EntreContos

Detox Literário.

Reminiscências de um Amor Proibido (Mariposa Apaixonada de Guadalupe)

A primeira vez que o vi perdi o chão. O coração bateu tão forte que pude senti-lo pulsar em todos os meus ossos. Quando tirou os olhos do livro e os direcionou para mim, uma vertigem me arrebatou e tive que me amparar no braço de minha irmã para não cair. A imagem do rosto másculo e da boca carnuda me fizeram estremecer. A respiração ficou entrecortada, a mão tremula quase não conseguiu apertar a dele e as palavras para cumprimenta-lo ficaram presas no nó que minha garganta formou ao sentir seu toque. Ele foi o homem mais bonito que conheci na vida. Eu só tinha catorze anos de idade. 

Arlindo Orlando havia chegado na cidade há pouco mais de um mês, causando um grande furor nas moças solteiras da região. Biólogo formado na Universidade da capital, especializado em farmacologia, abrira uma farmácia, a segunda da pequena e pacata Miracema do Norte. Minha irmã, Dulce, conseguiu o emprego de balconista com a ajuda de uma velha amiga que conhecia Arlindo dos tempos da faculdade. Dulce passou a ser a mulher mais invejada daquelas bandas, inclusive por mim, por passar muitas horas ao lado do “doutor” bonitão. 

Ele não era mais nenhum menino, assim como minha irmã, já havia passado dos trinta. Seus cabelos começando a ficar grisalhos, desgrenhados, barba sempre por fazer, as roupas largas, davam a ele um ar de poeta romântico. Olhava para as pessoas meio de lado, superior, desconfiado, como se estivesse tentando lembrar quem éramos. Esta atmosfera displicente e soberba, uma mistura de carência e arrogância, criava um charme todo especial. No entanto, o suposto desleixo e superioridade eram enganosos. Estava atento a tudo e a todos, nada passava-lhe despercebido. No trabalho era meticuloso, ranzinza e absolutamente correto. Fora dele, divertido, carinhoso e simples. Um homem encantador.

Passei a visitar minha irmã todas as tardes, nos intervalos das aulas do colégio. Ficava por ali conversando trivialidades com a mana, enquanto meus olhos procuravam cautelosamente os dele. E quando cruzávamos os olhares, eu desviava rapidamente, com o coração aos pulos. Ele ficava no caixa fazendo contas ou lendo textos relacionados à profissão ou alguma ficção policial. Estava sempre lendo. Assim como eu. 

Em algumas ocasiões, entrava em nossa conversa e se dirigia a mim com seu sorriso matreiro e me fazia perguntas sobre a escola, as notas, livros, namorados… 

— Me diga uma coisa, Rute Rogéria, você já está namorando? 

Nestas horas eu enrubescia e ele gargalhava da minha criancice. Seu cheiro almiscarado me entontecia, perseguindo-me dia e noite… na sala de aula, nos personagens dos livros de fantasia que eu lia, no banho, na cama, nos meus sonhos púberes… 

Num dia em que gazeei as últimas duas aulas e me dirigi toda faceira à drogaria, carregando quatro livros para mostrar a Arlindo Orlando, tive uma decepcionante surpresa. Quando cheguei, não havia ninguém na farmácia. Imaginei que eles estivessem no estoque. Fui entrando silenciosamente, para assustá-los, contudo, quem se assombrou foi eu. Eles realmente estavam lá, mas, não conferiam os medicamentos, e sim, beijavam-se ardentemente. 

Os dois se esfregavam sem nenhum pudor, como numa dança obscena. A mão de Arlindo Orlando passeava por todo corpo de minha irmã. E ela deixava! Mais que isso, ela também apalpava o corpo dele! Apertava o seu peito, alisava sua barriga, acariciava o seu… “Rapariga descarada! ” Pensei enfurecida e chocada. Saí sem me anunciar, chutei os banquinhos da recepção e corri em prantos de volta para o colégio. 

