EntreContos

Detox Literário.

Poá (V.M.)

 

Vânia Muscato e sua inteligência artificial (IA) PK857 foram as autoras de Se Fôssemos Outros, livro lançado no Ciclo 349 que contém, para surpresa de todos (inclusive de Vânia), um método real de viagem temporal. 

Aparentemente Vânia tinha em seu inconsciente fragmentos de uma linha de raciocínio que deram para a IA uma direção que culminou na criação da fórmula. A veracidade do método foi indicada pela física Meinnia Oskerch, leitora assídua de Vânia, que ficou curiosa com uma fórmula tão detalhada numa obra artística.

As autoridades ainda não se manifestaram sobre o assunto. O livro já estava circulando e havia alcançado cerca de 500 exemplares quando teve sua distribuição suspensa. Apesar de não haver qualquer indicação de pessoas ficando offline para tentar experimentos, é importante ressaltar que uma simples alteração temporal pode afetar completamente nossa realidade.

Para os interessados na experiência de viagem no tempo indicamos o Simulador Vetron 1997.

“Hmmm… uma matéria real, uma ação de marketing do livro, uma autopromoção da cientista ou apenas uma propaganda do simulador?” – pensou Poá fechando o jornal e se recostando.

Deixou o olhar ir ao longe. A praia do pôr do sol era sempre assim: o mar calmo,  pequenas ondas quebrando, a brisa leve carregada de sal, o sol cortado pelo horizonte e as nuvens roxas colorindo o céu. Poá reconhecia todas as características. Essa era sua praia preferida, sem as bugigangas modernistas, sem os detalhamentos irreais, apenas mar e areia.

Fechou os olhos e sentiu o calor do sol, o cabelo sendo acariciado pelo vento. Ângela estava atrasada, a surpresa seria ela realmente aparecer. Não sabia muito bem o porquê de a ter chamado, foi a lembrança da risada dela quem enviou a mensagem. Poá apenas aceitou que uma parte dele precisava vê-la. Estendeu as mãos alongando seus braços, as nuvens roxas servindo de fundo para o espaço entre seus dedos. Ouviu o som de bolinha de chiclete, Âng havia chegado.

– Não achei que fôssemos nos ver tão cedo – ela falou sem olhar na direção dele, se sentando na espreguiçadeira ao lado.

– Bom – respondeu Poá em tom incerto – fazem uns 80 anos.

– Exatamente.

Apesar de esperada, a indiferença de Ângela doía. Ele entendia o porquê, ninguém melhor do que ele para saber, mas isso não tornava mais fácil. 

– O que aconteceu? Por que você me chamou? – ela quis saber.

– Eu não tenho certeza. – ele hesitou – Quando a gente se separou…

– Quando você foi embora – ela o corrigiu.

Poá procurou abrigo no olhar dela, mas Ângela encarava o mar.

– É, – ele continuou – eu me sentia vazio. Procurei várias coisas, simuladores, – ele a viu revirar os olhos – não sabia o que faltava, então simplesmente fiquei procurando alguma outra coisa. Alguma que fizesse algum sentido… Aí um dia entrei na comunidade de VP.

– VP, vidas passadas? – ela respondeu olhando-o pela primeira vez, baixou os olhos quando encontrou os dele – Nossa Poá, isso é muito zoado. 

– Eu também achava, você sabe, mas sei lá. 

– Você simulou?

– Por quarenta anos… na minha VP como refugiado em 1953. Mais 15 como fazendeiro e…

Ângela fez um movimento pedindo para que ele se calasse. Ela não falou de imediato, teve vontade de chorar, por alguma razão sentiu que aquilo era responsabilidade dela. Sempre soube que Poá era um pouco nostálgico, mas nunca havia pensado que fosse acabar assim.

– Quarenta anos é muito tempo – disse por fim.

– Achei que nem oitenta fossem – respondeu Poá num esboço de sorriso.

