EntreContos

Detox Literário.

Olhos, os (Lucas Jabor)

Era um tribunal, uma espécie de. Ela no palanque, em frente a todos, falava ao ar livre. Não tinha júri, ninguém para avaliar, só para ouvir. A grande plateia ouvia sem juiz, sem sentença. Ela defendia, sem advogado ou promotor. Naquele lugar não havia autoridade. Nem julgamentos. Todos ouviam. Importavam-se. Todos só queriam ouvir. E esperar sua vez de falar.

Eu, sentado na plateia, a conhecia. Ninguém mais dali conhecia. Ela me conhecia, e, talvez, só eu dali. E falava para todos, sem citar o que ou a quem, mas eu, ouvindo do público, sabia das palavras dirigidas a mim. Dirigidas a nós. Dois. E ela olhava para todos, mas tais palavras, olhava para mim, diretamente a mim, afundava seus olhos nos meus. Eu fingia que tudo em mim continuava normal. Por fora ainda era, exceto os pelos eriçados, que aos olhos desatentos, dos espectadores atentos a ela, eram imperceptíveis. Ela fingia falar num todo, a todo mundo, que falava da sociedade, mas ela e eu, naquele momento, éramos a sociedade, a própria, formada de dois. Apenas dois. Sociedade de dois. Dociedade.

Palavras de amor eram vomitadas de sua boca. Ninguém tem direito ao desamor. Bradava assim, de voz caluda. Todos somos amor em construção. Centenas de lábios entreabertos prestavam atenção no amor. Queriam amor. Lábios solitários necessitando de um beijo que não fosse para sugar. Querendo um beijo que fosse para dar e só dar. Lábios carentes de lábios cordiais outros.

Minha boca saliva olhando a boca dela. Falando. Da sua língua entre os lábios e os lábios nos dentes. Da linha da boca e meus lábios pensantes na linha. Da boca dela. Cuspindo palavras de amor, diretamente em minha boca, como uma mãe pássaro alimentando minha passarinho boca. Salivo, do amor nas palavras, saindo da boca nua, pertencente ao seu corpo nu, em pé ao palanque. Falando a centenas de mais corpos nus, sentados nas pedras dispostas em semi-arena, num quase palco grego. Naquele espaço quase Grécia Antiga a sua voz de atriz solo, também ecoava em coro voz. E reverberava de seu corpo nu, em centenas de outros corpos nus mais meu corpo nu, não mais confortável ali. Não pousado, eriçado.

Fim do discurso. Uma pausa. O amor completava o ar, naquele grego lugar. Seu corpo saiu do palanque. Não pude ver sua nudez. Não poderia olhar sua nudez. E, também, não poderia tirar os olhos dela. Observei seus pés descalçados, caminhando na grama, em direção a plateia, cada vez mais próximos a mim. Seu olhar não cruzou com o meu. As centenas de olhares também não olhavam pra ela. Cruzavam o horizonte. Olhavam o nada. Pensavam nas palavras, ditas da voz caluda e ninguém viu, ninguém pôde ver meu olhar que buscava os olhos dela, e, atento, observava a grama que recebia seus pés nus, caminhando em minha direção. Sem cruzar olhares sorriu para mim e sentou-se ali próxima. Na distância de quinze ou dezessete corpos nus de mim, tão próximos de novo um do outro. Sem trocar olhares ela me olhava. Eu sorria a ela. Ela me acariciava em pensamento. Disso eu sei, eu estava em seu pensamento, eu vi. Percebi na sua pele.

Dois desconhecidos, ela e eu, assim era aos olhos dos outros. Dois amantes de olhares, sem quase se olhar. Ela sentada como se não nos conhecêssemos. Eu olhava ainda assim. Olhava seu corpo e minha vontade de ir até ela crescia. De um jeito discreto, também ela olhava, enquanto pessoa outra ocupava o lugar dela ao palanque e começar discursar.

Meu corpo nu não conseguia mais, não escondia a ereção. Ela quinze barra dezessete corpos de mim, tão próxima, era como se houvesse um túnel de ar que trazia o seu aroma direto às minhas narinas. Seu cheiro entrava em meu corpo e penetrava em meu sexo. Agora inflado. Minha ereção era o ar do cheiro dela.

Eu tentava, de forma vã, tirá-la da mente. Tentava esconder a ereção. Tentava prestar atenção nas palavras do novo discursador. Do que ele falava? E os olhos discretos dela, sorriam para mim, sabiam da minha ereção e gozavam de mim. Ao menos os olhos dela gozavam. Eu sentia prazer com isso, os olhos discretos dela fingiam desatenção e queriam meu sexo. Assim como ele também a queria. E apenas os nossos corpos sabiam.

Mostramo-nos, pois eles não sabem da gente, eu ouvi do discursador. Talvez ela também ouviu e ninguém sabia da gente exceto nós dois. Ninguém podia saber da gente. Dos nossos olhos.

E de fora veio um grito longo. Ninguém ouviu, ou deu atenção lá pra fora, que brada um grito outro, abafado, chamando o nome dela, e, ninguém deu atenção, exceto ela e eu. Nossos sorrisos desapareceram. Minha ereção desligou. Grito interruptor. Tuc!

E eles vêm com toda fúria, as novas palavras do orador não se dirigiam aos gritos de fora, e bem talvez, nem os ouviu, mas ela e eu percebemos como se fossem, como se fossem, como se fossem. E ecoavam. Ecoavam fúria. Fúria. fúria. úria. úia. úa. ú. ú. . . .

Os gritos de fora, agora, eram de dentro, vinham daqui e agora já todos podiam ver. E o discursista que proferia suas últimas palavras, agora parado ao palanque, o via, invadindo nosso espaço, sagrado. Ele com sua pouca vergonha, diante dos nossos corpos nus, de centenas de corpos nus, veio assim, totalmente invasivo, totalmente obsceno, de terno, gravata e calça social, sapatos indecentemente e vergonhosamente encerados, lustrados, brilhavam descaradamente. E todos boquiabertos com aquele vexame, aquele mal gosto escroto e nojento, da camisa engomada, botões e finos fios. Infestando nosso espaço. Sagrado. Ele. Pensando  ser tão dela que não pertence a ninguém, nem a ela e muito menos a ela, nem ela a ele, ou ninguém a alguém, não é assim que ele trata, e, ele vai até ela, esbravejando, e, toma o braço dela e a puxa, para o seu corpo, até o seu corpo, ridiculamente vestido, e, ela em solavanco, de olhos irresolutos tristes salta ao ar e é arrastada, ele procura algo, ou alguém, possivelmente eu se me reconhecesse, se soubesse de mim, procura, sem sucesso, só procura, enquanto a leva, e, nossos olhares se cruzam, o meu e o dela, uma última vez, ninguém mais vê a troca de olhares, além de nós dois, e, nossos olhos se amam, não pela última vez, mas em tristura, se amam para sempre, e sempre, até o próximo olhar, e nos outros próximos olhares, e se amam, sem se olhar, desde o primeiro olhar, até quando não se olhavam, nossos olhos se amavam e… E hão de amar.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.