesma que era corajosa e não temia o inferno? Para mim, a mente da moça ainda está diluída em possibilidades: ser ou não ser uma assassina. O que afinal ela ganharia com isso? É sonsa ou doente? 🥴 É o próprio demônio? 👿 Ela me fez lembrar daqueles casos dos anjos da Morte 💀, enfermeiras (e também enfermeiros) que decidiram praticar a eutanásia e pronto. Anjos ou demônios? 👼🏼👹Em algum momento da sua narrativa Irene diz que os dois lados têm a mesma origem, mas não o mesmo caminho – um continua celestial, outro vira anjo caído. Enfim, estou divagando.
Continue a escrever 📝, quero saber mais de Irene e seu labirinto mental. O velho Pascoal será poupado? Tenho esperanças…
Priscila,
Estou zanzando pelos grupos e vim parar no seu romance. Vou deixar aqui minhas impressões.
O que mais me chamou a atenção é o domínio que você tem do discurso indireto livre, aliado a estratégias de deslocamento no tempo, fatores que confluem para um ótimo funcionamento daquilo a que você se propõe, que é narrar não exatamente as ações (embora as haja), mas os movimentos psicológicos da protagonista. De fato, as cenas de ação não são tão numerosas, mas isso não passa a impressão de que sua prosa é reflexiva ou estática. As próprias indagações acerca do passado, as elucubrações acerca do dilema matar ou não matar e as reflexões sobre a natureza do mal constituem a própria matéria a ser narrada. Há bastante ação, no fim, mas no sentido ampliado do termo, que pode abarcar os movimentos da consciência.
O uso do estilo indireto livre parece tanto ser uma segunda natureza da voz narrativa que, nas primeiras linhas, eu pensei se tratar de um romance em primeira pessoa, o que foi desmentido logo em seguida (com a palavra “nela”) e gerou um gostoso estranhamento. Quanto ao uso dos tempos, eu sinto um pouco de falta de modulação para distinguir o presente narrativo das intromissões do passado (via sonho e delírios). Não porque não esteja claro o que é o que – e até é benéfico que haja alguma confusão. Mas porque assim você pode dar uma qualidade diferente à memória, uma textura à recordação. Minha sugestão seria experimentar o presente para narrar situações passadas e manter o passado para as situações presentes. Isso daria forma ao grande problema de Irene, que é seu aprisionamento temporal-psicológico. Ela sofre porque, por mais que a origem de sua dor já não exista fisicamente, permanece presente.
Quanto ao conteúdo, bem, parece se tratar de um “ensaio sobre o mal”. Coisa muito interessante, porque a protagonista desde saída escapa às soluções fáceis, inclusive no julgamento daquela que parece ser, ela sim, a encarnação do mal: a mãe. Seria muito simples se se tratasse de um dilema moral puro, mas a resolução entre matar ou não é atravessada por forças que não dizem respeito à moral, mas ao poder, à submissão. Isso é muito rico. Matar ora se apresenta como obediência, ora como revolta. E a própria voz ordenadora da mãe, que a princípio poderia ser o puro mal, talvez tenha origem em outro sofrimento, que desconhecemos. Mas isso a justificaria? Isso a perdoaria?
O pior que pode acontecer a seu romance, no que diz respeito a esses conteúdos, é resolver-se no maniqueísmo. Mas acho que esse risco você não corre. Há um risco mais sutil, e por isso mais perigoso, que é o de explicar em termos de causa e efeito a origem da maldade da mãe. Claro, o enredo vai ter (ou não…) que nos dizer algo sobre o pai e as relações do casal, mas acho que a qualidade futura do seu romance depende muito da manutenção do problema e do mistério, ou melhor, do desenvolvimento do problema sem uma solução mágica. Solução mágica, por exemplo, é a que JK Rowling adotou para explicar a maldade de Snape (era tudo um fingimento para não dar bandeira; no fim ele era bom). Não sei quanto tempo é possível sustentar isso, o que me leva a uma questão que, pelo que entendi, já está passando por sua cabeça: será que essa história dá mesmo um romance? Pode ser que sim, mas pelo que li já chegamos a um ponto de decisão bastante acentuado. Ok, pode ser que a história se desenrole a partir daí (não sei quais são seus planos), mas o núcleo apresentado já tende a uma resolução em breve, e não valeria a pena retardar a decisão sobre matar ou não por muito mais tempo (sob o risco de parecer o programa do João Kleber: “para, para, para!”). Aliás, eu diria que já passou um pouquinho do ponto, daria até para enxugar um tanto o que você escreveu.
