EntreContos

Detox Literário.

Espectros da Salvação (Fontes)

A verdade é que Hugo nunca esteve preparado. A perda derradeira, o momento em que o destino se impõe de modo supremo, ignorando solenemente qualquer indignação. O vazio, a sensação de encarar o nada, o quarto cavo, as roupas no armário que nunca mais serão usadas, a vida aleijada pela separação irrecuperável.

Nunca mais…

Sentou-se à cama, os cobertores ainda por dobrar. Percebia o calor se desprendendo dos lençóis amarrotados. O perfume de Irene escondido nas tramas. Num instante, deu-se conta de que a esposa ali estivera há poucas horas. Viu-lhe os contornos, o rosto redondo, os cabelos curtos, a expressão serena e melancólica.

Fechou os olhos.

A mulher imóvel para sempre enquanto o caixão era fechado. Uma despedida muda e impiedosa. 

Nunca mais…

***

Desceu ao galpão por um caminho invadido pela grama alta. Afastou o portão de ferro cuidadosamente e passou o cadeado por dentro ao entrar, ainda que estivesse sozinho. Acendeu a luz deixou-se encantar. Iluminada pelo facho solitário que pendia do teto, uma cidade em miniatura surgia em silêncio. Uma reprodução fiel de Santa Luzia, o local em que crescera, onde vivera seus melhores anos. Onde ele e Irene se conheceram, onde se casaram. Uma cidade do interior, podia-se dizer, típica do início do século. 

Lá estavam os morros circundantes, os sítios, os bosques, o rio… As casas de arquitetura vitoriana que se juntavam aos poucos em direção ao centro, os mercadinhos, a barbearia, o liceu, a farmácia, os bares. Não faltavam a praça principal, a avenida tímida que cortava a zona urbana, o coreto, a igreja, até mesmo a prefeitura. Tudo reconstruído com exatidão obstinada, fundada em fotografias antigas, revistas e jornais de páginas amareladas, além de conversas resgatadas dos recônditos de sua memória.

Podia ver a si próprio andando pelas ruas de terra batida, receando sujar os sapatos, o ar fresco envolvendo-lhe o rosto imberbe. O leiteiro passando apressado no início da manhã, as carroças carcomidas avançando preguiçosas, carregadas de verduras frescas, os cumprimentos dos passantes. Bom dia, Hugo! Bom dia, senhora! O encontro com os amigos, os anos no educandário, as constantes visitas ao jornaleiro, a coleção de revistas sobre ciências. E Irene. A menina Irene passando com as colegas em direção à escola. Os primeiros olhares que trocou com ela, os primeiros cumprimentos, as primeiras conversas. O roçar dos dedos, as mãos se afagando. O carinho, o beijo. O casamento. A vida. 

Era como se voltasse a ser criança, até porque, no final, quando se aproxima o ocaso, é assim que se fecha o ciclo.

***

Quando percebeu, estava sentado à mesa da cozinha.  Diante de si, uma caneca de café repousava fumegante. Atentou para o relógio de madeira, no balcão à retaguarda: dez horas. A qualquer momento Irene retornaria do empório, a sacola cheia de hortaliças. 

Olhou ao redor, para a pia, para os azulejos, para geladeira. Adiante, o corredor da casa e, além, a sala e os quartos. Tudo como se lembrava. Era bom estar de volta.

O tique-taque preenchia o ambiente, o sol da manhã fazia brilhar os vidros da janela. Ouviu passos lá fora, a batida ritmada dos saltos sobre a calçada de pedra. Irene. Sua esposa, viva, prestes a entrar pela porta. Ainda que tivesse antecipado aquele momento, não pôde evitar a ansiedade. Depois de tanto tempo, ele a veria novamente em sua plenitude. 

Porque queria que assim fosse. Porque acreditava.

Fechou os olhos e esperou que se esvaíssem os segundos remanescentes. Tique…Taque… Tique… Taque…

“Hugo? Vai ficar dormindo aí na mesa ou prefere vir me ajudar?”

Lá estava ela, com aquele vestido florido, vermelho e branco, sem mangas. O sorriso estampado no rosto. Linda, perfeita, o frescor da juventude exalando de seus poros. 

Ah, Irene, como senti sua falta.

