EntreContos

Detox Literário.

Areia Movediça (Sr. Desatino)

 

O desconforto faz-se logo presente. Sinto as pernas formigarem como se recebessem pequenos choques. Subir todos aqueles degraus cansaram meus membros e dúvidas. 

Permaneço inerte, com as costas coladas ao encosto gasto e cheirando a mofo. Não me atrevo a movimentar um só músculo. Mumifiquei. 

Acostumo-me logo à penumbra que me abriga como um útero de dimensões claustrofóbicas. As horas passam lentas, sem pressa alguma, parecendo testar todos os meus fatigados limites. 

Vozes ecoam pelo corredor de apartamentos minúsculos e portas desiguais. Eu teria escolhido outro dia se pudesse. Um dia menos quente, talvez uma tarde neutra e silenciosa. Se a vida pudesse esperar, teria circulado outra data no calendário. 

Por sorte, ou mero acaso do caos, uma das janelas está quebrada e permite a entrada de um pouco de ar. O alívio é quase inexistente, pois tudo à minha volta parece estar tão estagnado quanto o juízo final. E eu permaneço aqui, descansando em brasas. Tudo estacionado no espaço e no tempo. Menos a dor que se encolhe em meu peito, para depois se expandir em sucessivas ondas de tortura. 

O prédio, bastante antigo, ostenta uma história quase em ruínas. Situa-se na parte mais deteriorada da zona portuária. Área que circunda aquele o maior porto da América Latina, segundo o que dizia, com muito orgulho, meu velho pai.  

Aos poucos, sinto o conforto dos cheiros familiares ao redor. A maresia misturada ao cheiro de bagaço de laranja, farelo de soja e açúcar a granel, indo e vindo dos armazéns. 

− Volte aqui, cara! 

O grito repercute pelo corredor, rasgando as paredes. O tom agudo assemelha-se ao timbre de um violino desafinado. Decerto, mais uma prostituta loira, com cabelos tão naturais quanto os de uma boneca paraguaia. Posso adivinhar sua aparência, a penúria exposta em cada passo, o perfume barato, e o sorriso amarelado pelos anos. Talvez exiba ainda um bom rebolado de carnes. Talvez seja atraente. Mas eu duvido.  

Um cão começa a latir, provavelmente assustado com os gritos e o bater de portas. Intercala latidos com uivos curtos. Parece anunciar o fim, a vida tomada em seus últimos goles. A inquietação canina coincide com as circunstâncias do momento, que mansamente estrangulam o tempo. 

Com algum esforço, desvio a atenção dos gritos e latidos. Trato de focar o pensamento no plano elaborado em noites insones. Minha única resolução de ano novo. Terminar com tudo. 

Talvez surjam detalhes inesperados ao longo da noite. O fator surpresa faz parte de qualquer planejamento mais cuidadoso.  Por isso, preciso agir com calma e precisão. Embora ainda exista o instinto natural de me preservar, sei que isso será impossível.  

O cão para de latir.  Emite um último e longo uivo, finalizando sua participação noturna.  No entanto, o silêncio não encontra lugar para se acomodar neste pardieiro. Vozes e passos, vindos de todas as direções, confundem-se com os sons externos da vida em marginal rotina. 

Ouço três batidas sucessivas no oco da porta. Como um código improvisado, uma derradeira mensagem sem presságios. Será um sinal? 

Imagino rotas de fuga como se estivesse em um intricado labirinto. Mesmo mergulhado em quase total escuridão, percebo o arrastar do papel sobre a soleira. Estico-me para tentar enxergar algo além do piso gasto. Não consigo definir formas devido à pouca luminosidade e à miopia crescente. Imagino um bilhete de amor, uma ameaça de suicídio ou mesmo uma carta anônima revelando o que ainda não aconteceu. Mas acontecerá.  

− Hoje não, benzinho. Preciso acordar cedo para fazer aquele exame, você sabe…

A desculpa parece atravessar a parede com suas sílabas grudentas, repletas de uma doçura improvisada. Será aquela ninfeta do 52? A voz nua e macia. O namorado murmura algo que não é possível distinguir. Uma declaração entre beijos? Ou um “vá se danar, sua piranha”? 

