EntreContos

Detox Literário.

Às Cegas (Desconhecida)

Apertou o passo e olhou com desaprovação para os sapatos. Deveria ter calçado tênis confortáveis e deixado a elegância de lado. Desejou não ter perdido tanto tempo com detalhes, pois agora acabaria se atrasando. Os pensamentos seguiam um ritmo próprio sem que seus passos pudessem acompanhá-los. Será melhor desistir? Era só dúvida e pressa.

Chegou ao lugar marcado, perdido em algum espaço sem data. Fachada parcialmente coberta por heras que quase escondiam uma pequena placa de metal envelhecido. Letras desgastadas indicavam a natureza da atividade ali desenvolvida. Um lugar com o charme das antigas construções já esquecidas. Se não fosse pelo atropelo do tempo, ela observaria com mais atenção a casa, erguida em outro século, sem dúvida. Mas tinha pressa e qualquer outro interesse ficaria para depois. Movia-se atraída pelo mistério, apesar do receio, quase pânico, que sentia. O que eu estou fazendo aqui? 

Não havia tempo para mudar de ideia, e se pudesse refazer o caminho até ali, encontraria respingos de ansiedade por toda parte. Agora, dividia-se entre a urgência de minimizar o atraso e a possibilidade de ver todo o seu esforço se tornar inútil. Sentiu a visão turvar como se os segundos desabassem junto com os seus sentidos. A impaciência já escorria pelas mãos, no mesmo descompasso do coração. Estava tudo fora do ritmo. Devo estar louca! 

Haviam concordado em viver aquilo juntos. Pela primeira e, quem sabe, última vez. Aquela experiência inusitada, sem expectativas, às cegas, assim do jeito que a vida convidava. Sabemos mais do que o necessário. Pode confiar em mim? Ele a desafiara como se fosse somente um jogo. E ela gostava de jogar. 

Nada foi dito sobre onde exatamente se daria o encontro. Em frente do pequeno muro, no banco com pintura descascada que se fingia de desocupado? Sob a árvore quase sem folhas? Ou devo entrar? 

Sabia que estava atrasada e teria que se justificar. Culpava-se pela falta de organização, pela escolha dos sapatos, pela vida que levara até então. Isso não deveria ter acontecido. Não logo hoje. Talvez o pretendido jogo virasse apenas um engano de peças.

 Remexeu a bolsa à procura da carteira. As mãos trêmulas dificultavam os movimentos. Inspirou mais fundo e tratou de se controlar. Está tudo bem, é só um encontro. Nada mais. Comprou o ingresso, mesmo informada de que já haviam começado sem ela.  

De olhos vendados pela ignorância, adentrou o silêncio. Sem tato, sem aromas a provocar instinto de acolhimento ou fuga, desceu os poucos degraus com receio de cair ou mesmo desaparecer.

Instalou-se no caos, sentando na primeira poltrona que conseguiu encontrar. Tudo era escuridão a sua volta. Imaginou que aquele prenúncio obscuro era também um alerta. Quis se levantar e fugir, mudar a rota dos acontecimentos, deixar tudo para outro dia. Talvez para nunca mais. Sentiu-se presa à própria sorte.  O atraso, a deslocada realidade, tudo a mantinha atada à expectativa do próximo minuto. O que sabia dele, afinal?   

Tentou fixar a atenção na tela que reproduzia imagens que seus olhos mal conseguiam captar. Tudo muito escuro, com pontos difusos de luz. Inspirou e expirou, procurando acalmar a pulsação que ainda se mantinha acelerada. Uma adolescente! Pareço mesmo uma adolescente! Então, reconheceu o óbvio. Ele não viria. E se apareceu e não me viu? Só brincou quando disse que vinha e … Sentiu-se uma tola e fechou os olhos desejando sumir.   

─ Lia?

Ela sobressaltou-se com a voz que lhe chegava aos ouvidos desatentos. Abriu os olhos, visualizando o recorte de uma figura ao seu lado. Alguém abaixado, tentando não atrapalhar os outros presentes. Leonardo…Só pode ser ele!

Suspirou, entre aliviada e aflita. Sem pensar, aceitou o apoio da mão estendida e se levantou da poltrona. Deixou-se conduzir pelo pequeno corredor até o destino demarcado. 

