EntreContos

Detox Literário.

App Driver (Maria André Khalil)

– Desligue o telefone! – exibindo a arma, o amigo de Aísa ordena ao motorista.

– Boa noite, Renan! – minutos antes, ela o cumprimentara e mais uma vez ocorreu ao condutor que toda viagem começa bem quando o saúdam pelo nome. Melhor ainda se a passageira é bonita e se senta ao seu lado. 

Essa preferiu sentar-se trás. Ainda assim, ele pôde distinguir as sutis notas que compunham seu perfume. Tudo lhe parecia bem, até tocar em “iniciar viagem” e verificar o destino.

– Moça, perdão. Espero que você compreenda, mas São José, assim tão tarde, não vai dar…

– Compreendo sim – disse Aísa, interrompendo-o com um tom indulgente –, na verdade, já esperava por isso.

Renan ainda não havia arrancado, então desligou o carro e destravou as portas esperando que a passageira desembarcasse.

– A essa hora você não traz mais ninguém de lá, não é mesmo?

– Pois é… Que bom que você compreende. Poderia cancelar, por favor? 

– Ainda não.

Com expressão grave, o condutor virou-se para trás:

– Oi?

– É que, como eu lhe disse, já esperava mesmo por isso. – Aísa emendou. – Diga-me uma coisa, e se eu lhe pagar o retorno?

Ao invés de responder, o motorista consultou o aplicativo e verificou que a passageira optara por debitar a corrida no cartão de crédito.

– Desculpe a indiscrição, mas o que você vai fazer naquele fim de mundo a essa hora?

Ela sorriu obliquamente.

– Evento ao ar livre com DJ famoso – respondeu, após breve pausa.

Incrédulo, Renan a examinou pelo retrovisor. Distinta, bem vestida e sobriamente maquiada. Decerto já passara dos trinta, mas mesmo não lhe parecendo uma balzaquiana clássica, não pôde imaginá-la numa festa rave.

– Isso, mais o pagamento no cartão, deve fazer sua viagem valer a pena – disse ela enquanto, atravessando com o braço o limite imaginário entre passageiro e motorista, estendia-lhe uma cédula graúda.

– Sendo assim… – respondeu ele, disfarçando o entusiasmo enquanto recolhia a nota. 

– Apenas precisaremos fazer uma paradinha para pegar um amigo, tudo bem?

– Basta me avisar. 

– Aviso sim.

– Você está confortável aí, quer que eu ligue o ar?

– Não precisa, obrigada. Eu prefiro assim, só uma fresta na janela… Mas o que você está ouvindo, jazz? Poderia aumentar um pouquinho?

Durante os primeiros minutos da viagem, as palavras não lhes fizeram falta e a música só fez amplificar o silêncio, até que ela resolveu quebrá-lo:

– Há quanto tempo você dirige profissionalmente?

– Uns seis meses… – ele mentiu, há dois anos o magistério não lhe garantia renda suficiente para pagar as contas e ajudar Denise.

– Pois já deve colecionar algumas histórias. 

– Algumas.

– A viagem deve ser longa, você se importaria de me contar uma?

– Bem… – o motorista coçou o queixo como quem folheia um cardápio – certa noite busquei uma passageira que, por alguma razão, me lembrou minha filha… 

“Você não adicionou o destino, né?” Disse eu, enquanto manobrava. A moça, saída de um condomínio, havia embarcado com a ajuda de outra, aparentemente mais velha, a qual recomendando-me que cuidasse da amiga, fez ainda um sinal às costas dessa, dando a entender que a colega havia bebido. Menos mal que então ela trazia consigo uma lata de refrigerante providencialmente munida de canudinho.

“Para casa, moço!” Disse-me, depositando a latinha aqui, nesse mesmo suporte. Eu então, desengatei a marcha, desacelerei e puxei o freio de mão. Virei-me e encarei a mocinha ao meu lado. Como sempre, eu estava de bom humor e, tal qual às vezes faço com meus alunos, esperei que meu sorriso falasse por mim. Ela não demorou a se dar conta: “Desculpe, o senhor não tem obrigação de saber onde moro…” Disse, olhando-me constrangida. Alarguei o sorriso, descartando aquele pouquinho de ironia. “Só um minutinho, já vou inserir aqui.” Ela completou.