E quem está passando do ponto sou eu, por sinal.
Mas que legal, de todo modo. Boa sorte!
CRÍTICA APÓS LEITURA DOS CAPÍTULOS 3 E 4
Pri, aqui o romance definitivamente começa a revelar o seu núcleo mais perturbador e existencial. Até então, eu sentia que a história orbitava principalmente em torno da violência, da herança psicológica e da tensão do possível assassinato. Agora, esses elementos continuam presentes, mas os capítulos passam a revelar algo mais profundo: Irene começa a se fragmentar diante do leitor. E isso ficou muito bom.
O capítulo 3, especialmente, tem momentos fortíssimos. A maneira como você trabalha o cotidiano banal (o café, a chuva, o pão com manteiga, a casa silenciosa) contrastando com pensamentos monstruosos cria uma atmosfera muito eficiente. Existe algo profundamente desconfortável nessa convivência entre aconchego e perversidade. Você conseguiu fazer o ambiente parecer quase uterino e ao mesmo tempo apodrecido emocionalmente. Gostei muito disso.
A relação da Irene com a mãe continua sendo, pra mim, o grande coração do romance. E aqui ela ganha ainda mais complexidade. O mais interessante é que você evita transformar Dona Olga apenas numa figura monstruosa unidimensional. Aos poucos surge uma percepção terrível: talvez ela própria fosse alguém quebrada por outra violência anterior. Isso adiciona uma camada de ambiguidade muito rica ao texto, porque a violência deixa de ser apenas individual e passa a parecer hereditária, quase metafísica, como uma espécie de maldição emocional transmitida entre gerações.
E acho que esse é o ponto onde o romance mais cresce nesses capítulos: a dúvida sobre o pai deixa de ser apenas um mistério narrativo e vira um símbolo psicológico. Não importa necessariamente se ele existiu ou não. Ele funciona como projeção. Irene precisa acreditar que existe algo demoníaco nela porque isso dá sentido ao sofrimento que viveu. Se ela for apenas uma pessoa comum traumatizada, então todo o horror da própria vida perde uma espécie de “lógica”. Achei isso muito forte.
O sonho do capítulo 4 ficou excelente justamente porque abandona o horror físico e entra num horror mais íntimo. A fala da mãe (“Você parece mais comigo”) talvez seja uma das frases mais violentas do romance até agora, porque destrói a fantasia interna que sustentava Irene. A possibilidade de não ser monstruosa como o pai, mas fraca e ferida como a mãe, parece pior para ela do que a própria ideia de ser assasisna. Isso é muito interessante psicologicamente.
A construção da ansiedade antes do assassinato também funciona muito bem. Gostei bastante de como a narrativa oscila entre euforia, medo, automatismo e dissociação. Você conseguiu transmitir a sensação de alguém que já ultrapassou o estágio do pensamento mórbido e entrou no território da compulsão psicológica. Há um clima quase febril nesses trechos.
Agora, entrando em alguns pontos de atenção:
Acho que em certos momentos você ainda verbaliza demais algumas conclusões emocionais que já estavam implícitas na própria cena. Por exemplo: várias vezes a narrativa explica diretamente o conflito interno da Irene logo após já tê-lo demonstrado pelas ações, pensamentos ou imagens. Como leitor, eu já estava entendendo. Talvez confiar um pouco mais no subtexto deixe algumas passagens ainda mais fortes. Você já tem imagens muito boas; às vezes elas sozinhas carregam o peso necessário.
