EntreContos

Detox Literário.

Desejos Impuros (Butterfly McQueen)

 

Sexta-feira, dezessete horas.

Logo depois do apito do trem, avisando o final das visitas ao museu ferroviário. 

No prédio ao lado o delegado de Ensino conferiu o relógio e viu sua assessora-chefe erguer-se da mesa, dando por encerrada a reunião. Ninguém costumava fazer isso com ele! Mas trabalhavam já há tanto tempo juntos que ela conhecia todos os seus vícios e  sabia que que ele não respeitaria horário algum se acreditasse que o material analisado era importante. E o orçamento para o próximo ano era vital. Vital mas poderia esperar, na opinião dela e por isso mesmo ela costumava simplesmente interromper os trabalhos para que ambos tivessem uma refeição ou dessem por encerrado o expediente. Entender isso não fazia com que ele gostasse. Tinha sempre uma coleção de reclamações a fazer. Ela não se importava. E entre um resmungo e outro do chefe, ela simplesmente seguiu seu caminho, arquivando documentos, guardando ofícios e memorandos ainda  não encaminhados, fechando os livros de entrada e saída de trâmites. Trabalhos necessários para considerar o expediente terminado.

Carine desceu as escadas do mezanino que ligava o escritório à sala da Assessoria, guardou seu crachá e carimbo, fechando a gaveta e já se livrando dos problemas da semana. Da escada, longe de seu campo de visão, o chefe continuava exigindo sua presença, mas ela, mais uma vez, frisou que seu horário de expediente tinha acabado. Dirigiu-se ao Arquivo, guardou os documentos assinados e chaveou a gaveta, soltou os cabelos que caíam em cachos densos sobre seus ombros, pegou a bolsa e dirigiu-se a porta, passou pela Secretaria e  despedindo-se das secretárias e dos demais colegas de repartição, saiu do Gabinete. O celular tocou e ela atendeu sem verificar quem chamava. Sua expressão sorridente mostrava que ela sabia quem ligava e o teor da conversa.

– Sim, chefe, obrigada. Bom final de semana para o senhor também. 

O homem desculpou-se pelos maus modos, desejou um feliz final de semana, confirmou o recebimento da agenda da semana e desligou, educadamente. Carine pensou consigo mesma: “Educado assim fica mais tentador”. E sorriu. Esse desejo momentâneo pelo chefe era totalmente explicável. Era o homem bonito, culto e bem humorado que convivia com ela por oito horas do dia. 

Confundir sentimentos era totalmente normal. O desejo mesmo ela guardava para o noivo. Noivo que desde que  tinha inventado de ter um relacionamento casto, estava deixando-a em brasa. E por isso mesmo, os ombros largos e as mãos fortes do chefe se intrometiam  em seus pensamentos nada puros. “Palhaçada de castidade tardia, esse final de semana você vai ser meu”, pensou e sorrindo, completou: “é isso ou então vou ter que satisfazer meus desejos com outro e para isso, vamos ter que terminar esse imbróglio chamado noivado!”. 

Como se ouvisse um chamado, Gustavo ligou.

– Amiga, vamos à pizzaria amanhã? Só eu e você, que acha?

Carine sorriu. Desde que começara namorar Jorge, os problemas entre o noivo e Gustavo começaram. Eles não se respeitavam e isso a incomodava. Gustavo estava em sua vida havia tanto tempo e abrira mão de tantos relacionamentos para manter sua amizade, que ela não achou justo se desligar dele por causa das implicâncias do novo namorado. Mas agora ela fazia planos para este sábado, projetos em que não cabia uma terceira pessoa. Respondeu que iria pensar. Gustavo, com o conhecimento que a intimidade traz, cutucou: “Já sei, vai tentar seduzir o monge no fim de semana. Não entendo esse desejo casto tendo um mulherão como você do lado!”. Carine riu e desligou sem responder, deixando claro que o amigo estava certo, mas ainda o ouviu dizer que ligaria no dia seguinte. Ela sorriu. 

No dia seguinte ela não atenderia ninguém. Atrelada ao desejo, deveria perder sua identidade e nada e nem ninguém iria interferir em seus planos. E ao pensar assim, sentiu seu corpo tremer. 