Só voltei na farmácia, por obrigação, para comprar um remédio para minha mãe, duas semanas depois do ocorrido. O sonso falou comigo todo atencioso, perguntando o motivo de eu ter sumido. Não respondi. As palavras não saíram de minha boca, ficaram amarradas no ninho áspero e rancoroso que minha língua se tornara. Apenas o flechei com meus olhos em chamas. Se fosse para dizer alguma coisa, era para chamá-los de safados, traidores, filhos de uma égua! O que eu desejava mesmo era voar nos pescoços deles e feri-los com minhas unhas.

— Não liga não, Arlindo. Ela está estranha assim já tem um bom tempo — ele sorriu divertido e voltou para a leitura que fazia. 

Antes que eu fosse embora, anunciaram que estavam namorando. Quase morri. Senti a primeira grande dor de minha vida. Tive febre, dores por todo o corpo, fui hospitalizada, fiquei de cama por uma semana. Suspeitaram de tudo, menos da verdade.

Minha vida, que já era insossa, do sítio para o colégio e do colégio para o sítio, tornou-se intragável.

O tempo passou, Dulce e Arlindo se casaram numa cerimônia simples, realizada no cartório da cidade. Nos primeiros meses após o anuncio do namoro, tornei-me bastante arredia com minha irmã. Mas a fúria foi se abrandando até desaparecer completamente com o nascimento de Arlindinho, o filho deles. Passei a visita-los novamente com bastante frequência. Acabei aceitando a situação, ademais, eu e meu cunhado nunca tivemos nada, ele nunca havia me visto com os mesmos olhos com que eu o via.  E a raiva que me abateu foi gerada pela ilusão tola de uma adolescente romântica. Para ele eu não passava de uma pirralha magricela e esquisita. 

Com o passar do tempo, comecei a receber elogios de como me tornara bonita. E os olhares dos homens caiam sobre mim como o lume de lobos famintos. E a cada cantada, assovio ou piscada que me dirigiam quando eu passava, eu fazia cara feia, mas rebolava ainda mais meus quadris amadurecidos. Na verdade, eu adorava aquilo! Minha mãe dizia que uma cigana havia tomado minha alma. 

Eu já estava com dezenove anos e trabalhava de frentista de um posto de gasolina. À noite, estudava Letras numa faculdade particular de uma cidade vizinha. Não era mais uma menininha de canelas finas, tomei corpo, virei mulher. Mulher decidida que sabia o que queria da vida! Arlindo Orlando também percebeu minha transformação e o peguei algumas vezes me observando de uma forma diferente, com um sorriso safado, meio cínico, diferente dos sorrisos que ele dava quando me fazia ficar corada com suas perguntas sobre namorados. E ele não precisava mais perguntar, já que eu estava noiva de Júlio Jonas há mais de um ano e de casamento marcado para breve.  

Essa nova forma de ser olhada por Arlindo Orlando, reascendeu as fagulhas que adormeciam dentro de mim. E meu corpo ardia a cada encontro com ele.

 As minhas folgas do posto de gasolina eu passava na casa de minha irmã, para ver o Arlindinho. Eu ficava sozinha com meu cunhado por muitas horas nestes dias. Eles haviam transferido a farmácia para uma sala acoplada à casa que construíram. Sempre que eu chegava lá, ele dava um jeito de deixar a mana sozinha tomando conta da loja, enquanto ficava em casa, resolvendo coisas no computador do escritório. Para mim, essa atitude era uma prova concreta de que ele queria me ver. E eu flertava sem nenhuma inibição. Passava as mãos pelos meus cabelos, ria alto de piadas que ele contava, não perdia uma oportunidade de elogiá-lo ou de brincar com seus quilinhos a mais e com sua cabeça cada vez mais branca. Às vezes ele me chamava para mostrar alguma coisa no notebook e eu aproveitava para chegar bem perto dele, ao ponto de nossas peles se roçarem, causando uma eletricidade que estremecia todo o meu corpo. Ele também tremia, eu podia sentir.