Naquele momento, percebeu que seriam eternamente felizes, amigos, companheiros. Continuariam se amando, dia a dia, como no início, imunes aos obstáculos que a realidade um dia trouxe. Ali, na nova Santa Luzia, não cometeria os mesmos erros.

Levantou-se e apanhou as sacolas, colocando-as sobre a pia. Em seguida voltou-se para a esposa. Mirou seus olhos redondos, sua boca convidativa. Abraçou-a com a saudade dos muitos anos que o separavam daquele momento, sorvendo-lhe o perfume dos cabelos. Acariciou-lhe o rosto, os braços, admirando-a. Irene. 

Sim, era real. De verdade.

A felicidade retumbando, aquela sensação quase proibida que nos deixa temerosos, porque tem embutida a ameaça da finitude. Mas não ali. Não ali.

“Vamos logo”, disse ela. “Prometi à sua mãe que iria ajudá-la com o almoço de hoje.”

***

Há algum tempo decidira aperfeiçoar aquele projeto. Porque tinha todo o direito de buscar o melhor para si. Para ela. Porque já não lhe bastava aquele cenário que, embora reproduzido com apuro através dos anos, desde o falecimento de Irene, dependia de suas próprias memórias para funcionar.

Deveria avançar. De verdade.

Com os retratos que possuía, além da memória privilegiada, entalhara com esmero pequenos bonecos de cera, os traços dos rostos idênticos aos daqueles que há muito haviam partido. Utilizando lentes, reproduziu-lhes as características físicas, trabalhando à exaustão todos os detalhes. Sobrancelhas, dentes, músculos, até mesmo cavidades internas, além de roupas, sapatos e objetos…

Sabia como instilar-lhes vida. Como transferir-lhes a essência primordial contida no ambiente celular básico, o assim chamado DNA, recentemente descoberto por cientistas americanos, permitindo-lhes existir.

Pesquisara a respeito das monoteases, as enzimas que orquestravam o mecanismo da morte, e a maneira pela qual, se cultivadas em soluções eletrolíticas a determinadas temperaturas, poderiam reverter seu sentido, reconstruindo cadeias de proteínas até preencherem de energia receptáculos cultivados em citosol — sim, os bonecos –, animando-os até que adquirissem consciência.

Reunira material orgânico em incursões secretas ao campo santo situado nos arrabaldes da Santa Luzia real. Revirara túmulos, lápides e covas rasas por noites a fio. Valendo-se de ossos, cabelos e remanescências diversas extraíra o código para cultura naquele líquido que, enfim, traria seu mundo em miniatura à vida.

Parentes , amigos, conhecidos e até gente que jamais vira retornariam à existência, por meio daquela combinação química ricamente preparada. Seu irmão, seu irmão caçula que morrera afogado, também poderia ressurgir. Lucas, o jovem Lucas… Jamais mergulharia naquele lago, jamais bateria a cabeça em uma pedra. E seus pais, ah, que saudades… E os pais de Irene, claro, eles também. E animais. Cães, vacas, até galinhas. 

A vida seria boa novamente.

Precisaria ter cuidado, porém. As monoteases decaíam no momento em que citosol era ativado, não comportando reutilização. A reinserção do código do DNA agiria como uma fagulha num palito de fósforo. Poderia levar à chama, como se desejava, mas na hipótese de entropia o resultado seria a inutilização do ácido e do respectivo hospedeiro. Ambos mortos para sempre.

Quanto a si, por natural, usaria o mesmo processo, transferindo a própria consciência para sua versão miniaturizada. Uma vez que seu eu original estava vivo ainda, poderia, em tese, retornar ao mundo real pelo processo inverso. Isso entretanto inutilizaria seu avatar, além de comprometer a capacidade de transferência de seu código, afastando-o para sempre do convívio com suas recriações.

Não tinha plano de retornar ao mundo real, porém. Seu corpo permaneceria ligado à máquina até que perecesse, quando o fluxo de consciência para o avatar se completaria. No fim, morto no mundo tido como verdadeiro, continuaria a viver em seu projeto auto-suficiente de paraíso. Para sempre.

Uma segunda chance. Era isso o que teria.

