EntreContos

Detox Literário.

Os filhos de Egronte (Agripius)

A coluna de soldados romanos atravessava o bosque. O passo era vigoroso mas no rosto era visível o cansaço. De todos eles, Agripius era o mais velho. Tinha 45 anos, estava prestes a terminar o seus destacamento na Britannia, sedento de voltar a casa, depois de dez anos de ausência. Mais do que o dever de servir Roma, tinha sido um vazio imenso que sentira alma que o fizera alistar-se. Tinha, entre os colegas da centúria, as únicas pessoas que considerava irmãos, agora que os seus dois irmãos de sangue tinham morrido. Como única família tinha o filho, numa aldeia a norte de Roma, na Gallia Cisalpina, atual Lombardia. A peste tinha-lhe levado a esposa e os seus dois outros filhos. Ficara Actius, a quem Agripius ensinara tudo o que sabia. O rapaz aprendeu a montar e a usar a espada como um mestre, mas o pai sentia uma necessidade insaciável de partir, de desafiar a morte que não o quisera levar. Quando Actius fez sete anos, deixou-o entregue a uma família de amigos e partiu para se alistar. Nesse dia, Agripius sentiu que morrera uma segunda vez, depois da morte da mulher e dos filhos lhe ter roubado a alma.

Mesmo sendo considerado um velho, Agripius era tido como um dos melhores soldados, o que tinha a agradecer ao seu pai, que o tinha instruído nas artes da guerra desde que tivera idade para empunhar uma pequena espada de madeira. Era relativamente baixo e entroncado, tinha a força de um ferreiro e a agilidade de um atleta.

  Estava agora profundamente cansado da guerra e das atrocidades que o obrigavam a fazer em nome de um César que não tirava o cu do seu trono, a milhares de quilómetros de distância. Queria voltar para a sua aldeia, para o seu filho. Mesmo sendo velho, Agripius poderia voltar a casar e ter mais filhos. Envelhecer pacatamente a ver o trigo crescer na companhia de filhos e netos. Que mais poderia pedir um homem? 

Estava mergulhado nestes pensamentos quando os rebeldes atacaram. Estavam escondidos na mata que conheciam melhor do que ninguém. Um deles esmagou o crânio de Plinius com um golpe de maça. Agripius perfurou-lhe o peito com a sua lança. Saindo da formação, lançou-se então ao ataque. Estava no seu elemento, no meio da vegetação. Matou dois rebeldes e capturou outro, de longos cabelos loiros. Não teria mais de 17 anos e era quase um gémeo do seu filho. Agripius tinha recebido ordens para não fazer prisioneiros (eles fariam o mesmo), mas não conseguiu matar este jovem. Contra o conselho dos seus companheiros, fez dele o seu escravo. Por alguma razão, Malek aceitou o seu fado com resignação. Mesmo assim, Agripius demorou algum tempo até ter confiança suficiente nele para conseguir dormir sem ter receio de represárias. Malek sabia que lhe devia a vida e demonstrou sempre a sua gratidão. 

Uma noite, uma bruxa apareceu a Agripius num sonho. Era a mulher mais bela que ele tinha visto, mas ele sabia reconhecer uma bruxa quando via uma, mesmo num sonho. Agripius prestava homenagem aos deuses antigos, os mesmos que César perseguia, e as bruxas eram personagens comuns – mais do que o mal, eram mulheres que tinham uma ligação muito forte à Deusa Mãe, Gaia.

  Ela agradeceu-lhe o facto de lhe ter salvo a vida do filho, Malek. 

“Como recompensa, venho dar-te um aviso: regressa o quanto antes se queres ver o teu filho com vida.”

No sonho, a bruxa esvaiu-se numa nuvem de fumo. Agripius acordou aflito. Como centurião que era, não podia, simplesmente, ir-se embora. Ainda faltavam seis meses para que o seu destacamento acabasse. Em seis meses, Actius podia estar morto. Decidiu acelerar esse processo, com a ajuda de Malek.

 

* * *

 

“Agora”, disse Agripius, colocando a mão junto a uma rocha. Na sua mente havia um único pensamento: regressar a casa. Malek levantou no ar uma pedra grande e, sem tirar os olhos da mão de Agripius, esmagou-lhe o polegar da mão direita. Depois, fugiu. Agarrando a mão ferida, Agripius esperou que ele estivesse longe para começar a gritar. Dado o alarme, dois soldados saíram em busca de Malek, mas não o encontraram. Aquela floresta era o seu domínio. Regressaram para junto de Agripius, que regressava ao acampamento. 

