EntreContos

Detox Literário.

Segunda-Feira (Humpert)

Cheguei no horário de costume, passei pelo segurança, Carlos, que já conhecia bem minha cara, me cumprimentou com o sorriso e o olhar de pena característicos. Meneei a cabeça e fui até a recepção. Mônica me recebeu com aquele mesmo olhar, seguido de um suspiro. Não seria hoje novamente.

— Está em reunião, Seo Roberto.  

— Posso esperar, minha querida. Que tal mais uma daquelas nossas conversas pra passar o tempo?  

O olhar de pena mudou para o olhar de desespero. Sabíamos que ele não estava em reunião, só não queria me atender novamente. Se eu esperasse, ele sairia por outro local. Encontrei ele em um restaurante, semana passada. Estava com a família – uma bela mulher e um casal de gêmeos, bonita a família. Naquele dia tive uma epifania, entendi o significado do que me restava de vida.  

Me aproximei da mesa da jovem, coloquei as mãos no balcão e olhei diretamente em seus olhos castanhos. 

— A próxima vez que eu vier aqui, sua vadiazinha de quinta, vai me conhecer de verdade e chamar aquele filho da puta! 

Seus olhos arregalaram. Não era possível um senhor de idade com cara de bonzinho proferir aquelas palavras. Soquei a mesa com toda força, e me arrependi logo em seguida. Era tudo que o Parkinson precisava. Saí dali com meu corpo em brasa. Mas me sentia vivo.  

— Já vai, Seo Roberto? Perguntou Carlos. 

— Ah, vá se foder, viado do caralho! 

Atravessei a rua e segui meu caminho, tão rápido quanto minhas pernas trêmulas conseguiram.  

Morava no quinto andar de um apartamento quase tão velho quanto eu. Uma das poucas coisas que me sobraram depois do último divórcio. Às vezes esquecia ou confundia o nome das minhas ex-esposas, qual a ordem dos casamentos ou com qual delas tive quais filhos. Foram seis até então, devia haver um ou outro bastardo também, mas não tinha certeza. Escapei de alguns na justiça. 

Entrei e o cheiro de produto de limpeza invadiu minhas narinas. Jerusa, a diarista, passara por ali, o que queria dizer que era segunda feira ainda, achei que fosse sexta. A geladeira estava abastecida e, na porta, vários post-its com as indicações dos remédios que eu deveria tomar. Aquilo não era obra de Jerusa, e sim do meu filho Ricardo, o único com quem tinha algum contato. Ele era útil, apesar de ser viado. Busquei no fundo da gaveta a cachaça que infelizmente eu tinha que esconder para não jogarem fora. Sentei no sofá e comecei a rir. Não sabia do que exatamente, talvez da cara aterrorizada da vadia da Mônica. Aquilo me animou, bebi mais alguns goles, tentando organizar meus pensamentos, o fluxo estava intenso, o ódio realmente é um santo remédio para algumas coisas, uma pena não curar câncer de próstata. Em breve vai completar um ano desde que abandonei o tratamento, se tivesse continuado com certeza já teria morrido faz tempo. Mas agora as dores estão ficando intensas e os remédios do mercado negro difíceis de achar, o cerco estava se fechando, eu sabia. Não sou idiota, sessenta e seis anos e parece que não ia completar os sete. A conformidade disso era alarmante, não havia mais o medo de morrer, de não acordar na terça feira e só acharem meu corpo semidecomposto na segunda quando Jerusa chegasse. Desde que não tivesse pelado, tudo bem. Não, o medo era apenas um: ser tarde demais para me vingar. 