─ Que bom que você veio. ─ ele disse baixo, lábios rentes ao ouvido, esperando que ela o ouvisse, apesar do volume da música.

Lia só balançou a cabeça e sorriu, camuflando o próprio constrangimento sob a penumbra mais do que oportuna. Notou quando ele se desfez dos óculos, guardando-os fora dos limites dos movimentos. Não precisaria deles para enxergar o que viria. Já tinham previsto os primeiros gestos, durante as longas conversas que atravessaram madrugadas. O jogo começava naquele instante, ali, sem qualquer máscara ou rede de proteção. Saltariam os dois. Juntos.   

Um facho de luz escapou da tela, iluminando os rostos por segundos. Lia voltou os olhos para ele, pretendendo que se refletisse acolhida. Ele sorriu, mantendo a mão sobre o braço dela, como se buscasse o reconhecimento imediato, sem ousar se desprender daquele contato.   

Estavam próximos o bastante para serem notados pelos demais. Alguns olhos se desviavam da tela, curiosos, em direção aos dois. Eles não se importaram com aquilo. Tinham as mãos estendidas, acolhidas, ungidas por óleos imaginários. Leo seguia um ritual até então desconhecido, em secreta hipnose. Passava os dedos pela pele recém-descoberta, negando-se a desapegar, sem querer escapar ao apelo dos próprios sentidos. 

O tato revelava-se natural no deslizar pelo braço coberto por uma leve penugem que Leo imaginava dourada. Pressentia a pele salpicada por uma constelação de pequenas sardas que se estenderiam pelos ombros e colo. Desejou experimentar aquela maciez com os lábios, sorvendo o perfume que se desprendia em leve torpor. Conteve-se. Só mais um pouco… 

Na impossibilidade de abraços, pois o vão entre as poltronas delimitava avanços, deixaram as palmas das mãos abrigarem mistérios, misturando linhas que aos poucos se completavam. Feita a apresentação informal, trocaram delicadezas, em sintonia com a luz oscilante. 

Lia sentiu o calor do hálito dele em contato com o seu rosto. Agora me beija! Não esperava nada muito inocente, pois já haviam se despido de qualquer pudor. O que restava era o mistério do sabor, do toque úmido, do deslizar de línguas e saliva. Ainda não.  

A luz furtiva, rara e inexata testemunha, vez ou outra, banhava os perfis, e eles então podiam se decifrar por segundos. Sorriam, encantados. Talvez ela fosse assim mesmo: iluminada, parte estrela; e ele, incandescente, resquício de um relâmpago. Dividiam a mesma febre, cientes da atração que os dominava, e nada mais precisava ser dito. Ardiam.  

Lia sentiu o roçar da barba rente, sem chegar a arranhar. Satisfazia-se com a companhia, desfrutando de uma estranha e deliciosa cumplicidade. Aquele era o momento prometido, a jogada mais arriscada. É loucura! Tão bom enlouquecer!  

Ele a puxou para perto, deslizando as mãos nos cabelos fartos e macios. Pôde sentir o perfume suave que recobria os fios agora entrelaçados em seus dedos. Ela não oferecia resistência, seguindo o mesmo fluxo do instinto. Quis ir além. Um leve tremor prescindiu o avanço dos lábios pela nuca, dedos afastando a camisa da pele. Invasora! Lia sussurrou algo, talvez censurável, e beijou bem no limite do pescoço com a orelha, demorando-se ali com um prazer quase sádico. O gemido sufocado, mas ainda assim audível, a fez rir.  

Leonardo ajeitou-se na cadeira, como se estivesse desconfortável. Lia temeu ter ousado demais e procurou se afastar um pouco, muito pouco, pois ele logo a puxou de volta. Ela entendeu o jogo. Agora espere! Decidiu provocá-lo com uma pausa bem no alto da montanha-russa de sensações. 

─ E o filme? ─ ela sussurrou 

─ Que filme? ─ perguntou ele, segurando-a nos seus braços, restaurando o fluxo de devaneios.  

