Capítulo 1
Não teria problema algum. Já tivera incontáveis oportunidades, mas não havia ainda chegado a hora. Enquanto isso, planejava. Fazia isso desde pequena. Planejar. Era tudo o que fazia. Planos que nunca executava. Não podia. A mãe, como uma sombra opressora, vivia com seus olhos oniscientes fixos nela, esperando a tão profetizada encarnação do mal que revelaria o demônio que realmente era. Irene passou também a aguardar seu inevitável fim. Enquanto aguardava, planejava.
Teria que esperar que ele cochilasse, o que não demoraria mais do que meia hora. Era tão comovente esse desapego ingênuo do velho. Não sabia ainda que sua vida dependia da vontade dela, e que cada dia que passava, mais perto estava da morte. Enquanto isso, como um animal indefeso, que se esfrega na mão do seu carrasco, ele dorme em perfeita confiança diante dela, enquanto ela varre o chão de sua casa e tira o pó dos móveis com um pedaço de flanela.
Assim que fizesse algum tempo que o velho estivesse dormindo, calçaria suas luvas, pegaria uma faca, aquela de cabo de madeira, mais fina e comprida, que estivera afiando, e enfiaria com força e precisão entre a quarta e quinta costela do lado esquerdo do peito. Um golpe e tudo estaria acabado. Deixaria a faca lá, estancando o sangue. Tiraria as luvas e terminaria de organizar a casa. Sairia, trancaria a casa como sempre e iria para sua morada, no fim da rua. Demoraria dias para que alguém descobrisse.
Seu Pascoal se mexeu na poltrona e Irene voltou a atenção para a cristaleira. Pegava cada peça, sem uso desde a morte de dona Catarina, tirava o pó e a colocava no lugar.
O velho e a esposa eram muito apaixonados, pelo menos era o que parecia. Sempre juntos, gentis e carinhosos um com o outro, trocando pequenos gestos que para qualquer outro passariam despercebidos, como a mão pousada nas costas ao cruzarem a sala, o jeito como ele ajeitava o cabelo dela sem nem perceber, o riso baixo que dividiam por coisas bobas, quando passavam em frente à sua porta. Para ela, aquilo não era banal. Era raro. Era quase impossível.
Por isso, ela observava o casal. Ficava quieta, quase invisível, absorvendo cada detalhe, como se pudesse aprender ali uma língua que nunca lhe ensinaram. Às vezes, se pegava imaginando como seria ser tratada daquele jeito… com paciência, carinho. Eles eram, sem saber, o único exemplo de amor e cuidado que tivera na infância. O único que fazia o mundo parecer, ainda que por instantes, menos cruel.
A morte da velha a chocou, nunca havia lidado com aquilo antes, lembrava bem do dia do velório, a mãe fez questão que ela comparecesse, que visse um cadáver com os próprios olhos.
— É assim que uma pessoa fica depois de morta. — cochichou para a filha com um risinho mórbido.
Ela, ainda criança, com os olhos arregalados, viu dona Catarina no caixão, branca como uma vela e com a pele da textura da cera. O cheiro de flores a enjoava, mas o que mais a marcou foi o estado de seu Pascoal. Totalmente aniquilado.
Não houve despedida, nem aviso. Um infarto, seco e brutal, na cozinha. De pé diante da pia, talvez lavando uma xícara, talvez pensando em algo simples. O corpo simplesmente caiu tal qual uma manga madura do pé. Ele só ouviu o barulho surdo contra o chão. Quando chegou, já não havia nada a fazer. A vida tinha ido embora sem cerimônia, como se nunca tivesse estado ali.
Foi fascinante, no entanto, para ela ver como o velho se apagou, começou a ver muito de si nele, que assim como ela, era agora um morto vivo. Crescendo em seu peito, surgiu um tipo de felicidade estranha pelo sofrimento dele, se antes a felicidade a fascinava agora a sua miséria a confortava. Talvez, de forma inconsciente, tenha sido ali o momento que escolheu sua presa.
Balançou a cabeça para espantar seus devaneios e pegou uma taça de cristal, pesada, toda trabalhada, olhou para ela por um bom tempo, era linda. Poderia quebrá-la e fazer, com um caco bem afiado, um corte profundo e limpo, bem na jugular. Haveria sangue em abundância. Teria que ter mais cuidado com pegadas e respingos. Seria menos prático, mas muito mais impactante. Vermelho vivo, viscoso e quente, espalhando por toda a casa. Tentador.
