EntreContos

Detox Literário.

O Sol é uma Lanterna! (Ovalo de Mogno)

 

Toda aquela loucura começou numa noite quente na Lapa.

— Já reparou como, de repente, todo mundo ficou maluco? — perguntei, mudando o rumo da conversa, que até então passeava por amenidades, como a discussão scorsésica se filme de super-herói era cinema de verdade ou alguma outra coisa. 

— É o mal do nosso tempo — Juca respondeu, distante, por trás de uma grande baforada de fumaça. Já passava da meia-noite e os botecos pé-sujo estavam bombando de bebuns e alguns executivos animados em final de happy hour.

— Meu vizinho de baia no trabalho surtou de vez. Esses dias ele cismou que o sol é uma lanterna!

— Rapaz, minha tia veio com essa ontem também… será que é um movimento coordenado?

Juca levantou e, correndo de maneira atabalhoada, foi ao banheiro despejar alguns dos vários litros de cerveja que havíamos bebido naquela noite. Era um daqueles banheiros sujos e apertados e havia uma pequena fila na porta. Ele se sacudia de um lado para o outro tentando segurar a pressão da bexiga prestes a explodir. Na volta, olhou alguma mensagem no celular, provavelmente sem lavar as mãos.

— É tudo culpa dessas redes sociais e Youtubes da vida — continuei assim que ele voltou. — Ele tava cheio de argumentos esdrúxulos e nada o convencia do óbvio.

— E o que é óbvio? — Juca perguntou de forma estranha. Já não estava tão distante como de costume.

— Como assim!?

— O que é o óbvio, na sua opinião?

— Juca, o que houve?

— Fala, cara. No que você acredita?

— Não é questão de acreditar. É a ciência, é comprovado.

— E a sua “ciência” — fez as aspas com as mãos —, por acaso, prova que o sol não é uma lanterna?

— Cla…claro! Você tá acreditando nisso agora também?

— Não faz todo sentido? O sol é claramente uma lanterna. Nós, os solanternistas

— Solanternistas!? Já tem um nome pra isso?

— Beto, vou te mandar uns vídeos que provam nosso argumento. Fotos do sol mostram que existe um vidro em volta e que a luz é claramente de origem elétrica.

— O que tá falando, cara? Mais cedo a gente tava questionando essas loucuras. Agora você é um deles?

— Dá uma olhada no vídeo que te mandei. Tu vai curtir e vai nos entender. Não tem como duvidar. 

— Cê tá é maluco!

Desisti de continuar com aquela conversa insana e saí esbarrando nuns executivos que gargalhavam por alguma piada boba qualquer. Havia perdido meu melhor amigo para aqueles argumentos imbecis e não parecia que iria conseguir trazê-lo de volta à realidade.

Os dias seguintes foram ainda mais estranhos. Não só meu vizinho de baia, mas vários colegas de trabalho, da academia e do prédio começaram a cuspir o solanternismo em mim, tentando me convencer e me levar para a “seita”.

Desconectei-me das redes sociais e apaguei o tal vídeo todas as centenas de vezes que me foi encaminhado. Já estava acreditando que havia ali alguma mensagem subliminar que convencia as pessoas a níveis incompreensíveis.

Cerca de uma semana após a fatídica noite no bar, eu estava em casa comendo um desses hambúrgueres de planta com sabor e textura de carne. Não sou vegano, nem mesmo vegetariano, mas achei interessante a ideia e o negócio até que é gostoso. Comendo aquilo eu imaginava que estivesse de alguma forma ajudando a reduzir o desmatamento e a emissão de carbono causada pelos gases intestinais das vacas. Ou algo assim.

O importante é que estava me deliciando de tal iguaria quando Juca tocou o interfone. Deixei ele subir, torcendo para que aquela loucura tivesse passado. Ao abrir a porta, porém, perdi as esperanças: ele vestia uma camisa com um ET segurando uma lanterna contra a Terra.

— Beto, o que houve? — ele perguntou, preocupado. — Não responde minhas mensagens. 

— Tô dando um tempo das redes sociais.

— Por que, cara?

— Ah, sei lá. Enchi o saco.

— Viu o vídeo?

— Vi — menti.

— E então?

— Depois a gente conversa sobre isso — desconversei. — Quer um hambúrguer?