Quando chegou ao carro, Carine se lembrou que Gil não havia  entregado o discurso ao chefe. Xingou a colega em pensamento, já arrumando um espaço em seus afazeres para levar o discurso impresso na casa do chefe na manhã seguinte. Segunda-feira, caso lembrasse, a colega iria ouvir poucas e boas. Suspirou, livrando-se da carga da semana, entrou no carro, ligou o rádio e preparou-se para o trânsito de fim de tarde. O  itinerário que normalmente fazia em dez minutos, triplicaria com a saída do povo para curtir uns dias na praia. 

O sino, na estação antiga, deu seu último toque do dia, Carine sorriu, nostálgica. Quantas vezes não tinha embarcado ali para ler seus livros em paz… A realidade a chamou com uma freada gritante ao seu lado, deu seta, entrou à direita, fugindo do fluxo da avenida principal.

Sábado, dez horas.   

Carine terminou de arrumar o cabelo exatamente no momento em que o motorista buzinou no portão. Pegou o envelope onde guardara o discurso do chefe, olhou-se mais uma vez no espelho do corredor, ligou o alarme e fechou a casa. Já estava tudo planejado, levar o documento, almoçar no Via Castelli e mais à tarde, passar de surpresa no escritório do namorado e raptá-lo.  A casa Delegado de Ensino ficava fora de caminho, mas de metrô tudo acaba ficando próximo. Depois seria sua tarde e noite de prazer.

O carro parou em frente a casa do chefe. Carine desceu, avisando o colega: 

– Se eu não voltar em quinze minutos, considere-se dispensado.

O homem assentiu, marcando o tempo. Ele sabia que Carine odiava imprevistos aos sábados e quase nunca solicitava seus serviços. Se ela se demorasse, ele esperaria mais quinze minutos e só depois partiria. Ela não era  chefe esnobe, tratava a todos de igual modo. Ele a viu ela acenar um breve “tchau” do portão, que travou após a passagem dela. E ouviu o barulho da câmera inspecionando a viatura. 

Meia hora depois, ele partiu, sozinho.

Sábado, treze horas

Carine degustava seu vinho chileno na mesa de seu restaurante predileto. A solidão era um prazer que ela curtia muito bem. E era prazeroso também saborear sozinha, seu gnocchi da fortuna, combinar com o vinho que bem entendesse, sem ninguém se fazer de “expert” e reprovar suas escolhas. Gostava observar as famílias que comiam e conversavam nas outras mesas. Era uma alegria que fazia com que se lembrasse dos pais… Pessoas era um objeto de pesquisa constante; expressões; sentimentos; sorrisos; suspiros, tudo a encanta. O inconveniente era a distância do restaurante em relação ao escritório do noivo, em Mogi das Cruzes, mas ela iria de metrô de novo. Era a vantagem de morar praticamente na porta da Estação do Carrão, ali pegaria o carro e seguiria para sua tarde de prazer. 

Pelos seus cálculos, chegaria por volta das dezesseis horas. Pensando nisso, Carine se dirigiu até a bancada de saladas e foi se servir, logo logo seu gnocchi estaria pronto….

Sábado, dezessete horas        

A mulher estava nua nos braços do homem. Ter uma tarde de prazer com o chefe era algo delicioso. O corpo respondia ao toque sedutor do homem e o corpo dele também respondia ao seu desejo, perdidos, sem noção de tempo ou espaço. Uma confusão milenar de beijos, abraços, afagos íntimos dilacerante. Corpo e alma ardendo de desejo, sendo satisfeitos, repetindo Adão e Eva, tornando-se fruto e saciando a ambos. 

De início,  o homem parecia ter pressa. Era a primeira vez deles ali, mas, quando os corpos se juntaram na dança dos séculos, se desprendeu de seus temores e, juntos, esqueceram-se do mundo, desfrutando do prazer que julgavam merecer. Estavam insaciáveis, por horas desfrutaram do prazer de seus corpos, agora, recomeçava a dança do acasalamento como dois tribais prontos para povoar toda terra. O grito ensurdecedor de suas almas impedia de ouvir todo e qualquer outro som, perdidos em sua busca de bocas, seios e mamilos, quadris e espáduas, sexo e toda a satisfação que poderiam encontrar nesse vai e vem interminável.

A mão masculina, firme e morena, desenhava um caminho de fogo por onde passava, descendo lenta e torturante do seio farto da mulher, dançando pela cintura e indo esconder-se no centro em fogo, incendiando mais o prazer prometido. A mulher perdeu a força e foi se encostando na escrivaninha. Era um desejo antigo ser levada à loucura na mesa de mogno do escritório do chefe, nada de encontros furtivos. Ela sempre quis isso, essa loucura sem hora marcada, amor sem juízo, desejo sem medo.  E esse pensamento conseguiu ultrapassar seu momento de loucura e ela riu, cínica, fantasiosa, uma Lilith em fogo, sempre pronta para seduzir a alma dos incautos. 

