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Detox Literário.

A Incrível História do Morto que Estava Vivo (Corono Vérius)

Aposentado, já havia perdido a mulher e os filhos para a vida. Os próprios pais foram bem antes, quando ele estava com 86 anos. E agora, quarenta anos depois, sem sentir sequer uma dorzinha de cabeça, decidiu procurar um médico:

—O senhor está morto.

—Morto? Como assim?

—O senhor está morto. Fiz todos os exames e o resultado é que o senhor está morto.

—Estou andando, comendo, bebendo, só o sono que não tenho mais. Como posso estar morto?

—Não é muito comum, mas o senhor está morto. Não há dúvida quanto a isso. Já vou assinar o óbito.

—E o que vou fazer agora que estou morto?

—O senhor tem família?

—Não. Todos já morreram. 

—E quem vai cuidar do seu enterro?

—Enterro?

—Sim. O senhor está morto. Precisa ser enterrado, descansar em paz.

Na funerária, enquanto olhava alguns modelos o vendedor se aproximou:

—Posso ajudar?

— Sim. Estou procurando um caixão de no máximo mil e quinhentos reais.

—É para a sua esposa?

—Não. É para eu mesmo.

—Como assim? O senhor está com alguma doença terminal? Prestes a morrer?

—Não. Segundo o médico eu já morri. Tenho atestado de óbito e tudo. Veja.

—É mesmo. Nossa, que legal. Poder cuidar do próprio velório, escolher o próprio caixão.

—É verdade. E esse aqui? Quanto custa?

—Este é mil e oitocentos reais e só não dá para parcelar porque o senhor não vai estar aqui para honrar o compromisso, não é mesmo?

—Estou querendo pagar à vista. Vivi com o nome limpo e não é agora depois que estou morto que vou sujar meu nome. Mas quero o serviço completo: remoção, velório, corbélia, velas em castiçais.

—A remoção podemos fazer por seiscentos reais, mas por que o senhor não chega no cemitério de Uber para economizar? Podemos deixar o ataúde já na porta e o senhor desce, acerta a corrida e assume seu lugar no caixão. O que acha?

 

—Nada disso. Não vai pegar bem. Quero fazer como todo morto faz: entrar no cemitério dentro do caixão.

—Não tem problema. O senhor é quem manda.

No dia do velório, dos poucos amigos que ainda estavam vivos um número ainda menor compareceu. Porém, a capela estava cheia de curiosos que queriam ver e conversar com o “morto”, saber por ele mesmo como e porque morreu.

Até a emissora de TV local compareceu e anunciou o que seria a primeira cobertura de um velório em que seria possível falar com o defunto.

Para não descaracterizar a cerimônia ele preferiu permanecer deitado e no caixão, mantendo o algodão no nariz. Só o da boca ele acabou tirando, porque atrapalhava ele falar:

—Quando o senhor percebeu que estava morto?

—Faz mais ou menos uns quarenta anos, as fortes dores que eu sentia sumiram e desde então não dormi mais. Até suspeitei de ser algo ruim, só não sabia que estava morto.

—E o que pretende fazer após ser enterrado?

—Descansar em paz. É só o que me resta, não é?

Às 17h50, faltando dez minutos para o fechamento dos portões, os funcionários sinalizaram que iriam fechar o caixão.

Muito emocionado, abraçou os mais próximos, agradeceu acenando para a multidão e foi aplaudido exaustivamente até que, com um sutil gesto de cabeça, autorizou a descida do caixão.

Enquanto ainda era possível ouvir os fogos e o som da terra cobrindo-o de vez, fez um retrospecto da própria vida.

Após alguns minutos em completa escuridão e sem ouvir nenhum outro som, pensou que talvez tivesse sido melhor consultar outro médico, pedir uma segunda opinião. Um pensamento que não durou muito, pois foi invadido por uma profunda calma até não conseguir respirar mais, após quarenta anos vivendo como se estivesse vivo.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.