EntreContos

Detox Literário.

De Forma Natural (Inquieta)

 

Uma inquietude inexplicável prevalecia nos meados do século: dias sem objetivos, sem direção e todos sempre se arriscando. Sobrevivia-se.  

 

Letras gigantes esmagavam ferozes, as cores penetravam pelos olhos. As jovens avançaram contra os cartazes, rasgaram e se rasgaram, feriram os dedos no cimento. Escalaram paredes, quebraram luminosos. Espumaram e berraram. 

Isah desceu as rampas apressada, enquanto arrancava o traje, soltava os cabelos e, num relance vencia a muralha das Alamedas. A distração funcionou. Não desperdiçaria a chance de conhecer o outro lado. Quis perguntar algo à mulher que empurrava um carrinho com sucata ou ao homem que passou manquitolando, mas as palavras batiam na máscara e caiam fragmentadas. Descartou-a. 

De repente, percebeu o que ia acontecer. De um lado o agente truculento, do outro, a fome vil. O mendigo pedia com os olhos, com a boca, as mãos pediam… A tala zuniu e bateu no rosto do velho. Porejou sangue. Sem refletir, Isah dobrou o braço e acertou um soco no estômago do guarda. Houve um estalo alto, mas ela não sentiu nada além do coração disparado. E correu… Não sem antes notar uma expressão fria que, na multidão, estudava os movimentos e que procurou retardar a investida atrás dela…

Inútil. Minutos depois, a jovem estava tentando entender a cena diante de si. 

— Quem é? Identidade — não lhe cabia discussão alguma. Encostada no arrimo da escadaria, algemada. Seria removida? Como escapar? Fixou-se no capacete do guarda, e se preparou para uma descarga de energia. Então percebeu que a mesma jaqueta cinza, com uma clava, detonou a nuca do policial.

— Venha comigo! É melhor correr – ouviu a voz irônica. E foi o que fez, por vielas que se comunicavam entre si. Cinzentas. Cheias de pessoas que falavam, moviam-se entre prédios indistintos, entulho, buracos e as muitas, muitas poças d’água. 

 

Isah esperava um acontecimento. Podia sentir a angústia do que ia acontecer.  Mas, o que era? Tudo aquilo era completamente doentio, mas imaginava que era melhor do que qualquer alternativa. O que sentia era alívio, tentando despistar a guarda. Voltas e voltas pelo subúrbio. Coração na boca, sem cor. Revezando trechos, respirava fundo e corria atrás do seu salvador, indo em direção a uma junção onde becos se encontravam. 

Entraram em uma colmeia grande de casas descoloridas à beira da rodovia X48, a leste dos arranha-céus das Alamedas. Uma pilha de lixeiras caídas apareceu, bloqueando o caminho. Atravessaram-nas e continuaram a correr sem diminuir o ritmo, como um rato em um labirinto urbano. Uma coleção de mais de trinta torres, interligadas por uma rede improvisada de canos reciclados, vigas mestras, colunas de apoio e passarelas. As pontas de uma dúzia de guindastes antigos eram posicionadas ao longo do perímetro externo do local. 

— Servem apenas para bloquear intrusos. Tanques vazios. Faltam peças — o anfitrião referia-se às carcaças de carros e caminhões abandonados nas faixas escuras e estreitas de chão. Caminhavam, agora com mais calma, porém atentos a qualquer movimento suspeito.

— Vamos? Ala 05. Moro com um amigo — indicava uma figura em um dos telhados, cobertos com uma série de painéis solares.

 

 

 Juno observava a lua cheia girando, próxima, avermelhada. De há muito se acostumara com a escuridão estática, com o barulho, com a ansiedade… Desceu rápido para o apartamento, quando, do alto, notou o amigo, que arfava, examinava ao redor e atravessava o portal do pavimento térreo. 

— Ah, Kael, você nunca me desaponta. Você e as boas tiradas! — ia falando consigo mesmo. Ao ouvi-los chegando, girou nos calcanhares e abriu a porta:

— Por que ela está aqui? Não tem sentido. É das Alamedas!!!! Tá na cara. Não engana ninguém. — ele revirava os olhos, repreendendo o colega. 

