EntreContos

Detox Literário.

O Regresso de Aquiles (Aquiles Pereira)

Acordei com a certeza de estar morto, mas a dor aguda que sentia na parte de trás da cabeça mostrou-me que estava enganado. Abri os olhos. Um líquido espesso toldava-me a vista. Percebi que era sangue. Talvez meu, não sei. Senti a falta de dois dentes. Cuspi um deles, sentindo o sabor agridoce do sangue. A visão regressou aos poucos, mas teria preferido não ver quem estava comigo Eu estava deitado no chão, imobilizado por cordas que me prendiam os pulsos por trás das costas. Os tornozelos estavam tão apertados que não sentia os pés. Tinha a certeza de que não me aguentaria de pé, mesmo que estivesse solto.

– Vejo que já acordaste. Agora, quero que me digas onde está o dinheiro. 

Chamavam-lhe de Polegarzão. Era um homem novo, de cabeça rapada e o corpo cheio de tatuagens. Não era especialmente alto nem forte, mas o olhar determinado mostrava que não estava para brincadeiras. Liderava um dos grupos de criminosos mais recentes da cidade e era famosa a forma como lidava com os seus inimigos. 

– Eu não sei de nada. – Menti. Tremia como nunca tinha tremido na vida, e não era a primeira vez que via a morte à minha frente. Era apenas a primeira vez que tinha a certeza de já estar, para todos os efeitos, morto. 

– É interessante como dizem todos isso. Trouxe dois amigos seus. Pode ser que o ajudem a lembrar-se. 

Imaginei imediatamente quem eram. O Juca e o Adriano. Os meus companheiros no crime. Senti um aperto no coração quando pensei que eles também estariam ali, mas não estava à espera de que o Polegarzão tirasse dois volumes de dentro de um saco e os atirasse com força contra mim. Percebi serem as cabeças deles. Senti-me profundamente agoniado, vomitei. 

– E então? 

– Eu não sei de nada. Foram eles que esconderam o dinheiro. – Disse, quando senti que tinha força suficiente para falar.

– Vou ajudar-te a recordar. 

Polegarzão pegou num alicate e aproximou-se. Num gesto rápido prendeu a minha mão direita e senti a pressão no meu polegar. 

– Já te lembras de alguma coisa?

Abanei a cabeça. Sabia que qualquer que fosse a minha resposta estaria morto. A única diferença era que ele não teria o que procurava. A pressão foi seguida por uma dor aguda. Polegarzão exibiu o seu mais recente troféu, o meu polegar. Nem dei por estar a berrar. 

– Vocês são todos iguais. Primeiro recusam, depois gritam. No final choram.

A porta abriu-se. Entrou um homem fardado. Um polícia de arma em riste. A minha salvação. Um homem mais inocente teria pensado assim, mas eu já tinha vivido o suficiente para saber que continuava morto. Pelo menos, Raquel não assistiria ao meu fim. Nem Ulisses, o meu filho. Os dois eram a minha luz. Um segredo guardado de todos. A certeza de que os dois continuariam em segurança, mesmo depois de eu ter partido, era o meu único motivo de orgulho. Recordei o momento em que, abraçando o corpo nu de Raquel, lhe contei toda a verdade. Disse-lhe que era um criminoso, que tinha roubado e matado. A vida tinha-me levado a isso, escorraçando-me para fora do caminho como se eu fosse lixo. Felizmente que os meus pais já tinham morrido quando fui preso pela primeira vez. Quando saí, vi que todas as portas se tinham fechado e recorri aos únicos amigos que me restavam. O crime era a única resposta, a única via possível. Um dia, encontrei Raquel. 

A minha luz. 

Senti o aço da arma do polícia encostado à minha cabeça, recordei o olhar vivo do meu filho e depois não senti mais nada, nem sequer o som do disparo. 

 

A igreja era grande, feita de pedra negra como a noite. Nas paredes haviam imagens de demónios. No altar, no sítio onde esperava que existisse uma cruz, havia uma estátua de Belzebu, com cinco metros de altura. Percorri a igreja sozinho. Não demorei muito tempo a perceber onde estava. Um demónio aproximou-se de mim. 

