EntreContos

Detox Literário.

Simulando Sonhos (Felipe C. Pinto)

— Quem nunca sonhou reviver um momento mágico? — uma voz jovial perguntou enquanto a mesma frase se formava no enorme telão. Centenas de pessoas na plateia suspiraram e concordaram baixinho. Estavam ansiosas para aquele que prometia ser o maior lançamento da década.

— Os primeiros passos do filho. A felicidade de uma festa perfeita. Aquele beijo. — Vídeos em altíssima resolução eram projetados exemplificando cada situação. — Uma noite especial. — Imagens carregadas de tons quentes com corpos nus, revelando pouco, mas sugerindo muito, começaram a ser exibidas. Um calor percorreu as partes baixas da maioria dos presentes. 

***

— Você está distante — Helena disse, deitada em seu peito.

— Fica comigo — Pedro pediu. — Vamos morar juntos.

— Você sabe que não posso — ela, nua, linda, respondeu. — Bora aproveitar esse momento sem papos tristes. — Beijou-o daquela forma calorosa e amorosa ao mesmo tempo. Beijos molhados e mordidinhas, transpiração quente no ouvido.

Ela sabia como o deixar doido. Em pouco tempo, já estava pronto para mais uma. Ela aproveitou a ereção e colocou-se por cima do rapaz.

Então o montou como nunca. Parecia que sabia que aquela seria a última vez. O corpo perfeito da jovem subia e descia com sensualidade. Ele não parava de admirá-la. De reparar seus cabelos escorrendo em ondas pelos seios empinados. Também sabia o que fazer para satisfazê-la. Estava em sua melhor forma. 

Iriam chegar lá juntos. Ele se sentou. Abraçaram-se, corpos suados e unidos. Ela respirando ofegante em seu ouvido, gemendo baixinho. Ele se segurando para o momento derradeiro. O mais inesquecível de toda sua vida…

— Papai! — Foi interrompido por uma voz impaciente de criança. O som não vinha daquele quarto. — Papai, papai.

Removeu o pesado e estranho dispositivo que ocupava quase toda cabeça. Uns óculos de realidade virtual conectados por fios a algo parecido com um capacete neural. O retorno era confuso e desconfortável. Conforme as imagens iam se estabilizando e a tontura passando, observou o filho sacudindo seu braço.

— Que foi? — perguntou, com a voz rouca, enferrujada.

— Fiz um desenho da gente. — Abriu um sorriso daqueles capazes de iluminar a alma dos condenados.

— Já falei que não pode interromper quando o papai tá trabalhando — disse, calmamente, removendo os eletrodos da cabeça. Reparou que o sorriso havia sumido do rosto da criança. — Não fica assim. Vai pra sala que papai já vai, tá?

— Tá bom.

O pequeno caminhou obediente para fora do quarto. Pedro levantou-se e reparou uma ereção que não se resolveria sozinha. Trancou-se no banheiro e finalizou o serviço.

— Vai ficar aí até que horas? — perguntou sua esposa, Joana, aos gritos, enquanto ele tomava o banho.

— Tô terminando. — Secou-se, observando a saliente pança de chope e as grandes áreas devastadas que se formaram nos últimos anos em sua cabeça. Abriu a porta segundos antes de o próximo grito histérico irromper.

— Por que trancou essa merda? Preciso trabalhar, sabia? — Já esperava o argumento que vinha em seguida: — Não ganho dinheiro pra ficar jogando.

— Você sabe que não é um jogo.

— Eu sei. Mas é porque parece muito com um — ela disse enquanto se maquiava. — Você não tem hora e eu tenho. Não pode se trancar no banheiro.

— Eu estava enjoado.

— Já disse que isso não faz bem, né?

— Já.

— Se te pagam uma fortuna pra ficar em casa com um capacete na cabeça é porque deve ser perigoso.

— É só um enjoo. Só acontece quando sou interrompido. Se você tivesse controlado o Enzo. — Mudou da defesa para o ataque, um movimento que raramente funcionava.

