EntreContos

Detox Literário.

Caça e Caçador (Júlia Bianca de Lira)

“Você me faz o que eu sou; caça e caçador”… 

Fábio Júnior

 

O caçador

Miguel era titulado de “sniper” por alguns e isso o aborrecia muito, pois, considerava a alcunha infame. Fingia desinteresse ao ônus de também ser chamado de “caçador”. Nem tão indiferente assim, sempre dizia: — “Quem caça onça deve ser prudente, porque a bicha é braba”! “Sou somente um sertanejo tímido e medroso”!

O apelido era merecido, porque seus hábitos de conquista ocorriam de forma bem semelhante a atuação de um tocaieiro. 

Camaleão, se camuflava na paisagem e vigiava possíveis presas. Depois de o alvo escolhido, estabelecia a tocaia, que podia ser longa e cansativa ou ligeira e gratificante. Aguardava o momento exato com a calma e a certeza de quem sabe que depois de um demorado inverno, sempre virá a primavera. Com tudo preparado e calculado, o tiro fatal vinha de local inimaginado e sentenciavam a vítima, que ao acolher o primeiro olhar do predador, já podia se considerar perdida.

Miguel não era bem-visto pelos outros caçadores. É impreterível entender que se trata de um meio bastante competitivo. Esses sujeitos, via de regra, são uns solitários, sem ligações de amizade ou camaradagem. Muitos o consideravam covarde, por conta de sempre agir nas sombras, escondido e dissimulado até o ataque letal. O que ninguém sabia ou podia adivinhar é que Miguel era um homem amargo e insatisfeito.

Carregava em seu próprio corpo, impregnado em sua carne, as memórias das mulheres que avassalava por uma noite e já na manhã seguinte, tinha que lidar com o incômodo daquele corpo sobre a cama, precisando ser despachado quanto antes. Sim, um corpo. Somente um corpo e por mais que a moça, sua dona, reclamasse atenção e um suco de laranja, para ele, ela já fedia a cadáver. Descartável como um defunto, como as relações mortas, como ele mesmo era; descartável! Algumas moças eram “desencanadas”, de equações bem resolvidas, apreciadoras do jogo, mas outras… Miguel sabia que havia aquelas que acusavam um dano enorme. Se comovia com essas frágeis moças, porém, isso não o impedia que repetisse continuamente as mesmas cafajestadas.

Com Elisa, também começou casual, mas foi quando a letra encontrou a canção que a rima surgiu inevitável e Elisa se tornou ideal.

 

A presa

“Figurinha repetida não completa álbum!” Todavia, não obstante, contudo… Aquela era cromo carimbado, raríssima mosca azul, elefante branco, custosa de encontrar. Então, foram reprisando os encontros, foram se amoldando, se acomodando, se afeiçoando um ao outro. Ele nem notou ou quando viu já era tarde; a cidadela estava tomada.

Primeiro ela trouxe uma escova de dentes, depois… Trouxe um pente; uma sacola com lingerie e camisola; um desodorante roll on e uma lavanda; um moletom para os dias frios e logo estabeleceu o seu lado na cama e no sofá; apossou-se do controle remoto; começou a preparar o café e o almoço…

“E que cabelos são esses caídos na pia”? — Miguel começava a tomar ciência do estrago… Sem nenhum acanhamento, ela começou a organizar a disposição da mobília e o lugar das coisas dele, foi quando ele sentiu saudades da sua bagunça.

Tudo era premiado com os folguedos do sexo. Lugar, onde a natureza se mostrava selvagem e indômita. Os trovões colidiam com o mar revolto fazendo a nau do pirata Miguel perder sua capacidade de navegação. Havia ainda, a clara sensação de ter uma onça faminta à espreita entre os lençóis. Juntos sentiam os fortes tremores que abriam crateras e provocavam fissuras em suas estruturas mais pudicas. Logo eles que eram terras úmidas. Vinham tsunamis e os arrastavam e os arrasavam noite adentro. As tantas erupções de larva ardente queimando as bocas e convidando para um mergulho sem medo nas cataratas do Iguaçu.

