EntreContos

Detox Literário.

O que o Tempo Leva (Carl Canhotto)

 

Quando os dois entraram, juntos, no mesmo vagão em que ela estava, Adriana de cara reparou que se tratava de pai e filho. Um pai idoso junto de seu filho adulto. O primeiro, na casa dos setenta e muitos; o segundo, na indefinível faixa dos quarenta.

Por razões tão implícitas que talvez nem mesmo Jung ousasse arquetipar, Adriana não conseguiu mais tirar os olhos dos dois recém-chegados passageiros. A porta automática então se fechou, logo após o ruidoso aviso cessar, e a composição metálica partiu em velocidade crescente por dentro do túnel escuro, rumo à próxima estação.

Submersa em pensamento e solo rochosos, Adriana acompanhou o lento caminhar daquele pai — que evitava ficar na zona próxima à saída e entrada do coletivo — em direção ao centro do vagão; local menos suscetível a movimentações apressadas e, consequentemente, esbarrões. 

De certo, como a expressão amena que o rosto daquele ilustre senhor denotava, ele já se acostumara às graduais limitações impostas pelo Tempo e, provavelmente, procurava — agora já de modo automático — dirigir-se sempre para os pontos onde ‘menos atrapalharia’ o livre-fluir da vida e seu vai e vem dinâmico; encenado por aqueles que, por mais alguns ciclos, ainda fariam parte da chamada parcela produtiva da sociedade.

As momentâneas estrelas — muito em breve cadentes — a pisarem no palco veloz do agora.

O filho ficou ao lado dele até uma moça bem jovem se levantar e, oferecendo gentilmente seu assento para o idoso, exacerbar de vez a discrepância de altura existente entre as duas gerações daquela família. Outra notória característica exercida pela ação incansável do avançar sorrateiro dos anos sobre as indefesas carcaças humanas…

Tão ágeis, quanto frágeis.

Deixando o pai já acomodado no assento cedido, o filho partiu para o outro lado do vagão, onde avistara um banco recém-liberado devido à diminuição da velocidade da composição, significando sua proximidade do ponto de parada seguinte. No entanto, o contraste entre o pequeno número de passageiros que saíam e a massiva quantidade dos novos que adentravam em cada uma das estações adjacentes aumentou tanto que, em pouco tempo, tornou-se impossível até mesmo a mera visualização entre os dois membros daquela linhagem.

Separados por um bloco encorpado de pessoas, pai e filho passaram a se comunicar por mensagens de texto, via celular. Adriana pôde facilmente deduzir isso enquanto acompanhava, com os olhos, os movimentos do idoso sentado próximo a ela; e viu quando este, provavelmente sentindo a vibração do aparelho, retirou do bolso da calça o telefone, logo passando a interagir com a tela do dispositivo.

Na sequência, Adriana observou o senhor procurar — sem sucesso — pelo filho, olhando na direção que o descendente havia, supostamente, informado ao patriarca estar sentado, através da mensagem previamente recebida. 

Depois, acompanhou a lenta digitação do septuagenário no aparelho, seguida por um tenro sorriso, que trouxe até Adriana tanto a certeza de uma resposta engraçada por parte do filho ao pai, quanto um desejo pessoal da observadora — quase incontrolável — de saber os detalhes daquela comunicação pra lá de singela; e que ela, simplesmente, não conseguiu em momento algum da viagem parar de acompanhar.

Porém, o mais curioso não foi nem o fato de Adriana ter ficado agindo como uma clássica vizinha fofoqueira de cidade pequena, daquelas que se colocam nas janelas de suas casas para bisbilhotarem o vai e vem dos transeuntes na rua… O inusitado, mesmo, foi o sentimento de paz e aconchego que — tendo participado secretamente daquela interação entre pai e filho — lhe tomou de golpe, e por completo, o coração.