Seu pai ficaria orgulhoso. Já sua mãe, se reviraria no túmulo, em êxtase de vidente, e se pudesse, rogaria mais uma praga, para que a alma da filha queimasse sete vezes mais no inferno. Irene sorriu com a ideia. Não a do inferno, mas de sua mãe, que, ao invés do merecido descanso, estivesse ainda obcecada por ela, inquirindo cada pensamento, sondando cada impulso ou vontade. Era justo que fizesse isso muito mais depois de morta, já que fizera a vida toda.
Não tinha uma lembrança da mãe sorrindo de verdade. Sempre o olhar decepcionado, a voz ríspida, o dedo apontado. Tinha certeza que as cantigas de ninar que a mãe cantava quando a embalava para dormir quando pequenina, se é que tenha feito isso realmente, eram maldições. Pelo que se lembrava, nunca havia recebido um abraço sequer da mãe. Com certeza não havia sido amamentada. A mãe teria horror a isso. Dona Olga devia tê-la dado para a adoção, ou até mesmo a afogado na banheira, como sempre dizia.
A primeira vez que a ouviu falar isso ainda estava gravada em sua mente. Tinha cinco anos. Dona Olga esfregava seu couro cabeludo com sabão em barra, a espuma caindo em seus olhos. Chorava baixinho. A mãe furiosa a arrastava até o chuveiro aberto e tirava toda a espuma.
— Você é fingida como seu pai. Que o diabo o carregue! Cala a boca, menina besta.
Continuava esfregando com força os cabelos finos demais, que viravam um emaranhado impossível de desembaraçar. Irene tentava não chorar, mas, em vão, lágrimas jorravam de seus olhos e soluços escapavam.
— Você é um demônio, igualzinha ao seu pai. Eu devia ter te afogado na banheira quando era muito pequena pra se defender.
E a imagem de um bebê tentando desesperadamente respirar dentro da água ficou presa em sua memória, e, vez ou outra, boiava até a superfície para aterrorizá-la. Nunca mais entrou em uma banheira. Nem quando estava sozinha.
Seu Pascoal parou de roncar por longos segundos, o silêncio chamando Irene de volta à realidade. Esperou atenta até que a respiração voltasse com um ronco barulhento.
“Esse velho ainda vai morrer dormindo e vou perder a minha chance!”
Terminou de limpar a casa, colocou as marmitas da semana, que havia preparado, e deixou esfriando, no congelador, e foi acordar o velho.
— Seu Pascoal… — cutucou o velho no ombro. — Já terminei, estou indo embora.
Ele acordou assustado, tentando lembrar onde estava. Quando se ambientou, sorriu para ela.
— Já vai, minha filha? Muito obrigado, não sei o que ia fazer se não fosse você. Deus te abençoe, você é um anjo.
Irene sorriu sem graça. Anjo. Demônios também eram anjos, só que caídos. Até que combinava bem.
— Semana que vem eu volto, não se preocupe.
Quando trancou a porta, já o ouvia ressonar novamente. Não teria dó nenhuma de matá-lo. Na verdade, estaria fazendo um favor. Que tipo de vida era aquela? Dormir na poltrona o dia todo. Depender de uma vizinha para ter a casa limpa e refeições decentes? Viver sozinho, sem a esposa que amava e sem nenhum filho que cuidasse de sua velhice. Isso não era jeito de viver.
E por que o ajudava? Por causa do acesso que teria a ele, podendo matá-lo quando quisesse. Quando estivesse pronta. Apertou o casaco no corpo tentando se proteger do vento frio, enquanto vencia os poucos metros até sua casa. Havia também a culpa, culpa pelo que ainda faria.
“Pai, se estiver ouvindo, me ajude a provar que posso. Que sou mesmo igual a você, um monstro, sem coração, sem esperança de salvação”. Rezava ao pai da terra, não ao do céu. Jamais tinha levantado um pensamento sequer ao céu.
— Demônios não têm o direito de falar com Deus — dizia dona Olga em qualquer oportunidade.
Capítulo 2
Chegou em casa, a mesma que viveu a vida toda com a mãe. Era uma casa antiga, de paredes amareladas pelo tempo, com rachaduras finas que serpenteavam como veias cansadas. O ar carregava um cheiro persistente de coisas guardadas: poeira, gordura antiga, um leve mofo que nunca ia embora, como se estivesse impregnado nos ossos da estrutura. Nada ali respirava frescor. Tudo parecia parado, suspenso em um tempo que se recusava a passar.
