EntreContos

Detox Literário.

Realidade Fluida (Melisso de Samos)

 

[…]Quando algo muda, o que era perece, 

e é gerado o que não é[…]

 

Julia abriu os olhos e teve que prender a respiração, a umidade invadiu suas narinas e o cheiro pungente de bolor pareceu percorrer sua laringe e se espalhar pelo seu pulmão. O telhado de fibrocimento formava gotículas teimosas no topo invertido das ondulações. Como estalactites, prontas para descolar do teto e atingi-la, rasgando sua pele. 

Sentou-se na ponta da cama e o chão de cimento espetou os pés descalços, mas ela não sentiu nada. O costume era uma venda nos olhos da realidade e Julia usava a sua desde criança.

Caminhou até uma pequena pia de metal do outro lado do cômodo. Um cano marrom saía da parede, com um registro improvisado como torneira, e gotas de água pingavam sobre o metal cinzento do lavatório. Ao lado, uma privada amarelada pelo tempo, sem tampa. Jogou água no rosto e se acomodou na privada, demorando ali por alguns minutos com os olhos fechados e o sono martelando sua cabeça.

Ainda sentada, puxou para si um relógio de pulso que repousava, esquecido, no cesto de roupas ao lado dela. Acoplou o relógio no punho e tocou a tela. Um mapa surgiu na sua frente, uma projeção holográfica que mostrava marcações coloridas em diversos pontos. Um deles vibrava em azul no meio da tela. Julia esfregou os nós dos dedos nos olhos e então leu o nome que se destacava: 

“CLIENTE CLASSE A+ – G_PAX4”

Viu aquilo e, na medida em que o sono permitia, se apressou para sair. Vestiu uma minissaia vermelha e um top preto. Havia uma cômoda ao lado da cama e sobre ela um objeto circular. Ela deu um toque leve no topo da esfera e outra projeção se desenhou diante dela.  Uma câmera mostrava seu próprio rosto, com olheiras profundas e o cabelo armado como uma guerra de fios endurecidos.

Cobriu as olheiras com uma maquiagem e passou um batom claro. Acertou as sobrancelhas, afinando-as um pouco. Puxou o cabelo para trás, pegou um frasco de laquê e expeliu o fluido, moldando os cachos aos poucos. Quando terminou, os cabelos cacheados caíam sobre os ombros, os olhos brilhavam e a pele não desvanecia mais.

Deu uma última olhada no quarto onde estava, talvez pensando no quanto mais teria que fazer até finalmente poder sair daquele lugar. Suspirou profundamente, se virou e saiu pela madrugada fria.

Não havia postes de iluminação naquela parte da favela. A viela estreita se confundia com o céu noturno e as vigas de madeira de cada barraco se elevavam de ambos os lados, tortas como galhos das árvores mortas que eram. 

Julia caminhava rápido e, ao dobrar uma esquina, deu de frente com duas mulheres. Uma delas, que segurava um fuzil de assalto, a mediu e disse:

“Se é pó que tu quer, vai ter que ir até a próxima viela…”

Ela agradeceu sem contestar e continuou. Já sabia da rotina, dos pontos em cada esquina, da vigilância. Incontáveis foram as vezes em que acordou no meio da noite, assustada com o barulho de rojões misturado ao de tiros. Nunca se esqueceu da voz do irmão, que repetia a mesma frase toda vez que os estouros rompiam a madrugada:

“Três vêiz pra chegada do carregamento, duas pros coxinha… entendeu? Se ouvir só dois, corre!”

Julia se agarrou a essa memória e se lembrou também de que nada daquilo havia adiantado. No fim, o irmão morrera, o pai morrera. Todos morreram mesmo com os avisos, mesmo com a falsa sensação de segurança que aquelas tábuas de madeira que chamavam de lar proporcionavam. E a cada vez que ela caminhava entre os becos úmidos da Favela da Invasão essa lembrança a atingia e ela se via de novo na mesma cena, com nada à vista além da escuridão que envolvia seus olhos e dos sons que ressoavam ao longe:

Um estouro.

Dois estouros.

Silêncio…

Passos rápidos no barro ressecado. Mais passos. Latidos. Portas se abrindo e se fechando do lado de fora do barraco. 

Uma menina de doze anos embaixo da cama, sozinha. 

“Polícia, vagabundo. Para, para, para!!!”

“Sô trabalhador, senhô… tô limpo, tô limpo…”

Clac… Bum!

Corpos estendidos sob o chão.

Morte.

No dia seguinte, nada. Só mais uma criança sem pai como tantas outras. E mesmo assim, Julia caminhava inabalável na direção do CLIENTE CLASSE A+ – G_PAX4, no encalço de uma esperança baseada em ascensão econômica na qual foi submetida a acreditar.

Saiu da viela em uma rua larga. Postes de luzes amareladas não conseguiam iluminar a via, mas era possível ver a luz brilhante de um bar aberto no fim dela, vibrando, distante, como uma saída dos confins do purgatório para o paraíso. Ela foi pela calçada, passos curtos e rápidos. O salto teclando no concreto.