O homem apalpou as nádegas, sentindo a firmeza dos músculos jovem e feminino, procurando um novo modo de submeter a mulher que o seduzia ao seu próprio desejo, descobrindo seus segredos e ouvindo suas palavras secretas, bebendo de sua beleza como um vampiro em noite de lua cheia, ansioso por dominar sua vítima. Suas pernas, outrora firmes, também estavam enfraquecidas pelo desejo que retornava, viril, fecundo, alucinante. A mulher sentindo o momento de ser de novo tomada, enfiou as unhas nas costas masculinas e o homem sentiu mais forte o gozo tomar conta de ambos.

Lá fora, o mundo girava indiferente ao odor da orgia dos dois seres humanos que resolviam as questões mais antigas da terra. Indiferentes eles também, perdidos em uma busca alucinante de prazer, sequer notaram a porta abrir-se e outra mulher olhar aquela cena  e boquiaberta frente ao que via, não ter força de nada dizer, apenas respirar fundo e, talvez em dúvida com o que seus olhos viam, erguer o celular para registrar o momento. Depois sair cambaleando com os olhos rasos de água e um ódio aterrador a cobrir definitivamente o sorriso de promessa que trazia antes no rosto.

Sábado, Dezoito horas

Após se descobrir traída, Carine não voltou para casa. Foi à casa dos pais. Sentiu aquele aperto comum ao se lembrar que nenhum deles estaria mais ali para dar-lhe o apoio que o momento exigia, porém Nena  lhe receberia com afeto que precisava. Era a irmã mais nova, entretanto era boa em mimar e agradar a família e os amigos. O colo dele seria um conforto divino e pensando assim Carine tinha seguido direto para lá.

Depois de jogar conversa fora, se permitir comer bolo de chocolate com café forte, que julgou necessitar, Carine resolveu tomar de novo as rédeas da realidade. Seguiu para seu antigo quarto, ouvindo a cantilena de Nena sobre o quanto o quase cunhado era maravilhoso, Carine tomou um banho e arrumou-se para o encontro com o amigo. O desejo apagado, esquecido em algum canto de sua alma. Nena, alegre com a presença sempre bem-vinda da irmã, perguntou-lhe se iria sair com o noivo e ela disse que já tinha visto ele e que agora iria sair com Gustavo. Nena revoltou-se:

– Mas o Jorge está ligando, quer falar com você! Depois não diga que não lhe avisei! Você está arrumando sarna pra se coçar, vai acabar perdendo um homem maravilhoso por causa dessa amizade com o “galinha” do Gustavo.

A mulher mais velha, sem responder nada, pegou o celular e mostrou a foto do “homem maravilhoso, puro e casto” fazendo sexo selvagem com a secretária dele, em cima da mesa que ela, Carine, em um momento de ternura, lhe dera de presente.             

Ato contínuo, o telefone tocou novamente, exatamente quando a buzina do carro de Gustavo soou em frente à casa, e Nena, nervosa, atendeu, informando de maneira ferina: “Ela saiu com o Gustavo”.

Carine percebeu que a irmã ouvia, nervosa, a pergunta do interlocutor e depois responder:

– Ao menos o Gustavo não tem secretária para ajudar no processo de castidade dele. E não ligue para ela ou para a nossa casa nunca mais – E logo depois  de xingar mil blasfêmias, desligou o telefone na cara do “homem maravilhoso”.

Carine jogou um beijo para a irmã e saiu para se encontrar com o amigo. Feliz por nunca ter cogitado desfazer de suas amizades por homem nenhum.  

Gustavo abriu a porta para ela com seu cavalheirismo fora de hora. Carine sorriu agradecida pela primeira vez, sem reclamar e ele sussurrou: “uma alma salva do inferno”, ao que ela respondeu: “bom! assim abre espaço para mais duas que com certeza estão com passagem comprada”.

Ele olhou com aquele jeito compreensivo, com a intimidade e habilidade de amigo de velha data e a promessa silenciosa de ouvi-la quando estivesse pronta para falar. Ela sorriu de volta, disfarçando a memória recente. 

“A vida têm muitas outras oportunidades”, pensou consigo mesma…

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.