Os poucos móveis permaneciam exatamente onde sempre estiveram, pesados, escuros, com quinas duras e superfícies marcadas por anos de uso e descuido. Não teve coragem de mudar nada. Ela saberia, e a puniria, tinha certeza. Por isso, andava na própria casa de olhos baixos, nas sombras, como uma visitante indesejada, atenta a qualquer movimento dúbio, fora da rotina e do aceitável. Mas os pensamentos… Acreditava estarem livres de escrutínio. Fizera o teste. Se a mãe os podia ouvir, nunca revelou, não de uma forma minimamente aceitável.
— Eu sei o que está pensando, menina do diabo. Se pudesse levaria sua mente com sabão de cinza assim como lavo sua boca!
Mas se ela soubesse mesmo no que estava pensando, com certeza não a deixaria viva. A teria matado como se matavam as bruxas, devolvendo-as ao inferno.
Seu único divertimento era planejar. Havia planejado a morte da mãe de incontáveis formas, todas extremamente satisfatórias. Na verdade, não, gostava de imaginar finais, não o início, ou o meio… mas sim o fim. O instante exato em que a mãe deixaria de existir, e com ela, o peso constante que ocupava cada canto da casa, cada pensamento, cada respiração, cada trauma.
Em algumas dessas fantasias, não havia esforço. Ela simplesmente desaparecia. Sumia de dentro da própria existência como se nunca tivesse estado ali. Em outras, a justiça vinha disfarçada de destino. Algo maior, inevitável, tomava-a de forma súbita, quase impessoal. E Irene ficava ali, imóvel, observando, sem interferir. Apenas com uma maravilhosa sensação de equilíbrio, como se o mundo estivesse, enfim, corrigindo um erro antigo.
E claro, havia aquelas brutais, em que havia muito sangue, muitos gritos e desespero. Aquelas em que ela brincava com as peças desmontadas do corpo dela.
Seu pai teria adorado. Ele a entenderia. Costumava ansiar para que ele viesse resgatá-la da mãe. Mesmo que ele fosse tão mau como a mãe dizia, ela também era, não era? Eles deviam estar juntos. Seria bom que estivessem juntos. Mas agora que a mãe estava morta, esse pensamento vinha acompanhado de um medo novo, desconfortável. E se ele não fosse nada disso? E se fosse apenas um homem comum, gasto pelo tempo, sem força alguma? Alguém que também se curvava, que também tinha medo, que também fora esmagado pela mesma presença que a esmagava? Isso partiria seu coração. Preferia idealizar um homem realmente mau, que fizera a mãe sofrer muito, como ela merecia. Alguém que realmente justificasse tudo aquilo, que desse forma ao caos em que crescera.
Ouviu o zumbido de asas que sempre a deixava alerta, seguido do tec, tec, batendo no forro. Olhou para cima e viu o marimbondo, grande e marrom escuro, voando sobre ela.
— Mãe, eles vão me picar!
Se viu com pouco mais de três anos, aterrorizada, apontando para um deles.
— E deviam mesmo. Eles não fazem nenhum mal para pessoas boas, só para pessoas ruins, como você.
Eles haviam feito um ninho dentro do forro, e a menina havia implorado para que a mãe se livrasse deles, mas ela insistia em mantê-los.
— Eles vão te vigiar melhor do que eu. Saberão quando fizer uma coisa má e virão te punir.
E eles continuavam lá, sempre pairando sobre ela, como anjos vingadores. Ironicamente, nunca havia sido picada. Ainda.
O zumbido a tirou do devaneio. Admirou-se com a escuridão da sala. Olhou ao redor, para a poltrona de sua mãe, quase podia vê-la sentada lá. Carrancuda, murmurando impropérios, fazendo bicos de crochê nos panos de prato.
— Por que, mãe? O que eu fiz para a senhora me odiar tanto?
A pergunta escapou de sua boca antes que pudesse contê-la. Irene cobriu a boca em pânico. Fechou os olhos à espera do que viria. Mas só veio o silêncio. Pior do que o ódio é o desprezo.
Soltou o ar devagar, tentando controlar a respiração.
— Não pode responder, não é… Porque você está morta. Está morta e enterrada. Apodrecendo. Nem o inferno seria suficiente para você, sabia?