Retomo o rumo dos meus pensamentos, concentrando-me no que pretendo fazer. Quase no mesmo instante, percebo o ritmo sincopado de batidas repetidas, tamborilando pelas paredes pouco espessas. A percussão marcante de um único compasso, repetido à exaustão. Funk, no mais enlameado estilo.  

Não há tempo para lamentar o gosto musical. Nem para duvidar de minhas escolhas e, muito menos, para abandonar qualquer plano. A decisão está tomada.  

Logo que pus os olhos naquela mulher, soube o que teria de fazer. Mais cedo ou mais tarde. 

Elenice surgiu exibindo a combinação perfeita de juventude e atrevimento. O olhar lânguido das mulheres que sabem fazer sofrer sem revelar a mínima piedade. Grandes e sombreados olhos verdes, sempre atentos à cobiça masculina. O pescoço, de linhas longas, convidando ao lento estrangulamento. O corpo de curvas e desvios perigosos. 

  − Prazer, moço. Gosta de areia movediça?

A pergunta planou no ar como um enigma e assim permanece. Elenice tem consciência do que faz. Sabe como tornar um homem desorientado. Se ela não parecesse tão jovem, diria que carrega séculos nas veias. 

Apaixonei-me primeiro pelos seus defeitos. Embora, agora exiba um sorriso perfeito, digno de uma herança genética extraordinária, nem sempre foi assim. Paguei por cada sessão odontológica. Paguei por tudo. Ainda pago. Mas àquela altura, não me importava com o tempo e o dinheiro gasto.  

− Posso te fazer muito feliz, sabia?

A voz escorregadia como de uma gatuna. Uma ladra de intenções. Falas estudadas em algum manual de palavras cruzadas. Uma especialista em ataques sensuais, ostentando pernas e volúpia ao caminhar. 

Aceitei o desafio, pois desconhecia outra opção. Mergulhei na movediça lama, afundando todos princípios e alternativas. 

Penso por um instante nos meus filhos, e no neto que acabou de nascer. São o meu real motivo de arrependimento. Tento alcançar o celular no bolso de trás da calça, mas desisto. O simples esforço da respiração já me rouba as poucas forças. 

Não verei mais fotos. Não haverá mais mensagens.

Enfim, vencido pela curiosidade, ou tédio, levanto-me com dificuldade. A escuridão e a pouca ventilação fazem meu corpo cambalear por alguns segundos. Lento como um gato à espreita de um roedor, caminho em direção à porta. Poucos passos, que me custam mais esforço do que supunha. Abaixo-me e pego o papel que já ensaia uma fusão com a poeira e alguma substância fétida desconhecida. 

Conta de luz. Quantas como essa, eu já paguei? Nos últimos meses, perdi de vez o controle da contabilidade e o resto da sanidade. Tanto faz. Não é mais problema meu.  

Já despido de qualquer curiosidade, largo a correspondência na mesa bamba e coberta de toda sorte de objetos. Por um momento, penso em desistir e deixar a vida tomar outro rumo.

Quanto mais me desnudo de censuras e vaidades, mais me camuflo em novos argumentos. Posso ainda me desviar e seguir outro destino?  

O choro de uma criança corta o embalo dos meus pensamentos ao ritmo do funk invasivo. Em questão de segundos, relaciono o choro ao casal do andar de baixo. Traficantes.

Funk, choro, latidos, ruídos de saltos e sussurros elevados pelo calor da noite. Há aqui material suficiente para um filme de baixo orçamento, daqueles que recebem prêmios só por revelarem a vida despojada de encantamento. 

Aqui não é o meu lugar. Nunca foi. Sei que sou melhor do que isso. Dizem que sou um homem atraente, culto, e bem-disposto para a minha idade. Mal acreditam quando digo que completarei sessenta anos daqui a uma semana. Respondo aos elogios com um belo sorriso, obra do mesmo profissional que tratou dos dentes de Elenice. 

 É exatamente como se apresentou: terreno instável. Nunca um porto seguro ou um chão firme sob os pés. Mas eu gosto assim. Muito mais do que deveria.  