— Não vem com esse papo. Enquanto você fica perdido naquela merda de jogo, quem que dá comida e arruma seu filho pra escola sou eu. Ele só tá com saudades de você.

Aquela discussão acontecia com uma frequência irritante. Pedro já não aguentava mais e resolveu ficar quieto para não piorar a situação. Lembrou que o garoto queria mostrar alguma coisa e foi vê-lo.

— Olha, papai. — Enzo exibiu um desenho dos dois jogando futebol.

— Que lindo, filho! — Uma umidade surgiu em seus olhos. Precisava realmente passar mais tempo com ele. — No sábado vamos jogar, tá bom?

— Oba! Faltam quantos dias?

***

Assim que a esposa e o filho saíram, pegou o tablet e, terminando o café, iniciou o app do projeto. Foi recepcionado pela robô assistente:

Olá, Pedro. Como foi o último teste?

— Foi muito gost… — hesitou — satisfatório.

Verifiquei que simulou novamente o mesmo período. Essa é a décima quarta vez. Posso saber o motivo? 

Maldita inteligência artificial, ele pensou.

— Os testes anteriores não foram totalmente conclusivos — respondeu.

Obrigada, Pedro. Agora farei as perguntas de praxe. Responda com “sim” ou “não”: Essa simulação possui apenas um personagem, denominado Helena Pinheiro. Confirma?

— Sim.

A cena ocorreu exatamente como na data simulada? 

— Sim.

O ambiente, os cheiros e sons eram os mesmos?

— Sim.

O personagem se comportou da maneira esperada?

— Sim.

Você executou alguma ação ou reação diferente das executadas na data real?

— Sim.

A IA aguardou segundos a mais que o normal processando essa última resposta.

Você confirma a intervenção? 

— Sim, por quê?

Como o personagem simulado reagiu?

— Ela respondeu de forma evasiva e continuou o fluxo da narrativa.

Obrigada, Pedro. Suas informações foram muito valiosas. Seu pagamento foi autorizado.

Guardou o tablet e voltou à cama. A robô não o repreendeu pela interferência, então se sentiu à vontade para mais testes. Percebeu até uma possível sugestão.

Conectou o conjunto de eletrodos na cabeça pensando novamente como o pessoal do design ia fazer para tornar essa parte menos complicada ao público geral. Não importava muito, ele concluiu. Qualquer pessoa ia querer aquele dispositivo.

Colocou o capacete com os óculos e um calendário virtual surgiu em sua frente. Ainda era muito pouco amigável. Melhorar o design e a interface do usuário seria fácil. O que ele estava testando era a parte mais difícil: as simulações. Deveria verificar como o dispositivo varria sua memória e montava a cena desejada. E, já que ele era um testador muito bem pago, tinha que ir até os limites. 

Selecionou a data de sempre. Após alguns segundos de escuridão, estava novamente naquele quarto onde se amaram pela última vez.

— Você está distante — Helena disse, deitada em seu peito, exatamente como naquele dia.

— Quer casar comigo? — perguntou, de repente.

— O quê!?

— Você quer?

— Claro que quero — ela olhou para a janela por alguns segundos. Ele imaginou que era a forma da inteligência artificial analisar essa intervenção e tentar trazer de volta à narrativa principal. — Mas você sabe que não posso. — Ela subiu nele e começou a beijá-lo.

— Pode, sim. — Segurou-a pelos ombros, com lágrimas nos olhos. — Sei que essa faculdade é importante, mas você é muito inteligente. Se continuar estudando, vai passar numa federal aqui na cidade. Não precisa mudar de país. — Ele disse, sem espaço para reação. — Casa comigo. Eu te amo. Vamos ser felizes juntos!

Ela o observou por quase um minuto inteiro. Lágrimas de emoção escorreram pelos seus olhos verdes. O abraçou e começou a soluçar.

— E, então, o que me diz? — ele perguntou, acariciando-a.

Ela o encarou com olhos inchados, mas felizes. Abriu um largo sorriso.

— Sim, meu amor. Eu aceito!