— Não posso mudar minha aparência — a visitante interferiu com raiva – esse aí fala como um escravo do sistema.

— Melhor ter sossego como escravo do que ser predador. Por isso sua raça está em extinção — o rapaz dava a conversa por encerrada. 

— A boa educação exige que, pelo menos, dê um alô. E, além disso, por que não posso trazer uma amiga para cá? — Segundos de silêncio passaram. A expressão eloquente das faces fez Isah suspeitar que os dois se comunicavam mentalmente, enquanto seus olhos percorriam os cômodos de forma casual. Então se cravaram em Kael. Ela não disse nada, mas dissecava cada detalhe dele, agora com mais prazo. 

— Você confia nela? — Juno ainda questionou, com um sorrisinho tenso. 

— Arrogante, sem tato social, obcecado com territorialidade — Kael respondeu com presteza. 

Juno engoliu em seco. Notou que o amigo, cheio de determinação, desviava o olhar e pousava-o em Isah. O short subia pelas coxas, firmes e roliças, brancas e tentadoras. Os mamilos agrediam a blusa de malha fina. Os olhos dele ferviam, encarando o biquinho do seio atrevido e espetado. Podia sentir o constrangimento com o vigor dos impulsos, que neste momento, agradeceria poder subjugar e reprimir, esperando que não tivessem percebido o volume sob o jeans. 

E, a moça foi ficando por ali, sem nenhuma explicação, sem nenhum questionamento. Alguns sumiços, breves retornos.

 

 

As frestas no tapume permitiam escutar a conversa, as risadinhas satisfeitas. Sons abafados como o zumbido de insetos no ar. Sensações rodopiavam qual uma tempestade cintilante. 

Isah revirava sob uma coberta grosseira, sentia sede. Um tremor corria-lhe a coluna de alto abaixo, um tremor talvez de curiosidade, talvez de medo. Abriu a precária porta, num impulso…

 Perplexos e contrariados, no mesmo colchonete, os rapazes encararam a intromissão. Antes de enrubescer até a raiz dos cabelos, a jovem embriagou-se com algo que jamais sentira. Tão espontâneo quanto incontrolável: um ciúme agudo e profundo. Fincou os olhos nos dois, desejaria ter um punhal à mão para retalhar cada um. Apossou-se dela uma volúpia mal contida, sentiu-se agredida em sua feminilidade, ganas de mostrar àqueles idiotas que, ela sim, poderia proporcionar qualquer prazer que um homem quisesse experimentar. 

Kael adivinhou o que ela sentia. Estava escrito, em letras garrafais, na menina dos olhos. Recuperou-se do susto procurando um modo de contornar a situação, mas quem reagiu rápido para esconder a nudez, foi Juno, posto à margem pelo fixo olhar cruzado a sua frente, enquanto os dois se agrediam e se atraíam mutuamente, indecisos e sem saber que atitudes tomar. 

— Arraia mesmo! Aff! Errei feio!  — decepcionada, de verdade, ela bateu em retirada. 

 

De volta à cama, todo o corpo se queimava, o sexo em brasa, ardiam os seios eriçados. Pressentia o calor, o doce dos beijos. A barba cerrada e escura que roçava… Levantou-se. Ridículo! 

 

Os dois não se espantaram. Juno não exigia exclusividade, saiu. Kael puxou Isah para si. Moveu os lábios até a orelha e depois, ao pescoço. Ela inclinou a cabeça, obediente, gostando da forma como a boca se tornava mais feroz na sua pele, os dentes a excitando. Desceu-lhe pelas costas outro arrepio, quando um inopinado movimento da mão direita de Kael deslizou para dentro da coxa, apalpou seu sexo. Encharcada, ela aceitou as mãos que a envolveram, acariciando a tez de seda. Arquearam-se os corpos em encontro. Não podiam parar. A mulher queria se tornar uma só com aquele homem. Precisava disso. Ele a preencheria… Não havia outros sons na sala, salvo o de carne contra carne e a respiração pesada.

