EntreContos

Detox Literário.

Humanidade (Personalidade)

 

Caminhava cabisbaixo pelo centro da cidade desolada, o sobretudo azul-marinho protegendo o corpo encolhido de frio e chuva. Mesmo o capacete, item obrigatório no ar ácido da metrópole, não impedia que gotículas encontrassem seu caminho até a pele. Calafrios percorriam o corpo, e mesmo que tivesse tempo ou vontade para tanto, não saberia dizer se causados pelo frio, pelo ambiente opressor, ou pela urgência do que pretendia fazer.

Cruzou o beco que levava à entrada do bar, desviando de mãos suplicantes que puxavam suas vestes e balbuciavam línguas desconhecidas. O brilho neon dos letreiros, piscando em ritmo débil pela falta de manutenção, tingia de púrpura e azul aqueles rostos cadavéricos de que desviava. Reconheceu alguns, de tempos prósperos que agora pareciam pertencer a outras vidas.

Criaturas pequeninas, estranhamente parecidas com aqueles antigos macacos de brinquedo que tocavam prato, pareciam se divertir, oferecendo comida estragada para aqueles miseráveis lutarem até a morte. 

Empurrou a portinhola e adentrou, removendo o capacete claustrofóbico. Uma cicatriza cortava o rosto, dando à pouca parte não dominada pela barba um aspecto taciturno que causava certa repulsa. Somada a isso, a pesada maquiagem roxa emprestava ao sujeito um ar pouco amistoso. Repousou o objeto sobre o balcão. 

– Procuro Darte – o sussurro grave quase se perdeu na balbúrdia. Vozes se misturavam, numa verdadeiro sinfonia de incontáveis línguas. Um sujeito alaranjado com inúmeros tentáculos saindo do rosto entoava cânticos antigos, contrastando com o jukebox, que berrava, em francês.

 

Ton amour, mon bébé, m’a toujours rendu folle

Donne moi ton coeur, tu sais

Et tu en auras mon cul, parole

 

Bonjour, mon chéri. Onde estão seus modos? – a proprietária, Madame Amélie, ainda conservava o sotaque francês, embora a sensualidade a tivesse abandonado a mais tempo que a classe de seu antigo bar, outrora ponto de encontro da alta sociedade. 

Por um instante, o homem despertou de seus devaneios e olhou para ela. O semblante, deformado pelos inúmeros procedimentos de reconfiguração biosintética (muitos dos quais ele próprio havia realizado), contrastava com o exuberante vestido de pena de pavão que portava nessa noite.

– Você sabe que não tenho tempo. O corpo só permanece apto à transferência por 48 horas, e já se passaram seis, então desculpa se não pareço muito simpático – nem mesmo o torpor em que sua mente se encontrava era capaz de suprimir seu caráter irônico. Assim são os traços mais profundos da personalidade.

 

Oh, dis-moi la vérité

Je sais que tu m’désire

Ton corps veut me goûter

Arrête-toi d’en fuir

 

– Fica calmo, coração. Eu vou mandar o Eduardo chamá-lo. Você tá mui..

“Fuiiiirrrrr” – o restante da frase de Amélie foi encoberto por um trecho particularmente animado – e particularmente agudo – da vedette francesa.

Uma espécie de névoa agora encobria o salão, misto de fumaça de cigarro e da neblina que há tempos pairava sem descanso sobre a cidade. Enquanto esperava, apenas bebericando, Ted observava o local, desconfiado, divisando apenas vultos, silhuetas e o eventual brilho de olhares difusos. No bolso do sobretudo, segurava com firmeza a pistola Volcanic, enquanto apertava o ferimento recente no abdômen.

A ferida parecia latejar ao ritmo da canção, causando náuseas. A vista começou a pesar, e agora mal conseguia distinguir algo à volta. Esticou o braço, a voz teimando em não escapar da garganta. Então apagou.

 

 

– Quando você falou que ele tinha um corpo pra transferência, achei que se referisse a Janine… – uma voz masculina tão rouca que mais parecia um ronco de motor podia ser ouvida de algum lugar acima.