– Aquiles Pereira? 

Assenti. 

– Eu sou Agares. Sabe onde está?

– Estou onde mereço estar, pelos crimes que cometi. 

Agares, meio bode, meio homem, bateu os cascos da frente. 

– Nós também achamos isso. Se bem que no seu caso ainda chegámos a ter dúvidas. Foi um processo complicado. Felizmente que as suas más acções compensaram as boas, ou não teríamos a felicidade da sua presença. Temos para si uma panóplia interessante de castigos, o chamado Menu 3. Nem queira saber o que os outros menus lhe tinham destinado. 

Notei um sorriso no canto da boca horrenda da criatura, apenas um segundo antes do chão se abrir e eu cair num caldeirão de óleo a ferver. O sofrimento foi atroz e duraria horas até pouco restar do meu corpo. Depois um demónio pegou no que restava e pôs tudo outra vez no sítio, reconstruindo-o com uma paciência milenar. No dia seguinte voltava acontecer tudo de novo. Só à sexta-feira tinha direito a folga, se podia chamar de folga a um dia em que os demónios subiam das suas tocas para nos atazanar a paciência. 

– Eu sei quem tu és! A tua mulher foi puta durante dez anos. 

Mentiras. Eram a especialidade dos demónios. 

– Ela já te esqueceu e está a foder outro. 

– O teu filho sai ao filho da puta do pai. Está aqui está na cadeia, a ser enrabado todos os dias até não querer outra coisa. 

Era isto todas as sextas-feiras. Um castigo ainda pior do que o caldeirão de óleo a ferver. Tinha a única vantagem de me fazer lembrar da minha família. O desejo de regressar era tudo o que eu tinha. A única esperança de uma alma penada. 

– Eu quero regressar. – Comuniquei um dia a Agares. Ele riu-se alto e bom som. 

– Daqui nunca saiu nenhuma alma, desde o início dos tempos. Foi este o acordo que o Pai fez com o Outro. Só os demónios podem regressar à terra. 

“Só os demónios.”

Havia uma hipótese.

– E o que eu teria de fazer para me tornar num demónio? 

Agares olhou-me de cima a baixo. 

– Tu nunca conseguirias… terias de abandonar toda a tua humanidade e fazer coisas que me repugnariam a mim. 

– Eu consigo. 

– Treta. És apenas um homem que quer regressar para a família. Como todos, aqui no Inferno. Não é assim que as coisas funcionam. 

– Eu sou diferente. 

Agares projectou-me contra a parede da igreja. Depois desapareceu. No dia seguinte, não fui  atirado para o caldeirão. Levaram-me para um sítio isolado onde dois demónios me mataram uma segunda vez e me atiraram para uma torrente de lava. Renasci um ser diferente. A partir daquele momento, era um demónio. Torturava os meus semelhantes como tinham feito comigo. Queimava-os, rasgava-lhes as entranhas, cortava-os aos pedaços. Mantinha sempre escondidas as lembranças da minha mulher e do meu filho. Fui um demónio tão mau que um dia tive direito ao meu prémio: pude regressar durante 24 horas. Um mísero dia.  

Não tardei a descobrir que os outros demónios não tinham mentido. A Raquel estava com outro homem, um caixa de supermercado chamado Raúl. Era, aparentemente, um homem bom que tentava desesperadamente fazê-la feliz. Isso devia ser suficiente para mim, mas apetecia-me arrancar-lhe o coração. Observei-os enquanto faziam amor na cama que eu tinha comprado para Raquel. Ela já não era a mulher que eu conhecera. Parecia uma sombra, como se uma parte dela tivesse morrido comigo.  

Uma outra descoberta deixou-me ainda mais ressentido. O meu filho, agora com 18 anos, fazia parte de um gangue com ligações ao Polegarzão. Descobri que aquele regresso mais não era do que uma nova forma de suplício. Uma brincadeira de Agares. Outra pessoa teria desistido. Mas eu não tinha chegado tão longe para desistir. 