No bar, um homem aguardava atrás do balcão. Olhando pacientemente para a rua vazia. Julia entrou.

— Fui a primeira a chegar, Sálvio. — Ela disse, mostrando o relógio ao balconista e clicando na tela. — Sei lá o que significam esses códigos de vocês, mas esse é meu.

Um holograma surgiu na parede do bar. Nele havia um mapa e a indicação do cliente, como um cartão de registro, mas sem nenhuma outra informação além da sigla.

— Sem foto nem nada? — perguntou ela. — Quem é esse? O presidente?

O homem do balcão entregou um envelope à Julia sem dizer uma palavra. Ela o abriu e decidiu relevar o fato de ter sido ignorada ao conferir o volume de notas do seu interior. 

Virou-se para a rua no momento em que um carro preto parou em frente ao bar. Corrigiu a postura, tentou sorrir e entrou no veículo. 

***

O carro preto atravessava a madrugada e Julia perdia-se em pensamentos no banco de trás. O vidro fumê refletia sua silhueta e ela observava os contornos do seu próprio rosto. O tempo transcorria devagar e ela batia com os nós dos dedos nos joelhos.

Olhou pela janela, para as ruas desertas e esfumaçadas e para o brilho fosco dos prédios que preenchiam a cidade. Sem se dar conta, adormeceu.

O som dos freios. 

Uma porta se abrindo. 

Depois, fechando. 

Batidas no vidro, fortes, mas abafadas. Três batidas.

Uma…

Duas…

Três…

Julia abriu os olhos e a porta do carro estava aberta. Do lado de fora a noite escondia-se por cima de uma fachada verde e azul iluminada. Assim que ela saiu do carro, a porta se fechou e ele partiu sem rodeios, ela sabia como funcionava.

Decidida, caminhou até a porta e entrou em um saguão enorme. Subiu até o andar superior e entrou por um corredor estreito. No fim dele havia uma porta. Julia foi até ela e estendeu a mão até a maçaneta, mas não a virou, algo dentro dela suscitava, ainda tímido, o medo de passar dos limites da privacidade do cliente e botar tudo a perder.

Afastou a mão e deu um passo para trás. No mesmo instante, viu logo acima dela a luz vermelha de uma câmera. Abaixou o olhar e levou os dedos à nuca para acariciar os cachos do cabelo, mas parou no meio do caminho, como se tivesse lembrado de algo vergonhoso, e puxou com as duas mãos a minissaia, fazendo-a chegar até a altura dos joelhos.

Houve o som da fechadura se movendo e o brilho vermelho da câmera tornou-se verde. Instintivamente, Julia abriu a porta e entrou em uma sala sem janelas. Havia uma mesa de madeira cor de mogno nos fundos e um homem sentado atrás dela. 

O homem se virou deu um sorriso acolhedor. Seus olhos eram de um caramelo penetrante e Julia se lembrou — sem entender o porquê — do seu pai, do seu irmão e — ainda mais sem motivos — do seu primeiro namorado. Todos mortos, mas vivos na figura daquele homem, como se ele fosse a personificação do seu desejo mais primitivo, íntimo e passional. Algo dentro dela se aqueceu e subiu do diafragma até a garganta, tomando seu rosto e sua nuca de um calor ofegante e confortável.

— Olá. — Disse o homem e se levantou. Era muito mais alto do que ela, uma mulher de um metro e oitenta de altura. — Estava esperando por você, Julia.

Julia abriu a boca para responder, mas a única coisa que conseguiu expressar foi um “ah…” desafinado. Ela pigarreou, passou a mão nos cabelos e então conseguiu se recompor.

— Desculpe… — Ela começou, sorrindo. — Muito prazer, senhor…

— Me chame de Tomás.

— Tomás… — Ela disse mais para si mesma e caminhou até a mesa, se debruçando sobre ela. — Espero que eu possa satisfazer seus desejos.

Tomás se levantou foi até ela. Julia sentiu as pernas tremerem quando as mãos fortes tocaram seu ombro e a colocaram sobre a mesa de mogno. Tomás disse:

— Espero que ambos possamos satisfazer um ao outro.

Então eles se beijaram.

***

Cinco homens de terno que pareciam apenas um assistiam ao que estava sendo mostrado no telão. Julia havia sido colocada sobre a mesa por Tomás, que estava sem camisa por cima dela. A câmera se aproximou de seu rosto e era possível ver o prazer nos olhos da jovem mulher.

Alexandre estava em um canto escuro do lado da tela e observava os homens sentados, ainda tentando compreender se eram gêmeos, clones ou apenas velhos que figuravam os mesmos trejeitos para confundir seus concorrentes. Pausou o vídeo e deu um passo à frente.

— Como os senhores podem ver, essa tecnologia usa estímulos visuais para que as experiências sejam de fato legítimas aos clientes. Julia é uma profissional de valor, mas atender a determinados públicos pode fazer com que ela não tenha o desempenho esperado mesmo que isso não ocorra conscientemente. Nesse caso particular, se não tivéssemos feito esse trabalho quando ela entrou no quarto do cliente, o resultado poderia ser devastador. O que vou apresentar aos senhores é uma demonstração em tempo real de como a manipulação de consciência pode trazer benefícios nunca ante vistos. Observem, novamente, a cena da mulher que se aproxima do quarto de nosso cliente.