Outro ponto: existe um risco pequeno — ainda não problemático, mas perceptível — de o fluxo de pensamento da Irene começar a girar em círculos emocionais muito semelhantes. A ideia de “preciso provar que sou monstruosa / não posso ser como minha mãe / meu pai me entenderia” aparece bastante. Funciona porque combina com obsessão psicológica, mas talvez mais adiante seja interessante tomar cuidado para que essas repetições sempre revelem alguma camada nova da personagem, e não apenas reafirmem o mesmo estado mental.
Agora, uma coisa que gostei MUITO: o espelho.
Toda a sequência do espelho no capítulo 4 talvez seja uma das melhores partes do romance até agora. Ali o texto desacelera e vira quase uma investigação identitária. Não é mais apenas sobre matar ou não matar. É sobre existir dentro de um corpo, herdar traços, carregar rostos desconhecidos, não saber quem se é. O trecho dos “pedaços costurados sem cuidado” ficou especialmente bonito. Ali o romance toca algo mais literário e menos apenas psicológico. Achei um dos pontos mais maduros da escrita até aqui.
Também gostei muito do final desse trecho, quando surge a questão do corpo feminino, da vergonha de existir fisicamente, da sexualidade atravessada pelo discurso da mãe. Isso adiciona uma camada importantíssima à Irene. Ela deixa de ser apenas “a possível psicopata” e vira alguém profundamente dissociada da própria humanidade e do próprio corpo. Isso amplia bastante a personagem.
A voz narrativa continua muito boa. Fluida, intensa e com ótima capacidade imagética. Você consegue fazer a leitura andar rápido mesmo em capítulos bastante introspectivos, o que não é fácil. E continuo achando que seu maior acerto é a atmosfera. Existe um desconforto constante no romance, como se tudo estivesse emocionalmente úmido, escuro e abafado.
Por fim, me preocupa que você, na segunda etapa, continue sucinta assim. Talvez o texto fique mais com aspecto de conto/novela que de romance. Como sugestão, queria ver essa história se ampliando, tendo mais personagens, mais camadas, mais subtramas. Quem sabe, voltar ao passado?
Até agora, temos um texto muito sólido. Parabéns!
CRÍTICA APÓS LEITURA DO CAPÍTULO DOIS
Esse capítulo é muito interessante. Gostei da descrição da casa, de como a voz narrativa mergulha no íntimo de Irene e acaba criando diversos questionamentos e imagens fortes. Aqui, a voz narrativa brilha ainda mais que no primeiro capítulo.
A personagem está sendo construída com muitas perturbações. A própria narrativa transborda a mente perturbada de Irene. Gostei muito disso.
Em contrapartida, alguns momentos de oscilação me preocuparam. Ora Irene tem consciência de sua psicopatia, ora parece ter dúvidas e se declarar inocente. Ainda não vi algo que justificasse isso no texto, pois a narrativa feita no capítulo um (E em alguns trechos do dois, principalmente no início) foi da certeza da “psicopatia” de Irene que, como o texto sugere, herdou essa característica de seu pai. Talvez esse momento de oscilação faça parte da perturbação mental da própria personagem, mas sinto que não ficou tão claro assim, talvez seja um ponto de atenção (Talvez isso se resolva nos capítulos seguintes, estou dando o feedback em tempo real).
A crueza das descrições está excelente. O ritmo é envolvente, a leitura é rápida, a circularidade é uma ambientação interessante que nos joga na mente perturbada da protagonista. Até agora, está um romance excelente.
Parabéns, Pri!
Obra: Primeira Parte | Autor(a): Priscila Pereira
I. 📌 SÍNTESE E IMPRESSÕES GERAIS
Uma breve introdução que contextualiza a proposta da obra, o gênero literário e o impacto imediato da leitura.
