EntreContos

Detox Literário.

Kyra (Kid Bengala)

Sempre gostei de observar o céu noturno pelo telescópio, por isso optei em morar afastado da cidade, a distância da iluminação pública e de outras casas torna o lume de estrelas bem mais atrativo. Por muito tempo, andei distante dos amigos, vez ou outra, visitava minha irmã. No final do ano passado, chegava no meu canto cheio de grandes árvores, flores e arbustos. Era noite sem lua, chovia, o céu escurecia o chão de terra vermelha muito embarreado, alguma interferência atmosférica desligou o motor do meu carro e meu celular começou a tocar, completamente apagado; curioso, encostei o aparelho no ouvido e uma voz feminina saudou-me. 

— Boa noite, sou a capitã Kyra.

— Como assim? Meu telefone está desligado, por que ouço sua voz?

— Em nosso planeta, nos comunicamos quanticamente nos aparelhos e sua tecnologia não é muito diferente da nossa, se preferir, falamos depois, quando estivermos próximos. Preciso estacionar minha nave em seu quintal, caso não queira ajudar, posso ir embora.

Apesar do cansaço que cerrava os meus olhos, aceitei, não poderia perder a maior oportunidade da minha vida, principalmente após passar anos olhando e pedindo mentalmente ao universo por um contato.

Saí do carro correndo em direção ao quintal, tropecei numa pedra, caí e embarrei minha roupa junto ao chão, levantei olhando para o céu, e somente vi escuridão e chuva.

Momentos de amargura inundaram minha alma, muitas pessoas não acreditariam no que acabei de ouvir no telefone celular. Enfim, a capitã Kyra ligou novamente.

— Por favor, não se assuste, a nave vai aparecer, aos poucos, por cima das árvores do seu quintal, faremos um escudo para interromper a chuva e somente ficará visível a você. Tudo bem?

Ao ouvir aquela voz suave em meu ouvido, imaginei um lagarto verde, vestido de uniforme branco, igual ao de almirante de navio, por fim, suspirei e disse que tudo bem.

Assim que sinalizei positivamente, um evento excepcional e estranho começou a acontecer. Um barco dourado apareceu como um relâmpago iluminando o céu escuro e deixou um enorme rastro idêntico a um arco-íris no firmamento. Ao olhar a embarcação resplandecente, viajei para o mundo das ideias. “Não posso negar que tive medo quanto minha escolha, ajudar sempre é a melhor opção”, filosofei em voz alta e a capitã Kyra ouviu minha filosofia barata e respondeu-me junto ao telefone celular.

— Vou descer para falar com você pessoalmente.

Quieto e atento a cada detalhe ao meu redor, disse que concordava. Olhei para o alto e uma espécie de bola de sabão circundou a nave, tive um momento de êxtase nostálgico. Enquanto aguardava, pensava na dor de ter sido deixado para trás por uma mulher a quem tanto dediquei meu amor. Inclusive, tentei controlar meus pensamentos, por medo de dizer à capitã Kyra algo desagradável.

Olho mais uma vez para cima e aparece uma deusa.

— Como sei que não é uma divindade? Perguntei e respondi a mim mesmo.

Tem acontecido algumas coisas estranhas em minha vida, e estou começando a notar certo desajuste em minha cabeça.

— Como vou saber que não é o meu cérebro inventando coisas? — o nervosismo atrapalhava meu raciocínio lógico e não me deixava responder minhas próprias indagações.

Ouço, “calma”! Desta vez, uma voz doce interrompeu meu pensamento, e depois de ela ter pronunciado a palavra calma, veio andando tranquilamente em minha direção.

Apesar da capitã Kyra aparentar poder, coragem e inteligência à primeira vista, não tive pensamentos virtuosos em relação a ela. Minha fascinação pelo seu corpo cheio, dentro do macacão lilás, roubou sua verdadeira beleza, fazendo-me pensar apenas em sexo. Excitado, fui ao encontro dela, primeiro devagar, hesitante, sem saber bem o que dizer quando ficasse frente a frente, aos poucos, notei que minha razão me puxava para trás, parei, pensei, depois segui em frente.