— Quero. Tá bem cheiroso.

Preparei mais um enquanto pensava como explicar para o meu amigo que eu não ia cair nessa de solanternismo. Após a primeira mordida, ele perguntou:

— Já tá convencido de que o sol é uma lanterna?

— Então… er… — me enrolei.

— De que é esse hambúrguer, hein? — ele perguntou, de repente.

— Não sei. Na embalagem eles dizem só que é de “planta”, mas…

Antes que eu terminasse a frase, ele tombou e caiu de cara na mesa. Fiquei obviamente assustado. Será que o Juca era alérgico a alguma coisa usada naquela “carne”? Reparei, então, que uma estranha gosma verde escorreu por sua orelha direita. O pior é que ela parecia estar viva. Começou a rastejar pela minha mesa em direção à borda. Mas eu a interceptei, prendendo-a num copo de vidro, daqueles de requeijão.

— Beto, o que houve? — Juca perguntou, ainda meio grogue.

— Você comeu um hambúrguer de planta, desmaiou e esse troço aqui saiu da sua orelha.

— Cê tá maluco? — ele perguntou, mas depois percebeu que a gosma realmente se mexia e tentava fugir da sua redoma improvisada.

— Pra quem acredita em sol lanterna, acreditar em cera viva comedora de cérebro é mole, né? — finalmente enchi o saco e joguei na cara.

— Sol lanterna? Quem acredita nisso?

— Olha sua camisa.

— Sim, tem um alien segurando uma… — e então sua expressão se encheu de surpresa, como se tivesse descoberto o óbvio, que neste caso era isso mesmo. — Caraca, mané. Esse bichinho nojento aí estava dentro da minha cabeça me fazendo acreditar nessa teoria maluca do solanternismo? É isso?

— É o que parece. E o ponto fraco dessa coisa deve ser esse hambúrguer de “planta”. Será que dá pra ficar mais doido que isso? — É o tipo de pergunta que não se faz em histórias como essa, eu devia saber. 

Enquanto Juca vomitava no banheiro e eu tentava dar aquele apoio moral, ouvimos um barulho de vidro se quebrando. A maldita gosma havia conseguido romper as barreiras que a impediam de se movimentar. Não era culpa da redoma, claro, que estava apenas acostumada a conter produtos lácteos, mas nossa, por subestimar a criatura que havia condicionado a mente de meu melhor amigo. Ela podia acreditar em sol lanterna, mas com certeza não era totalmente idiota. Arrastou o copo até a borda da mesa e tombaram daquela altura.

Observando o rastro da gosma, verifiquei que ela havia se encaminhado para a porta da entrada e passado por baixo do batente. Assim que a abri, dei de cara com Seu Tião, o zelador do prédio. Ele me olhou com uma expressão estranha e Juca apareceu por trás esfregando o resto do hambúrguer na fuça do sujeito.

Seu Tião nos xingou de todos os nomes feios que ele conhecia e, mesmo explicando para ele com os melhores argumentos possíveis, tivemos que sair dali antes que ele nos agredisse ou chamasse a polícia. Reparamos, enquanto o nobre funcionário de meu condomínio esbravejava contra a reputação da minha mãezinha, que uma jovem entrava no elevador. Se a gosma não contaminou o zelador, só poderia ter sido ela. Por via das dúvidas, catei no chão a guloseima matadora de criaturas solanternistas.

Descemos correndo pelas escadas, mas o sedentarismo não permitiu que chegássemos antes de o elevador. Nessas horas que eu costumo me arrepender de pagar a Smart Fit e nunca ir. A jovem havia saído na rua e conversava com um policial. O nobre homem da lei veio ao nosso encontro e declarou:

— Cês tão preso, bando de maluco, por perseguir essa menina bonita aqui. — E, para a jovem contaminada, disse: — Vamos pra delegacia prestar queixa, querida.

Entramos na viatura, no banco de trás, enquanto o policial dirigia e a jovem ocupava o assento do carona.

— Seu polícia — Juca tinha uma expressão de que estava bolando uma coisa. 

— Sargento Braga — ele corrigiu.

— Então, sargento, cê concorda que o sol… tipo… parece com uma lanterna?

A menina sorriu e olhou para ele com satisfação. O policial, também bem alegre, respondeu:

— Não é óbvio? Está tão claro que só uma lanterna seria capaz de nos iluminar tão bem assim.