Adriana não se sentiu como uma intrusa, alguém de fora a espionar dois desconhecidos sem ser chamada; ou percebida. Pelo contrário, aquelas cenas vivenciadas no metrô lhe pareceram um convite; uma estranha forma de reencontrar-se consigo mesma; com a essência de quem ela um dia — não tão distante daquele — já foi.

Lembranças que o Tempo não apenas levara, mas que também trouxera de volta, inesperadamente, embutidas naquela bonita intimidade presenciada entre pai e filho. Sentimentos profundos já enraizados nas cicatrizes de troncos podados. Perfumadas seivas de árvores ceifadas, que emergiram nas cinzas das horas, florescendo dentro daquele vagão lotado, em meio à ausência do impreterível avançar dos ponteiros do relógio.

A cumplicidade de quem conhece o âmago da alma de outrem. Os traços, os atos e trejeitos. O que pensa, como processa e de que forma age outro ser que, mesmo fora, dentro mora. Empatia; reciprocidade. Compreensão profunda e mútua. 

Rara.

Adriana fez, então, a conexão. A ligação que faltava. A resposta que, talvez, já até soubesse; mas que, por algum motivo, sua razão não ousara sibilar, retirando-a da placidez embebecida em mel que somente o onírico mundo da emoção podia oferecer. E acomodar.

Suzana.

Aquele grau de intimidade; aquela forma de cuidado, zelo… A cumplicidade emanada pelo brilho do olhar, do sorrir, do buscar… Adriana só experimentara com ela. Por ela. Através dela. 

Seus afagos, suas carícias, o tom sereno de sua voz. Seus abraços, suas delícias, o som ameno do ‘nós’. Tudo era motivo de expansão interior. Tudo nela trazia ao seu coração a quietude necessária para alcançar a felicidade, a plenitude-mor. 

A completude do ser, do estar. 

Com Suzana, as batidas de seu coração não eram mais batidas. Eram toques. Estímulos suaves para tudo em volta preencher, rechear de cores e sabores, eclodir… Para o mundo inteiro colorir. Mesmo sem padre, sem filhos, sem véu.

O amor seria o legado do casal. Imortal. Assim como as saudades dela. Duas essências indeléveis. Atemporais… Mesmo muitos anos depois da despedida, poder chegar do trabalho e ainda sentir o perfume dela pela casa; ou dentro de um livro… 

Isso, o tempo não leva.

Adriana experimentava estas sensações com a mesma frequência com que aquele pai sacava o celular do bolso da calça. Ela acompanhou cada uma das manobras durante todo o trajeto que fez naquela composição. O senhor tirava o aparelho do bolso, colocava o dedo indicador da outra mão sobre a tela, e lia a mensagem do filho. Depois, guardava novamente o dispositivo na calça. 

No entanto, a partir de determinado momento daquela viagem, Adriana percebeu que o idoso passou apenas a colocar a mão sobre a perna, como se sentisse a vibração do aparelho no bolso, e, sem demonstrar mais o ânimo pregresso, não o sacava da vestimenta nem lia a mensagem recebida.

De certo, padecia com um efeito que a leitura em meios de transporte — durante movimentações — pode causar em algumas pessoas, não necessariamente idosas: o enjoo. E, muito provavelmente por conta disto, ele manteve, dali em diante, o telefone o tempo todo no bolso.

Pelo menos até a estação em que Adriana saltou; não sem antes desferir uma última olhadela para seu já saudoso parceiro de viagem, que tantas lembranças boas havia lhe trazido à mente e ao coração…

Mas, então, ela se deparou com a cena do senhor, ainda sentado e com o telefone agora em mãos, terminando de ler a série de mensagens que tinha perdido. E logo percebeu nele um ímpeto de preocupação, que se iniciou quando o idoso deu início a uma busca — levantando a cabeça e espremendo os olhos — pelo nome da estação na qual o trem estava parado.

Sendo arrastada pela massa humana, e sem a menor possibilidade de retorno, Adriana compreendeu, já do lado de fora da composição, que seu companheiro de jornada não sabia onde estava. E, já testemunhando nas feições daquele pai o momento exato em que ele descobriu que aquela era a estação em que deveria descer, ela pôde apenas acompanhar a tentativa vã do idoso que, levantando-se, não conseguiu chegar a tempo até o ponto de saída do vagão.

