EntreContos

Detox Literário.

Júlia, Romeu e… (Juliete deVerona)

“Querida Júlia, estou te escrevendo apenas para dizer o quanto você não sai dos meus pensamentos e o quanto te imagino em minhas emoções fantasiosas. Ontem, no trabalho, você estava linda com aquela belíssima blusa amarelo-creme que tanto realçou teus belos seios. Ah, e aquela encantadora saia de tecido fino, azul-turquesa plissada, a mostrar toda a delicadeza do seu corpo! Com aquela saia tornaste mais perigosa do que nua, pois a exibiste com tanta maestria e graça que, ao mesmo tempo em que cobria tudo, deixava tudo à vista, a mercê de mil imaginações a insinuar tuas belas e suaves curvas. Oh! Querida Júlia, como dói essa ausência de você em mim.  Essa tua suntuosa feição que, ora me leva aos sonhos, ora a pequenos devaneios acordados. Restando-me apenas a imagem da tua pura fronte sem névoas, assim, como uma perfeita imaginação e a dolorida incerteza de um dia te sentir em meus frementes braços e abraços.”

Júlia já não estava suportando mais. Quando não eram esses bilhetes melosos, eram os telefonemas. Tornara-se irritante a insistência de Bebeto para sair com Júlia: “Hoje não dá, tenho compromisso, amanhã não posso… Depois de amanhã não sei, me liga… Quem sabe… Outro dia talvez… Quando puder. Oquei, ligue”. 

Era sempre assim. E desligava o telefone em sua cara, passava o dia irritada. Ele não entendia que ela não gostava nem dos bilhetes nem dos telefonemas. Menos ainda de sair com ele para jantar, ir ao cinema, passear, namorar; transar nem pensar!

 Principalmente nestes últimos dias em que não tirava o Romeu do pensamento. E hoje era o seu primeiro encontro com ele, a sós. Que, por descuido, nem notara, já passava das oito e meia e ele não chegava. Na tevê, a novela não era motivo de atenção. A cada instante ia até a janela e procurava lá embaixo, na frente do prédio, o carro prata de Romeu. Se não o via, corria até a área de serviço e dava uma olhada na rua lateral. Voltava para a sala, já meio aborrecida. O telefone tocou:

— Alô!…  – era o Bebeto –.  Olha Júlia, eu prefiro que você me ligue. Eu não quero te aborrecer…

— Tá, tá bom, eu ligo. – desligou –. Cacete! Como enche o saco esse cara.

Carros zumbiam lá fora. Foi até a janela. Não, nenhum dos carros era igual ao de Romeu. Voltou à televisão. Deu um giro pelos canais. Desligou. Preferiu o silêncio. Deitou-se no sofá. Veio uma pequena modorra, e com a sonolência vieram os devaneios:

 Ela era a noviça irmã Sofia. Romeu era Zé da perua, o perueiro da periferia. Quando imagina, Zé da Perua não deixando ela descer da Kombi. Que, num gesto insano, à base do acuamento, mais parecendo um sequestro a raptou direto para detrás do cemitério. Acossada contra o muro, logo veio os amassos nos peitos, nas coxas, os chupões no pescoço. Irmã Sofia se defendia a todo custo, mas o corpo, já excitado se rendia as garras de Romeu… “Não, não posso!… Você está violando minha santa castidade…” – suplicava a irmã. – Mas a imaginação permitia que Zé lhe burilasse com mais e mais ousadia. O sentir do afloramento do corpo, o líquido quente fluindo. Uma tremedeira e uns arrepios, o tesão desvairado. Daí aos gritos em êxtases: “Perdoa-me Deus meu!… Perdoa-me meu Deus!… Porque eu já não sei o que faço!… Perdoa esta que te profana… Recolhei os cacos desta que te traiu… Porque não tem mais jeito, os tesos nervos me penetram às profundezas das entranhas…”

Júlia despertando do transe, suada e esbaforida, conjectura: “Oh, que são esses sonhos soturnos!… Se não o manto do profano e o acalanto da luxúria? Bálsamo para o espírito, consolo e tormento… Regalo da triste carne!” 