“Não foi por falta de aviso”, disse-lhe Peronius, um romano de ascendência nobre que tinha caído em desgraça por causa do jogo. 

Agripius fingiu concordar. Claudius, o Físico, observou-lhe o polegar esmagado e achou que era melhor amputá-lo. A operação foi feita quase de imediato. Claudius era dotado de uma força sobre-humana e um espírito de aço, habituado a ver homens sofrer. Agripius sentiu o metal na sua carne sem um único lamento, habituado como estava à vida da guerra. A verdadeira dor veio depois, mas também essa foi suportada em silêncio. Regressou com os restantes feridos para Londinium, onde embarcaram para Roma. 

 

* * *

 

Chegou a Ombrinia por altura das colheitas. Encontrou as pessoas muito perturbadas. Aquela povoação já tinha passado por muitas provações, mas nos últimos tempos a situação tinha-se tornado crítica. Dizia-se que Egronte, um demónio que habitava as cavernas das montanhas, voltara a atacar as aldeias que ficavam no seu sopé, entre elas Ombrinia. Foi pelos seus estreitos caminhos desertos que Agripius chegou à sua casa. Durante a longa viagem tinha acalentado o sonho de ver o filho à sua espera, mas encontrou-a abandonada.

Um homem aproximou-se dele com um sorriso pálido nos lábios.

“Bons olhos te vejam, meu bom amigo. O vento trouxe-me a novidade, mas não quis acreditar. Infelizmente, chegaste tarde. Já derramámos lágrimas pelo teu filho e pela sua noiva, Hirina.”

Agripius deixou-se cair no alpendre empoeirado. Salius era pouco mais velho do que ele, teria os seus cinquenta e cinco anos, mas o tempo tinha sido mais cruel do que para Agripius. Só conseguia andar agarrado ao cajado, encurvado, e era quase cego. 

“Cheguei tarde… Pensava ter chegado a casa, mas sem ele não tenho casa, nem vida. Como foi, meu velho amigo?”

“Foram os demónios que habitam os nossos montes. Os filhos de Egronte. Desceram à aldeia e levaram quatro dos nossos jovens, um deles Hirina. Actius, o teu filho, herdou o teu carácter de guerreiro e juntando mais de vinte homens subiu o monte. Nenhum deles regressou. Há uma semana que as nossas mulheres velam por eles num pranto que inunda o vale.”

Agripius fitou as montanhas de rocha quase negra. O ódio transforma-lhe o rosto.  Salius afastou-se. Agripius foi até às traseiras da casa. Por baixo de uma nogueira havia as marcas de três sepulturas. Deixou-se cair de joelhos. Os espíritos de duas crianças e de uma mulher esbelta rodearam-no, dançando à sua volta. Agripius sentia a sua presença, tal como tinha sentido enquanto estivera na guerra. A esposa sussurrava-lhe frequentemente palavras de incentivo ao ouvido, quando ele dormia, e ele tecia-lhe delicadas juras de amor em sonhos. 

Entrou na casa vazia. Deixou-se ficar, sentado num banco da cozinha, até conseguir ver à sua frente a esposa e os dois filhos. Sentiu uma grande vontade de se juntar a eles. Pegou na espada que tinha escondida no alforge e apontou-a para a barriga. Bastaria um movimento para rasgar a barriga, tal como tinha feito tantas vezes ao serviço de César. 

Fechou os olhos. 

Apertou com força o punho da espada com as duas mãos. Sentiu a lâmina a penetrar na carne. Depois, pousou-a no chão. Abriu uma garrafa de vinho e embebedou-se. Nessa noite, voltou a ver a bruxa nos seus sonhos. 

“Desistir da vida nunca resolveu nenhum problema, Agripius”

“E o que eu posso fazer sozinho?”

Ela aproximou-se dele. No sonho, ele conseguia sentir o seu perfume a jasmim. 

“Nunca ninguém está verdadeiramente sozinho. Mas a tua tarefa não será fácil. Egronte é um desafio digno dos deuses.”