Foi quando, pela primeira vez, os olhos daquele pai cruzaram com as enormes gemas azuis daquela mulher, separados apenas pelo vidro da porta de um coletivo atemporal. Um meio de transporte interinamente dialético, etéreo… Respaldando um torpe desencadeamento de ideias, memórias e sentidos.

 O trem começou a se mover, levando junto o rosto brando de sua amada…

Adriana ficou parada ali. Ali plantada. Florescendo naquela estação lotada, em meio à presença do imponderável. Lembranças bonitas; compreensão profunda e mútua que o Tempo não apenas trouxe, mas que também levou de volta, inesperadamente, dentro da locomotiva das horas.

Conexão rara.

A composição partiu em velocidade crescente por dentro do túnel escuro, rumo à próxima parada. Emergindo do transe, Adriana acompanhou o lento esvaziar da plataforma onde centenas de pessoas desapareceram, levadas para o alto, em incansáveis escadas rolantes.

Menos uma.

Com seu par de gemas azuladas brilhando na direção daquele único espécime, além dela, que por ali restara, Adriana reconheceu o homem a digitar no aparelho. Era o filho. Tendo saltado por outra porta, ele aguardara o esvaziar da estação para igualmente certificar-se do óbvio: seu pai havia mesmo ficado dentro do trem.

Com os fones do aparelho nos ouvidos e ainda digitando uma mensagem para seu progenitor, o homem sequer notou a mulher que o observava; mesmo Adriana sendo a única outra pessoa que restara ali.

Sentou-se.

Ela, não. Nem conseguiu ir embora… Ficara com a imagem daquele pai, por trás do vidro da porta cerrada, sendo levado para dentro do túnel escuro, contra a própria vontade; separado — à força — de sua descendência. A cada segundo ficando mais e mais distante de sua prole, de seu companheiro de jornada…

Sua seiva.

Caminhou enfim, lentamente, na direção do banco onde o homem estava sentado, ainda a mexer no aparelho. Passou por ele, sem ser notada, e entrou no corredor de metal inclinado, formado pelos corrimões da escada rolante. Sabia para onde iria. 

Para onde iriam…

Pouco tempo após ela atravessar para o outro lado da plataforma, onde os trens em direção oposta paravam, o filho subiu pela escada e fez o mesmo trajeto. Conforme o esperado, o pai deveria saltar na estação seguinte, mudar de composição/direção, e voltar para lá, onde ambos por ele aguardavam.

Adriana, dessa vez, foi quem decidiu sentar-se. O filho se dirigiu para o final da plataforma, de onde poderia acompanhar por completo o desembarque dos trens que chegassem, sem risco de perder a movimentação de saída dos vagões.

A primeira composição logo chegou.

O mesmo mafuá ocorrido no desembarque do outro lado. Aglomerações, esbarrões, correrias… E nada do pai. De certo, não teria dado tempo para o idoso desembarcar, subir as escadas, atravessar para o outro lado da plataforma, descer mais escadas, e entrar no próximo trem — que poderia inclusive já estar de saída antes mesmo da chegada dele por lá.

Mais ou menos sete minutos depois, chegou o segundo trem.

O filho continuou a postos e, como da vez anterior, a plataforma foi se esvaziando até sobrarem ali apenas ele… e ela. Fez mais algumas digitações no celular, caminhou em círculo, consultou por respostas no aparelho — aparentemente em vão — e, sete minutos depois…

Chegou a terceira composição.

Até Adriana já estava afoita nessa hora. De pé, observava com atenção a profusão de formigas humanas que brotavam do formigueiro de lata. Nenhum idoso passou despercebido por ela. E nenhum idoso era o pai… 

Aquele pai. 