 

Foram dias ardentes, como se a paixão pudesse reduzir qualquer terrível distância que houvesse entre eles. Dominados por aquele impulso animal que está encerrado no sangue e que garante a continuidade da espécie. 

— Ouvi as mulheres mais velhas dizerem que esta é a melhor posição para conceber uma criança — ela o provocava. Kael colocava Isah de joelhos, debruçando-se sobre ela, que tinha apenas um momento, antes que ele a tomasse de novo, ainda rude, exigindo tudo. Os movimentos tornavam-se mais violentos e intensos, e os corpos se chocavam um contra o outro. Enquanto ele a penetrava ritmicamente, ela questionava o seu objetivo final. Estavam longe de serem namorados, mas ainda era o mais próximo que tinham de uma relação consistente. Essa compreensão fazia Isah se sentir estranha, ansiosa, porém ainda não arrependida. Havia algo oculto dentro dela, que Kael não conseguia alcançar, pairando lá no fundo. Alguma informação sedutora que ele já deveria ter reconhecido? 

 

 

— Você fez um filho em mim, Kael — a voz era grave, como se ela tivesse conseguido algo mais palpável do que sexo. Ele chupou o lóbulo da orelha e a abraçou por trás, deixando as mãos descansarem sobre os seios. Isah recostou-se nele, pensando no que havia feito e no que deveria fazer agora. Como conseguiria voltar para o seu lugar depois de ter sido a deusa de alguém? Nunca chegou a decidir, porém, pois a próxima coisa que ouviram foi Juno chamando-os da frente da casa e mostrando um folder que ela bem sabia o teor. 

Talvez, ela pensou desesperada, conseguisse pegá-lo antes que Kael o lesse. Talvez pudesse mover-se rápido o suficiente. Mas o fato foi que não pôde. Ficou olhando para os dois, ligeiramente desarmada. O motivo por estar em Arraia acabara de se tornar público, e ela estava despreparada para a onda de angústia que a invadiu. Ele era dela, e era incrível, e eles não precisavam mais se esconder, ou inventar desculpas, nem ficar separados? Ou seria expulsa? Forçou-se a afastar dele, tentando não parecer tão cambaleante quanto se sentia. Dividida. 

— Por que foi fazer uma coisa dessas? Era de um reprodutor que precisava? — os olhos de Kael haviam perdido toda a alegria. Ombros caídos. Até sua postura, pendendo ligeiramente para um lado, como se sua vida inteira estivesse desequilibrada. 

— Acho que… é uma necessidade. Um dever com o meu grupo.

— O DEVER de procriar… Não, isso não é verdade… Você é como eu. Não joga pelas regras. Está cansada do sistema. Não deixaria que a forçassem a desempenhar um papel que criaram para você. Tudo é falso? Rebeldia, fuga, roupas, teatro para me convencer?

— Eu o amo. Muito. De início era só uma missão, mas depois fui me agarrando a você. Não sei o que fazer — as palavras saíram tensas e hesitantes. — Tenho que entregar a criança, sou monitorada. O Comando já sabe… Logo me buscarão.

— Você me enganou… fingiu ser afetada por mim – ele, com um meio-sorriso triste, deu um passo em direção a Isah, que se encolheu, tentando encontrar para onde fugir. Momentos antes o lugar parecia seguro e convidativo, mas agora estava fechado e abafado. O apartamento era pequeno demais, a porta distante demais. Ela não podia respirar. Controversa, queria esmurrá-lo, beijá-lo. Aquilo despertou dentro dela algo que estava adormecido. Ele continuava a olhando com frieza, sem dúvida, tentando ler seus pensamentos.

— Você merecia ter sido tratada como um animal selvagem — Kael não sabia o que pensar. —Nada entre nós, além de uma atração? Eu pensava que era amor, ou começo de amor, ou o que fosse. Mentiras… 

 

Juno era sempre discreto, porém, arredio. Aquilo tinha seu valor. Agora os observava, enquanto discutiam e sentiu um aperto no peito. Não era uma vingança. Queria apenas a verdade. A expressão divertida de sua face foi dando lugar ao remorso: 

— Qual o problema? Do que vocês têm medo? 