Há o sexo, claro. Se não é perfeito, aí reside o encanto da novidade. Elenice sempre foi tão franca quanto às próprias imperfeições, que se torna ainda mais sedutora. Sabe conduzir o calor das possibilidades.

Dividido entre a amante e a família, passei a me desdobrar buscando soluções para os gastos cada vez maiores. Minha mulher, exausta com a situação, expulsou-me de casa assim que descobriu o meu caso com Elenice. Traição que não fiz questão nenhuma de negar.  

Enquanto procurava lidar com a minha nova situação de solteiro, cedi cada vez mais aos desmandos da amante jovem e voluntariosa. Fui assim, castigado por culpa e desejo, e me vi privado de sono e da possibilidade de um futuro tranquilo. 

Como era previsível, Elenice entediou-se com o prosseguir da nossa rotina. Dizia que não havia razão para continuar atravessando aquele deserto juntos. Um dia, falou que nós dois sabíamos o que precisava ser feito. Queria que fosse tudo rápido e indolor. Pelo menos para ela. 

Levei algum tempo para perceber que minha presença estava sendo enfim descartada. Cometi muitas tolices, renunciando à paz junto à família e aos amigos. Tudo fiz por ela. Todo dinheiro, tempo e esquecimento. Tudo por ela. E agora ela queria conversar?

− Eu te avisei que o negócio era assim comigo. Preciso da minha liberdade. – E sorrindo com os seus maravilhosos dentes, concluía com magistral ironia. – Não é você, querido. Sou eu. 

Vadia! Tudo o que Elenice me oferecia era uma série de frases feitas. Como se tivesse ensaiado a vida inteira para aquele momento. 

Observando melhor o apartamento, posso agora perceber a miséria de intenções que se apoderou da minha vida. Fiz tudo por ela. Desde o momento do encontro, jurei lealdade, entregando-me à perdição de seus braços. Se necessário fosse, a seguiria por labirintos, ou ladeira abaixo.  

Vícios e mentiras serviram de passaporte para outra viagem ao lado de Elenice. Mais de uma vez, neguei previdência e bom senso. Aceitei pó e agulhas. Alimentei-me do estranho sabor da perversidade. Só mais uma vez, repetia enquanto reproduzia mentalmente uma sucessão de quadros psicodélicos.

Às vezes, tenho a impressão de que essa paixão é fruto de um delírio interminável. Logo conheci o rastejar de sentimentos vindos de Elenice. Os dias de glória se transformado em pó. Literalmente.

O dinheiro escorreu mais rápido do que o tempo pelo ralo dos desatinos. Escarnei o pouco de dignidade que me restava nos ossos. Conservei pouca vontade e este apartamento decadente. 

Mofo, marginais como vizinhos, vazamentos constantes, a péssima localização. Não é propriamente um paraíso, longe disso. No entanto, aceitaria viver aqui para sempre, ou pelo tempo que ainda me resta. 

Tudo o que desejo é me deixar levar pelo oceano de Elenice.

− Gosta de areia movediça?

A pergunta, feita logo no primeiro encontro, sua apresentação, seu cartão de visita, uma tatuagem de guerra, foi um alerta. Ninguém poderá dizer que ela me enganou. O perigo estava estampado naquelas palavras.  

Antes do primeiro beijo trocado, antes da primeira briga, ela me alertou. Areia movediça. A senha para poder atravessar seu corpo e o inferno. 

Com o decorrer do tempo, perdi quase tudo que possuía. Dia após dia, acumulava dívidas, deixando muito pouco para a família, já renegada a um plano inexistente.  

Elenice dominava meus pensamentos, vida e decisões, espalhando-se pela minha vida como uma praga voraz. Estragaria tudo o que alcançasse. Mesmo durante o autoflagelo imposto, eu soube que faria tudo de novo para poder ter essa mulher por perto mais algumas vezes. 

Este apartamento, por ser um imóvel que não se vende fácil, continua a me pertencer. Seu valor já sofreu vários decréscimos. Pago, vez ou outra, uma conta que vence, mas não usufruo mais das instalações precárias. Sinto que este deveria ser o meu lar agora, a ratoeira imunda, meu último refúgio. Elenice, no entanto, nega-me estadia, expulsando meu corpo e sonhos daqui. 