Certa vez, ele saiu do banheiro, vestido de bermuda e sem camisa, enxugando os cabelos. Eu estava sentada numa cadeirinha de balanço, com meu sobrinho no colo, e me peguei conversando com ele com meus olhos fixos no volume que se formava no centro de sua bermuda. Eu olhava diretamente para o pau dele. Dá para acreditar num troço desses? Foi somente uma fração de segundos, contudo, ele percebeu e quando ergui a cabeça, desconfiada, ele sorria malicioso. Baixei a vista e sorri também. Eu não estava louca, ele também tinha interesse em mim. E a prova disso veio na festa de emancipação política da cidade. 

Miracema do Norte estava em polvorosa, grandes bandas iriam se apresentar para comemorar o cinquentenário da cidade. A população de dez mil habitantes parecia haver triplicado. A praça da matriz estava abarrotada. Lá pelas tantas, quando esperávamos a apresentação da atração principal, eu e Arlindo Orlando saímos para comprar umas bebidas. Júlio Jonas e Dulce ficaram para que não perdêssemos nosso “camarote VIP”, que na verdade, era a varanda coberta da casa dos pais de meu noivo.

Assim que chegamos à barraca de batidas, a chuva que ameaçava cair durante todo o dia, despencou num pé d’água típico dos dias Juninos. Tivemos que esperar embaixo do quiosque, espremidos por uma multidão que também não queria se molhar. Arlindo Orlando acabou ficando apoiado com as costas no balcão da barraca e eu encostada no corpo dele. Aquela proximidade poderia parecer embaraçosa, mas eu não me sentia desconfortável. Arlindo perguntou, bem junto ao meu ouvido, se eu não acharia melhor encarar a chuva. Respondi que não, de modo algum, havia passado quase três horas no salão e não iria estragar o que eu tinha pago pelo meu cabelo. Ficaríamos lá até a chuva dar uma trégua, falei resoluta. 

Estávamos cercados por desconhecidos, e aqui e ali, eu avistava alguém da cidade, mas ninguém pareceu perceber algo reprovável em nossa situação.  Ele colocou suas mãos levemente ao lado da minha cintura e eu me encaixei melhor a ele. Apesar da chuva e do vento frio, comecei a suar, meu cunhado também. A banda deu início ao show, os expectadores enlouqueceram com os primeiros acordes da sanfona, e eu, instintivamente, balancei meu quadril no ritmo do forró, fazendo com que minha bunda roçasse no corpo de Arlindo Orlando. Percebi que ele tentou se afastar um pouco, mas não tinha para onde, e sussurrou:

— O que você está fazendo, cunhada?

— Dançando, meu cunhado. Relaxa — respondi sem parar de dançar.

As pessoas começaram a gritar e a pular, a chuva aumentou, e eu podia sentir que meu cunhado começava a se animar. Continuei a mexer com mais velocidade, alternado o bailado com pequenos pulinhos, enquanto o marido de minha irmã me puxava para si, com seu entusiasmo cada vez maior latejando em mim. A situação não durou mais do que cinco minutos, mas foi o suficiente para eu ter certeza do que eu queria. 

A chuva cessou e nós voltamos levando as bebidas. A noite transcorreu normalmente, e eu e meu cunhado fingimos que nada havia acontecido. No entanto, eu não conseguia tirar dos meus pensamentos a “dureza” dele me espetando. Eu não era mais virgem e já havia transado várias vezes com Júlio Jonas, contudo, foi somente naquela noite que me senti realmente uma mulher desejada. 

No outro dia, me levantei as nove da manhã, bem mais cedo do que precisava. Eu só entraria no posto de gasolina às duas da tarde. Tomei café às pressas e saí. Dulce, como de costume em fins de semana e feriados, estava no sítio. Arlindo Orlando ficou na cidade para trabalhar.

Fui direto para a farmácia, estacionei a camionete e desci do carro convicta. Passei por meu cunhado em silêncio, apenas estiquei minha mão, toquei em seu rosto e fui direto para dentro da casa. De soslaio, vi que ele me seguia. Eu usava um vestidinho azul florido que retirei por cima da cabeça assim que entrei no corredor e quando finalmente deitei na cama de minha irmã eu vestia apenas uma minúscula calcinha fio-dental de cor preta e calçava uma sandália de salto alto da mesma cor. Arlindo Orlando chegou segundos depois, alvoroçado, com as faces vermelhas.