A poltrona vazia a incentivava a colocar para fora uma vida de dentes trincados, unhas cravadas nas palmas, suor escorrendo gelado pelas costas.
— Não pedi para vir a esse mundo, não a escolhi como mãe, não fiz nada que merecesse o seu ódio! Não tive culpa de nada!
Falava aos berros. Tremendo. Levantou do sofá duro, coberto com um plástico amarelado e grudento, e acendeu a luz. Precisava se acalmar, estava totalmente transtornada. Ainda esperava que algo horrível acontecesse, talvez sua mãe entrando pela porta da frente, coberta de lama, com a carne apodrecida, cheia de larvas, os cabelos ressecados, ainda firmemente presos no coque, as órbitas sem olhos, o nariz carcomido e a boca aberta em um grito eterno.
Não conseguia respirar. Puxava o ar em respirações curtas e rápidas. Correu para o quarto, trancou a porta, e se jogou na cama de solteiro que ficava ao lado de outra igual, que era da mãe. Ela apertou os olhos com força, tentando empurrar a imagem para fora da cabeça, mas já era tarde. A outra cama estava ali, intocada, sempre esteve, esticada com o mesmo rigor de anos, como se ainda repousasse um corpo. Mesmo ausente ela ainda podia ver.
Era sua visão desde a infância, a mãe deitada naquela cama com rigidez quase militar, mãos cruzadas sobre o peito ou apoiadas ao lado do corpo, como se até o descanso precisasse obedecer regras.
A imagem mudava, vinha os dias mais recentes, quando a doença começou a marcar presença, não com fragilidade como imaginou que aconteceria, mas dura e irritadiça. Ela nunca se rendia. O rosto contraído de dor, olhos atentos, julgando…controlando.
E então o último dia. Quando a única presença naquela cama eram os vestígios de suor e vômito. Estava morta, ela viu… ela tocou nas suas mãos geladas, fechou seus olhos frios, sentiu seu coração silencioso. Foi o momento mais sublime de sua vida. Ela estava morta, não haveria mais o que temer. Não é?
“Ela não pode entrar aqui, não pode. Ela está morta! Está morta! Está morta!” Repetia sem parar. “Pai, me ajuda, me ajuda, me ajuda.”
Não soube quando dormiu.
— Dorme com os olhos abertos, menina, porque o seu pai pode vir te buscar a qualquer momento e te levar para o inferno com ele.
E ela tão pequena ainda, cobria a cabeça com o cobertor e pedia em pensamento que o pai viesse logo, porque era inimaginável um lugar que fosse pior do que ao lado da mãe.
Quando acordou, os músculos doíam, retesados pela tensão constante, a cabeça pulsava, como se uma prensa a esmagasse de forma ritmada. Apenas mais um dia normal.
Capítulo 3
Ainda não havia se acostumado ao silêncio. Desde que a mãe morreu quase não falava com ninguém. Não tinha amigas. Antes tinha colegas de escola, que também não gostavam dela. Ninguém gostava. Cochichavam a seu respeito, pareciam saber mais sobre sua vida do que ela mesma. Mas o pior eram os olhares de piedade.
Quando terminou a escola, queria desesperadamente conseguir um emprego, quanto mais longe, melhor. Precisava juntar dinheiro para ser independente. Iria embora e jamais olharia para trás. Porém, a mãe tinha outros planos, e exigiu cuidado constante para suas dores imaginárias.
— Você precisa prestar para alguma coisa, afinal de contas!
Dona Olga nunca mais fez nada em casa, nem na cozinha. Tudo ficou ao seu cargo. No final, teve até que dar banho e trocar as fraldas da mãe, que parecia ter um prazer perverso em dar o máximo de trabalho que pudesse. Irene fazia tudo com o contentamento mórbido de presenciar o sofrimento da mãe. E quando as dores, que não eram tão imaginárias quanto pensara, aumentaram a um nível quase insuportável, foi a época mais feliz da vida de Irene. Ouvir os gemidos de agonia da mãe eram sua recompensa.
Sorriu com a lembrança. O café quente na xícara e o pão de forma torrado, coberto com manteiga, lhe davam uma sensação estranha de segurança e prazer. O som da chuva lá fora, enquanto ela estava protegida era reconfortante. Ainda estava aprendendo a estar em paz. Paz. Será que sabia realmente o que era estar em paz? Achava que jamais encontraria paz, talvez só quando seu pai enfim viesse buscá-la.