Naquela manhã, Raúl sentia-se diferente. Teria sido o jantar mais pesado, talvez. A ideia de ter sido possuído pelo demónio do ex-companheiro da namorada nunca lhe passaria pela cabeça. Na realidade, apenas a ideia de desfazer o colchão onde dormia com Raquel o obcecava. Pegou numa faca e abriu-o com violência. Aos berros, Raquel observava-o, em pânico com a transformação do companheiro. Raúl parou assim que encontrou cinco maços de aquilo que descobriu ser dinheiro. Entregou-os a Raquel. 

– Pertence-te. – Disse ele. 

Raquel abanou a cabeça. Depois atirou os maços de notas ao chão. 

– Não passa de papel manchado de sangue. Aquiles morreu por causa disto. Eu não o quero aqui. Mais vale fazer com ele uma fogueira. 

– Ele não quer isso. 

– Como é que sabes, Raúl? Agora deu-te para saberes o que os mortos querem ou deixam de querer? 

– Ele não quer que destruas o dinheiro.

– Ouve, amor… eu tenho de ir trabalhar. Quando chegar, não quero esse dinheiro cá em casa. E trata de arranjar o colchão, a menos que gostes de dormir no chão, como os animais. Eu prefiro o sofá. 

Raquel saiu. Raúl fitou os cinco maços de notas. Tirou algumas para comprar um colchão novo, enfiou o resto num saco e saiu de casa com destino incerto, ou para um destino que, para ele, era incerto. As pernas sabiam bem o caminho. Primeiro, comprou o colchão. O demónio que o possuía lembrava-se dos gostos de Raquel, da luta que fora a compra do primeiro colchão. Escolheu um bastante caro, ao gosto dela, e mandou entregar em casa. Depois passou pela florista. Também ali a escolha foi simples, ao gosto dela. Apenas Aquiles conhecia verdadeiramente a mulher que amara.   

Seguiu à procura de Ulisses. Sabia onde ele estaria, nas traseiras do antigo centro comercial abandonado. Era um rapaz robusto, de corpo tatuado e de cabelo quase rapado e pintado de azul. Ostentava uma cicatriz na bochecha esquerda que lhe desfigurava o rosto de feições efeminadas. 

– O que é que queres, Raúl? – Perguntou, numa voz áspera. Os outros riram-se.

– Quero falar contigo a sós. – Disse Raúl.  

– É mesmo frouxo, o teu padrasto. – Disse um deles. 

– Vai-te embora! – Gritou o outro, apontando-lhe uma arma. 

O que aconteceu a seguir foi rápido. Raúl apanhou a pistola, atirou o companheiro de Ulisses ao chão puxando-lhe pelo braço e pisou-lhe a cabeça com a bota. Depois apontou a arma ao outro amigo de Ulisses, que levantou os braços. 

– Desapareçam! – Ordenou Raúl, libertando a pressão da cabeça do companheiro de Ulisses, que se levantou num ápice. Os dois fugiram. Ulisses permaneceu impávido e sereno. Depois começou a bater as palmas enquanto atirava a beata do cigarro para o chão. 

– É realmente isto que queres ser, Ulisses? 

– Você pode ir para a cama com a minha mãe, mas isso não lhe dá direito a sermões.

– Não é um sermão. É uma pergunta. Responde-me.

– Há mais alguma coisa? Quer que eu vá trabalhar para um banco? Está tudo fechado. Eu ia a uma entrevista de emprego e tresandava a criminoso, mesmo quando não era. 

– É este o teu futuro? E se houvesse uma alternativa? 

– Não há alternativas.

– E se houvesse alternativa, Ulisses? 

– Gostava de abrir um restaurante com a Eliane. Já temos falado nisso. E ela está grávida. Complica tudo. Não temos dinheiro. Nenhum banco me empresta. 

Raúl tirou do bolso um dos maços de notas e entregou-o a Ulisses.