Nos últimos dias estava me sentindo em uma versão pouco glamourosa de Braking Bad. Terminei a temporada esses dias, nunca tinha assistido uma série antes. Não havia tempo para essas futilidades em minha vida. Dediquei meu tempo e inteligência para conseguir dinheiro. Consegui, muito. Mas meu talento pra perder era maior que de ganhar, jogos, mulheres, divórcios, tudo me levou à ruína. Terminei como minha segunda esposa disse que eu terminaria, “velho, brocha, sozinho e acabado”. Comecei a rir de novo. Lorena era o nome dela, baixinha, corpo de violão, olhos azuis. Talvez a única que eu verdadeiramente tenha amado, mas aí veio aquela criatura e estragou tudo. Como era mesmo o nome dela? Antônia… ou Antonieta, não lembro. Nasceu com um problema no cérebro, deformada, sempre tive dúvidas de que fora mesmo filha minha, mas meu amor por Lorena tapou meus olhos. Viveu mais tempo do que eu imaginava, 16 anos. Nos separamos quando ela ainda tinha cinco, sempre penso em quanto eu teria economizado com um simples teste de DNA.   

Olhei para meus dedos, a imagem estava turva, não sei se pela catarata ou pelo efeito do álcool. Me restavam seis filhos, cinco me odiavam totalmente. Nunca entendi a resistência de Ricardo em me odiar, o desprezo mais que todos os outros, talvez tenha puxado a mãe, uma moça pobre que conheci em um momento inusitado da minha vida. Religiosa, bondosa…Até que… 

Fechei os olhos diante de uma dor de cabeça, ela tem me acompanhado ultimamente. Pensar nas minhas ex-mulheres me deixou surpreendentemente animado, todas lindas e deliciosas, nunca aceitaria menos que isso. Meus troféus, minhas posses. Olhei pela janela que dava para uma vista de mais prédios encardidos deixando impossível ver o céu, não que eu ligasse pra ele ou essas tolices. Na minha época de ouro tive um apartamento a beira mar, não ia à praia, é claro, mas o importante era ter. Me levantei e fui até a janela, o vizinho da frente deixava as roupas secarem na varanda, uns trapos horrorosos, já era noite… quanto tempo passei sentado bebendo? Lá embaixo a cidade se movimentava, de repente quis me movimentar também. Fiquei algum tempo no subindo e descendo do elevador até acertar a saída. Lá fora a brisa era fresca, com sorte eu pegaria um resfriado.

Enquanto caminhava pelas calçadas, parei diante de uma vitrine, que aquela hora se tornava um espelho, e vi um homem que eu não reconhecia. Nada deixava transparecer a beleza e virilidade do homem que um dia fui. Eu exalava fragilidade, transmitia pena. A barba espessa e branca me deixaria apto até para ser o bom velhinho no natal. Sorri, balançando a cabeça. Eu me conhecia. Comecei a imaginar o que traziam por dentro os outros corpos velhos que transitam por aí, seriam eles lobos em pele de cordeiro também?

— E aí, vovô. Uma voz passou por mim. Virei-me rapidamente, uma mulher negra caminhava para longe. As roupas, o andar, tudo indicava que era um puta. Mas nos tempos de hoje não é mais um diagnóstico preciso. Foda-se os tempo de hoje. 

— Tá custando quanto? — gritei pra ela.

Ela parou, meio surpresa… me avaliando. 

— Acho que você não vai me dar muito trabalho. Posso fazer um preço camarada.

Subimos pro meu apartamento e logo pedi para ela se despir. Fazia quantos anos que não via uma mulher nua tão de perto? Retirei minha roupa também, incomodado com o olhar dela diante do meu corpo quase cadavérico.

—  Deite-se ali —  ordenei. 

Ela obedeceu, mas o tempo todo com aquele risinho de canto de boca. O motivo era óbvio, eu estava mais murcho que quando fazia exame de toque no urologista. Ela chegou perto e começou a estimulá-lo, o toque era dolorido a vergonha mais ainda. 

—  Não tem aquele remedinho aí? 

Dei um tapa com toda a força que me restava em seu rosto. Ela caiu, mais pela surpresa que pelo impacto.

—  Eu não preciso de remedinho, sua puta desgraçada. É o seu cheiro fedido de um dia inteiro dando o cu que está me enojando!

Ela veio pra cima de mim. Não vi mais nada. Bom era o tempo que você podia fazer o que quisesse com as prostitutas sem ser surrado depois.