E enquanto a passageira, com dificuldade, tentava adicionar o próprio endereço no aplicativo, eu reparava no tipo. Franzina, não mais que vinte anos, olhos clarinhos, cabelos quase vermelhos e o charme de umas poucas sardas no nariz. Biótipo um tanto raro na nossa região, você há de convir. Ademais, o sotaque… Bem, nesse ramo, reconhecer sotaques é uma espécie de passatempo social, e o dela não parecia ser mesmo daqui.

“Vamos agilizar? Permita que eu adicione pra você.” Propus, ante a dificuldade dela em digitar. Bruna – acho que era esse o nome – contou-me que nascera no Sul. Filha de militar, a família vivia se mudando, até que vieram para cá. Entrou para a faculdade, arranjou emprego e, quando o pai foi novamente transferido, ela decidiu ficar. Alegou-lhes não suportar mais o frio lá de baixo, mas me segredou que queria mesmo era livrar-se do julgo do pai autoritário. Na verdade, exceto por me deixar apreensivo com seus pequenos espasmos nas raras vezes em que eu freava ou acelerava mais bruscamente, a menina não parecia tão mal.  

– Qual é mesmo seu nome, Aísa? Moira? Aísa Moira! Diferente… Você tem filhos, Moira? Pois eu tenho, uma só. E acho que mesmo ela não morando comigo – a mãe de Denise e eu somos divorciados –, não a deixaria mudar-se sozinha para uma metrópole distante. Mas afinal, o que é que estou falando, né? Ela já é maior de idade – cursa medicina, sabe? – então, mesmo não sendo nenhum sargento, só me resta rezar.

Mas enfim, a passageira – sim, realmente se chamava Bruna –, contou-me que teria um plantão de doze horas no dia seguinte. Bem, era sexta-feira, um pouco depois das vinte e duas, então, não apenas por cortesia, eu disse que ela não parecia estar tão ruim e recomendei-lhe que, chegando em casa, tomasse bastante água e fosse logo dormir. O sábado não seria fácil, mas ela certamente sobreviveria.

A conversa fluía. Além de carismática, a garota era bem articulada – ou talvez só estivesse tão falante devido às cervejas que havia tomado no churrasco da amiga – e então, estranhamente eu me peguei falando da minha vida pra ela, quando o habitual, você deve saber, é o contrário, ou seja, o passageiro nos tomar por psicólogos. 

Mas, de volta à história, em dado momento, o celular tocou. Ela pediu licença e atendeu. O rapaz claramente chamava de uma festa, pois berrava ao telefone, de maneira que não pude deixar de ouvir a conversa toda. O engraçado é que, apesar de eu haver baixado o volume do rádio tão logo ela pegou o aparelho, Bruna também gritava. Resumindo, o amigo a intimava a comparecer imediatamente ao aniversário dele. Muito polidamente, ela alegou que já vinha de um churrasco, que havia bebido e teria o plantão no dia seguinte. Mas o cara insistiu tanto que Bruna me pediu para alterar o destino da viagem. 

Claro que não achei legal, mas o que eu poderia fazer? Apenas me perguntei se, uma vez no lugar dela, Denise teria sido mais assertiva. No entanto, para o meu alívio, mal rodamos umas quadras e a passageira me pediu para retomarmos o rumo de sua casa. Eu a parabenizei, disse que aquela sim era uma decisão madura e acertada. A menina me sorriu, mas não disse mais nada, seguiu viagem mexendo no telefone que logo voltou a tocar.

– Exatamente! Era o tal carinha outra vez. Ricardo! Lembro agora dela o ter chamado por esse nome. Imagino que nessa fase da vida todos tivemos um ou dois “Ricardos” sempre prontos a nos tentar por caminhos tortuosos, não é mesmo? 