Ela não correspondeu a tentativa de brincadeira. O cabelo dela ficava avermelhado contra o sol, essa era uma das coisas preferidas dele. Não o cabelo em si, mas ela atestar que era exatamente igual ao verdadeiro. Poá achava graça na inocência dela em acreditar naquilo, nenhum cabelo muda de cor na vida real. No fundo achava que ela sabia disso, mas fingia que não. A voz de Ângela o puxou para a conversa novamente:

– Há quanto tempo você está nessa praia? Nesse pôr do sol?

Poá se remexeu, a reação que sabia que ela teria com a resposta o envergonhava. Não queria ver a decepção no rosto dela, antes que pudesse evitar acabou dizendo:

– Vou ir offline.

Ângela se sobressaltou ao lado dele.

– Como assim?!?! – disse se virando e estendendo a mão.

O toque dela fez um leve calor se alojar no meio do peito de Poá. Era a primeira vez que ele sentia alguma coisa em muito tempo. Os olhares se encontraram, os dois sentiram um rebuliço na boca do estômago. Afinal, oitenta anos não eram suficientes.

– Você não pode fazer isso! – ela disse com certo desespero, estava aflita – Não tem nada lá! Poá!

Era possível ver que Ângela ainda se preocupava. Mas ele não podia ter certeza, até onde sabia, aquilo tudo poderia ser ajustado pela máquina. Ela vendo nele um pouco mais de dor e ele vendo nela um pouco mais de compaixão.

– Não tem nada para mim aqui, Âng. Isso tudo, – disse levantando e apontando ao redor – nada disso faz sentido para mim. Eu não consigo me livrar do pensamento de que nada disso aqui é real, até onde entendo você pode nem estar aqui.

Ângela abriu a boca para responder, mas foi interrompida:

– Você vai falar o quê? Que não é assim?! Mas é assim, você, LITERALMENTE, pode ser apenas fruto da minha imaginação – deu uma risada ansiosa – Essa praia nem existe! Você talvez nem exista mais! Ou pior, talvez exista e a gente nunca se conheceu de verdade! Talvez você seja apenas um aglomerado de códigos que a porra dessa máquina criou a partir das minhas preferências. Não dá! – ele conteve a voz exaltada e terminando quase num muxoxo – Você sabe, eu não consigo.

A demonstração foi suficiente para Ângela recordar as brigas. Ela entendia, realmente aquilo tudo era uma realidade forjada pela máquina, mas ninguém ligava, cada um podia viver exatamente o que queria, inclusive uma simulação de vida offline. Mas aquilo não bastava para Poá, ele era diferente.

– Quantos anos você tem offline?

– Meu corpo é novo, uns 22 anos… Em condições de reabilitar – encarou as mãos – Tem mais pessoas lá fora Âng, não sou o único.

Aquilo era difícil.

– Você não sabe isso – ela contestou – de acordo com você mesmo, não se pode ter certeza de nada. Tudo o que falam sobre comunidades offline pode ser mentira. Para eles é muito mais fácil ter a gente aqui. Ninguém sabe o que acontece com quem vai offline, P, você sabe disso.

– Eu preciso ir, não tenho ninguém aqui, não consigo ter alguém… Não tenho nem você – percebeu que ela segurava as lágrimas – Nada disso tem a ver com você, você foi a melhor coisa que podia ter acontecido comigo. Sou eu. Você sabe que sou eu. – pensou por um momento – Realmente espero que você exista. 

Ela se levantou e se aproximou. Os dedos procuraram abrigo no peito dele, mas ele a afastou.

– Sinto sua falta – ela falou – mas não vou tentar te convencer a ficar, nós dois sabemos que não tenho mais nada para te dar. Espero que encontre o que procura.

Poá ouviu o chiclete estourar, ela havia ido. Quis chorar, mas não conseguia, ele estava quebrado. Pensou em ir para casa, mas não havia nada lá também.

– Ordem de sistema – chamou.

– Boa tarde Poá, estou à disposição – respondeu a assistente.

– Iniciar protocolo de saída do modo de realidade virtual.

– Protocolo iniciado, aguarde extração.