Acordei com dor, não a costumeira, dor nos ossos, na boca. Minha boca estava sangrando, os acontecimentos da noite vieram. Amaldiçoei a puta. Demorou algumas horas até conseguir me levantar, tomar um banho e catar um pouco de dignidade. A urina estava vermelha de sangue, tic tac tic tac, Roberto, seu tempo está acabando.  Logo a rotina voltou, lembranças, álcool, aqueles pensamentos. Depois de apanhar o que mais me faltava? Me apeguei aos pensamentos… doces.

Caminhei cambaleante até a primeira gaveta da cômoda perto da cama. peguei o revólver, novinho, me custou quase as economias todas.  Fui até o espelho, apontei pra minha cabeça, as mãos trêmulas, não de medo, mas da doença. Pensei naquele dia no restaurante, na decisão que eu tinha tomado… nos olhares daquelas crianças. Fui franco, não serei novamente. Segunda-feira estarei de novo na portaria da empresa que eu construí, que eu criei, que eu transformei, e vou matar o desgraçado que me tomou tudo, não ele, o pai dele…mas não importa. O desgraçado morreu antes que eu tivesse chance de fazer algo. Mas o filho não herdou apenas tudo, herdou também a arrogância. Dez anos tentando recuperar o que é meu e nada. Apenas desprezo. Todos contra mim, inclusive os ingratos dos meus filhos que hoje usufruem do meu suor. Desgraçados.

Estava tudo na minha mente, o que eu tinha a perder? Nada. Vou reservar uma bala para Mônica e Carlos também.  Para que eles nunca mais ousem me olhar com pena, para que não me tratem como um coitadinho. É… é isso que vou fazer. Segunda-feira. Vou me matar depois? Não sei se conseguiria, mas é o padrão… ou talvez eu deixe que me prendam. Talvez eu queria dar uma entrevista, falar quem eu sou, o que já fiz… ficariam chocados, aposto. Contariam minha história… eu contaria. Uma dor aguda na minha pélvis me fez derrubar a arma. Maldição! Isso tem que acabar! Peguei os últimos remédios que me restavam e tomei. Deitei na cama e dormi.

Acordei com Ricardo me chacoalhando, era domingo. Por que ele estava aqui em um domingo? Logo me disse que ia viajar e só retornaria na próxima semana. Decerto ia pra alguma parada gay. Era impressão minha ou estava usando batom? Me ajudou a tomar banho, enquanto ele me lavava, olhei em seus olhos e vi sua mãe, então me lembrei. Roseane. 

—  Sua mãe era uma boa mulher —  falei.

Ele me olhou surpreso, os olhos enchendo de lágrimas. 

—  Ela foi sim, pai.

—  Acho que estaríamos juntos até hoje se ela tivesse abortado você. 

A dor em seus olhos foi fascinante, ele não disse nada. Continuou o banho, fez minha comida, escreveu os post-its e foi embora. Foi nossa despedida.

Segunda-feira, acordo animado. É o grande dia. Pego minha melhor roupa, está muito larga agora, mas não importa. Passo pacientemente até desfazer todos os gumes, visto. Penteio os cabelos, herança da minha juventude coisa que continuou, não sou um velho careca. Passo perfume. Jerusa chega, Fica surpresa ao me ver todo arrumado. hoje não serei mal humorado com ela. Espero ela deixar o apartamento com aquele cheiro de lavanda e ir embora. Levanto, vou até o espelho do banheiro, escovo os dentes, passo fio dental. Os dentes ainda são meus também. A arma no coldre, o sorriso no rosto, ficando maior, se transformando numa estrondosa gargalhada, há quanto tempo eu não ria assim? De repente ela fica entrecortada, uma tosse está atrapalhando meu momento, fica mais forte. Sou obrigado a parar um pouco pra respirar… cadê o ar? Olho no espelho e vejo pânico. Então a dor, a fraqueza, os últimos pensamentos…. e então mais nada.

Ainda é segunda-feira.

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.