– Usa-o bem. Não fales nisto à tua mãe. Sai da cidade, se não estes a quem chamas de amigos nunca te vão deixar ter uma segunda oportunidade. Não queiras acabar como o teu pai.

Ulisses examinou o conteúdo do pacote e abanou a cabeça. Satisfeito, Raúl foi-se embora. Pouco tempo depois sentiu-se livre e confundido. Tinha uma breve ideia do que tinha feito e a firme  certeza de estar a ficar maluco. Olhou para o relógio e correu para o emprego, tentando imaginar a desculpa que iria dar por ter faltado toda a manhã. 

 

Bateram à porta. Um rapaz transportava uma mala. 

– É para si. Mandaram entregar. 

– Eu não abro nada. Está maluco, filho da puta? Quem mandou?

– Ele só disse que era um presente de Aquiles.

Polegarzão pegou na mala e despachou o rapaz com um gesto ríspido. Colocou-a na mesa e abriu-a a medo, desconfiado. Lá dentro estavam quatro maços de notas e ele começou a rir. 

“Não te rias, filho da puta”, sussurrei-lhe ao ouvido. Ele ainda olhou em volta para tentar ver quem falara. A porta abriu-se, um homem entrou, de arma na mão. 

– Afinal sempre era verdade! Não queria acreditar quando um desconhecido me ligou a dizer que tinhas o nosso dinheiro e que ias ficar com ele. Nem nos bandidos podemos confiar, hoje em dia! – Disse, e disparou um tiro que desfez a cabeça de Polegarzão. 

 

Silvino fechou a porta do seu gabinete na esquadra de polícia e abriu a mala em cima da mesa. Os quatro maços de notas salpicados de sangue de Polegarzão reluziram à fraca luz. Representavam a sua aposentação. Agora podia desaparecer e ir viver para o Hawai. Tinha conseguido o seu objectivo. Devia sentir-se o homem mais feliz do mundo, mas no seu espírito só havia mágoa e tristeza. Que raio de altura para desejar ter uma consciência limpa. Mas a consciência limpa num polícia corrupto era como a virgindade de uma puta. 

Silvino não conseguia esquecer todos os que tinha matado e torturado. Sentiu que os mortos lhe sussurravam ao ouvido, reclamando a sua própria vida, e que não se calariam onde quer que ele estivesse. A única saída para calar as vozes estava ao alcance da sua mão. Pegou na pistola, encostou-a à cabeça e disparou. 

No canto do seu gabinete, o demónio Aquiles riu-se, satisfeito com o seu trabalho. No dia seguinte o suicídio do polícia corrupto faria as manchetes dos jornais. 

Quando Raúl regressou a casa depois do trabalho, Raquel encheu-o de beijos. Ele levou-a para o quarto e fizeram amor numa cama decorada com pétalas das flores favoritas de Raquel. Atingiram os dois o orgasmo ao mesmo tempo, ele completamente desgastado, ela berrando o nome de Aquiles a plenos pulmões. Porque ela sabia com quem tinha estado. Uma mulher nunca esquecia uma paixão. Quanto a Raúl, ele não se importava. Desde que ela fosse feliz, não se importava de ser  corno por causa de um morto. Sempre era melhor do que ser encornado por um vivo. 

 

O próprio Agares esperava Aquiles à saída da casa de Raquel. 

– Terminaste?

Aquiles assentiu, enquanto fumava um cigarro. 

– Parece ter corrido bem. E tenho mais dois inquilinos lá em baixo à tua espera, Aquiles. Mas vou dar-te a escolher. O nosso amigo lá de cima ligou-me. Disse-me que conseguiste a tua redenção. Podes escolher. Podes ser o primeiro demónio da história a ir para o Céu. Qual é a tua decisão? 

Aquiles pensou por um momento.

– Ir para o céu? Ná… Prefiro ir lá para baixo. É mais divertido. 

Desapareceram os dois. Reza a lenda que no chão do sítio onde eles tinham estado apareceu uma mancha que nunca ninguém conseguiu tirar.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.