 

 

O Comando tinha claramente decidido que o sigilo era mais importante do que a segurança. Afinal, nas Alamedas havia apenas uma preocupação: procriar. Como governar sem descendência? Os patrícios tornaram-se inférteis. A ordem era que todas as fêmeas, capacitadas para a maternidade, buscassem espermas saudáveis, comprados ou dos prisioneiros que vinham da Arraia. Isah apostou com as companheiras que não se engravidaria por inseminação, dispensaria o útero artificial. Ela, além de conseguir uma aventura, teria seu filho de forma natural.

 

 

Uma imensa névoa emocional crescia no peito de Isah, algo que não conseguia identificar de todo. Situava em algum ponto entre o obrigação e o amor, não se encaixando de verdade em nenhum deles. Mais e mais foi se inflamando dentro dela, levando-a a querer urrar diante do Comando. Corredores frios. Visitas nervosas. Funcionários eficientes. Durante a gravidez, foi perdendo a expressão astuta e confiante, enquanto, lentamente, tomava uma consciência diferenciada do mundo ao seu redor.

O bebê pertencia às Alamedas. Seria bem alimentado, educação privilegiada. Ele estaria bem, no seu lugar… E Isah? Poderia esquecer aquele espaço que se abrira? Hora de fugir daquela maldita e horrenda paragem, de se deixar levar para onde poderia ser ela mesma. De volta para Kael.

 

 

Mal a jovem bateu à porta, as lágrimas rolavam por suas faces, a despeito da mistura de desespero e de alívio que sentia. Parte dela queria reencontrar Kael naquele mesmo instante e sentir-se amada; outra parte reconhecia, com frieza, que ele tinha motivos claros para um rompimento definitivo. O que precisavam era de tempo. Tempo para pensar sobre tudo, tempo para imaginar um meio de se salvarem. Seria tal façanha possível? Já não tiveram esse tempo durante sua estadia nas Alamedas? Isah não sabia como mostrar o que realmente se passava com ela, não com Kael ali parado, olhando-a. Se o rapaz decidisse que ela era uma ameaça, voltaria para o Comando. Ela não podia fazer negociações e contratos com ele. 

— Desculpe! — os dois falaram ao mesmo tempo, cada um recuando alguns centímetros em cada lado do portal.

— Não consigo viver sem você, não posso entregar-lhe o nosso filho.  É isso — ela acalmou a respiração. Fora preparada desde sempre que crianças pertencem ao Comando. Não sofreria com a separação, no entanto com Kael era diferente. 

— Não me deixe assim nunca mais. Nunca — ele deu de ombros, sorrindo. —Em segundos os braços estavam ao redor dela. Um longo e profundo suspiro. O rosto, enterrado no peito dele, ergueu-se e as bocas se afundaram em um beijo.

— Você está aqui agora — ele sussurrou-lhe — é o que me interessa. Aceito as suas escolhas. É o Comando. Mas doeu, doeu a cada dia. Restou um quarto vazio, uma cama vazia, eu sozinho no vazio. 

— Nós dois estamos aqui — riam, ainda se beijando, devorando cada pedaço do doce embaraço do reencontro. Ela procurava uma maneira de dizer o quanto difícil foram os últimos meses sem ele. Porém, nos braços de Kael, ela falhava em encontrar as palavras…

 

Quando menos esperavam, ouviram um fungar:

— Pegando a mochila e caindo fora… — um sorriso forçado no rosto de Juno, como se ele estivesse até o fim tentando provar suas boas intenções, mas não segurou o sarcasmo — A moça precisa de outra criança, hein Kael! 

 A questão foi levada na brincadeira, pois antes que lograssem responder, o rapaz se aliviou da pesada bagagem e abraçou o casal. Predominou o senso natural de que não havia mais espaço para ele ali. 

Ainda presa em beijos, Isah beliscou levemente o bíceps. Sentia-se em casa?

 

O futuro estendia-se um pouco mais à frente e, por enquanto, a ideia de ter um futuro bastava.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.