EntreContos

Detox Literário.

Take it Easy (Nora Woods)

Sentada sobre a mala no terminal de embarque da pequena Winslow, mergulhada em lembranças, Nora Woods culpava-se por ter sido tão ingênua. Como perdera o controle de sua vida? Como deixara o coração comandar as ações, apontar-lhe as direções? Como o doutorado em Biotecnologia Ambiental deixara a cegueira dispor na balança os pesos imprecisos do amor?

— Maldição! — praguejou em voz baixa; levantou e caminhou de um lado para outro, com olhos marejados.

O atraso do ônibus apenas aumentava a angústia. Precisava sair daquele lugar. Fugir! Sim. Ela precisava fugir. Fugir do homem que amava, daquele pelo qual se apaixonara por completo e pelo qual fora acusada injustamente. Seguir em frente, esquecer, porque, apesar de provar estar ao lado de Paul, apesar de colocar em risco a carreira por causa dele, assim mesmo a acusou e a escorraçou de sua vida.

— Desgraçado — os lábios mal se moviam, mas o coração galopava, sem rédeas, sem freio, naquele deserto de cidade, num final de tarde melancólico. O céu, carregado de nuvens cinza, contrastando com o escarlate do horizonte, prometia chuva.

Não importava. Voltaria para a rotina de trabalho e, com sorte, em algumas semanas, talvez um mês, estaria mergulhada em mais uma pesquisa, envolvida em mais uma investigação. Esquecer aquele amor seria a grande meta; seu grande desafio.

Absorta, mal viu o ônibus ao longe, aproximar-se. Seu olhar enxergava apenas um borrão de tom laranja mesclando-se ao cenário meio-árido.

Nessa hora, os primeiro pingos bateram contra sua face, marcaram, aos poucos, a jaqueta de linho bege.

— Ótimo! — balbuciou contrariada. — Tudo o que preciso agora é ficar molhada. — Levantou-se e arrumou a bolsa ao ombro e cruzou os braços. Não se deu por conta das lágrimas escapando, correndo sem freio pelo rosto e colocou-se mais próxima do ponto de embarque.

A chuva intensificou, mas permaneceu imóvel.

 

Entre passeios e jantares, encontros fortuitos e ligações, estar com Paul tornava os dias mais leves. Seu tempo em Winslow, porém, terminava, assim como a avaliação final, isentando a mineradora nas denúncias de poluição ambiental.

— Não me diga que não quer.

—Eu quero.

Ele aproximou-se e a beijou, colocando-a em uma situação nova. Até então, a carreira tomara parte de sua vida e os relacionamentos despencaram para o último patamar do desejo, mas a bem da verdade? Conter aquele sentimento estava longe do querer e ela entregou-se ao momento.

— Tem certeza?

Ousado, ele separou-se de seus lábios e tomou-a pela cintura, puxando-a para perto, beijando-a novamente, deslizando a boca para o pescoço, invadindo um universo preservado para poucos. Com mãos ágeis, buscou os botões da blusa, soltando-os das casas, expondo o peito nu, tocando os seios pequenos.

— Tenho.

Nora gemeu e ele afastou-se, segurando suas mãos, convidando-a para despi-lo também. Analisou-o por um tempo breve e, determinado e carinhoso, entendeu a hesitação momentânea, o nervosismo, e enlaçou-a e conduziu-a para a poltrona, sentando-se e puxando-a para seu colo. Posicionando-se confortável, Surpreendeu-se consigo mesma, com a excitação crescente, com o desejo explodindo abrasador, e desabotoou a camisa lentamente. Um a um os botões abriam-se despertando um desejo latente.

Inclinou-se, aproximando-se. Primeiro beijou-lhe os lábios, depois a face. Deixou a fragrância discreta da loção invadir o olfato. Roçou os lábios no pescoço, deixando-se envolver pelo aroma cálido da pele do homem pelo qual, sabia, conquistara seu coração. Sentiu-se explodir quando as mãos fortes tomaram os seios. Tateou o peito de Paul percebendo a textura e o retesamento muscular. E então, tomada de coragem e desejo, desafivelou o cinto das calças, desabotoou-as e puxou para baixo o zíper.