Ao chegar perto dela, disse: “oi!”. Não veio outra palavra na minha mente. Ela sorriu, mostrando toda sua simpatia, estendeu-me a mão, estendi a minha, e quando apertei a dela, todo meu corpo estremeceu, foi paixão à primeira vista.

Meu coração acelerou, não pude conter a emoção, então, ela me chamou para conhecer a sua nave.

Assim que concordei, ela novamente pegou em minhas mãos, olhos nos olhos, começamos a flutuar no ar, como se não houvesse gravidade.  Ainda nos encarando, chegamos ao convés superior.

Nada mudou na atmosfera, o mesmo sopro de vento que soprava as folhas balançava a vela pendurada no mastro: o barco não avançava, a chuva cessou, mostrando o firmamento todo iluminado, meus olhos brilharam ao ver tão belo céu, mulher e embarcação.

— Eu sou uma exploradora intergaláctica, única tripulante desta nave, tudo aqui é programado por um computador quântico, sou apaixonada pelo seu planeta. Há tempos coleciono conhecimentos sobre a humanidade, que não me servem para nada, agora, pela primeira vez, tive vontade de conhecer uma pessoa que pensa e age como eu. Venho lhe acompanhando pela internet há algum tempo, sei que, como eu, você é solitário e ama o universo.

Não pude acreditar que algo desta dimensão estava acontecendo comigo, então criei coragem, aproximei meu rosto do rosto dela e a beijei como por uma eternidade, um cosmos explodiu dentro do meu peito enquanto nos beijávamos.

Nós dois começamos a nos despir ao mesmo tempo, a capitã Kyra não vestia nada por baixo, o macacão transparente caiu aos seus pés, ajudei a tirá-la de dentro da seda e abracei-a com bastante força, todo o firmamento nos observava. Nos amamos profundamente. Após o namoro, Kyra me agradeceu pela noite maravilhosa, pediu-me para aguardar no convés enquanto ela descansava para carregar as baterias, beijou-me mais uma vez e subiu para sua cabine.

Na hora, não entendi o motivo da capitã Kyra não ter me convidado para entrar junto a ela, já que aqui fora fazia frio.  

Enquanto aguardava no convés, um conflito começou a atormentar-me.

—Por que ela me deixou aqui fora sozinho? – Pensei e, num súbito ato de insanidade, fui procura-la dentro da nave, chamei várias vezes e não ouvi respostas.

  Enquanto deslizava as mãos pela parede da nave conferindo a tecnologia, uma porta destravou em minha frente. Então entrei naquele ambiente cheio de pequenas luzes piscando e mal dei o primeiro passo, tive palpitações ao vê-la deitada numa mesa branca. Kyra estava sem os cabelos negros, igual a uma boneca de silicone careca, ligada, por uns fios, a um enorme computador luminoso.

O sensor do computador percebeu meu movimento e acionou o motor do barco nave, saí correndo em direção à borda e, sem olhar para trás, pulei de uma altura de mais de vinte metros, os galhos das árvores amorteceram minha queda, mesmo assim, quebrei o braço com o impacto da batida na terra embarreada.

Olhei para cima e, com muita tristeza, vi a nave dourada partir, deixando um risco luminoso no céu.

Com muita dor, fui até o carro, notei que a parte elétrica voltou a funcionar, liguei para minha irmã Heloísa, mandei-a encontrar-me no pronto-socorro central.

Havia umas diferenças entre nós, Heloísa era boa, amava-me, mesmo sabendo da minha loucura, dos meus remédios controlados e da minha depressão.

— O que aconteceu com seu braço? — perguntou Heloísa, bem espantada com o acontecido.

— Nada, caí, quebrei o braço e bati a cara no barro.

— Está mentindo.

— Por que diz que estou mentindo?

— Por que vejo pavor e tristeza em seus olhos, espera que, depois de tantos acontecimentos bizarros e muitas decepções amorosas em sua vida, eu creia que nada aconteceu?

– Heloísa, aconteceu algo terrível, talvez o pior acontecimento de minha vida, foi por causa de uma noite de amor, com a melhor mulher que me apareceu. Agora estou com a cara enlameada, o braço quebrado e o coração dilacerado. Por favor, não me dê sermões, prometo que não fiz mal a ninguém.

