EntreContos

Detox Literário.

Cheiro de Bicho (Goblino Barril)

Dos cinco sentidos, acredito que o olfato seja o menos explorado pelos humanos. O mundo é mapeado em construções visuais e sonoras, e nós o exploramos com toques e degustações. Só nos lembram do olfato para vender perfumes ou óleos hidratantes. É diferente com os animais, a maioria deles possui um faro superior ao nosso. Até um pequeno camundongo consegue localizar um pedaço de queijo melhor do que você. 

Para uma espécie que se considera o ápice da cadeia evolutiva, é uma constatação inconveniente. Mas não sei se somos assim tão superiores. Quer ver um homem se tornar um animal? Dê a ele acesso à internet.

São pensamentos que me acometem enquanto destravo a fechadura. É um apartamento no 14º andar de um prédio com varandas espaçosas e fachada com acabamento em cerâmica. Não é difícil entrar. Todo esquema de segurança possui falhas: porteiros trocam de turnos, câmeras têm seus pontos cegos, e portas, mesmo as mais tecnológicas, podem ser destrancadas.

Entro no apartamento e sou recebido por um pequeno Lulu da Pomerânia de pelagem caramelo. Ele late ofensivamente, exibindo seus dentes pontiagudos. Um latido estridente, tão patético quanto o seu diminuto porte. O guardião, porém, aceita com entusiasmo os petiscos que lhe dou. Em instantes, o animal está calmo e estende a barriga para que eu a acaricie. Adormece em seguida.

Gosto de cachorros. São parceiros, disciplinados e nutrem pelo dono uma lealdade rara nos humanos. Na minha opinião, é o bicho que mais se aproxima de saber o que é o amor. Mas é instinto: seu cão só aceita a humilhação do tapete higiênico pelo interesse da sua proteção. Gatos, então, estarão com você enquanto houver comida fácil.

O amor é o que nos faz humanos. Esse sentimento esquisito de querer tão bem ao outro, do coração até doer. Defender a pessoa amada de todos os males, possíveis ou meramente especuláveis. Mas quando nos tiram o amor, o que sobra?

Sobras é o que mais vejo na geladeira do apartamento. Há tupperwares coloridas em todas as prateleiras e eu as abro uma a uma. Couve-flor, brócolis, batata-doce, beterraba… A família se alimenta de forma saudável. Em uma vasilha, encontro carne cozida com batatas. A aparência é apetitosa. Fico na dúvida entre ela e um frango assado, mas prefiro a iguaria bovina.

Pego um prato na pia, retiro pesados talheres de metal no escorredor e monto uma porção para mim. Não acendo as luzes: na mão esquerda, carrego uma pequena lanterna. Evito chamar a atenção de algum vizinho, tento ser discreto. Apesar do ambiente pouco iluminado, encontro o display do micro-ondas e esquento meu prato. Abro novamente a geladeira. Uma cerveja seria o acompanhamento perfeito, mas não encontro nenhuma. Acabo me servindo suco de caixinha.

Levo meu prato e copo para a sala. Ali, entretanto, não há TV, companhia que estou procurando. Esqueci que famílias requintadas possuem duas salas, uma para receber visitas e outra para o televisor. A sala de estar é espaçosa, possui um sofá extenso, quadros e um espelho na parede, ao fundo. Encontro, em um móvel no canto, uma seleção de bebidas que me interessa.

A sala de TV fica ao lado da copa. Ligo o aparelho quase no mudo, ainda sem acender as luzes. Sentado no sofá, apoio o prato em uma almofada. Aposto que seria censurado se os moradores vissem a cena. É um sofá confortável. Definitivamente, eu conseguiria tirar uma boa soneca ali. 

A carne é boa, a empregada da família tem talento. Gosto da forma como ela usa ervas para temperar a comida, deixa o prato cheiroso. Meu olfato sempre foi mais aguçado do que o da maioria das pessoas. Por isso, fico divagando sobre a desvalorização do olfato. Comigo é o contrário, um bom aroma é muito excitante. Minha mulher não acredita, mas  foi a fragrância de chocolate do seu condicionador que inicialmente me atraiu nela.

Ela usava o uniforme da escola militar e conversava com uma amiga minha, a Alice. Não era um traje feito para ser sensual, pelo contrário, o tecido grosseiro bege e seu corte reto estavam distantes de serem elegantes. Mas, para moleques como eu, que estudavam numa escola onde o uniforme era calça jeans e camiseta branca, ver meninas com saia, ainda que na altura dos joelhos, era um oásis.

Thamires me explicou depois que saía ao sol com os cabelos recém-lavados para que secassem ainda mais encaracolados. Logo após ser fisgado pelo cheiro do condicionador, reparei nas suas panturrilhas firmes, que se afastavam, em passos decididos, de mim. Os seios, estufados na camisa toda abotoada, mereciam uma moldura.

– Sem chances – foi o que Alice me disse.

– Como assim? Eu só quero que você me apresente para ela.

– Você não faz o tipo dela. Ela é estudiosa, no colégio militar tem que ter boas notas. E, na boa, se ela quiser um namorado, vai escolher alguém melhor do que você.