 

John Cameron, vestido no costumeiro paletó cinza, jogou as pastas sobre a mesa diante do seleto grupo de pesquisadores de sua equipe. Não era a toa que chegara onde estava: proprietário e pesquisador chefe da BioTec, entusiasta das questões ambientais, da sustentabilidade e produção alimentar saudável, e vigilante das ações de degradação da natureza, sustentava contratos exclusivos com o Governo como órgão fiscalizador naquela região. Ele, à frente das pesquisas, acima de qualquer contrato, empreendia uma luta ferrenha ao analisar denúncias sobre grandes indústrias e corporações cujas ações infringiam as leis de preservação e proteção ambientais, degradando e provocando impactos negativos junto às comunidades menores às quais se instalavam. Também por isso, os contratos nos quais mergulhava tinham muito mais a ver com trabalho filantrópico do que remuneração justa.

— Deem uma olhada nas denúncias. Leiam com atenção. Gravem a imagem do sujeito — sentou-se e esperou todos abrirem as pastas. — Quero tudo o que puder ser levantado da empresa. Precisamos juntar informações concretas e confiáveis. Temos trabalho a fazer e pouco tempo até nosso investigado conseguir o segundo alvará de funcionamento — soltou uma baforada de desassossego e prosseguiu: — Nora, você vai até Winslow, coleta material dos rios próximos da empresa, conversa com as pessoas. É uma localidade pequena. Não vai ser difícil conhecer quem é quem.

— Sim, senhor.

— Faça relatórios diários e mande a coleta pelo serviço expresso. Todos os dias.

— Entendido.

Well, I’m a standin’ on a corner in Winslow, Arizona… — o colega brincou cantando. — Tire uma foto na Corner Park¹, mas não se aproxime muito da cratera do meteoro². Não queremos ficar sem você por aqui.

— Você é uma gracinha, Tom. Pode ficar tranquilo. Não vou me perder por lá.

 

Well, I’m a standing on a corner in Winslow, Arizona and such a fine sight to see.. O barulho das rodas deslizando no piso brilhante e o pensamento na música do Eagles³ distraiu-a a ponto de não perceber o carrinho vindo em sentido contrário pelo corredor do supermercado – o maior da região, mas modesto, se comparado àquele frequentado na capital, cujos corredores transformavam-se em labirintos de mercadorias coloridas e de tamanha variedade que a escolha tornava-se difícil. Beterrabas, alface, pacote de arroz, sal e outros mantimentos estremeceram com o choque, juntamente com seu corpo.

— Perdão!

Primeira palavra pronunciada; parte da educação formal recebida. Porém, o baque do metal passou longe do impacto causado pelo olhar castanho esverdeado, emoldurado pelo tom negro dos cílios do sujeito parado à sua frente. De uma altura invejável, cuja tez de tom claro acentuava o contraste com os cabelos negros, sorriu simpático, sinalizando um ‘tudo bem’ com um leve balançar de cabeça.

— Deve estar acostumada com os supermercados da cidade grande, com corredores maiores e mais largos.

— É tão óbvio?

— Não temos muitas pessoas ‘de fora’ na cidade.

— Você deve ser um bom observador. A cidade não é tão pequena assim. Muito prazer — estendeu a mão. — Sou Nora Woods.

Ele abriu um sorriso e ela não conteve o furor a subir e esquentar seu pescoço, avermelhando a face. Pelos céus e terras, sentia o chão faltar e não era por ter criado asas!  Retribuiu o sorriso, sem jeito, baixando a cabeça, tentando esconder o constrangimento.

— Paul Evans. O prazer é todo meu.

Imediatamente, Nora deu-se por conta quem parava diante de si. Paul Evans! Dono da mineradora e alvo das investigações da BioTec. Titular de grandes áreas próximas à reservas e suspeito da degradação dos córregos ao norte da pequena Winslow.

— Então, Nora Woods, o que a traz para cá?

— Férias — engoliu a mentira a seco porque a verdade estava fora de cogitação. O calor, antes sentido, deu lugar a um tremor leve e involuntário. A possibilidade de ser descoberta envolveu-a de súbito e embranqueceu.