A sensação de esvaziamento não se limitou mais ao cenário devastadoramente desértico daquela estação. Adriana sentiu-se desolada também. Um tom cinzento tomou conta das meninas de seus olhos e as batidas apressadas de seu coração trouxeram um gosto amargo à saliva. 

As feições do filho, voltando a digitar palavras de refugo em meio à onipresente ausência de respostas, não ajudavam em nada Adriana; em busca por esperança de um desfecho animador para aquela inesperada viagem que empreendera, repleta de significados latentes.

Os sete minutos seguintes foram os mais difíceis.

Quando o chão de concreto começou a tremer e o ruído ensurdecedor de toneladas de ferro e carne, se aproximando em alta velocidade, rugiu através daquela boca negra a se iluminar, a respiração de ambos parou por alguns instantes.

Com a eclosão metálica surgida de dentro do vão forrado por pedra bruta, Adriana não quis nem esperar pela parada e abertura das portas dos vagões… Já foi ali mesmo, com o trem em pleno movimento, analisando e filtrando a profusão de cabeças brancas em sequência que passavam diante dela, por trás de vidros igualmente sequenciais.

No final da plataforma, o filho também não piscava.

Já havia se passado meia hora, desde que o filho desembarcara daquele outro trem; sozinho. Sem o seu pai, ele se sentia sozinho. Não fazia diferença onde, nem com quantas pessoas, nem com quem estivesse. Não importava o que fizesse. Seu velho era o seu melhor amigo; seu melhor companheiro. Seu maior orgulho, sua maior alegria, sua melhor sorte… 

Seu pai era o seu Norte. 

A quarta composição finalmente parou e, com o abrir de todas as portas, ao mesmo tempo, nova rebelião foi instaurada. Adriana, que não estava — desde o outro trem — mais sentada, agora também não conseguia ficar parada.

Avançando pela plataforma, ela se esgueirou entre a massa humana apressada, rumando em direção oposta à ponta em que o filho estava. Precisava de se certificar que nenhum desencontro ocorresse ali; que nada lhe escapasse e lhe impedisse de participar daquilo que mais almejava presenciar:

O reencontro entre aquele pai e aquele filho.

Só faltava aquela cena para que seu dia, sua semana, seu ano… sua vida inteira pela frente valesse a pena. Adriana precisava daquilo. Necessitava daquele final. Um final feliz.

Mas, a aglomeração foi definhando. O vai e vem frenético de pessoas foi se esfacelando. Muros se transformaram em cercas; cercas em arames, arames em fiapos de gente… 

Quando Adriana chegou ao final da plataforma, e por consequência também ao fim da composição, o apito inconfundível do fechar das portas soou, trazendo junto um arrepio que gelou sua alma. Relutando por alguns instantes, finalmente encontrou coragem e virou seu corpo para trás, na direção da outra ponta do coletivo, onde sabia que o homem estava posicionado.

Ainda havia alguns retardatários na estação. O trem fechou suas portas e partiu, deixando um vácuo sobre os trilhos e também no coração da mulher que, somente então, visualizou seu parceiro de espera lá no final da plataforma.

Como uma nuvem escura a se dissolver lentamente no céu, permitindo que os primeiros raios de sol tocassem a copa das árvores de uma floresta sedenta de luz, Adriana foi atingida pelo calor daquela cena: pai e filho dividindo o mesmo espaço, a mesma paisagem, a mesma ação.

O mesmo abraço.

Caminhou em direção aos dois, já com o sorriso de volta a estampar seu rosto e preencher de alegria seu espírito. Ao se aproximar do final da plataforma, escutou o idoso justificando o motivo de sua demora ao filho; que agora pouco se importava com aquilo. Pois, o principal — seu pai — estava de volta ali, ao seu lado.

Firme e forte.

Sorridente como a despercebida mulher a passar por eles rumo à escada rolante, e com um braço apoiado sobre os ombros de seu melhor amigo, o homem mais jovem falou para o mais velho:

— Vem, vambora

E Adriana, alguns degraus acima, agradeceu em seu íntimo por mais aquele presente.

 

* * *

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.