Bom, “X” é um suspense/thriller psicológico que nos apresenta Irene, uma jovem de idade não relatada, que é atormentada pelos graves abusos que sofreu da mãe falecida e pelo abandono do pai. Está bem ambientado, bem escrito e condizente com o que me pareceu a proposta inicial. Do ponto de vista gramatical/estilístico, acho que convém lapidar melhor alguns pontos.
II. 🛠️ ANÁLISE DOS ELEMENTOS DE CONSTRUÇÃO (Objetiva)
Avaliação detalhada da técnica, estrutura e engrenagens narrativas utilizadas pelo autor.
1. Arquitetura do Enredo e Ritmo
2. Personagens
3. Estilo e Domínio da Linguagem
III. 🎭 ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE LEITURA (Subjetiva)
O impacto estético, a imersão e a originalidade da voz autoral.
Quando você conhece a autora e lê esses cinco capítulos, é impossível não pensar “como que essa história sinistra surgiu dessa cabeça?”. Ainda assim, quando se conhece o seu trabalho nos contos e lê esse início de livro, percebe-se que todo aquele arcabouço e estilo literário está empregado aqui. É muito bom perceber isso e me deixa instigado a ler mais. Sinto cheiro de evolução vindo e esse processo é sempre muito prazeroso de assistir.
Eu diria que esse é um dos grandes pontos que busco numa história. A capacidade de me transportar para dentro da narrativa. Pessoalmente, aqui eu senti que esses trechos lograram êxito. O universo de Irene é sombrio, tortuoso, repleto de pensamentos que deprimem e assustam. As descrições do ambiente, embora feitas de formas seguras e até mesmo “batidas”, foram pontuais e contribuíram bastante para essa ambientação. Por mim, o grande destaque desse trecho inicial!
Vou ser muito franco: se eu lesse uma sinopse apenas desses cinco trechos, eu não compraria o livro porque eu não sou o público-alvo desse tipo de suspense psicológico.. Pelo menos do jeito que está agora, com essa ambientação pesada logo de cara. Dito isso, impossível não dizer que estou esperando o próximo capítulo com o cliff hanging.
Além do mais, para completar (e esclarecer) as minhas impressões iniciais subjetivas desse trecho, acho que o texto foi feliz em justamente incomodar e, logo de cara, deixar o leitor a par de toda a tensão e angústia mental pela qual Irene passa. E isso, mais uma vez, evidencia que a missão inicial foi bem cumprida.
CRÍTICA APÓS LEITURA DO CAPÍTULO 1
Olá, Pri. Decidi fazer a crítica fragmentada por capítulos. Quando os capítulos forem curtos demais, vou aglutinar 2 ou mais. O primeiro até que é curtinho, mas como é a “abertura” do romance, decidi que deveria fazer uma postagem especial pra ele.
A abertura é segura e perturbadora. Gostei de como você ancorou na construção de uma protagonista que já surge com densidade psicológica bem delineada. Irene não é apenas uma figura violenta em potencial, mas o produto de um histórico emocional opressor, marcado por uma infância atravessada por abuso e distorção afetiva. Você acerta muito ao estabelecer, desde as primeiras linhas, um padrão comportamental (O hábito de planejar sem executar) que funciona como eixo interno da personagem e sustenta a tensão do texto. Ao colocar essa mente calculista em contraste com a figura vulnerável de Seu Pascoal , o capítulo constrói um jogo moral simples, porém eficaz, que potencializa o desconforto do leitor. Eu gosto da simplicidade aqui, pois foi muito bem explorada. É habilidade pura pegar uma premissa “simples” e transoformar em algo tão atrativo.