O filme perdia-se como mero pano de fundo, sem qualquer significado para eles. Os outros ali, senhoras de idade incerta e senhores já aposentados, permaneciam quase imóveis, quebrando o silêncio com o desembrulhar de balas. De vez em quando, o casal recebia um olhar censurador, que logo se desviava para a tela, retirando-se em psius mudos. 

Lia e Leo em nenhum momento haviam predeterminado quais seriam os limites, o antes, muito menos o depois. Era como se soubessem possuir uma única chance: aquele encontro. Por semanas, tinham conversado como misteriosos cúmplices, elaborando tramas sem aparente sentido. Diziam ser a dupla perfeita: o promissor cineasta e a escritora amadora. Mas até que ponto aquilo era real?  

Entretidos com o particular enredo, não se incomodaram com os flashes sucessivos produzidos pelo desenrolar do filme. Viviam uma experiência à parte, imunes a qualquer censura. Deixaram os compassos tocarem espaço e tempo, sem pausas para abstrações. Fosse quem fosse, ela estava ali. E ele, o desconhecido personagem, também permanecia no jogo. Sem domínio ou trégua. Ambos repletos de suposições que lhes acariciavam a pele e despertavam novos desejos.

Revezavam-se em instintivo sincronismo, cobrindo todo espaço livre de tecido com dedos e lábios, tentando reconhecer o que já suspeitavam encontrar um no outro. Esbarravam provocações, aproximando-se cada vez mais as bocas, em desafio mútuo. Era quase dor a espera. Cederiam a qualquer momento. Mas ainda não.

Após minutos de muda resistência, deixaram-se inundar por luzes coloridas, que já não sabiam de onde vinham, se da tela ou deles. Refletidos nas paredes, os sentidos derretiam-se sem pressa de se recompor. Argumentos foram silenciados boca a boca. O apreciar da descoberta, multiplicando sensações impensáveis. Tudo agora ganhava um significado especial.

Todas as dúvidas desapareceram, cessaram as provocações, desmanchando-se em lava incandescente sobre qualquer raciocínio. O beijo, o primeiro, transformou-se em outros tantos, que se precipitaram sedentos. Um mergulho seguiu o outro, ainda mais profundo, misturando sabores, odores, todos os humores da conquista. Não tem como o beijo não ser bom, ele havia dito. Às vezes, a química não funciona, alertara Lia. Funcionou! 

Ela fechou os olhos e ele beijou-lhe as pálpebras, soprando em cada uma, pedidos clandestinos. Deslizou uma das mãos até encontrar o tecido macio da saia. Em suave movimento de vaivém, alcançou o joelho e dedilhou a carne desnuda sem, contudo, se permitir subir muito além. Lia pôde sentir a hesitação dele e aprovou a reserva. Cedo demais para isso. Ou tarde demais para me salvar?

Já tão acostumados à escuridão, supunham-se protegidos, imunes a tudo mais que acontecia ao redor. Lia, incentivada pelos beijos, escorregou a mão pelo pescoço de Leo, conseguindo alcançar os pelos que escapavam mais abaixo… Deixou-se entreter com o leve enroscar, o atrito aumentando entre os dedos. Voltou ao pescoço, à boca, tateando a nuca e terminou por mordiscar a ponta da orelha. Escutou novo gemido, entredentes, camuflado sob a respiração densa, profunda, que buscava ar entre chamas. 

Os corpos, ainda impossibilitados de verdadeiro enlace, exibiam lenta coreografia orquestrada pelo crescente desejo. O raciocínio mantinha-se à parte, em privado retiro. Trancando gemidos, embriagados com palavras não ditas, deixaram-se aquietar pela promessa de uma completude que a partir dali se anunciava provável. Muito provável. 

De repente, o susto. A incontestável passagem do tempo puxando-se para fora de si mesmos. Voltaram a ter os sentidos domesticados pela insistente realidade. 

─ Já? ─ ele deixou escapar a decepção na voz. 

Os primeiros créditos do filme rolavam na tela, e a movimentação ao redor denunciava o fim do espetáculo. A crescente luz os despertava de um sono particular.  Flashes espalhavam-se pelo teto, que ganhava outra dimensão. Não era o céu. Ou era? Levantaram, disfarçando a agitação que ainda percorria seus corpos. Saíram de mãos dadas, ela carregando a bolsa e ele uma mochila. 