Transtornada por tanta excitação, foi até o banheiro. Sentou-se na tampa da privada. Tentou em vão inspirar-se para uma masturbação, mas precisaria de dedicação e paciência. Não, melhor seria se guardar para Romeu. Desvaneceu. Quietou-se, esperou acalmar os sentidos. Levantou-se, observou-se atentamente no espelho. Quis dizer-lhe alguma coisa, mas nada disse. Melhorou o batom. Retocou a sombra dos olhos e avivou a lápis os contornos. Enfiou os dedos por entre os cabelos, afofou com as mãos, balançou a cabeça desmanchando o que havia feito. Parou de se mexer. Refletiu um instante, forçando o pensar, como a atender reflexos de uma mente que não tinha esse hábito: “E se nós continuássemos a crescer todo nosso corpo, assim como os cabelos, as unhas, crescesse também o nariz, a boca, as orelhas, o pescoço?… Como seriamos?… Eu continuaria sendo eu mesma?…”. Desanuviou esses pensamentos existenciais e filosóficos, que não era de seu feitio viver nesse oco. Ela expõe apenas a existência de um mundo onde não há o eterno retorno, mas o substancial, o trivial do simples viver.

 Decidiu tirar o batom vinho. Passou um encarnado carmesim, sentia-se mais fatal: “Mais ao gosto de Romeu” –. pensou ela – Voltou à janela. Nada. “Pode ter havido um engano no horário combinado – admitiu –, ou vai ver quer chegar atrasado de propósito para causar um suspense”. 

Mas Já passava das nove e vinte. “Tá pensando que sou boba! Vou esperar mais uns quinze minutos, se não aparecer saio sozinha. Aí sim!… Quero ver chegar e não me encontrar, dar com a cara na porta”.

Tocou a campainha. Era o porteiro com um buquê. Extasiada com as luzes aveludadas que refletiam o verde e o amarelo das flores, numa ansiedade sem medidas, abriu o envelope do cartão, rasgando-o.  Estava escrito em elegante manuscrito:

“São Nenúfares de Paris colhidos das telas de Monet,

para ti Júlia. De quem espera a leveza do teu ser.”

Bebeto

Arrumou o ramalhete em um vaso sobre a cômoda. Meio com gosto, meio a contragosto. Não estava se sentindo. Ficou confusa. Para sair do embaraço religou a tevê. Passava um bangue-bangue. Desligou. Da janela, viu dois homens brigando por uma mulher. Imaginou-se no lugar dela, onde cada um dos homens representava Romeu e Bebeto. Na rua, ganhou Romeu. Na vida, perdia ela. 

Já eram quase dez horas, pensou em ligar pra ele. “Seria demonstrar fraqueza… Estava pensando o quê? Não iria se rebaixar tanto assim, era o mesmo que está se oferecendo”. – conjecturou Júlia em pensamento – Ligou o som, pôs um CD numa música que gostava muito, “Ainda Bem” com Marisa Monte. Num lapso da memória lembrou-se de uma frase pichada em um muro de Bogotá, quando lá estivera de férias, que dizia: “Si amas a alguien, déjalo en libertad. Si vuelve, es porque lo necesitaba. Si no regresa fue porque lo necesitaba“.

O telefone tocou. Era uma amiga convidando-a para dar uma passada em um barzinho. Recusou com uma desculpa esfarrapada e desligou rapidamente. Podia ser que o Romeu ligasse, desculpando-se pelo atraso. Deu mais uma olhada pela janela, voltou-se para dentro, fechando-a. Puxou a cortina. Desligou o som. Chegou próximo ao telefone, levantou o fone do gancho. Pensou um pouco, como a meditar no que falar caso fosse atendida. Teclou. Esperou até a sexta chamada. Não suportou a ansiedade. Desligou. “Ele já deve ter saído”. – disse para si.  