 

——— 

 

Sub OrderComand ()
______‘ extrair conteúdo
__Machine answer to System
______‘ protocolo recebido
__Answer = InputBox (Prompt:= extrair conteúdo)
______‘ protocolo válido, sem pendências legais
__Machine status:
______‘Protocolo ativado. Consciência desconectada.
__Machine order:
______‘Preparar para despertar.
__End If
End Sub

 

——— 

 

Poá acordou apertando os olhos contra uma forte claridade, tentou colocar a mão para proteger, mas os braços não estavam respondendo, estavam pesados e meio descontrolados. Aos poucos o quarto foi escurecendo e quando finalmente Poá conseguiu abrir os olhos notou que uma mulher o observava da ponta da cama. Ela sorriu:

– Como você está se sentindo? Consegue falar?

Poá tentou responder que sim, mas percebeu que não conseguia formar nenhuma palavra. Ouviu a máquina ao lado da cama apitar mais rapidamente marcando seus batimentos.

– Está tudo bem – continuou a mulher – isso é normal. Seu corpo esteve inerte por anos, o tempo de reabilitação será de alguns meses e você vai recuperar todas as suas funções motoras. Me chamo Verona e sou quem vai te acompanhar durante esse processo, ok?

Poá assentiu.

– Você tem interesse em usar um leitor de pensamentos para se comunicar – Verona nem precisou terminar a frase, ele já recusava com a cabeça – Certo, combinado. Vou chamar o César aqui, que vai te acompanhar durante a sua alimentação nesse mês. Nós vamos começar com comidas mais simples, para que o seu corpo se habitue a processar alimentos. Cada pessoa tem uma reação diferente, mas espere por vômitos, rejeições, cólicas… – ela percebeu o olhar assustado de Poá – você leu sobre o processo de reabilitação antes de solicitar, né? 

A expressão dela ficou repentinamente zangada com a resposta negativa dele, baixou os olhos para o tablet e começou a resmungar enquanto preenchia informações sobre Poá. Se dirigiu para a porta sem sequer voltar a olhar para ele:

– Vou mandar alguém vir aqui para te explicar sobre o processo de reabilitação, depois volto com a sua programação.

 

————————–

 

– O que você escolheu? – perguntou um garoto mais ou menos da idade de Poá.

– Fazenda, me falaram de uma vila, no sul de Mosaico. Você? – o garoto não expressou reação.

– Peguei um estágio na Máquina, sou engenheiro técnico, tenho 53 ciclos de experiência.

– Uau. E você só conseguiu um estágio? 

– É, são 75 para efetivar. Vou fazer 5 anos aqui e depois volto online para terminar.

– Hm… – Poá estava lutando para achar alguma coisa para responder, mas foi salvo pela entrevistadora.

– Poá? – ela chamou.

 

————————-

 

O ônibus parou em frente a uma estrada de terra. Poá foi o único que desceu ali, olhou para os lados procurando alguém que o tivesse vindo buscar, não encontrou ninguém. Se convenceu de que ali as pessoas tinham seus próprios afazeres, que aquilo era importante para ele, mas que para os outros aquele era só um dia comum. Em nenhum momento admitiu a leve frustração que sentiu.

O chão era úmido e às árvores que ladeavam a estrada se tornavam cada vez mais densas, em pouco tempo de caminhada não era mais possível ver o céu. O ar preenchia muito mais do que qualquer outro que já tivesse inspirado e a cada passo o alvoroço no estômago aumentava, uma inquietação. Aquilo era novo.

Apesar do frio, o suor começou a se formar na nuca, a terra úmida se transformou em lama. Mesmo tendo estudado o caminho, não havia contado com a lama, ou com o frio, ou com a fome. Ainda faltava uma boa parte do trajeto e ele já estava exausto.

Chegou muito mais tarde do que havia previsto, já era a hora da penumbra. Talvez tenha sido o cansaço, ou a luz, mas a cidade não parecia ser o que ele esperava. Ninguém pareceu notá-lo. Se dirigiu a um senhor que pesava sacos de batatas:

– Olá, com licença – o homem levantou os olhos para Poá e assentiu com a cabeça num cumprimento mudo – estou procurando por Júbi.