Os poucos passos seguiram acompanhados de cuidados velados. Nenhum dos dois tinha pressa alguma. Ao contrário, temiam a veloz sequência de atos, já pressentindo o inevitável craquelar da despedida. Alcançaram a calçada, deixando-se margear pelas pessoas que entravam e saíam do cinema. 

Já não era mais dia. O céu preparava-se para a noite que caia em simulado desmaio. Cores entre o cinza e o dourado tingiam nuvens, em volta de uma lua que despontava envaidecida.   

Por um momento, soltaram as mãos. Ele remexeu na mochila, alcançando os óculos, agora tão necessários. Ela fingiu procurar algo na bolsa, somente para manter as mãos ocupadas, evitando a sensação de vazio abandono. 

Ele pôs os óculos e sorriu. Ela sorriu também. E tudo parou. As sombras ganharam cores vivas, gestos valsaram em câmera lenta, deixando livres as sensações ainda pulsantes, agora multiplicadas. Olharam-se, satisfeitos com a aguardada revelação.  

Ele, não muito alto, nem magro, nem gordo. Cabelos castanhos quase nos ombros, óculos equilibrados sobre o nariz ligeiramente adunco.  Timidez estampada na pele clara, um rosto que refletiria juventude sob qualquer luz. Vinte e poucos anos, talvez um pouco mais. Trinta, se tanto. Leo.

Ela, mais baixa do que ele, centímetros. Talvez mais velha do que ele, anos. Cabelos ondulados, tom acobreado. Ruiva. Olhos verdes. E o sorriso mais aberto do que a noite. Lia. 

 Se tivessem combinado algoritmos e se submetido a outros cálculos da prudência, jamais teriam se conhecido. Sabiam-se personagens de cenários diferentes, com papéis desencontrados. Mas lá estavam os dois, isolados em um universo repleto de possibilidades. 

Olharam-se com mais atenção como se buscassem outra alternativa que não fosse a erosão do adeus. Em segredo, transferiam palavras e sentimentos em faíscas de aflição. Não quero ir, pensou ela. Não vá, pediu o olhar dele.

─ Gostou do filme? ─ ela perguntou brincando, rindo de si mesma. 

─ Eu já tinha visto. ─ Leo piscou, provocando-a. ─ É ótimo…

─ Ah, você… ─ Fingiu quase zanga, aproximando-se dele. 

O insistente querer. As mãos próximas, os lábios abrindo-se sem permissão, o desejo de preencher cada poro, cada ponto que ainda não recebera luz. Mais uma pausa, o silêncio tramando se instalar entre eles. Sem sucesso. 

─ O filme que vai passar na quarta recebeu ótima crítica… ─ ele tratou de dizer antes que as palavras escavassem novos abismos ─ Quem sabe, podemos…

Ela sorriu, desfazendo uma nuvem de negativas que flutuava sobre sua cabeça. Leo ajeitou os óculos, tossiu e a olhou com medo de perder alguma reação ou resposta. 

─ Filme iraniano… ─ acrescentou inseguro. 

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a chuva chegou mansa. Lia encostou a cabeça no ombro dele, tentando fugir das gotas mais apressadas. Sentiu novamente a embriaguez sem álcool, promessa de algo mais. Precisamos de mais. 

─ Tenho certeza de que deve ser ótimo. ─ Foi tudo o que ela disse, já se afastando. 

As mãos dela deslizaram pelos braços dele, deslocando o calor que os unia. Até as mãos se tocarem em um último laço, abraço, acaso. 

Seguiu-se o temido epílogo. Os passos dela, mais lentos que o pretendido. A virada de cabeça só para checar se ele ainda lhe pousava os olhos. O sorriso satisfeito da confirmação. O aceno tímido dos dois. A vontade de voltar, de se deixar ficar.   

─ Nos vemos na quarta? ─ ele perguntou alto o suficiente para se fazer ouvir. 

Ela levantou a mão e acenou positivamente, esculpindo uma promessa com os lábios. Sim. Leo sorriu, enfiando as mãos nos bolsos e começou a assobiar uma canção que até então desconhecia. Alegria.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.