— E escolheu o isolamento, porque a cidade não oferece muito que fazer além de dias sossegados e silenciosos. 

— É do que eu preciso.

— Só posso lhe desejar uma ótima estadia, Srta. Woods.

Ela agradeceu e seguiu em direção à saída, mas já fora fisgada: carregava consigo o olhar e o tom de voz daquele homem charmoso “poluidor astuto e inconsequente, com sua mineradora mortal”, completou mentalmente na tentativa de dissipar o encanto sofrido, mas já era tarde.

 

O Café, longe do centro, oferecia uma variedade de doces e salgados feitos pelo dono. As bebidas quentes servidas, chás e cafés, não ofereciam grande variedade, mas no espaço restante, longe do balcão de pedidos e da pequena cozinha, as delicadas mesas redondas se dispunham acompanhadas de duas, três e quatro cadeiras e faziam um convite irrecusável. Uma grande janela lateral mostrava a paisagem característica da região, sendo impossível não querer sentar e contemplar.

Pela segunda vez, escolhera fazer o lanche do final da tarde ali, em um sossego ainda maior oferecido pelo lugar.

— Eu sugiro o pastel de nata. — Nora virou-se para se certificar: Paul Evans. — E um dos meus favoritos: mocha.

— Aceitarei a sugestão.

— Por minha conta, Nino — e virou-se para ela. — Se me permitir acompanhá-la à mesa.

— É claro.

A mesa mais próxima da janela serviu para a conversa prolongar-se até o final da tarde, onde as cores do ocaso transformavam o céu em rosas e lilases discretos. Entre histórias reais do cotidiano e relatos disfarçados do trabalho por Nora, e explicações do funcionamento da mineradora e lembranças da infância em Winslow por Paul, um convite para um passeio pela empresa abriu a possibilidade não só de conhecer o homem que a fazia encantar-se, mas, também, de avaliar com mais precisão o trabalho da mineradora sem expor-se como ambientalista ou, no mais perigoso termo diante da situação, como inimiga declarada da exploração e degradação ambiental.

 

A incursão pela mineradora, a convite de Paul, naquela quarta feira, fora uma aula de como um pequeno empreendimento tornou-se, aos poucos, uma das empresas mais produtivas na região e de como os investimentos em preservação ambiental e sustentabilidade apontavam para o esvaziamento das denúncias feitas à BioTec.

Nora conheceu a pequena usina de força. Em funcionamento ininterrupto, para gerar a energia necessária para manter os sistemas de refrigeração, onde ventiladores enormes faziam o ar circular, assim como mantinham em operação constante as esteiras e máquinas de perfuração.

— Coloque o capacete. Você é minha responsabilidade — Paul olhou-a com atenção, enquanto ela ajustava o item à cabeça.

— Estou surpresa com tudo o que vejo.

— As minas são minha vida. Apesar de minhas roupas de empresário, não se engane. Eu trabalhei muito tempo aqui dentro. Sei como o trabalho é duro e perigoso. Procuro manter o pessoal sempre alinhado com o que é certo. Não quero acidentes.

— E pelo que vejo, tudo anda conforme o dono quer.

— Venha — apontou a direção. — Vou lhe mostrar 

Nora pode ver os moinhos em funcionamento, girando e conduzindo o material retirado do solo. Conheceu alguns funcionários ao longo do percurso e as instalações do escritório.

Saiu da visita encantada com a organização e o cuidado. Para ela, uma bióloga totalmente centrada nas questões ambientais, as questões legislativas, normativas, técnicas, bem como as questões referentes à preservação dos recursos naturais e a destinação dos resíduos produzidos pela mineradora.

— Algumas pratas por seu pensamento.

Surpresa e sem jeito, não se dera por conta de que ele estacionara diante do hotel.

— Então, devo presumir que já sabe que a convidarei para jantar e que terminaremos a noite bebendo um bom vinho.

 

Saiu cedo para uma corrida e para pensar em como dizer a Paul sobre sua real função naquela cidade. Contar a verdade. Depois da noite de amor que tivera viu-se como um judas. Estivera omitindo a identidade para o homem que conquistara seu coração. Entrou no quarto do hotel depois do café da manhã e deparou-se com Paul sentado à mesa próxima da janela. Ele segurava aberta uma das pastas que ela esquecera sobre a mesa.