Àquela altura, Renan e Moira encontravam-se num trecho de rodovia ladeado por galpões, já todos fechados. Aísa, ou Moira, Aísa Moira, interrompendo a narrativa, pediu-lhe que encostasse. O tal amigo os aguardava em frente a um barracão industrial. Rapaz mais jovem que ela. Alto, magro, malares salientes e barba por fazer. Desafiando a noite quente, trajava jaqueta de couro e suéter de lã. Embarcou após cumprimentar o motorista com um grunhido. O condutor não se importou, estava acostumado à apatia de alguns passageiros. Provavelmente um motociclista sem capacete, pensou consigo. Não lhe deu maior atenção e retomou a história. O moço acomodou-se no banco da frente, olhou-o uma vez mais e contraiu os olhos, como se tentando encontrar o fio da meada.

– Aísa, tanto o cara insistiu, que a menina cedeu: “Moço…” Sim, já sei, toca pra festa! Disse eu, sem disfarçar minha contrariedade. E então, quadras adiante, adivinha? Sim, ela desistiu da festa e me pediu para direcionar outra vez pra casa. Detalhe: a festa do suposto amigo e a casa de Bruna ficavam em sentidos totalmente opostos. Pois é, afinal, do que eu poderia reclamar, já que receberia por cada minuto e quilômetro rodado? 

Como você já deve ter deduzido, o cara não tardou a ligar novamente. “A festa está bombando aqui, você já está chegando?” Olha, confesso que a voz dele já estava me aborrecendo. Concluí que se a festa estivesse mesmo boa, ele não ligaria a cada cinco minutos, mas não comentei. 

E assim, seguimos viagem, ela toda indecisa e ele cheio de argumentos: “Venha, depois te levo de moto!” Disse o talzinho, e eu imaginei o quão bêbado ele estaria na hora de levá-la. “Você pode dormir aqui.” Propôs, e então não tive dúvidas, ele queria mesmo era se aproveitar da garota. Resumidamente, Aísa, a ideia de que Denise também estava à mercê de sujeitinhos como aquele foi me irritando, irritando… 

À certa altura, ainda íamos em direção à casa da menina, quando ele ligou mais uma vez. Entretanto, tão logo ela atendeu, surpreendi a mim mesmo: “Bruna, pode dizer pro seu amigo que o motorista não vai mais alterar o destino e que agora você está indo pra sua casa! Pra sua casa, entendeu?” Eu disse em alto e bom tom.

Enquanto o segundo passageiro apenas encara Renan com ar de reprovação, a gargalhada de Aísa interrompe a narrativa.

– Jura?

– Juro. Contando agora, soa engraçado, mas não foi. Fiquei tão perplexo quanto ela ou você, e esperei que a menina me soltasse o verbo. Quem eu pensava que era para me meter na vida dela? Mas não, talvez até por questão de formação – afinal, ela era filha de militar –, Bruna não me respondeu, ao invés disso, falou pro amigo ao telefone: “Você escutou o moço, né?”

Nem ele esboçou qualquer outro argumento, disse boa noite e desligou. O celular dela não tocou mais. Ao chegarmos, precisei ajudá-la a livrar-se do cinto. “Muito obrigada, moço. Foi realmente a melhor decisão.” Disse-me com olhos baixos, acendendo um cigarro tão logo deixou o carro.

Eu ainda fiquei um tempo parado lá, até que ela entrasse.

– Desligue o telefone! – o suposto amigo de Aísa ordena ao motorista, como se estivesse apenas esperando a história acabar.

– Oi? – Renan responde.

Responde, mas não se mexe. Enquanto o braço armado treme, o braço ao volante enrijece e o próprio tempo parece desacelerar. 

– Não ouviu, não? – vocifera o rapaz – Deixa comigo – complementa para o motorista ainda embasbacado –, mas ao menos vê se olha pra frente, idiota!

E então, com a mão livre arranca o celular do painel e atira-o pela janela entreaberta. Num relance, ambos ainda vêem pelos retrovisores o aparelho estilhaçar-se sob as rodas do bitrem que, como paquiderme desembestado, bufa na traseira do carro.

– Agora acelera, imbecil, ou os próximos seremos nós! – declara gargalhando, enquanto habilmente pula para o banco de trás. 