Será que ele existia de verdade? E se fosse mesmo um demônio? O que sua mãe fizera para que um demônio tivesse prestado atenção nela? Sempre tinha achado que sua mãe era daquele jeito por causa do que seu pai havia feito com ela, mas pensamento bem, talvez um demônio só reparasse nela por causa de como ela era, atraído pelo seu caráter odioso e perverso.
Balançou a cabeça espantando os pensamentos.
— Por que ela ainda ocupa todos os meus pensamentos?
— Eu preciso saber de tudo o que se passa nessa sua cabecinha de aberração, para te impedir de fazer qualquer mal, você não entende agora, mas estou tentando te livrar de ser o monstro que no fundo você nasceu para ser. — tirou o gatinho, que estava acariciando, de suas mãos.
Tinha só sete anos e estava feliz de ter encontrado um serzinho quente e macio que gostava de dar e receber carinho. Não entendeu na hora, mas agora entendia.
Pensou em seu Pascoal, tão gentil com ela, tão indefeso… Era um dia nublado, escuro, e o vento quase carregava o que encontrava na rua. Ela estava presa em casa com a mãe, atendendo cada capricho dela.
“Se eu fizesse uma coisa muito ruim mesmo, como será que ela reagiria? Mas teria que ser uma coisa horrível, como… matar alguém… isso! Ela com certeza surtaria!”
Uma euforia tomou conta de seu ser em antecipação.
“Mas quem? Teria que ser um alvo fácil, descomplicado… mas quem? Uma das filhas da dona Neusa? Não, como iria ficar sozinha com uma delas? Impossível. Talvez a dona Ivete, ela é velha e magra o suficiente, acho que eu poderia cortar o pescoço dela, e ainda teria o bônus dela ser a melhor amiga da mãe…”
Seus olhos brilhavam de expectativa.
“Mas… ela nunca ia me deixar em uma situação favorável. Jamais. Então, só poderia ser o seu Pascoal! Isso! Ele seria perfeito! Velho, indefeso, sozinho, e nunca imaginaria que eu pudesse matá-lo!”
E assim seu destino havia sido selado. Já haviam se passado vários anos. Matar alguém de fato era muito mais difícil do que apenas planejar. Quando a mãe morreu, ficou muito decepcionada consigo mesma, por ter demorado tanto a agir, perdendo a oportunidade de ver como ela reagiria. Mas talvez tivesse sido melhor assim, não ter dado à mãe o gosto de ver que sempre estivera certa. No entanto, prometeu para si mesma que um dia faria, custasse o quanto fosse. Teria coragem de matar o velho, justo quando a mãe não poderia ver, nem se vangloriar de ter previsto o quanto ela era má. O prazer que sentiu com esse pensamento foi ainda maior do que se tivesse esfregado na cara da mãe o sangue de seu Pascoal.
Seu pai a entenderia, com certeza. Imaginava como ele seria. Alto, forte e furioso.
“O que você fez com ela, pai? Espancou ela até a deixar desacordada? Torturou-a lentamente, por dias, meses e anos? Me colocou dentro dela contra a sua vontade? Fez ela te amar e partiu seu coração? Ou só a abandonou quando eu nasci? Talvez você não a suportava mais e foi embora… deveria ter me levado junto.”
Todas as possibilidades davam a Irene uma sensação de vingança pelo que havia sofrido. Talvez a mãe não merecesse na época o que lhe aconteceu, mas com certeza fez por merecer em todos os anos seguintes.
— Bem feito!
Falou em voz alta. Olhando para a escuridão da tarde que já a cercava. Mais um dia que havia perdido em divagações. Mais um dia de vida que sua mãe roubava dela. Mesmo depois de morta. Quando ela se libertaria? Quando fosse má o suficiente? Quando fizesse a alguém todo mal que sua mãe havia feito a ela?
Sua boca se abriu em choque. E se sua mãe só estivesse tentando se livrar de todo o mal que o seu pai havia feito a ela, maltratando o máximo que pudesse a filha dele? Mas que culpa ela teria? E que culpa seu Pascoal tinha? Alguém inocente sempre teria que sofrer.
Deixou que as lágrimas corressem livremente, afinal só conseguia dormir quando estava quase se afogando nelas.
Capítulo 4
Quando acordou, sua mãe estava sentada em sua cama. Não o cadáver putrefato que rondava suas fantasias, mas sua mãe de antes da doença.