A premissa (Uma cuidadora que planeja matar o homem de quem cuida) é forte e imediatamente envolvente, mas senti que o desenvolvimento sofre com oscilações de ritmo, talvez (E só talvez, pois eu também terei que fazer isso no meu texto na segunda etapa) seja interessante fazer uns enxertos em alguns pontos dessa etapa na segunda etapa. A narrativa se divide entre o presente, onde a tensão é mais aguda, e longos blocos de rememoração, sobretudo relacionados à mãe da protagonista (Figura esqta que emerge como um dos elementos mais potentes do texto). Dona Olga é construída com contundência, especialmente por meio de falas cruéis e imagens marcantes, como a ameaça de ter afogado a filha na infância. Ainda assim, a extensão desse mergulho no passado acaba diluindo a progressão dramática do capítulo, deslocando o foco da ação principal antes que ela atinja um ponto de maior impacto.
Outro aspecto que chama atenção é o uso recorrente de descrições explícitas da violência. Eu gostei, pois gosto de exageros e repetições kkk, mas talvez num romance, se isso se mantiver bem frequente, pode acabar cansando alguns leitores que preferem sugestões em vez de descrições (Como o MArtim, por exemplo, que disse isso no meu texto). Quando a narrativa confia mais naquilo que insinua do que no que detalha, alcança seus momentos mais fortes. Isso também se aplica a certas passagens explicativas, nas quais o texto verbaliza emoções ou intenções que já estão suficientemente sugeridas pela situação.
Apesar desses “desequilíbrios”, que para mim não o são totalmente, mas estou assumindo aqui um papel mais abrangente de “editor” que contempla diferentes públicos, o capítulo cumpre bem sua função de introdução, sobretudo ao estabelecer um tema central consistente: a dúvida de Irene sobre sua própria natureza, entre a herança de um “mal” familiar e a possibilidade de escolha. A invocação final ao pai, como tentativa de provar sua própria monstruosidade, funciona como um gancho eficaz, deslocando o conflito para um plano mais interno e existencial.
A voz narrativa está excelente. Espero que você mantenha essa pegada nos próximos capítulos!
Olá, Priscila.
Impressões gerais.
Achei um texto de terror muito bom. A construção do “mundo” é bem feita: Irene é uma psicopata ou esquizofrênica que tem traumas de sobra por sua infância sofrida. O texto consegue transmitir muito de Irene e do seu relacionamento tóxico com sua mãe. Vemos uma assassina em formação. Ao mesmo tempo, Irene não é um monstro, simplesmente. Ela tem camadas, e isso é muito bom, pois ela é cheia de conflitos, não é apenas “má”.
Qualidade da escrita
Ortografia, pontuação, etc.
O texto é muito bem escrito. Vi pouquíssimas incorreções: “dó” é substantivo masculino, e não, feminino. Houve variação temporal no parágrafo abaixo:
“Teria que esperar que ele cochilasse, o que não demoraria mais do que meia hora. Era tão comovente esse desapego ingênuo do velho. Não sabia ainda que sua vida dependia da vontade dela, e que cada dia que passava, mais perto estava da morte. Enquanto isso, como um animal indefeso, que se esfrega na mão do seu carrasco, ele dorme em perfeita confiança diante dela, enquanto ela varre o chão de sua casa e tira o pó dos móveis com um pedaço de flanela.”
Observe que o parágrafo começou no passado, como todo o restante do seu texto, e a frase que começa com “Enquanto isso…” é narrada no presente. Melhor se tudo estivesse no passado, pois não são narradas ações ocorridas em momentos distintos.
O seu texto é rico em detalhes e impressões sensoriais que o enriquecem , tornando a leitura muito visual e imersiva. A gente lê e se sente lá.
Diálogos
Estão bons, parecem falas de gente de verdade, funcionam bem.
Personagens
A Irene é muito bem construída, é complexa em sua maldade ainda latente. A mãe dela é uma vilã memorável e o pai, uma presença misteriosa. O velhinho vizinho é um doce.
Enredo
Gostei da história por mostrar a gestação do monstro e por não simplificar a personagem principal. Como já disse, a construção do mundo é muito boa, talvez um pouco por sua experiência de vida ou da observação dos detalhes das vidas das pessoas próximas. Você tem o olho arguto e espero pela continuação da história.
Abraço!