– Foi o que pensei, chéri – replicou a voz familiar. – Ele me ligou mais cedo, não falava coisa com coisa, e logo depois chegou ao bar naquele estado que você viu. Transtornado. Mal tive tempo de te chamar e ele estava lá, se debatendo no chão, a ferida a bala na barriga jorrando.

– E você não sentiu que ele fedia? – o outro respondeu, entredentes. Parecia achar graça, entretanto. 

Antes que a francesa pudesse responder, porém, uma porta se abriu com violência, e Ted finalmente abriu os olhos. Encontrava-se deitado numa espécie de maca improvisada num quarto insalubre. Um lugar que conhecia bem. O barulho que ouvira vinha da entrada ao canto, que podia ser acessada pelos fundos do bar. Eduardo, o ajudante de Amélie, forçou a entrada,  empurrando a porta com o ombro enquanto carregava precariamente uma caixa.

Quando os pés de Amélie apareceram nos degraus da escada, o barman já havia se retirado.

– Ah, Ted, meu bem, que bom que acordou. Fiquei realmente preocupada – coroou o cumprimento com uma piscadela que pretendia ser sedutora.

– O que aconteceu?

– Parece que você anda meio morto – o rosnado provocador precedeu a chegada do homem à sala. – Você está péssimo, meu velho.

Mesmo conhecendo Darte há décadas, Ted ainda sentia arrepios ao vê-lo. Dono de um porte físico impressionante – mesmo com a miscigenação das raças após a descoberta do portal dimensional, via-se poucos humanos de 3 metros –, o homem causava um efeito repulsivo aos desavisados. A cabeça raspada ostentava uma única trança verde, que contrastava estranhamente com a maquiagem: rosto muito branco, batom preto e sombra vermelha ao redor dos olhos. Estes, e Ted jamais soube se eram reais ou lentes, eram o mais assustador na figura toda: inteiramente brancos. O vestido preto comido de traças não melhorava em nada a aparência.

– Meio morto? Fico feliz que tenha notado – com um sorriso torto, meneou a cabeça em direção ao gigante. – É, esse maldito buraco na minha barriga pode ter algo a ver com isso.

Mon amour… desculpe a curiosidade, mas… se você morreu – a mulher parecia oscilante, incapaz de conceber a terrível ideia que passava pela mente –, quem fez o procedimento de preservação de consciência? Janine? 

– Janine? – repetiu Ted, numa risada demente tão rouca que poderia ter vindo de Darte – Janine está morta. A única coisa que ela me deixou foi esse rombo no estômago. Mas não deixei barato, te garanto.

– Você sabe que isso é proibido. Quer dizer, mesmo entre nós, isso é proibido. Passa qualquer limite, Ted – Darte pareceu ainda mais pálido, recuando alguns passos em direção à saída. 

Uma névoa fétida agora recobria o recinto, pesando estranhamente sobre os ombros. Os olhos de Ted brilhavam intensamente, uma sombra vermelha perpassando a íris azul.

– Sim, grandão. É exatamente o que você está pensando. Fui eu, mesmo. Jamais aceitei a ideia de morrer, você sabe. E depois de tantas vidas que trouxemos de volta, depois de tantos mortos que revivemos, você acha que eu realmente correria o risco de morrer? – o homem falava rapidamente, uma expressão alucinada no semblante – Preparei uma infusão alquímica, muito parecida com a sua original, e tomei. Chamei de vacina. Me vacinei contra a morte.

O casal olhava estarrecido, incapaz de responder. Lágrimas escorriam pelo rosto de Amélie, que parecia tentar segurar a cabeça para que não explodisse.

– Mas Ted – a voz, agora baixa e trêmula, escapava timidamente de Darte – você sabe o que acontece quando alguém volta sem passar pelo procedimento de preparação e purificação de enzimas. Fizemos centenas de experiências. Você deve ter ido… você deve ter visto…

– … o demônio. Sim, eu vi o demônio, e vi muito mais do que qualquer um sonharia imaginar. Mas não foi pra falar disso que vim até aqui. Você sabe o que quero, e vai me dar. Esse corpo está se decompondo, o melhor que eu pude fazer com minha vacina foi me assegurar uma sobrevida, tempo o suficiente pra fazer uma transferência.