— Está bem, mas vê se amanhã procura o psiquiatra e não pare de tomar o medicamento. Durma na minha casa está noite.

– Sim, vou dormir lá, é o mais certo que tenho a fazer neste momento.

Após trinta dias enfiado dentro de casa, retornei ao médico, tirei a tala e tive alta. Voltei ao trabalho no mesmo dia, passei todo tempo pensando na capitã Kyra, à tarde, passei na padaria do Adão, comprei pães, suco de laranja, entrei no carro e segui viajando em meus pensamentos.

Ao adentrar a casa, o telefone tocou outra vez, olhei no visor e, para minha surpresa, estava tudo apagado, fiquei ansioso e coloquei rapidinho o fone no ouvido e ouvi.

— Amor?

— Sim! — Respondi gaguejando ao ouvi-la novamente.

— Perdoa-me, eu errei em não ter lhe contado, eu não consigo lhe esquecer.

Estou com saudades, depois que você partiu, uma enorme dor, misturada com saudade, dominou minha consciência, não consigo parar de pensar em você. Volta para mim.

— É o que eu mais quero. Antes, deixe-me explicar algo importante: depois que me apaixonei, não conseguiu mais me concentrar em nada que não fosse você, sabendo disto, o comandante da minha missão mandou a nave barco voltar ao meu planeta de origem, lá desmancharam meu corpo e deixaram minha consciência alojada num receptáculo. Até que uma capitã de outra nave soube da minha aventura e resolveu me ajudar, trazendo o receptáculo, onde minha consciência estava alojada, escondido em sua nave, até chegar em seu planeta.

— Chegando aqui foi fácil, ela conectou minha consciência numa rede de internet e aqui estou, falando novamente com você.

— Incrível sua história, confesso que, a princípio, fiquei assustado. Quando sua nave partiu, fiquei com o coração despedaçado e já estava morrendo de saudades. O problema agora é encontrar uma maneira de interagirmos fisicamente.

— Tenho uma ideia, sou especialista em robótica, caso queira, podemos construir uma mulher de silicone perfeita, depois, faço um download de minha consciência para o corpo da boneca.

— Kyra, estou morrendo de saudades, a caminho de casa, fica falando comigo ao telefone, sofri muito nesse tempo que passei longe de você.  

Ao entrar no quarto, disse à capitã Kyra para ajudar a escolher uma boneca fabricada no Japão, idêntica ao corpo que ela possuía antes de ser desmontada. A capitã Kyra tentou encomendar uma boneca gordinha, o problema era que os fabricantes estereotiparam a aparência das bonecas, e ela não encontrou um corpo cheio e único como o que eu adorava. Então, usando todo seu conhecimento cientifico, encomendou vários materiais e componentes eletrônicos para fazer uma “mulher”, com todos os movimentos e características humanas.

Uma semana depois, a encomenda chegou. Abri a caixa e segui o passo a passo ditado pela capitã Kyra, montei a estrutura do corpo e liguei aos circuitos digitais, tal como minha amada ensinou, enfim, ela ficou perfeita.

Então, muito emocionado, conectei a consciência da capitã Kyra na “mulher”, e senti o sopro “divino” fazer o coração dela pulsar, os lindos olhos castanhos sorriam se abrindo delicadamente para mim. Uma nova Eva acabara de nascer, levantou, veio em minha direção e nos beijamos por muito tempo.

Estamos juntos a mais ou menos uns cinco meses, ainda não apresentei capitã Kyra  a ninguém.

Um dia, minha irmã veio me visitar sem avisar, Kyra estava sentada no quintal, ficou imóvel ao perceber a presença de Heloísa.   

Minha irmã, muito curiosa, perguntou se eu estava fazendo sexo com aquela boneca. Não dei nem resposta, ela viu que não gostei do comentário maldoso. Sorte que a visita foi de médico, não ficou nem vinte minutos. Assim que ela saiu, a capitã Kyra correu para os meus braços e nos amamos a tarde toda.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.