***

Pediu à mãe a bênção. Beijou o pai no rosto, sentindo o pinicar da barba por fazer. Abraçou-o também. Na vida anterior o pai morrera há mais de vinte anos. A mãe se fora logo depois. Era bom tê-los por perto novamente, contar com seus conselhos e até com suas preocupações exageradas. E Lucas? Ali estava Lucas também. Seu irmão mais novo, com seu bom humor contagiante, o sorriso enorme, a gargalhada sísmica, as histórias que atraíam todos os olhares. 

Comemoravam o noivado dele com Clarisse, a moça loira e alta, filha do farmacêutico de Santa Luzia. Não, mano querido, não haverá trapaça do destino desta vez, pode ficar tranquilo.

Em meio à algazarra, com os homens contando piadas, as mulheres cuidando das refeições, as crianças correndo sem parar, entre risos, discursos, juras de amor, vivas, brindes e gente chorando de alegria, Irene lançou-lhe um sorriso. Um momento mágico. Por ela, tudo valia a pena. 

Valia acreditar.

Ah, Irene… Desta vez ele não cometeria falhas. Ao menos ali, naquela nova vida, não precisaria se dedicar ferrenhamente ao trabalho, aos estudos. Não precisaria deixá-la sozinha, ir à capital, viajar, abrir mão de sua companhia. Não haveria por que mergulhar na miniaturização de circuitos, na fisiologia de partículas microscópicas. Nos efeitos do calor, nas experiências com citosol. Tudo já estava pronto, à disposição de sua felicidade.

***

Não se esquecera de nada. Para recriar dias e noites, um engenhoso sistema de polias, com pesos e contrapesos se alternando, traria luz e trevas à pequena cidade, inclusive céus estrelados. Ocasionalmente, com a captação aleatória do vento no teto do galpão, foles jogariam minúsculos jatos de vapor na atmosfera hermeticamente desenvolvida, arremedos de nuvens, de onde se desprenderiam gotículas simulando chuva.

Quanto aos habitantes, não havia outra opção que não iniciar as descargas elétricas de modo a trazê-los todos os avatares à vida de uma só vez. Com a intensidade adequada, despertariam em conjunto em algum dia do fim da década de 1920. Talvez ficassem confusos, talvez julgassem ter dormido além da conta, vítimas de uma longa noite, assombrados por sonhos tempestuosos. Mas logo retomariam rotina, sucumbiriam ao conforto, à sensação de segurança ideal para sufocar ideias rebeldes ou imaginativas demais.

Porque normalmente as pessoas veem o que querem ver, ouvem o que querem ouvir e sentem o que querem sentir. Isso bastaria para que todos na nova Santa Luzia acreditassem. Para que seguissem os instintos projetados em seus códigos genéticos, comportando-se de maneira idêntica a de seus eus originais, sujeitando-se aos mesmos estímulos, às mesmas emoções. 

Para que revivessem o mundo em sua versão perfeita, indefinidamente.

***

Costumava ir à igreja com a família, onde Padre Leonardo convidava todos a orar, a agradecer pelas bênçãos que se derramavam por toda a comunidade. Ouvia aquela homilia em todas as ocasiões. Que afortunados somos, dizia o clérigo, com fé genuína. Bendito seja Deus, que nos reuniu no amor de Cristo, entoavam os fiéis em resposta.

Com Irene, revivia sua melhor época. Jantavam juntos, iam ao parque de mãos dadas, deitavam-se sob as estrelas, riam nos filmes de Keaton, dançavam ao som de Artie Shaw que a orquestra do clube tocava tão bem. Por vezes, ou na maioria das vezes, faziam-se acompanhar de amigos. De Lucas e Clarisse principalmente.

De fato, era bom estar vivo. Era bom acreditar.

Frequentemente, dirigia-se à colina de onde podia ver a cidade. Do alto também divisava o rio, correndo plácido logo abaixo. De certa forma, era onde sentia melhor sua onipotência, onde percebia mais intensamente os contornos de sua criação.

O medo da felicidade desaparecera. Irene nunca estivera tão contente. A imagem da esposa derrotada pela depressão era uma lembrança distante e impossível agora. Tudo valera a pena.