Pedro não acreditou a princípio. Nesse momento, esqueceu que estava em uma simulação e a beijou. Era o sonho de sua vida realizado. Gargalharam abraçados. Beijaram-se, então, mais intensamente. As línguas dançando nas bocas. As mãos acariciando os corpos, apertando um no outro na esperança de tornarem-se um só. Fizeram amor não mais como se fosse a última vez. Amaram-se daquela forma que somente é possível uma vez na vida: uma sintonia única.

***

— Qual dia é melhor? Onde vai ser? Será que o pessoal vem? — Helena começou a conjecturar, deitada ao seu lado.

— Você decide, meu amor. O que achar melhor, eu aceito.

— Podemos casar lá no sítio da mamãe. Sempre achei lindas essas festas ao ar livre. Seus pais podiam ficar lá. Pros convidados, a gente arruma um hotel.

Ele a observou. Era tão linda. Como desejava que aquilo fosse verdade! Que sua vida tivesse sido exatamente assim. Beijou sua boca, seus seios, sua barriga e seguiu o caminho abaixo, mas ela levantou-se.

— Depois, amor. Agora preciso ligar pra mamãe para dar as notícias. Papai vai ficar puto da vida com essa história de desistir da faculdade, mas acho que acaba aceitando.

Vestiu o robe, pegou o telefone e começou a discar. Pedro pensou que não podia continuar ali. Olhou o relógio. Estava conectado há horas e a esposa já devia ter chegado com o filho. No dia seguinte testaria se as alterações poderiam ser salvas para continuar vivendo essa história paralela.

Com pesar, desconectou o aparelho. Ainda estava recuperando a visão do mundo real e removendo os eletrodos quando ouviu o ressonar da esposa ao lado. Havia ficado tempo demais na simulação. A barriga roncou e lembrou que precisava comer. Entrou no quarto do Enzo. Estava dormindo com um anjinho. Deu um beijo em sua testa e o observou por um longo período.

Quando chegou à cozinha, viu Helena de robe com um copo de leite na mão.

— Também está ansioso, né, meu amor? Temos tanta coisa para resolver.

Ela apoiou o copo na pia e o beijou apaixonadamente. A perna o abraçou pelo quadril, deixando-o imediatamente ereto. Não entendia bem, mas nessa hora o sangue quente enublava qualquer compreensão. Removeu o robe e beijou o corpo nu da amada. Apoiou-a sobre a mesa, abaixou a bermuda e a penetrou. Uma lata de achocolatado, talvez envergonhada, rolou para longe e caiu no chão. Helena gemia e declarava seu amor a ele num sonho tão vívido que parecia de verdade.

— Pedro, o que houve? — a esposa perguntou do quarto.

Helena não estava mais ali. Ele ergueu a bermuda e arrumou os produtos.

— Foi nada, não. Só uma tontura.

— Hoje você ficou conectado muito tempo. Já disse que não tá te fazendo bem.

Reparou que na pia repousava um copo de leite pela metade. 

***

Sábado de manhã, o pequeno Enzo não se aguentava de ansiedade:

— Já posso acordar ele, mamãe?

Vestia o uniforme completo de futebol que ganhou do pai anos antes. Estava apertado, mas não se incomodava.

— Escove os dentes primeiro.

Pouco depois, com a boca suja de pasta, correu em direção ao quarto dos pais. Sacudiu o braço e gritou o mais alto que podia. Queria despertar o pai do maldito jogo. Esperou ansiosamente esse dia chegar. Teria ele finalmente um pouquinho para si. Mas, estranhamente, ele não despertava.

— Mamãe, o papai não tá acordando!

Joana veio e também tentou, em vão, tirá-lo do transe. Tateou com cautela o dispositivo até encontrar um botão de desligar. Apertou e nada. Pressionou novamente, dessa vez segurando por alguns segundos. As luzes piscaram e se apagaram.

Pedro sacudiu, como se tivesse um calafrio. E, então, continuou tremendo. Parecia estar sofrendo um ataque epilético. Joana se desesperou e Enzo chorou.

— Papai, papai!

Então parou de temer, levou as mãos à cabeça e começou a remover o espalhafatoso dispositivo. Parecia tonto. Abriu os olhos, ainda sem enxergar. Piscou diversas vezes.