 

A natureza morta

O homem que viu o fogo pela primeira vez, decerto espantou-se. Ficou abismado, maravilhado a contemplar a fogueira incandescente, até que ela se consumisse. Agora, tendo vivido uma eternidade, o homem olha, mas não enxerga o fogo com a mesma paixão, sua visão, talvez, seja atraída pelo simples precipitar de asas de um vaga-lume que corta a noite. O fogo perdeu o encanto, a magia… Ainda pode aquecer e queimar, mas não causa mais assombro.

Assim, foi que a relação dos dois se tornou fastiosa. Miguel conhecia o roteiro daquela viagem de cor. Sabia o momento exato de cada passo, e mesmo as variações, criadas para escapar da rotina, estavam saturadas. As curvas daquela estrada não eram mais capazes de acelerar seu coração de homem e nem trazer um só arrepio ao corpo. O sexo perdera a graça. Ponto.

Miguel ponderou que fosse reflexo da idade madura que finalmente o alcançara. Então, era natural que o mar tempestuoso se rendesse a calma de um rio de águas tranquilas. Elisa, em contrapartida, florejava quanto mais amadurecia e exigia afeto, atenção e gozo.

Enquanto Miguel, se mostrava sereno como uma tela de natureza-morta, Elisa era uma animação incitada pela ingestão de ácido lisérgico. 

Nesse processo terrível, aconteceu que a caça se tornou caçadora. De forma voraz, Elisa assaltava Miguel sem tréguas, sem descanso, obviamente, ele desenvolveu defesas e modos de fuga. Poderia ter encerrado tudo com uma nota de agradecimento pelos serviços prestados e pela atenção dispensada, poderia. Mas… Miguel possuía um pouco de sensibilidade, um resto de empatia e algum respeito pelos sentimentos alheios. Não ia sacanear Elisa. Já contava seis anos desde que a escova dela invadiu o armarinho do banheiro dele, não podia simplesmente dizer: “Acabou a minha tesão em você, Elisa” ou “O fogo de macho que habitava em mim, se foi”! O que podia ser mais desastroso? — Diante da encruzilhada, fugia.

 

Fuga e redenção

Buscou retiro na casa de inverno que pertencia ao irmão rico; Carlos, o advogado. Foi um custo conseguir viajar sozinho para a cidade de Cunha, no interior de São Paulo. “Preciso de um tempo sozinho, para escrever minha dissertação”! “Aqui não consigo me concentrar”! “O prazo está acabando!” Compreensiva, Elisa o liberou, seriam somente duas semanas sem “Mimi” — apelido carinhoso com qual ela chamava seu adorado homem. Para Miguel, seriam duas semanas de paz.

Era julho, fazia frio, mais do que era costumeiro. Miguel ficou recluso a maior parte dos dias, da dissertação não escreveu uma linha. Faltando três dias para retornar, acordou excitado como há muito tempo não acontecia, à maneira que os homens mais jovens acordam: viril, ereto e inquieto. Banhou-se e se sentiu-se tão elétrico que decidiu esticar as pernas, dar uma volta pela cidade.

Nem supõe como chegou ao ateliê de Estela, andava distraído, pisando em pensamentos soltos e de repente seu olhar cruzou a porta larga do ateliê e a viu coberta pela sombra, banhada por um raio de luz solar que entrava por uma claraboia, ele a viu.

Estela, que ele não sabia que era Estela, que não sabia que era ela a próxima mulher da sua vida, que seria ela a inspiração dos seus versos, a desfazedora dos nós, o motivo do seu desejo, a razão da sua loucura, que seria ela a artesã de todos os seus sonhos futuros. Ela usava um vestido claro, um pouco translúcido que entre luz e sombra deixava transparecer para seus olhos de homem: o contorno do corpo esguio, as pernas fortes, as coxas grossas e a sublime ostentação das nádegas contra o tecido, revolucionárias, vanguardistas, como se exigissem o sagrado direito de expressão…

Ele parou à entrada do ateliê e observou… Fingiu observar as peças expostas numa diversidade enorme, desde utensílios domésticos: pratos, taças, abajures, tigelas, xícaras, vasos, até belíssimas obras de arte. As que mais lhe chamaram atenção foram as figuras femininas, mulheres híbridas de humana com felinas. Mulheres-panteras, leoas, onças… Feras de cerâmica fria, mas que queimavam a imaginação com altos graus de erotismo e sensualidade.