Nesta mesma hora eu peguei o restinho de hambúrguer de planta e joguei no motorista. Ele ameaçou questionar, mas acabou desmaiando de cara no volante. O carro perdeu o rumo e bateu com força num poste próximo aos Arcos da Lapa. Devia ter feito isso no sinal vermelho. A menina acabou desmaiando e nós conseguimos fugir pela janela quebrada, com apenas ferimentos leves.

Retiramos os dois do carro e verificamos que ainda estavam vivos. Catei o restinho de hambúrguer e esfreguei na menina.

Enquanto o policial, Sargento Braga, acordava, a gosma saiu pela orelha da garota e Juca a esmagou sem dó com um belo pisão. O ouvido do policial estava úmido, mas não sabíamos onde a dele tinha ido. Explicamos toda a situação para ele, que, sem pestanejar, acreditou em tudo. Chamamos a ambulância e esperamos que levassem a acidentada. Depois fiquei sabendo que ela ficou bem e ganhou muito dinheiro como youtuber.

Em seguida, o Sargento Braga arquitetou um plano contra as malditas gosmas. Ele nos levou ao supermercado Mundial da Rua Riachuelo e, usando toda sua autoridade legal, confiscou todo o estoque do tal hambúrguer de planta.

— Não se preocupem. Conheço um cara no Bope. Vocês sabem atirar?

Juca sorriu com aquela expressão de alucinado e eu fiquei meio assustado, porque sou pacifista e não queria matar ninguém. Quando saímos do mercado, uma multidão de pessoas tentou nos impedir a passagem, com argumentos nada convincentes e muito irritantes do sol lanterna.

Sargento Braga, de maneira um pouco truculenta, mas ainda assim um gentleman perto de seus colegas de corporação, empurrou os contaminados e, com arma em riste, ameaçou atirar. Os alienados, que acreditavam em teorias absurdas, mas não eram bobos de arriscar a vida, abriram caminho para que passássemos.

Um pouco antes de chegar ao quartel general da polícia na Teixeira de Freitas, passamos no Saara e confiscamos algumas arminhas de pressão Made in China. Assim que chegamos na base da PM, um helicóptero do Bope nos esperava.

— Falei para o governador que vamos atirar em uns traficantes — disse o piloto. — Ele autorizou de cara. 

Embarcamos na aeronave enquanto as hélices zumbiam sobre nossas cabeças. Eu nunca havia voado e nem imaginava que um dia entraria naquele caveirão alado. Assim que adquirimos altura, começamos a carregar nossas armas com pequenos pedaços de hambúrguer de planta.

O resto do dia pareceu uma partida de videogame. Mais especificamente, Plants vs Zombies. Enquanto o piloto fazia voos rasantes, eu e Juca atirávamos com nossas armas de almôndegas veganas em qualquer pessoa que se movesse. A maioria desmaiava após o processo, mas algumas apenas nos xingavam de nomes impublicáveis. Sargento Braga, altamente treinado na Academia de Polícia, se encarregava da missão mais difícil: com uma arma de precisão nas mãos, atirava e explodia todas as gosminhas verdes que via pelo caminho. Com a nave em movimento, não podemos culpá-lo se, por um acaso, alguns tiros acertaram alvos errados.

Foi um dia intenso, mas à noite ninguém mais acreditava que o sol era uma lanterna. Ganhamos um aperto de mão do governador, que comemorou a ação com um soquinho no ar quando tudo já estava resolvido.

A história oficial é, claramente, diferente dessa que eu contei. Nela, o Sargento Braga havia enlouquecido e resolvido praticar, junto com o piloto e uns desconhecidos, tiro com armas de precisão e algumas bem exóticas, matando uns transeuntes no processo. Ele, o maior herói da cidade, está preso neste momento. Fiquei sabendo que a prisão é num condomínio de luxo em Angra dos Reis. Ele evita ser avistado pescando em área ambiental e nós não podemos contar para ninguém o que realmente aconteceu. 

Sei que é difícil de acreditar em mim, mas juro que é verdade. Pode perguntar pro Juca. Ele é meio esquisito, mas é confiável. Melhor que isso: vou te mandar um vídeo que prova tudo. Não tem como duvidar.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.