— O que você está fazendo, Rutinha? Está louca? — Eu não disse nada, somente me levantei, o puxei para perto de mim e colei minha boca em seus lábios. Beijamo-nos com sofreguidão enquanto ele tirava a camisa, a calça, a cueca… peguei em seu pau duro e ele soltou um gemido. Deitei na cama. Arlindo Orlando se livrou, com um movimento rápido, da irrisória peça, encharcada de desejo, que me cobria. Escancarei minhas pernas para recebê-lo. Ele entrou em mim vagarosamente, ao mesmo tempo que mordiscava e sugava os bicos empinados dos meus seios. E ficou entrando e saindo… mordiscando e sugando… enquanto olhava para meus olhos inflamados de tesão. Foi aumentando o ritmo das estocadas, quando, de súbito, mudei-o de posição num movimento brusco e fiquei por cima dele. Eu queria cavalgar. E como cavalguei, minhas amigas. Cavalguei feito a cigana que minha mãe dizia que havia roubado minha alma. E fizemos amor, não só isso, muito mais que isso, nos entregamos um ao outro numa união única, mágica, cheia de prazer… fodemos, trepamos… com força, com volúpia, com muita paixão. E foi assustador, louco e absolutamente delicioso. Eu me sentia plena, uma mulher verdadeira. Pude sentir seu jorro intenso no mesmo momento que eu também gozava alucinada e febrilmente. Foi lindo!

Ficamos abraçados por alguns minutos, calados, apenas ouvindo o som de nossas respirações ofegantes. Quando nos recompomos e nos vestimos, pude ver no rosto de meu cunhado todo o seu terror pelo o que havia acontecido. Naquele instante eu fiz a escolha do meu destino. Eu amava de verdade Arlindo Orlando, sempre amei e o amaria para sempre. Entretanto, eu também amava minha irmã, meus pais, sobretudo, meu sobrinho. Eu sabia que teria uma vida confortável ao lado de meu noivo, bem mais confortável do que a vida que minha irmã vivia. Beije-o na boca e falei:

— Não se preocupe, cunhado, ninguém jamais saberá deste nosso segredo.

 Vinte dias depois casei com Júlio Jonas numa festa inesquecível, para mais de cem convidados. 

A vida seguiu confortavelmente, sem percalços, por vinte anos. Formei-me com êxito, passei no concurso para professora do estado, transei com meu cunhado duas outras vezes, sem nunca ninguém desconfiar, tornei-me escritora e mãe de dois filhos: Jonathan Jeferson e Raissa Rebeca. Contudo, os caminhos da existência nunca são sempre retilíneos e luminosos, há os momentos em que a estrada se desvirtua e se enche de sombras. 

 Há seis meses, fui abalroada pela segunda grande dor da minha vida, e, sem dúvida alguma, a mais medonha. Meu filho, Jonathan Jeferson, de quase vinte anos, foi diagnosticado com uma gravíssima doença, com a necessidade de um transplante de medula óssea urgentemente. Se foi culpa do acaso ou um castigo divino, nunca poderei responder. Foi por este motivo que escrevi estas reminiscências confessionais, queridas leitoras, que, infelizmente, não são ficção. E, possivelmente, minhas amigas, no instante em que vocês liam sobre essas aventuras pecaminosas juvenis, nesta conceituada revista eletrônica, eu me encaminhava para a casa de minha mana, para contar sobre a tragédia que me abocanhara e revelar-lhes o nome do verdadeiro pai de meu filho, já que nem Júlio Jonas e nem Raissa Rebeca foram compatíveis para o tratamento.

Peço-lhes que orem por meu filho e que deus possa me perdoar!

Desesperadamente, assino-me, como sempre: Mariposa Apaixonada de Guadalupe.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.