– Ted, você sabe melhor que ninguém que o que fazemos não tem nada a ver com renascimento, nem com trazer ninguém de volta à vida. É impossível reverter a morte! O que fazemos é transferir a consciência, ou melhor, uma cópia da consciência, das memórias, pra um receptáculo…

– .. inumano, nada mais que uma máquina robótica perfeitamente semelhante ao corpo humano, ou da espécie de preferência – a morte não havia tirado do homem a desagradável mania de completar frases. – Sim, eu conheço o texto. Fui eu que o escrevi, e era eu quem explicava o procedimento pros parentes desesperados, quando eles traziam o defunto recente do querido filho. Eu sei dos riscos, e sei que, diferente do que dizíamos pra esses miseráveis, o que voltaria seria muito diferente do filho deles, e não seria nada humano. Apenas uma réplica patética.

– E como você poderia desejar algo assim? – o sotaque e a sensualidade haviam desaparecido completamente da voz da mulher. Os traços mais profundos da personalidade jamais desaparecem, mas as máscaras superficiais caem rapidamente nos momentos cruciais.

– Eu vi o que nos espera. Eu vi a dor, o sofrimento. Fomos longe demais, brincando de Deus. A humanidade foi longe demais. Não posso aceitar morrer – as feições do homem distorciam-se, corrompidas pela obsessão que o dominava. 

A noite caía no horizonte, e a chuva continuava a castigar o cômodo precário, causando uma constante sensação de urgência. As luzes dos letreiros atravessavam as gotas poluídas, lançando prismas que penetravam pela persiana semifechada, projetando sombras fantasmagóricas sobre a cena. Já passara a hora do toque de recolher, mas o movimento nas ruas jamais cessava. Malandros, ladrões, traficantes e prostitutas circulavam furtivamente pelos becos ao redor, seus sussurros e risadas pouco audíveis em meio ao barulho da chuva e da sirene das rondas policiais.

– Normalmente, como você sabe, os pacientes estão desfalecidos quando têm sua consciência copiada e transferida. Isso deve ser…

– …doloroso – completou, numa careta. – Existem dores piores que as físicas, e você deveria saber disso. 

– Eu ia dizer terrivelmente torturante, mas doloroso serve – o bom humor ainda encontrava espaço, apesar da contrariedade que Darte sentia pelo que fariam.

Amélie, recusando-se a assistir, partira para o andar de cima, onde orava a deuses há muito esquecidos. Ouvindo suas débeis súplicas, Ted riu, um tipo de riso que certamente não teria relação alguma com deuses, e olhou à volta. Conhecia bem cada um daqueles aparelhos e máquinas, então não pôde evitar os calafrios que percorriam seu corpo. 

Ao lado da maca, sentado numa estranha e nada humana posição ereta, encontrava-se seu futuro corpo, ainda inconsciente. Os robôs haviam sido declarados ilegais pela Corte Marcial do Sistema Solar há 5 anos, e todo seu comércio era um crime passível de execução sumária pelas forças de segurança. 

Mesmo após tantos anos nesse ramo, Ted ainda se impressionava com a perfeição daquelas máquinas, sua pele macia e quente, o cabelo perfeito, as expressões e movimentos. Não fosse pela postura incomum em que se encontrava, aquilo poderia facilmente ser confundido com um humano dormindo.

Além dos homens e do robô, o ambiente, de pouco mais de 12 metros quadrados, estava abarrotado de instrumentos e máquinas que os dois amigos haviam criado ao longo de muitos anos. Fios e telas com números e letras incompreensíveis pareciam coordenar aquela aparelhagem. 

Suspirando profundamente, Darte abriu uma fornalha ao canto, jogou uma pilha de tocos de madeira sintética em seu interior e acendeu. Uma série de bipes e movimentos iniciou-se, num ritmo impressionantemente organizado, enchendo a sala de fumaça e vapor. 