O homem voltou a atenção para as batatas e foi falando: 

– Ai, que essa hora ele não vai querer falar contigo não, ô. Faz assim ó, umas quatro casas pra frente e tu vai ver a Hospedaria do Romora, ele sempre recebe quem chega da máquina. Aí umas oito o Júbi aparece lá.

– Hospedaria da Romora?

– Isso, umas quatro casa – disse o senhor gesticulando a direção.

A hospedaria era, na verdade, um bar com alguns quartos nos fundos. Todo o lugar, inclusive o próprio Romora, pareciam uma taberna saída de algum filme antigo. O quarto era grande e vazio, o banho foi gelado e Poá fez um grande esforço para ignorar a cama e ir ao bar esperar por Júbi.

Passava um pouco das nove quando Romora apareceu no balcão, não dirigiu nenhuma palavra à Poá, se contentou em secar os copos já secos com um pano sujo. O bigode cobria a cara do homem que usava uma regata surrada. No último copo puxou uma cachaça para servir, antes que terminasse o sininho da porta de entrada soou.

– Sempre pontual – resmungou Romora satisfeito.

Júbi se aproximou do bar, a careca combinava com a pança saliente sob a camisa listrada. Beibericou a cachaça levemente e fez um careta.

– Então você é o novato – disse encarando o copo.

Poá demorou a perceber que se tratava dele, foi o olhar fixo de Romora quem o alertou.

– S-Sim – gaguejou, saindo do transe involuntário – Sim, sou Poá. 

– Poá? Hm – Júbi tinha um ar cético – E o que você acha que vai encontrar aqui, Poá? 

– É… – de repente sentiu que não sabia conversar – Hã… Acho que… sei lá, eu sentia que as coisas na realidade da máquina eram um tanto… vazias…

– Hm… Sei… Bom – disse elevando o tom – amanhã te levo na tua casa e te mostro as terras lá – terminou a bebida e bateu com o copo no balcão, como que em despedida.

A casa era pequena, ficava no meio da  colina e naquele momento as vacas pastavam ao redor. O cheiro de estrume estava forte e ardeu as narinas de Poá. Júbi mostrou as marcações da terra e foi embora, ninguém queria muita conversa por ali. Não pela primeira vez, Poá se perguntou se havia feito a escolha certa.

Os dias foram avançando, cada vez mais longos e solitários. Café, coberta e um olhar para o horizonte viraram o dia-a-dia. Vez ou outra uma ida à vila para trocar alguma coisa por outra, raramente trocava alguma palavra. 

Numa manhã cinzenta foi que viu. Lá embaixo na estradinha de barro, vinha uma figura de vermelho caminhando contra o vento. As mãos abraçando o corpo, numa tentativa de afastar o frio. Um rebuliço o tomou, quando percebeu já gritava:

– Ângela?!

A mulher levantou o rosto e sorriu para ele. Era Ângela, era? Involuntariamente Poá correu em direção à ela, sem acreditar que aquilo realmente estivesse acontecendo. Quando a alcançou a segurou pelos braços, decidindo o quão real aquilo era. Abriu e fechou a boca várias vezes, numa tentativa falha de dizer alguma coisa. Ângela só ria das reações dele.

– Eu sei, eu sei – ela disse – loucura, né?

– Mas o quê… – ele começou sem conseguir terminar.

– Fui te procurar – ela respondeu quase gritando para que a voz vencesse o vento – naquele dia, depois daquela conversa. Eu fui te procurar pra te dizer que não queria que você fosse.

As palavras alavancaram um turbilhão de sentimentos felizes e confusos em Poá, quando se deu conta ele estava chorando, estava feliz como não lembrava. Se abraçaram, os cabelos de Ângela batendo no rosto dele, avermelhados contra a luz do sol. 

“No fim ela tinha razão, o cabelo que ela usava na máquina era igual ao verdadeiro” – pensou Poá, sem perceber que aquela frase se tornaria uma dúvida que o perseguiria pelo resto da vida.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.