“Eu sou apenas um homem, considerado por muitos um velho.”

“No futuro, Agripius, um homem da tua idade será considerado um jovem.”

“No futuro, o meu filho estará vivo?”

A bruxa olhou fixamente para ele e segredou-lhe ao ouvido: “Depende apenas de ti. A morte não é muito diferente da vida. Há coisas bem piores que ela. Tens de esquecer todos os teus medos, até mesmo o medo de perder Actius. Só assim poderás salvá-lo. Terá, no entanto, o seu custo. Egronte não larga os seus troféus sem pedir nada em troca. ”

 

* * *

 

Agripius acordou estremunhado, mal o dia tinha nascido. Recordou o que a bruxa lhe tinha dito. Saiu de casa e começou a subir o monte, completamente desarmado. 

“Esquece todos os teus medos”, dissera a bruxa. 

As armas são a mais pura demonstração do medo. A espada ficara no chão da cozinha, o escudo encostado a um canto. Subiu apenas com a roupa que vestia e três pequenas bolsas atadas à cintura. Ao pescoço levava o colar que pertencera à esposa. Percorreu os caminhos sinuosos, próprios apenas para as cabras que por ali abundavam no passado. Agora, não via uma única. Os tempos tinham mudado. O mundo já não era o mesmo. Ou teria apenas envelhecido? 

Chegou à entrada da caverna. Dela exalava um cheiro intenso a podridão. Agripius teve um momento de hesitação. Tirou da bolsa que trazia presa ao cinto um pedaço de pirite e uma barra de ferro rugoso. Com eles acendeu um archote que encontrou no chão, e seguiu em frente. 

O barulho de aquilo que pensou ser um animal fê-lo parar, mas rapidamente o engano se desfez: não era um animal, mas uma mulher que se arrastava pelo chão com o corpo dilacerado, sem uma perna, um braço quase arrancado e o que restava das entranhas ao pendurão. O que  mais o impressionou foi a expressão do seu rosto: um sorriso demoníaco que contrastava com os olhos sem vida. Agripius pegou na segunda bolsa que tinha à cintura, regou a mulher com óleo e atirou-lhe o archote aceso. Ela transformou-se numa fogueira que se extinguiu rapidamente num uivo demoníaco. 

Agripius ficou na penumbra. Tinha apenas luz suficiente para ver por onde andava. Sem medo, avançou. Sentiu outras presenças mais à frente. Corpos retorcidos que ele esperava não ser o seu filho passavam por ele como se não existisse.

Notou uma agitação crescente neles. 

Medo. Não podia sentir medo. Mas o medo de ter perdido o filho era mais forte do que ele. Tentou dominá-lo como quem domina uma fera enraivecida. Tinha de se transformar numa rocha. A rocha não tem sentimentos – mas também não tem descendência, nem se vê no escuro no meio de cadáveres que a ignoram. 

Chegou a uma galeria mais iluminada, que parecia não ter saída. Era o fim da linha. Ali não havia monstros, e não encontrara o seu filho. 

Medo. Não podia sentir medo. 

Deitou-se no chão. A noite chegou, mas parecia que até a própria noite tinha medo daquele lugar, porque a fraca luminosidade não se alterou. Agripius conseguia vê-los chegar, alguns arrastando-se penosamente, outros em passo de corrida, atropelando-se uns aos outros para serem os primeiros a chegarem até ele, que os enfrentou apenas com o olhar. 

E eles pararam. Não estavam à espera de que alguém os enfrentasse, especialmente um velho desarmado. 

No meio deles, com o mesmo olhar sedento de sangue, estava Actius. 

Não o via há dez anos e não tinha havido um único dia desses dez anos em que ele não sonhasse com o reencontro. 

Agora que o tinha visto, Agripius fechou os olhos para mais nada ver. Era a altura de pôr de lado os seus medos. O medo da morte, ele nunca teve. Agora que sabia que o filho era um deles, nada mais existia. Pegou na terceira bolsa que tinha presa ao cinto e bebeu o veneno. Foi ao corpo de um Agripius já morto pela cicuta que os mortos-vivos se lançaram, e da sua carne se saciaram até eles próprios sucumbirem. 

Egronte deu-se por vencido com o sacrifício do velho Agripius e não mais apareceria por aquelas terras.

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.