Foram palavras ásperas, porém verdadeiras. Eu não teria chances. Não era um bom aluno, era pobre e feio. Eu não conseguiria muita coisa com a garota e, tampouco, na vida, se não me mexesse. Foi o que fiz.

Já que os estudos não eram o meu forte, arrumei emprego, numa serralheria do bairro. Dei sorte, encontrei pessoas boas e tive oportunidade de crescer na empresa. E, quando já estava quase me esquecendo da morena que motivara minha transformação, numa tarde de sábado, esbarrei com aquela fragrância de chocolate, no ponto de ônibus. Sem o uniforme, em um vestido florido, pude vislumbrar um pouco de suas coxas grossas. Ela estava deslumbrante.

Puxei conversa. Disse que a tinha visto com a Alice, perguntei sobre o colégio militar, coisas assim. Nem me lembro mais. Trabalhar levantou minha autoestima, eu me sentia mais habilidoso nas relações interpessoais. Tinha algumas histórias, mesmo que bobas, para contar. O trabalho braçal também fez com que me sentisse melhor com minha aparência, pois eu deixara de ser o garoto sedentário e fraco de pouco tempo atrás.

Nós nos encontramos em uma festa na praça do bairro, no dia de algum santo qualquer. Apesar de não termos tanto em comum, éramos jovens e isso era o suficiente para gostarmos um do outro. Se fechar os olhos, ainda me lembro do perfume que Thamires usava, tão nitidamente quanto do nosso primeiro beijo. Nunca houve outro igual.

O pequeno cachorro do apartamento está adormecido aos meus pés. “Pituco” é nome marcado na coleira. Então, caro Pituco, amor é uma coisa que você não vai conhecer. Talvez seja sorte a sua.

Como a carne com batatas enquanto o canal esportivo transmite uma partida de basquete. A mente, todavia, está perdida em lembranças. Limpo as mãos engorduradas nos braços do sofá. Saciado, é hora de explorar o apartamento, o que faço com o auxílio de minha inseparável lanterna. A pistola vai na cintura, afinal não estou aquiinvadi um apartamento para pensar no passado.

Embora a sala seja o ambiente mais requintado do apartamento, os outros cômodos também possuem móveis bonitos. Cheiro de madeira maciça. O quarto com cama de solteiro é do filho do casal. Há roupas esparramadas pelo chão e uma TV ainda maior do que a da sala. O videogame provavelmente é de última geração. Deve ter um bom preço. Na mesa da copa, encontrei um laptop ainda ligado. Vejo o logo da maçã em sua tela, outro item que deve valer um dinheiro razoável. Guardo os dois na minha mochila.

Chego, finalmente, ao quarto do casal. As roupas sobre a larga cama indicam que a mulher ficou em dúvida sobre qual traje usaria. Diante do espelho do banheiro, ela deixou algumas joias. Facilitou meu trabalho. Foram reprovadas por não combinarem com o modelito escolhido. Gosto de um par de brincos com uma pedra verde. Não conheço de joias, talvez sejam esmeraldas. Ficariam bem na Thamires. Na Thaís, então, os brincos ficariam maravilhosos. Por alguma loteria genética, nossa filha nasceu com olhos castanhos bem claros, semelhantes aos da minha avó. As joias e os eletrônicos certamente pagam os transtornos da invasão.

Volto para a sala. Aproveito o copo em que tomei o suco e me sirvo uma dose de uísque. Gosto de me sentir um cavalheiro que toma bebidas caras. Na mesa de centro, vejo um painel com várias fotografias. Fico olhando para elas. A família gosta de exibir registros de suas viagens pelo mundo. Todo o crescimento do garoto está documentado: do bebê gorducho em um café com a Torre Eiffel, ao fundo, até o início da adolescência, acariciando um golfinho, provavelmente na Flórida. 

O destino mais distante a que levei Thaís foi Ubatuba. Nunca saímos do estado de São Paulo. Na praia, na única vez, a menina estava deslumbrada:

– Olha, papai, a conchinha. Outra conchinha.

– Calma filha, eu já vou.

– O passarinho entrou na água!

– Cuidado com a onda, Thaís!

A menina estava imersa em descobertas, e eu tomando cervejas baratas. Só percebemos as tolices que cometemos quando é tarde demais. Não faltaram planos para outras viagens, sobretudo para o Nordeste, desejo de Thamires. Mas nunca nos organizávamos. Os eventos se sucederam aos atropelos. O namoro escondido, a aceitação reticente da família até a gravidez inesperada enquanto Thamires começava o curso de Direito.

Alugamos uma casa e, antes de nos prepararmos, Thaís nasceu, prematura. Foram semanas de plantão no hospital, esperando que aquele cisco de gente virasse um bebê. Quando tivemos alta e eu senti confiança para, pela primeira vez, segurar minha filha,  descobri que nada seria como antes. Meus braços trêmulos, aquele bebê tão frágil, nossa primeira troca de olhares. Se eu conhecera o amor com Thamires, com minha filha experimentei o sentimento em seu estado mais puro.