— C-como entrou aqui? — A gagueira sutil e o tremor na voz evidenciaram a surpresa. Sequer conseguiu disfarçar e o semblante tornou-se um misto de apreensão e agonia. É uma localidade pequena. Não vai ser difícil saber quem é quem. As palavras do chefe vieram à tona. Deu-se por conta de ter esquecido o laptop aberto, com o relatório final incompleto, juntamente com os arquivos da BioTec referentes a ele e à mineradora. Que droga!

— Você sabe… Cidade pequena. Favores cobrados…

Ele levantou-se devagar e jogou o papel que segurava em cima das pastas.

— Não é o que está pensando. — Fechou a porta sem pressa. Talvez ganhar um tempo ajudaria a se acalmar e encontrar as palavras certas para desfazer aquilo que parecia inevitável.

— E o que você acha que eu estou pensando?

— Esse relatório que estou escrevendo isenta você das denúncias, mas isso não é mais importante do que o que eu sinto por você.

— Até porque você pode constatar na visita que minha mineradora tem tudo regularizado, não é? — ironizou e sequer ouvira o restante da frase. — Está tudo dentro da lei. Você já pode voltar para Phoenix.

— É o meu trabalho, Paul. Eu não podia…

— O seu trabalho é envolver o cliente e arrancar todas as informações possíveis para John Cameron ganhar reconhecimento. Eu entendi essa parte.

— Conhece John Cameron? — Nora aproximou-se mal contendo o nervosismo. Apesar do logo da BioTec nas pastas e relatórios, o nome John Cameron não constava nos papéis. — Sabia quem eu era desde o início?

— Eu não nasci ontem, Nora. Não passei esses vinte anos da minha vida brincando de caçador de prata. Estruturei minhas propriedades de acordo com a lei e quando algum desafeto meu denuncia as minas, meus amigos costumam avisar.

— Você sabia quem eu era…

O mundo tomava, ali, outra forma, outra cor, outra vibração. Um emaranhado de coisa ruim.  Nora embarcara em uma cilada desde o início e, apesar de ter omitido sobre a pesquisa, apaixonara-se por Paul, e entregara-se completamente. A paixão era verdadeira. Não poderia dizer o mesmo dele. Eis que à sua frente estava alguém inescrupuloso.

— Você mentiu!

— E você não? Aproximou-se de mim, mostrou-se simpática, educada, romântica. Foi pra cama comigo e para quê? Para me envolver nessa história e buscar uma promoção? Mostar seu bom trabalho para o chefe?

— Eu não menti sobre o que eu sinto!

— Não? — passou por ela sem perder-se do olhar. Viu-o abrir a porta e sair sem dizer mais nada.

 

A chuva caia mais intensa quando o veículo estacionou abrindo a porta dianteira. Nora voltou-se para trás, para uma última olhada. O que você está esperando? Que ele venha correndo como nos romances? Ralhou consigo mesma e entrou com a pequena mala, sentando-se numa das últimas poltronas, do lado esquerdo, próxima à janela, resistindo à decisão de mover seus pensamentos para Paul. 

Enquanto o ônibus partia, observava a paisagem por entre as gotículas de chuva presas ao vidro, escorrendo tranquilas cada vez mais intensas. A pequena Winslow ficaria para trás, assim como a lembrança do homem que a conquistara e, ao mesmo tempo, jogara para o algo a felicidade que, mesmo negando, ela procurava o tempo todo.

(…)Take it easy, take it easy

Don’t let the sound of your own

Wheels make you crazy

Come on baby, don’t say maybe

I gotta know if your sweet love is

Gonna save me(…)³

 

  1. Standin’ on the Corner – estátua em bronze feita por Ron Adamson, na esquina da Avenida Kinsley com a antiga Rota 66, em Winslow, Arizona.
  2. Cratera de Barringer, perto de Winslow, Arizona.
  3. Eagles. “Take it Easy”. Jackson Browne/Glenn Fray. 1972
  4. Imagem da capa: Love Seat, de Daniel Del Orfano. Óleo sobre tela.
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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.