Começo a sentir a tortura das horas abalar minha determinação. Onde está Elenice? Por que demora tanto a chegar? É pouco provável que ela adivinhe minha presença ali. Talvez nem apareça em casa esta noite. Seus horários são tão incertos quanto suas vontades. 

Há mais de um mês, eu não entrava ali. Apesar de reconhecer alguns moradores e suas vidas maltrapilhas, tudo o mais me parece bem diferente. 

A penumbra do entardecer empresta uma aura misteriosa ao local. Sóbrio, doente e cansado, eu já não consigo extrair daqui nada além de sordidez e arrependimento.

Sento-me novamente na mesma poltrona surrada. Meu corpo logo trata de se moldar ao móvel como se buscasse uma familiar simbiose. O gosto da repulsa aloja-se na garganta. Tusso para destravar respiração e espírito. 

Morro. Tenho certeza disso.  

Sinto as têmporas palpitarem e o coração disparar, quando ouço o movimento da chave na fechadura. É o som suave de uma benção noturna. A minha libertação. 

Elenice entra sem muito alarde, passos leves e o perfume já gasto pela noite. Parece cantarolar alguma melodia conhecida. Levo alguns segundos, mas reconheço os primeiros compassos da canção. A nossa.  

Zombaria o destino deste nosso último momento a sós? Trilha sonora noturna testemunhando o despir de Elenice. Peças de roupa tombam displicentes pelos cantos. Então, percebo que a embriaguez também a acompanha. Vinho barato e talvez algo mais. 

Ergo-me, tomando cuidado para não revelar minha presença de forma precipitada. Com esforço, contenho impulsos e consigo me ocultar nas sombras multiplicadas pela sala. 

Sinto meus instintos dominarem todos os sentidos. Temo tropeçar na decisão já tomada. Meus braços, doloridos pela longa espera, pesam, sem ostentar protesto algum. 

− Quem está aí? − Indaga Elenice ao perceber a presença de alguém na sala. 

Sorrio para mim, mesmo no escuro. Quase me deixo rir. O momento orquestrado está acontecendo exatamente como desenhei em minha imaginação. As pausas certas encaixam-se entre as tomadas de fôlego e o tremular da voz feminina. O que virá depois? 

Percebo o remexer nervoso de dedos na bolsa atirada sobre a cadeira. Barulho de chaves, algum objeto metálico a se debater contra a imitação barata de couro. Bolsa vagabunda. Vadia!

− Apareça ou chamo a polícia!

Eu já previ isso também. Essa coragem estúpida, a reação de felina acuada. Penso no que virá. O repentino estardalhaço, a inevitável confusão de tons e sentimentos, e os policiais encontrando o corpo. 

− Vadia! − Digo entre os dentes que, ironicamente, reluzem na penumbra.

Então me apresento, lentamente, ao mesmo tempo que Elenice acende a luz. A repentina luminosidade ofusca qualquer surpresa nos olhos dela. O instinto cobre seu raciocínio e ela mal percebe quem está a sua frente, quem a desafia e a faz tremer. Sou, afinal, o homem que sempre quis ser. 

Sinto o poder. Sou dono do enredo que se desenrolará daqui em diante. Não precisarei esperar para completar meu plano com sucesso. Fixo minha atenção nos olhos verdes uma última vez, despedindo-me do momento que já se vai.  

− Vadia!

A primeira bala perfura o pulmão esquerdo. A segunda rasga o coração, e se instala na coluna. Pequenos gritos seguem, sufocados por uma respiração afogada. 

Os olhos dela. Só meus.   

Mãos trêmulas ainda seguram a pequena pistola. Um último presente, um providencial agrado. 

O corpo inerte tinge o tapete, cobrindo de carmim as fibras. A vida ganha ritmo próprio, flashes em slow motion, uma agonia silenciosa em segundos revelada.

Elenice cai de joelhos e se põe a gritar em desespero e pranto. Os gritos acordarão toda a vizinhança. Mas a mim, nunca mais. 

Vadia! Fecho lábios e olhos.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.