Certo dia, porém, em um desses momentos de solitude, percebeu do alto a esposa se aproximando da margem do rio, alheia à sua presença. Notou quando ela se agachou, dedilhando a correnteza, como se experimentasse a temperatura da água. Instantes depois, observou Lucas surgindo pela trilha que cortava o mato alto. Logo Irene se levantou. Os dois se abraçaram longamente e em seguida se beijaram.

Instantaneamente, o monstro do ciúme devorou-lhe o peito, a fé e a crença em si mesmo. Seu mundo de cinema, consumido como um celulóide por chamas violentas.

Desse dia em diante viu-se incapaz de encarar a esposa, menosprezado, incapaz de reagir. A cada sorriso dela sentia-se demolido. Sua alegria o arrasava por dentro. Porque o motivo da felicidade de Irene não se fundava nele, em seus esforços, em sua dedicação, em seu amor. Ao contrário, tinha como razão o fruto proibido, o erro, a devoção de outro, a quem ela correspondia com igual cobiça.

Imaginava-os juntos, trocando juras secretas de amor eterno, prometendo-se o infinito. Quantas vezes ele e a esposa estiveram juntos e quantas dessas vezes ela pensava em Lucas? Todas, possivelmente. Assim fora na vida real, assim era agora.

Lucas… Lucas… Para Hugo o pecado adquirira um nome, esfarelando qual ferrugem os alicerces de seu mundo ideal.

***

Quando Clarisse os convidou para um banho de rio, concordaram sem pestanejar. As mulheres preparariam as cestas de piquenique. Os homens se exibiriam saltando das pedras. Mergulhadores arrojados que eram, estavam acostumados à altura. Hugo ainda era capaz de fazer acrobacias, o chute na lua, como chamava, mas Lucas não ficava atrás, especialista que era em duplo mortal.  Um após o outro, ambos competindo, um jogo silencioso que ia muito além das habilidades na água. 

Hugo reconhecia aquele momento de cor. A ocasião em que o irmão se acidentara. Quando, ao mergulhar, batera a cabeça em uma pedra para nunca mais recobrar a consciência. Para morrer.

Olhou para Clarisse e para Irene, ambas sorrindo, assobiando e aplaudindo a cada evolução que ele e o irmão arriscavam. Ninguém sabia, a não ser ele próprio, como aquilo tudo deveria terminar.

A certa altura, cumprindo aquele script nefasto, Lucas não voltou do mergulho. Conforme ocorrera na outra vida, no outro mundo, Hugo mergulhou em busca dele. Sabia onde ele estava, mas mesmo assim comportou-se conforme seu papel original, demorando, levando minutos preciosos até recuperar o corpo já inerte. 

Na vida anterior, há mais de quarenta anos, tinham corrido ao hospital, onde Lucas chegaria morto. Mas ali, naquele momento, naquela reprodução terrível, havia para Hugo algo diferente, fora do controle. Talvez o fato de que tinha consciência de tudo fizesse sua mente trabalhar de modo inesperado, traindo-o. Lucas estirado no solo, as garotas chorando em desespero. Clarisse rezando, as mãos unidas em prece sob o queixo, molhadas de lágrimas. E Irene? Irene em choque, como quem vê a razão de sua vida desaparecendo.

Hugo voltou-se para Irene e pediu-lhe uma faca. Sim, uma faca, repetiu. Conheço o procedimento, murmurou entre dentes cerrados. O que está fazendo, perguntaram. Silêncio. Outras pessoas os rodeavam agora, apreensivas. Não havia muito mais tempo. Com um golpe certeiro, Hugo abriu um talho fino e profundo junto às costelas do irmão, por onde a água escorreu, aliviando-lhe a pressão das cavidades, evitando a tempo a entropia. Àquela temperatura, o citosol poderia regenerar-lhe a composição.

Graças a Deus, alguém disse.

***

Lucas demoraria algumas semanas para se recuperar, mas sobreviveria. Cumpriria seu destino. Porque assim deveria ser. 

Hugo percebia agora que a perfeição do mundo que construíra tornava dispensável sua própria presença. A fim de se redimir seus pecados, e também purgar os erros cometidos por quem mais amava, decidiu que era o momento de oferecer a si mesmo em sacrifício, abandonando aquele plano existencial.

Um choque elétrico seria suficiente, pouco importando o que encontraria a seguir. 

A vida após a morte jamais deixara de ser um mistério fascinante.

Palavra da Salvação.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.