Começo a ficar irritado diante das fotografias. Não gosto desses estereótipos de pessoas perfeitas. A mulher é bonita, está muito bem. Deve ter disciplina com as aulas com o personal. O garoto se parece com a mãe, embora seus traços delicados comecem a sucumbir aos indícios da puberdade. Em algumas fotos, a família ganha a companhia dos avós da criança, ou de alguns amigos do casal.

Finalmente, há o pai. Seus óculos de Clark Kent reforçam a postura de bom homem. O cabelo cortado bem baixo, o sorriso de Monalisa, o porte de salvador da pátria. Sinto minhas veias pulsarem. Vejo a família em um barco. O casal se beijando na festa de casamento. O homem abraçando a esposa grávida.

Penso em minha família, tão bonita, ainda que não fôssemos fotogênicos. Nossas roupas são simples, não fazíamos viagens ou participávamos de eventos sociais, como a recepção no clube onde estão os donos do apartamento. Vivemos uma vida de privações, mas Thamires e, principalmente, Thaís, faziam todo o esforço valer a pena.

A menina veio parecida com a mãe, bonita e estudiosa. Para dar a ela as melhores condições, o futuro que eu nunca procurei – e do qual, de tabela, ainda desviei Thamires –, me esforcei para pagar um bom colégio. Trabalhava em todos os feriados, mas não recusava um livro para a menina.

Será que Lucca, o garoto das fotos, diz aos pais “eu te amo” todas as noites, como Thaís fazia comigo? E Suzana, a mulher que zela pela organização do lar e documenta sua rotina em stories do Instagram, é tão companheira como minha Thamires?

Como meu olfato é sensível, começo a sentir o odor que exalo pelos poros. Quando Thaís nos apresentou aquele seu colega branquelo, que prestaria vestibular para medicina, não notei a gravidade da situação. Estavam enamorados, era óbvio. Nada mais natural, minha filha era encantadora. Eu deveria, contudo, ter notado os dentes caninos sob o disfarce de cordeiro.

É tão fácil obter informações sobre as pessoas hoje em dia. Érico, o Clark Kent das fotos, apesar da carreira vencedora de empreendedor, também encontra tempo para expor sua vida nas redes sociais. Sua rotina de trabalho, seus horários, os eventos sociais… Está tudo lá. O endereço também foi fácil de rastrear.

Semanas depois de começar a sair com o mauricinho Geovane, minha filha ficou calada, com o olhar opaco. Pensamos, evidentemente, que o namoro havia acabado. Thaís se negou a dizer o que havia acontecido. Até que o vídeo começou a circular. Minha mulher tentou me poupar, só que ele me foi encaminhado tantas vezes que acabei assistindo. Minha filha, dopada, sendo violentada pelo namorado e por um amigo dele. Cinquenta e sete segundos que ainda me torturam, com minha filhaThaís sendo exposta em minúcias ginecológicas. No site pornográfico, o vídeo foi postado como “Novinha muito loca dando pra dois”.

Foi o começo do fim. Como se passaram alguns dias entre o estupro e a denúncia, o exame pericial não detectaria a substância que dopara minha filha. Ou seja, enquanto o processo corria em segredo de justiça, a opinião pública se lançou sobre nós como uma fera faminta. Minha filhaA garota, a vítima, foi sumariamente condenada pela sociedade.

Thaís abandonou os estudos, não saía mais de casa. Sob nossos olhos, definhava, sem apetite e sem vislumbrar uma saída para aquele linchamento público. Nunca a culpei por tirar a própria vida.

Meu suor aumenta. O cheiro também. Esperava que esses apartamentos chiques fossem mais arejados.

Quando a notícia do estupro foi publicada, os comentários na página eram abomináveis. Era como se eu visse minha filha ser violentada novamente. Escondidos por trás de avatares, com nomes genéricos, a civilização se revelava barbárie, destilando preconceitos raciais e de gênero contra minha filha. 

Com um avatar de touro, o “doutrinador moral” escreveu: “Eu vi o vídeo, ela estava gostando. Tem cara de puta, aposto q os caras não quiseram pagar e ela tah procurando fama. Foda é q daqui a pouco vem as feministas defender a santinha kkkk.”

Eu já disse, para ver um homem se tornar um animal, basta dar a ele acesso à internet. O “doutrinador moral” é o Érico, o dono do apartamento.

Por isso, estou aqui. Aguardando pacientemente a chegada do “doutrinador moral”, o típico cidadão pagador de impostos, que passeia com carro esportivo aos domingos. E, no anonimato da internet, desfere preconceitos e brutalidades. 

Nada trará minha filha de volta, eu sei. Mas é um alívio punir um filho da puta. Vou até a cozinha e procuro, nas gavetas, uma faca bem afiada. Só a pistola não seria suficiente. Demoro um pouco até encontrar a lâmina que provavelmente partiu a carne cozida que comi há alguns minutos. Está afiada.

Pressinto que eles estão chegando. O odor rançoso que exalo domina todo o ambiente. É cheiro de bicho, de besta fora de controle. Tiraram minha capacidade de amar, não podem exigir que eu seja humano.

Escuto a porta do elevador se abrindo. Posiciono-me. Eles estão chegando.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.