Ela deixou o que estava fazendo e foi recebê-lo, o encantamento ascendeu de nível com a proximidade dela, que revelava agora possuir traços orientais. Uma mistura que ele não saberia definir; tinha os olhos amendoados como de uma sereia havaiana ou uma índia americana; cabelos negros; olhos verdes; lábios da cor de maçã; de estatura mediana; corpo harmônico; seios atrevidos e uma voz que deleitava os ouvidos. 

Das conversas iniciais, formais e triviais, passaram para uma prosa animada e cada vez mais singular e pessoal. 

Não se largaram mais! Veio o convite para o almoço do dia seguinte; para o jantar na casa em que ele estava hospedado; no final de semana, um passeio pelas cachoeiras e subida ao topo da Pedra da Marcela, onde foram recompensados por uma vista linda e quase se beijaram quando o sol se pôs sobre suas cabeças.

Não. Não houve nenhum contato físico, embora ardessem e queimassem sem alívio, Miguel estabeleceu uma barreira, que para Estela ficava bem visível e perfeitamente tangível, impossível de se ignorar, então, decidiu respeitar o muro. Estela sabia que Miguel estava na cidade de passagem, era um sopro efémero em sua vida. Logo iria voltar para sua rotina, qualquer que fosse ela. Decerto, tinha compromissos profissionais, provavelmente sentimentais e de outras ordens e a tudo era submisso, então, ela não se arriscava a tentar escalar ou transpassar esse paredão erguido entre eles. Já Miguel tinha medo daquela estrela reluzente. Medo de falhar.

Decidiu que ficaria pelo menos mais uma semana. Avisou Elisa dessa intenção; ouviu muitas reclamações e naturalmente, isso fez a outra disparar aquele alarme que toda mulher possui; estava evidente que havia muito mais nesse súbito intento, algo que Miguel não revelava e só podia ser “piranha”! 

O sniper Miguel vivia uma paixão idílica e uma agonia; estar traindo Elisa de forma tal abjeta, o deixava maluco e, ao mesmo tempo, não conseguia deixar de pensar, de querer estar, de torcer pelo tempo ser ligeiro na distância e eterno quando perto de Estela. Não sossegava e se esforçava ao máximo de sua criatividade para buscar e achar meios e desculpas para poder encontrá-la e ficar com ela. E Elisa? Era a consciência a lhe cutucar com o espinho de nome Elisa. Uma ora pensava: “Elisa que se dane”! Logo arrependia-se e choramingava: “Pobre Elisa”! “Como posso ser tão mau e egoísta”? Se penitenciava: “Ela não merece essa minha indignidade”! “Elisa merece alguém que a ame, mais do que eu”! “Isso é fato”! “Porque, sim, eu a amo”! “Amo de um jeito misturado e desordenado, ferindo padrões, regras morais e outras bobagens que a sociedade e a civilização vomitam sobre nós”! “Serei leal a esta mulher, abrirei a gaiola do meu peito e a deixarei voar”!

Enquanto Miguel se consumia entre certezas, dúvidas e planos de salvação, adiados pela sua covardia crônica, Elisa já tinha estabelecido sua tocaia. E observava cada passo e movimento dele. Não demorou para que ela flagrasse o encontro dos amantes. Sofreu muito, vendo cada riso que davam, enquanto tomavam vinho e comiam uma Pappardelle primavera. Quis morrer quando ele, aos olhos dela — no cúmulo da condição de vassalo, servia, feliz, pequenas porções da sobremesa, diretamente na boca da “vaca”. Palavra dela.

Elisa sofria porque o riso dele era motivado por outra. Era para esta outra que ele oferecia atenção, carinho, talvez amor.