— Enfim acordou! Não faz mais nada na vida além de dormir?
A voz que não ouvia há quase um ano a paralisou e o medo surreal de que esse ano sem a presença dela tivesse sido apenas um sonho e que na realidade ela ainda estaria viva e saudável, era insuportável.
— Não se preocupe, não ficarei muito tempo. Tenho mais o que fazer. Só queria te dar um recado.
Irene não conseguia se mexer, nem respirar. Tentava manter os fiapos de sanidade que ainda lhe restavam.
— Você não tinha coragem antes, e continua não tendo. Acho que no final das contas eu tenha me enganado sobre você. Está longe de ser como o seu pai. Parece mais comigo, que nunca tive coragem de fazer o que devia ter feito.
— Não! — conseguiu gritar.
Acordou assustada, suando, sentada na cama vazia, puxando o ar como se estivesse muito tempo debaixo d’água.
— Foi só um sonho. — repetiu até ter certeza.
Um sonho horrível, pior do que seus pesadelos monstruosos. Se fosse realmente como a mãe, preferia já estar morta. Precisava provar a ela que era diferente! Que podia matar qualquer humanidade que ainda vivesse nela. Precisava matar seu Pascoal. O quanto antes. De verdade. Sem planos. Sem desculpas. A hora era agora.
A certeza tomando conta de sua mente trouxe mais aflição do que o alívio que achou que sentiria. Antes era só um planejamento doentio e inocente, que não fazia mal a ninguém e lhe trazia um certo prazer, agora era uma enorme pressão sobre seus ombros. Mas não tinha escolha, precisava provar que não era como a mãe.
Será que tinha coragem? E se não tivesse? Teria que lidar com a verdade de ser apenas uma pessoa comum, injustiçada pelo mundo, pela vida, pela mãe. E seria definitivamente diferente do pai. Seu único apego, ainda que fosse imaginário. Isso seria insuportável.
Era então a hora do último planejamento, agora para valer. Iria acabar com a solidão do seu Pascoal e mandá-lo para os braços da sua amada esposa. Precisava ser rápido e indolor. Limpo e eficiente. O dia da semana em que o ajudava estava chegando. Agiria normalmente, como sempre. Sairia como se ele ainda estivesse vivo. Depois, torceria para que o encontrassem antes de sua próxima visita. Seria horrível ter que chamar a polícia, mesmo sendo uma ótima forma de não entrar para a lista de suspeitos.
Sentia calafrios só de pensar que havia chegado a hora. Sua mente entrava em conflito, ora em antecipação mórbida, ora em repulsa horrorizada. Andava como uma autômata, fazia as tarefas de casa, se alimentava e ia ao mercado, sem prestar atenção a nada, não conseguia lembrar de uma pessoa que havia encontrado, ou do que havia comido, ou se tinha tomado banho naquela semana. Queria que o dia chegasse rápido, mas também que demorasse séculos, só que, assim que finalmente marcamos uma data, o tempo corre até ela, por mais que tentemos impedir, e logo o grande dia amanheceu encontrando Irene desperta, sentada na cama, abraçando com força os joelhos e com os olhos arregalados.
“É hoje, filhinha! Como está se sentindo? Animada?”
Imaginava a sombra do pai sobre ela, a voz grave, o tom amoroso e encorajador.
— Sim. Animada.
Tentou sorrir.
“Não! Eu não quero fazer isso, eu não vou conseguir, não sou como você, sou como ela! Covarde!”
Ele não poderia ler seus pensamentos e sentimentos. Não queria desapontá-lo, nem a si mesma, nem a mãe. Queria provar que ela estava certa o tempo todo, que havia merecido todo o mal que tinha recebido, que a vida era justa, afinal. Justiça. Ela precisava desesperadamente de justiça.
Levantou da cama ainda ao amanhecer, mesmo que ainda faltassem horas para seu Pascoal estar esperando por ela. Lavou o rosto com água gelada, deixando que o choque a puxasse de volta para o corpo, e então ergueu os olhos para o espelho.
Os olhos vermelhos, fundos, denunciavam a noite mal dormida. A pele, pálida demais, quase translúcida sob a luz fraca. Os cabelos finos, esvoaçantes e opacos, exatamente como os da mãe, caíam sem vida sobre os ombros. O nariz grande, o queixo pontudo… talvez fossem do pai. Ou de algum outro rosto perdido na linhagem que nunca conhecera. Dona Olga nunca havia mencionado ninguém de sua família. Não sabia se tinha avós, tios ou tias. Sempre foram apenas as duas.