Recuperado do estupor momentâneo, o condutor troca de pista e acelera até o limite da via. Agora, tendo ao seu lado o indivíduo, Aísa assiste a tudo com indiferença frívola.

O rapaz se acomoda atrás de Renan e, percebendo que o motorista o sonda pelo espelho, encosta o cano em seu ouvido:

– Olhe apenas para frente e dirija.

O condutor obedece. Não está propriamente chocado, já fora rendido antes, mas dessa vez há uma energia sinistra no ar, algo como um déjà vu.

– Conte-me mais uma história, Renan! – pede Aísa, metros adiante, como se tudo transcorresse normalmente.

– Oras, e vocês acham que há clima pra isso? Me poupem! – o motorista resmunga, claramente irritado.

– Sobre ele, não sei, mas eu acredito sinceramente que contar outro caso lhe ajudará a relaxar um pouco.

– Pois não vou contar mais caso nenhum.

– Cara, você está falando com quem? Tá doidão? Presta atenção na estrada aí! – brada o rapaz, levantando o braço de maneira que o revólver se faça visível no retrovisor.

– Fique tranquilo – diz Aísa –, ele não vai atirar em você, pelo menos não enquanto o veículo estiver em movimento. 

– O que vocês querem de mim, afinal? Levem logo o dinheiro. O carro, um de vocês mesmo pode dirigir, mas me deixem ir embora. Tenho uma filha…

– Cara, dirige de boa, aí. Vou te liberar quando eu quiser e se eu quiser, estamos entendidos? – diz o marginal, dando uma leve coronhada em sua nuca.

Intimidado, o motorista se cala, até que:

– Renan, você leciona o quê? Conhece mitologia grega? 

– Mitologia, a essa hora? Qual é a de vocês? Que papo é esse?

– Então meu nome não lhe lembra nada… Pois sou a primogênita das moiras, e essa noite vou cortar o fio da vida a um de vocês, ou aos dois, isso nós ainda veremos.

– Cara, você está mesmo doidão! Motoristas de aplicativo são que nem caminhoneiros, também costumam cheirar uma, às vezes, não é mesmo?

– É você, Ricardo, o amigo de Bruna! – exclama o motorista, finalmente reconhecendo a voz da outra noite.

Em seguida, atinando com a bobagem que acaba de fazer, dá uma guinada para esquerda, jogando o carro contra a mureta. 

O que se segue é uma mistura de ruídos. O baque e o estampido. A gargalhada e o palavrão. O gemido e os estilhaçar dos vidros. O jazz no rádio e a buzina com seu interminável refrão… Como se controlados por um dimmer, o som e as luzes, o motorista e os passageiros, tudo vai esvanecendo, até que ele próprio apaga.

Ao acordar sobre o volante – a buzina ainda grita, o rádio ainda toca -, Renan levanta a cabeça, abaixa o som e tateia cuidadosamente o corpo com as mãos. Nada quebrado, exceto o carro. Procura pelos passageiros no banco de trás, mas encontra apenas Ricardo que, sem o cinto, parece morto após haver acidentalmente disparado contra si mesmo. Desesperado, o condutor abandona o automóvel e sai correndo pela penumbra do acostamento. Para, quando algum raro veículo se aproxima. Acena, grita por socorro. Ninguém sequer desacelera. 

Após cansar-se, segue apenas andando, até que os vislumbra no sentido oposto da via. Dois vultos semi-iluminados por um par de faróis distantes. Aísa, totalmente nua, conduz o moribundo Ricardo pela mão. De repente, como se o pressentisse, ela estaca em meio ao asfalto. Vira-se e, demoradamente, encara o motorista, paralisando-o com seus olhos vazios e rosto desfigurado. Finalmente os faróis o alcançam. Um caminhão encosta, o meu. 

Claramente perturbado, esse pobre diabo tremia ao me implorar por uma carona até o próximo posto policial. Acolhi-o e ele adormeceu ainda há pouco, logo após me contar essa história, não o incomodemos. Mas e você, qual é a sua história? O que fazia sozinha na estrada a essa hora?

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.