– Ted, você sabe que a anestesia impede, ainda que momentaneamente, a transmissão de impulsos nervosos. Isso quer dizer que, pra eu poder duplicar sinteticamente seu padrão de movimentos, eu não posso usar uma dose de anestesia local maior que a mínima necessária pra que você não tenha uma parada cardíaca causada pelo choque – a hesitação nas palavras entregava a gravidade da situação. Em termos leigos, se eu te der uma anestesia forte, não vai ser possível…

– … terminar direito essa droga de cirurgia. Entendi. Faz isso logo, grandão, antes que eu enfie essa agulha no seu olho – a frase surpreendentemente carinhosa espantou, por um instante, mas retomando a concentração, Darte inclinou-se sobre o outro, respirou fundo, e fez a primeira incisão.

Após um período inconsciente, que não saberia dizer se durou horas ou dias, Ted despertou num solavanco. Sonhos confusos haviam povoado a espécie de coma em que permanecera, e, ainda sem abrir os olhos, relembro as imagens que havia vislumbrado. 

 

Primeiro, encontrava-se deitado sobre a grama no alto de um monte, completamente nu, observando uma noite estrelada. Respirava um ar puro, há muito extinto, herança de tempos há muito perdidos nos labirintos da memória. Sem a poluição e os incontáveis prédios e luzes, era possível observar a imensidão do universo.

Ainda era jovem e belo. Um longo cabelo liso amontoava-se ao redor da cabeça, e um sorriso despreocupado dominava os lábios. Olhos brilhantes de sonhos e esperanças replicavam as infinitas estrelas.

Permaneceu assim por um tempo incontável, até que, na inconstância de seu ser, sentiu pulsar algo diferente da alegria até então experimentada. Um tédio, uma insatisfação, um tipo de incômodo que começou a borbulhar em seu estômago, e foi crescendo até transbordar por sua boca, numa espécie de vômito cinzento que ameaçou afogá-lo. Desesperado, debateu-se, tentando liberar, sem sucesso, amarras invisíveis que mantinham seus braços atados ao chão. Quando o vômito parecia prestes a cobri-lo e asfixiá-lo, liberou os pulsos e levantou-se num pulo.

Sem voltar a olhar para o céu, saiu caminhando a esmo, até encontrar um lago cristalino. Nem notou que todas as estrelas o acompanharam, observando-o e comentando entre si. Miríade de testemunhas num cerco celestial. Olhou para a água, esperando ver seu reflexo, mas o que viu foi um homem velho, com uma imensa barba desgrenhada e suja e uma profunda cicatriz que atravessava o rosto.

Observou o desconhecido por instantes, até começar a sentir uma estranha familiaridade. O rosto, até então apenas um reflexo, lentamente começou a se descolar da superfície da água, tomando dimensões vívidas, como nadador que emerge. Após um período incomensurável, levantou-se completamente e permaneceu em pé diante de seu duplo 30 anos mais jovem. Jovem e velho se estudaram em silêncio.

Num movimento preciso, o velho levou a mão à testa do outro. Seus dedos, como a não-matéria que preenche o vácuo, penetraram livremente pela testa do rapaz, e puxaram delicadamente algo de profundo do jovem, como se puxassem um longo fio brilhante.

Estarrecido, o jovem mal pôde reagir enquanto sentia perder tudo. Lentamente tornou-se um reflexo perfeito do idoso. Mas não envelheceu sozinho. A grama secou instantaneamente, e as estrelas, espectadoras atônitas, explodiram e deixaram de brilhar. Prédios cinzentos, cobertos de letreiros de neon vermelho e roxo, emergiram todos ao mesmo tempo, cobrindo toda a vista do firmamento e enchendo o local com sons e ruídos metálicos.

E então, subitamente, não mais sonhou.

 

Suando frio, Ted balançou a cabeça, espantando as imagens da retina. Abriu os olhos pela primeira vez após a cirurgia. Olhou à volta e viu Amélie e Darte observando-o, ansiosos. 

– Você está se sentindo… – iniciou a mulher.

Porém, dessa vez, Ted não completou a frase. E nunca mais, a partir desse dia, ele completou nenhuma frase. Mesmo o traço de personalidade mais enraizado é incapaz de sobreviver, quando se deixa morrer aquilo que se tem de mais profundo.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.