Não sabia quem era.
Nunca havia realmente pensado sobre isso antes, mas agora seria consolador ter conhecido outros familiares. Saber mais sobre suas próprias origens. O que teria acontecido com eles? Sua mãe os havia abandonado ou eles teriam fugido dela? Ela seria órfã? Fora criada por lobos? Podia ter simplesmente escapado do inferno carregando a filha do diabo no ventre. Era o que fazia mais sentido.
Talvez ninguém fosse inteiro. Talvez fosse só isso mesmo: pedaços. Fragmentos herdados, costurados sem cuidado. Um emaranhado de vozes antigas, de gestos repetidos, de inclinações que não escolheu. Às vezes tinha a sensação de que havia algo ali dentro, mais de um algo, disputando espaço, querendo subir à superfície, tomar o controle, dizer: sou eu.
Mas quem? Seu olhar desceu devagar.
O corpo, já de mulher, parecia não lhe pertencer por completo. Havia curvas onde antes havia ossos retos, suavidades que surgiram sem que ela pedisse. Os ombros eram estreitos, os braços delicados, o peito pequeno, quase tímido, como se ainda estivesse indeciso em existir. A cintura afinava e se abria em quadris discretos, um corpo que poderia ser considerado bonito ou ao menos suficiente.
Mas ela não conseguia enxergar assim.
Havia algo de errado em ocupar aquele espaço. Como se fosse um erro ter crescido. Como se não tivesse sido autorizada.
Em algumas noites, quando o silêncio da casa ficava insuportável demais, ela buscava alguma sensação que a puxasse de volta para si mesma. Um calor breve, um alívio qualquer, algo que provasse que ainda estava viva, que o corpo não era só um invólucro tenso e vigilante.
Podia sentir os olhos amaldiçoados de sua mãe a espreitando nas sombras. Dizendo que ela nunca teria o amor de ninguém. Que no máximo a usariam e descartariam como um trapo sujo.
Capítulo 5
Não conseguia comer nada. Só o cheiro do café esfriando na xícara revirava seu estômago. Olhou fixamente para os ponteiros do relógio contando cada segundo. Dona Olga estava sentada à sua direita e a sombra do pai à sua esquerda.
— Eu sabia que essa menina tinha o capeta no corpo.
“Minha menina! Estou tão orgulhoso de você!”
Irene tentou normalizar a respiração. Virou para a mãe e perguntou?
— Se a senhora tinha tanta certeza, por que não me afogou na banheira como sempre quis?
Olhou para o lado da sombra do pai.
— E se está tão orgulhoso de mim, por que nunca veio me buscar?
Voltou os olhos para o relógio.
— De qualquer forma, a minha… vida — riu histérica — teria sido muito melhor.
— Vão embora. Os dois. Eu preciso fazer isso sozinha.
Fechou os olhos e respirou profundamente. Queria poder se repartir ao meio, metade iria correndo se enfiar debaixo do cobertor e chorar até a morte, e a outra pegaria qualquer das facas que vivia afiando e cravaria no coração daquele velho, e de todos os vizinhos que encontrasse em seu caminho. Depois os esquartejaria e espalharia os pedaços pela cidade.
Sua cabeça começou a latejar, levantou e foi até o armário de remédios. Seria tão fácil acabar com esse dilema. Acabar com tudo. Pegou o que restou dos remédios da mãe, todos tarja preta. Olhou tanto tempo para eles que quando voltou a si, estava quase na hora de sair de casa. Colocou tudo de volta, pegou um analgésico, colocou na boca e mastigou o comprimido. O sabor amargo a jogando de volta à realidade. A hora havia chegado. Ela iria matar uma pessoa.
Vestiu uma calça jeans, camiseta e tênis, colocou um par de luvas de látex no bolso do casaco. Não se preocuparia com suas digitais pela casa toda, já que tinha um motivo justo para estarem lá, só não poderiam estar na faca. Usaria também uma faca que pegaria na cozinha de seu Pascoal, aquela que havia preparado cuidadosamente.
