EntreContos

Detox Literário.

Outono (Summer)

 

O neto observava o avô olhando pela janela de forma melancólica. O idoso parecia está perdido em suas lembranças.

-Vovô, está tudo bem?- perguntou o garoto trazendo uma manta para cobrir as pernas do avô, pois o clima estava esfriando. Aquela não era uma manta qualquer. Ela tinha sido costurada pela avó do menino quando ela ainda estava com eles. 

-Sim, sim. Estava apenas pensando.- o idoso fez uma longa pausa antes de continuar- O outono é uma estação meio triste. 

Um vento frio bateu no rosto deles como que para confirmar a afirmação. Também uma forma de anunciar que o verão estava se despedindo. 

-Acho melhor o senhor sair da janela. – disse empurrando a cadeira de rodas do avô. – Está batendo vento muito gelado. E já está na hora de se deitar. 

Era um menino dedicado na missão de cuidar do idoso. O ajudou a se deitar na cama e o cobriu com a manta. 

-O outono me faz lembrar dela.- disse quando já estava aconchegado na sua cama.

-Da vovó?

-Não, do meu primeiro amor.

Aquilo deixou o menino ainda mais curioso. Pensava que a avó tinha sido o primeiro amor dele. Ele pareceu ler seus pensamentos. 

-Amei muito a sua avó, mas teve uma pessoa antes dela. Uma bela moça da qual nunca falei para ninguém. Mas acho que chegou o momento.

O menino se aconchegou na cama perto do avô para ouvir a história. 

-Com o passar dos anos aprendi a importância de passar adiante os nossos relatos. As lembranças dela não podem sumir comigo, pois as histórias mantém as pessoas do passado vivas.

Após isso começou a contar a história que guardou tanto tempo em seu coração.

*

O verão estava chegando ao fim e sabia que logo viria o outono. Na fazenda do meu pai estávamos nos preparando para uma grande colheita. Eu era o mais velho e por causa disso carregava muita responsabilidade sobre os meus ombros. Não tive adolescência, passei de criança para adulto sem fase intermediaria. Era o braço direito do meu pai.

Era o responsável de levar nossas colheitas para vender na cidade na mais próxima, cuidar da roça e dos animais. Mas mesmo com todas essas responsabilidades tirava um tempo para ir até uma cachoeira afastada. Foi nesse lugar que passei muitos momentos bons de minha infância. Ir até lá me fazia sentir que recuperava algo que tinha perdido. Foi em uma dessas idas que a encontrei.

Ela estava sentada na margem com os pés dentro da água translúcida. Ela sorriu para mim e meus lábios se moveram correspondendo. Ela estava linda. Ela era linda. Seus cabelos eram dourados como se conservassem neles o eterno verão e tinha os olhos castanhos. Era mais baixa que eu. Usava uma flor no cabelo.

As palavras pareceram fugir naquele momento. Foi ela que começou o dialogo:

-Está uma tarde muito bonita.

Concordei com a cabeça sentindo que minha língua tinha grudado no céu da minha boca. Sentei-me do lado dela. No silêncio era como se a atração fosse aumentando. Quando tomei coragem de dizer alguma coisa ela levantou- se de repente dizendo que tinha que ir. Prometi para mim mesmo que da próxima vez diria alguma coisa. 

Enquanto a observava me chamou muito a atenção o fato dela seguir um pequeno caminho de terra que levava até uma mata fechada. Não sabia de ninguém morando para aquele lado, mas no momento pensei que talvez ela estivesse cortando caminho ou algo assim.

Perguntei para alguns conhecidos se eles sabiam algo sobre a garota. Aparentemente ninguém a conhecia. Mesmo na cidade não consegui mais informações. Voltei para a cachoeira várias vezes esperando a ver novamente, mas ela parecia ter desaparecido. Quando estava começando a achar que tinha tudo sido algum tipo de sonho a vi novamente. Ela parecia feliz em me ver também. 

-Estava com saudades. – falou ela se aproximando de mim e sem cerimônia entrando na água. Me puxou para o mergulho. Durante horas parecemos duas crianças brincando de mergulhar e de nadar. Também aproveitamos o tempo para nos conhecer melhor. 

Na verdade eu tentei a conhecer melhor, pois ela não falava muito sobre ela. O mistério sobre o porque de ninguém a conhecer continuava. Perdemos a noção do tempo.

Quando saímos da água notei que a roupa dela estava grudada em seu corpo molhado e exibia uma certa transparência na região dos seios. Aquilo fez pulsar algo em meu corpo. Desejos que ainda não tinha conhecido. Os mesmos sentimentos pareciam percorrer o corpo dela. As bochechas dela estavam coradas quando olhou na minha direção com um sorriso meio convidativo.

Aproximei-me. Minha mente não sabia o que fazer, mas meu corpo sabia. A pulsação e o desejo aumentavam a medida que meus lábios se aproximavam do dela. Ela mordiscou de leve meu lábio inferior e sorriu. Estávamos tão próximos que sentia a fragrância adocicada de seus cabelos. Me afundei temporariamente neles, com meus olhos fechados. Ela aproveitou esse momento para falar palavras que até hoje estão na minha mente:

-Espere, quero que saiba de algo antes. Não sou uma garota normal se me entregar a você não poderei mais lhe ver. Me transformarei em uma folha seca de outono. – falou sem olhar nos meus olhos. –Mas deixar de amar é deixar de existir também- disse encostando seus doces lábios nos meus e depois descendo para o meu pescoço. Fui seguindo seus movimentos. Ela conduziu minha boca até seus seios. Chupei aqueles mamilos que estavam rígidos. No começo senti-me meio estranho. Nunca tinha feito aquilo. Mas pelos gemidos dela sentia que estava fazendo o certo. Fui descendo cada vez mais com meus lábios. Seguindo o caminho até embaixo do seu umbigo até o meio de suas coxas. Queria sentir o gosto de cada parte de seu doce corpo. Guardar em minha língua o sabor da sua pele. Nos deitamos juntos as margens da cachoeira e consumamos nosso amor. Adormeci com o rosto enterrado em seus cabelos. 

Acordei sozinho. Chamei por ela de forma desesperada achando que poderia ser algum tipo de brincadeira, mesmo que em meu intimo soubesse que não era. A realidade começou a me atingir pouco a pouco como um chuva fina que logo vira tempestade. Ao meu lado encontrei uma folha linda folha seca. Ela diferente das outras era dourada e tinha o cheiro dela. 

Nunca ocorreu um outono mais triste que aquele. Prometi para mim mesmo que sempre ia guardar aquela folha.

*

O neto não acreditou muito no avô. Era uma história absurda demais para ter acontecido mesmo e parecia que faltava alguns pontos. Parecia que estava incompleta. Talvez devido ao passar do tempo e da memória o avô devia ter adicionado detalhes fantasiosos. 

-Abra a última gaveta e pegue o livro que está lá. Tem uma coisa lá dentro para você ver.- disse o avô sabendo o que o neto pensava. 

O garoto encontrou dentro da gaveta apenas um único livro antigo. Depois de o folhear encontrou uma folha seca dourada.Não sabe porque mais aproximou a folha seca do seu nariz, queria sentir o cheiro dela. Sorriu. Ela tinha um cheiro adocicado. O cheiro dela.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.