Alexandre pressionou o botão e  o vídeo retornou à parte em que Julia virava a maçaneta e entrava na sala, porém a câmera agora não mostrava mais um escritório com uma mesa de mogno, mas um quarto cinza com a luz baixa.

Havia uma cama nos fundos, com um homem deitado nela. Era velho e suas feições demonstravam que a saúde o abandonara há um tempo considerável. A pele amarelada e enrugada, os olhos baços, manchas marrons que salpicavam no seu pescoço e desciam pelo seu peito. Esse homem usava uma fina camisola de paciente de hospital e respirava difícil e pesadamente. 

— O senhor Tomás é um cliente de longa data de nossa companhia. — Explicou Alexandre. — Um apreciador de prazeres exóticos e, por isso, trouxemos Julia ao seu encontro. 

Julia estava parada na frente da cama e era possível perceber que não nutria nenhuma repulsa pelo que via. Pelo contrário, os presentes assistiam seus olhos brilharem da mesma forma que no vídeo anterior. 

A câmera se afastou um pouco e mostrou dois homens, altos e de terno, parados ao lado da cama de Tomás. Olhos e feições que não demonstravam nada, eram como estátuas de carne ao lado daquele homem.

Tomás fez menção a um deles, que o ajudou a sentar na cama. AO fazer isso o lençol que o cobria foi puxado de lado, mostrando as coxas enrugadas e a ponta dos joelhos. Abaixo deles, não havia nada. Tomás tinha as duas pernas amputadas.

— Olá. — Disse ele, com uma voz fraca e nasal. — Estava… esperando por você, Julia.

Todos os homens daquela sala viram Julia caminhando até a cama, se inclinando sobre ela e sussurrando da mesma maneira que antes, como numa encenação em que repetia as mesmas falas, mas em um lugar totalmente diferente e avesso ao tom que usava. Então, um dos homens a pegou e a deitou sobre a cama enquanto o outro ajudava o velho a colocar-se por cima dela.

Alexandre pausou o vídeo e as luzes se acenderam. Ele olhou para os homens, ainda mais impassíveis, sentados em suas cadeiras.

— Eu quero oferecer aos senhores nova tendência nos serviços neurodigitais. Não há prazer mais real do que esse, o que vem do fundo da alma humana, e nossa profissional desempenhou seus deveres com um amor do qual ninguém seria capaz de simular. Podemos criar milhões de sensações artificiais, bilhões de estímulos nervosos em nosso cliente, mas nada se compara à experiência da cumplicidade pura, da aceitação mútua de uma entrega verdadeira. Essa é nossa meta. A prostituta não tem consciência sobre a ferramenta e por isso ela também pode ter uma experiência envolvente, ou seja, de certa forma ela também aproveita o atendimento. Tudo o que ela vê é baseado nos seus registros cerebrais e se transformam, até certa medida, em realidade.

Os cinco homens permaneciam em silêncio. Alexandre continuou:

— O cliente, se optássemos por métodos tradicionais, estaria consciente da manipulação mental, o que também não é satisfatório. Não mais nos tempos em que vivemos. Mas com essa tecnologia… — Alexandre clicou no controle e a câmera se aproximou do rosto de Julia e focando seus olhos encarando os olhos do velho, puro prazer e deleite. — Com essa tecnologia ele pode, real e verdadeiramente, sentir-se desejado do começo ao fim.

Os cinco homens, pela primeira vez, se olharam. Ou pareceram se olhar, Alexandre ainda nutria dúvidas de que todos eles eram, na verdade, projeções.

— Pensem, senhores, — Ele finalizou. — Nas outras aplicações que a manipulação mental pode fornecer.

Os homens se entreolharam. Pela primeira vez pareceram se mexer de forma aleatória e não como um corpo só diante de uma dezena de espelhos. Até que um deles disse: 

— Isso é…

— Ultrajante!

— Perigoso!

— … Inovador.  — Disse, por fim, o único deles que ainda não havia dito nada e se levantou.

Só nesse momento Alexandre percebeu que, apesar dos cinco homens terem a mesma fisionomia, os mesmos bigodes volumosos com as pontas enegrecidas pelo tabaco, os mesmos óculos com hastes pretas de polietileno e terno engomado, o homem que se levantava não estava de gravata, usava óculos com hastes transparentes e o bigode volumoso era completamente branco.

Os outros executivos pareceram desconfortáveis, mas assentiram num gesto sutil com a cabeça, um a um, e então deram um inconcebível e aterrorizante sorriso idêntico.

— Está decidido.

—Está…

— Decidido.

— Por favor, reúna sua equipe com nossos especialistas amanhã para começarmos.

— Como os senhores quiserem.

Alexandre retribuiu um sorriso dissimulado e os homens se levantaram. Ele apertou as mãos de todos enquanto saíam pela porta e, ao se ver sozinho na sala, não sabia mais dizer se havia apertado cinco mãos ou a uma só.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.