Olhou ao redor da casa fria, e nem os fantasmas dos pais apareceram para se despedir. Tentou parar de tremer, andar normalmente, sem chamar a atenção, sorrir para os vizinhos. Não podia parecer suspeita. Mas não conseguia parar de tremer, sentia um suor gelado descer pelas costas e estava com dificuldade de controlar a respiração. Seria um milagre se não desmaiasse no caminho.
— Irene, minha filha, faz tempo que não te vejo. O que tem feito?
Dona Maria, que sempre estava varrendo a calçada, independente da hora, a encarava esperando uma resposta.
— Nada demais… ham, tô tentando achar um emprego, mas tá difícil.
Colocou as mãos, que tremiam, no bolso do casaco.
— Está difícil pra todo mundo mesmo… ainda bem que sua mãe te deixou uma pensão, né? Que Deus a tenha. — Levantou as mãos juntas acima da cabeça.
— Sim… ainda bem… eu tenho que ir, dona Maria, o seu Pascoal deve estar me esperando.
— Vai sim, minha filha, ninguém vai poder pagar o que você está fazendo por ele. Você é uma moça ótima!
Despediu-se sem olhar nos olhos da vizinha e andou o mais rápido que podia até chegar na casa do velho. Não aguentaria mais nenhuma interação.
“Um anjo. Uma ótima moça. Um demônio. Uma assassina. Uma covarde.”
Era engraçado ver como cada pessoa a via. Como ela seria de verdade? Qual daquelas versões?
— Cheguei, seu Pascoal! — anunciou, guardando o casaco.
— Irene, minha filha! Deus abençoe! Não sabe como é bom poder contar com você.
Sorriu para ele, baixou a cabeça e foi para a cozinha fazer a comida para as marmitas. Pensou em não fazer, mas seria muito suspeito. Tentou fazer tudo exatamente como sempre. Sem pressa, sem erros, para conseguir se acalmar, imaginou que não seria hoje o grande dia, que era apenas um dia normal, como todos os outros, que terminaria tudo e iria embora, com o velho ainda vivo.
Começou verificando o que havia na geladeira e na despensa, o velho comprava sempre o básico, pedia tudo o que queria por telefone. Sempre as mesmas coisas. Sem surpresas. Tentou não pensar em nada, só no que estava fazendo. Gostava de cozinhar. Não para a mãe, que reclamava de tudo, mas para ele sim. E para si depois da morte da mãe. Fazer o que quisesse comer, da forma como gostava e saborear em paz era um dos poucos momentos de prazer que se permitia.
Conseguiu se distrair preparando o arroz com feijão de sempre, a carne moída com batatas e os legumes cozidos no vapor. Deixava as folhas limpas e secas, guardadas em um pote com papel toalha para que durassem. O velho mesmo preparava a salada na hora das refeições. Fez também um bolo mesclado. Era o preferido dele.
Deixou tudo pronto na cozinha e começou a organizar a casa. Nessa hora seu Pascoal já estava roncando na poltrona. Cada vez que olhava para ele, sua espinha gelava. Precisava terminar tudo antes de matá-lo. Sabia que iria querer sair o mais rápido possível depois. Não podia deixar nada fora do lugar.
A cada cômodo que limpava, a dor na cabeça e os calafrios aumentavam. As mãos tremiam tanto que seria difícil acertar bem o coração do velho. E só de pensar em errar, e o deixar vivo e sofrendo, enquanto olhava com uma interrogação para ela, quase a fazia desistir de vez. Mas não desistiria.
Limpou tudo com mais capricho do que o habitual. Demorou mais do que deveria, deixando tudo impecável. Logo ele acordaria e perderia sua chance. Esse pensamento trazia alívio e urgência. Quando não faltava mais nada a ser feito, foi até o cabide ao lado da porta e tirou as luvas do bolso do casaco e calçou-as, foi até a cozinha, pegou a faca e ficou parada ao lado da poltrona onde seu Pascoal roncava.
Ele estava tão vulnerável. Tão indefeso. Logo não existiria mais. Dormiria para sempre. Seria bom. Ela mesma queria ter tanta sorte. Rezaria por ele se soubesse como. Ele era um homem bom, iria para o paraíso, com certeza, não precisava se preocupar com isso, precisava se preocupar com a própria alma, que se não estivesse ainda condenada, estava prestes a ser. Os calafrios tomavam seu corpo todo. A cabeça parecia que iria explodir. Fechou os olhos com força, quando abriu, viu tudo em dobro por alguns segundos, balançou a cabeça. Era agora ou nunca.
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