— Por que fez isso? — finalmente se manifestou.

— Você não respondia.

— Papai, ainda vamos jogar futebol? — o menino perguntou, inocente.

— Filho, dá um tempinho pro seu pai —  a mãe interferiu.

— Filho? Que filho, Helena? — Pedro perguntou.

— Quem é Helena?

— Cê tá doida?

Ele levantou e foi ao banheiro. Ajoelhou perante o vaso e rezou a oração de expurgo da pouquíssima comida que havia em suas entranhas.

— Papai tá bem?

— Enzo, vai lá pra sala ver desenho. Seu pai tá dodói, mas daqui a pouco melhora.

O menino saiu hesitante. Ninguém viu, mas se escondeu atrás da porta. Com os ouvidos colados, escutou o restante da conversa.

— Tá melhor? — ela perguntou.

— Melhorando.

— Pedro, qual o meu nome?

— Helena, por quê?

— E do nosso filho?

— Por que tá fazendo essas perguntas?

— Só pra saber se tá bem.

— Você sabe que não temos filhos — respondeu, irritado. — Culpa sua, né? Fica sempre dizendo que precisa passar na prova primeiro.

— Ela… eu não passei na prova? — Joana lembrou, finalmente, da ex-namorada do marido, que viajou para longe.

— Tá maluca?

— Devo estar. Mas não sou só eu. 

— Não adianta jogar a culpa em mim. Se soubesse que seria assim, não teria casado. — Ele gritou a última frase:  — Não tenho culpa do seu fracasso!

***

O telão, que ocupava toda a parede atrás do palco, se apagou e um faixo de luz iluminou a subida de um jovem elegante. Ele trazia nas mãos um bonito aparelho semelhante a um capacete de ficção científica.

— Senhoras e senhores, eu os apresento o DreamSim. — Atrás dele, o aparelho era exibido em 360 graus com impressionantes detalhes. — Com ele, vocês não só poderão reviver momentos especiais. Esses que estavam pensando pouco antes de eu subir aqui. Sei muito bem.

A plateia sorriu e alguns enrubesceram. O jovem aguardou todos ficarem novamente em silêncio.

— Reviver bons momentos é bom, podem apostar. Mas o DreamSim permite mais. Com ele, vocês serão capazes de simular como a vida poderia ter sido! 

Um sonoro “uau” preencheu o auditório.

— Se tivesse escolhido engenharia? Se não me separasse? Se tivéssemos tido aquele filho? — O telão, como no início, mostrando belas imagens representativas. — Se eu tivesse pedido ela em casamento? — Centenas de vídeos de situações ideais eram projetadas com cortes bem rápidos, acompanhada de uma música no mesmo ritmo.

Todos aplaudiram de pé. Era muito mais do que imaginavam. O evento era transmitido ao vivo por streaming. O mundo inteiro vibrava.

— Mas nada disso seria possível sem as milhares de horas de simulação de nossos fabulosos testadores.

Centenas de fotos começaram a ser projetadas. 

— Um deles, porém, eu preciso destacar: — continuou — o nome dele é Pedro Monteza, meu pai. O principal responsável por tudo que estamos apresentando. Isso só é possível e seguro graças à coragem desse homem. — A foto do pai surgiu no centro. Todos aplaudiram. — Te amo, pai.

Seu rosto ocupou o telão. Ele olhou para a câmera de olhos marejados. 

— Com o DreamSim, nós pudemos jogar futebol naquele sábado, pai. E foi fantástico!

***

Em um pequeno quarto de paredes brancas, Joana segurou a mão enrugada do marido. Ela via seu filho na TV. Diversos sentimentos se digladiavam em seu combalido coração: orgulho, compaixão, tristeza, saudades. Ao seu lado, Pedro jazia com o dispositivo conectado à cabeça e centenas de fios e tubos ligados ao corpo.

— Ouviu isso, amor? — perguntou, com carinho. 

Mas ela sabia que não. Estava preso para sempre em sua triste e solitária realidade.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.