Apagou a luz da sala e voltou à janela, abriu apenas uma banda.  Com a luz apagada ficou olhando o movimento das ruas. Lembrou-se do dia em que, no trabalho, encostou-se no ombro de Romeu e sentiu seu calor. E que não nega: se excitou.  

Tanto foi a excitação que agora, despercebida, sentia o deslizar da mão por entre as coxas, erguendo a saia de tecido mole e, suavemente invadir, com os dedos trêmulos as sensibilidades vaginais. O friccionar cadenciado. Uma delícia entregar-se a um Romeu não presente. Só pensava no oco da ausência de Romeu, que ia se locupletando e nele, desopilando pruridos e fúria, num quer que seja da avidez da fera. Era preciso que o bebesse por todos os poros, de um só trago, num único e intenso orgasmo, sem pausa, sem intermitência e sem repouso. Era a serpente que enlaçava a presa nas suas mil voltas, nos redemunhos da luxúria, contorcendo-lhe o corpo, triturando-lhe os ossos; mordendo os lábios até perder os sentidos pela volúpia. Quando viceja-lhe nos olhos o deslumbramento de ver Romeu escalar as paredes do prédio até sua janela e ouvir o gorjear da cotovia; era o gozo explodindo em seu corpo esculpido por Romeu em sofreguidão… O aperto de seus braços, seus ombros, suas costas largas, sua língua, sua saliva; a penetração preenchendo seu vazio. 

Após o delírio febril, esgotada, saciada e emudecida sucede-se a prostração absoluta. A leve vertigem arrebatadora da verve. O corpo morno ainda trêmulo e úmido pelo orgasmo desmedido sente a falta de Romeu dentro de si por completo, Enquanto dois dedos perversos lubrificam-se no sêmen fecundado de seu gozo que, levado até a boca, com ansiedade a sorvê-lo, sentir e deglutir o néctar de seu sabor mulher. 

Ao despertar de mais esse êxtase o olhar se encandeia frente à luminosidade do trânsito, onde carros brancos, azuis, vermelhos e prateados, paravam, iam embora. Júlia desperta e se pergunta: “Será que eu liguei errado?” Ligou outra vez tomando o cuidado com cada número que teclava para não errar de novo. Prendeu a respiração, escutando as chamadas do outro lado da linha.

— Alô, o Romeu está?

— Romeu?… Você ligou errado, queridinha! – respondeu uma voz de mulher.

 Num repente, lembrou-se do celular “Que idiota!… Como pode ter se esquecido de coisa tão óbvia!…” Com os nervos a flor da pele, errou ao teclar; ligou de novo. Agora tinha certeza de não ter errado. 

Aguardou impaciente. Uma voz metálica de computador vibrou: “Neste momento este aparelho encontra-se fora de área”. “O desgraçado não lembrou nem de desligar. Se não ele ia ouvir o tanto de desaforo que ia esbravejar… Ou será que ele esquecera-se do encontro?” 

Eram onze horas, quando mais uma vez foi à janela. Voltou para o sofá. Faltavam vinte e cinco minutos para a meia-noite. O telefone tocou. “trimm…” Assustando-a. Atendeu. Era o Romeu desculpando-se pela falta. Estava fazendo um serviço de emergência numa cidade vizinha e seria impossível se encontrarem naquela noite.

— Fica para outra vez, queridinha! – disse a mesma voz de mulher, na extensão.

Agitada e um tanto indignada procurou na bolsa onde tinha anotado o telefone do Bebeto.  Ligou.

— O Bebeto está? – falou numa voz trêmula.

— O Bebeto não está, saiu.

— Saiu com quem?…  Quem está falando?

— É a mãe dele… Ele saiu com uma moça que há muito insistia em sair com ele, como ele tomou um fora de outra moça que… Então… – desligou, batendo o gancho. 

— Desgraçados! Homens são todos iguais. – ligou para a amiga Mara: – Oi, Mara! Sou eu, Júlia!… Vamos sair?… Tô a fim de tomar um porre…

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.