Mataria os dois. Estava decidida; mataria os dois. Só restava escolher o jeito como faria isso, se silenciosa ou escandalosamente. Outra certeza que tinha era que havia que ser de forma cruel e dolorosa.

 

O desenlace

Ao fim de dois dias, Elisa já dispunha de todas as provas e também dos costumes que o casal desenvolvera, eram britânicos, pontuais e constantes em seus encontros, bastava escolher um momento e um lugar para que acertasse um tiro fatal. Decidiu encurralá-los no café em que se encontravam ao cair da tarde. Escolheu uma mesa ao fundo e bebendo em goles doídos a sua amarga bílis, os esperou. Chegaram pontuais e sentaram-se próximos à janela.

Elisa não conseguiu levantar-se para exigir das testemunhas, ali presentes, que lhe entregassem a cabeça cortada de ambos. Não conseguiu apontar os dois criminosos e lhes imputar a pena de degredo, com exposição de suas vergonhas num desfile público, para que a nudez dos dois fosse cuspida e apedrejada. Não conseguiu. Não conseguiu produzir nada além de um choro baixinho, desafinado e triste. Resolveu: partiria aquela noite mesmo.

Mas seu choro, possivelmente, tinha mais volume que ela imaginava, de forma que todos se voltaram para ela, inclusive o casal. “Estela”!?! Hesitou, Miguel, em seguida a abraçou com ternura e a tirou dali.

Sobraram os três na casa de inverno. As emoções correram desenfreadas, sem filtro algum e em alta combustão. Elisa, de longe a mais descontrolada, ia da ira mais violenta ao amor incondicional em segundos, rangia os dentes, ameaçando morder e arrancar pedaços e logo se desmanchava nos braços do amado macho.

Estela não se sentia confortável, a situação era absurda, mas sabia que não carregava culpa alguma, também não se sentia ofendida ou se achava enganada, para ela sempre esteve claro que Miguel trazia em seu alforje de viajante, mais coisas do que mostrava. Teve pena da mulher.

Miguel sentia alívio, a máscara já não marcava mais seu rosto e ele podia finalmente respirar.

Quando Elisa despejou as queixas, fez todos os julgamentos, estabelecendo os castigos e bravateando fantásticas vinganças, a febre daquele momento tenso baixou e os três se recolheram cada um a seu canto e a seu pedaço de mundo.

Lá pela meia-noite, Estela decidiu voltar a sua casa, Miguel se ofereceu para acompanhá-la — estava tarde. Polidamente, ela recusou e fez questão de deixar claro que aquilo era um adeus. Miguel sentiu o golpe, o tiro no coração e experimentou um gosto de sangue que lhe invadia a boca. Inesperadamente, Elisa foi até Estela e a abraçou. Pediu que ela não fosse. Era realmente tarde e seria mais seguro que ela pousasse ali. Confirmou se a casa tinha mais que um quarto e Miguel informou que sim; havia três. “Eu e você ficaremos aqui, esta noite; quero lhe conhecer”. E perguntou: “Nessa casa tem um bom vinho”? “Precisamos beber”! “Nós duas, você, não”!. Assim foi feito. Miguel se recolheu ao seu quarto e deixou as mulheres bebendo e conversando na sala. As meninas, logo se descobriram como fossem amigas de infância, embora Elisa fosse uns dez anos mais velha, em outra dimensão de tempo incomum, poderiam ter pertencido a mesma classe escolar, no bando que fica no “fundão” da sala; a turma da bagunça.

Miguel não dormiu. Não poderia com tanta coisa a encher seu juízo, porém, em algum momento, o cansaço lhe dominou e cochilou, quando acordou escutou um riso, depois uma queixa que parecia mais um uivo de bicho. Os miados encontravam eco, eram duas onças. Miguel era caçador experiente, conhecia bem aqueles gemidos. Ainda sonolento, ele foi averiguar quais gatos faziam tamanha algazarra. Os miados vinham de um dos quartos, onde ele entrou com o coração aos saltos, com a boca seca e viu… Os trovões, o mar revolto, as terras úmidas, a larva ardente… As bocas que suplicavam carne fresca. O caçador seria devorado aquela noite.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.