EntreContos

Detox Literário.

As Lobas do Homem (Francisco Terra)

Lá estava ela, final e verdadeiramente despida, uma versão viva da Menina Má. A pele orvalhada – e o suor que lhe emanava dos poros era ameno em volume, mas trazia ainda um tanto do cheiro de laboratório. Os cílios impregnados, pesados. O rímel escorrido no canto dos olhos. A base viscosa nas faces e o batom já quase ausente dos lábios preenchidos com toxina botulínica, vermelhos sim, mas antes pelas mordidas e beijos de há pouco. Os cabelos tingidos, molhados de suor, aderiam à fronte, enquanto as carnes mais frouxas dos braços destoavam das nádegas e seios artificialmente rijos. Uma indisfarçável sombra ocupava o rosto usualmente habitado pelo sorriso zombeteiro, e mesmo seus dentes já não eram tão brancos. Teria me parecido menos bonita, então? Nem um pouco. A intimidade lhe potencializava a beleza, visto que assim também se fazia mais tangível. 

Ao levantar-se, procurando as peças íntimas, pode sentir meu olhar pesando-lhe sobre os quadris. Apesar de tudo, que bom ter nascido brasileira! Gracejei, e ela então, ignorando-me, refugiou-se no banheiro. Por fim, um espelho – modesto espelho de homem, assentado sobre azulejos baratos – e nele, brevemente Ariane encarou a si mesma, suada e em desalinho, sem vestido de grife ou lingerie importada, trajando tão somente a escumilha dos anos. 

Previamente, e sem que ela soubesse, eu havia visto, numa rede social, algumas fotos da fase imediatamente anterior ao divórcio – mais gorda, menos cuidada, claramente deprimida – e ocorreu-me que, apesar de inicialmente atraído por seu brilho, seria em seu ocaso que eu verdadeiramente a amaria. Sublime e decadente, se não a tivesse conhecido de forma tão íntima, decerto a veria assim agora, em pé na fila juntamente com a amiga Caroline. Por um instante, nossos olhares se cruzam e tenho a impressão de ser novamente testado pelo sorriso ambíguo que por anos me corroeu o juízo. 

Como um mantra, os suspiros e gemidos mal contidos dela ainda ecoavam no quarto. Ali também eu a aguardava. Apesar da boca esquiva em recusa ao beijo que antevira o gozo, enfim – mas não por muito tempo – esse pobre diabo se sentiu por cima naquela relação coxa. A lacuna cordial – nem átrio, nem ventrículo – provisoriamente preenchida por um sopro sem vazão. 

É claro que, mesmo trôpego, eu tinha consciência da minha estupidez. Entretanto, quem já viveu situação análoga haverá de concordar que não me restava saída, exceto aguardar que o encanto se quebrasse por si só. Afinal, não é o que acontece na imensa maioria dos casos, o objeto da nossa paixão lentamente esmaecendo até algum tom ocre muito aquém das nossas projeções? 

Cortejei-a por semanas. Sagaz, jamais pleiteei o sexo, e se finalmente Ariane acabou em minha cama, foi antes por iniciativa dela própria. Apesar de pobre, inteligente e culto – soube que certa vez dissera sobre mim. Um poeta, consequentemente um tolo, mostrei-me atencioso e bom ouvinte e, por mais que o negasse, um romântico. A luxúria, meus amigos, é apenas um vírus. O amor, hipocondria facilmente contestável. Mas a paixão… ah, ainda que por vezes lactente, a paixão é crônica. Assemelha-se a uma bactéria; mutante, inextinguível e, sobretudo, isenta de explicações. 

Apaixonado, não tardei a lhe dedicar os poemas. Encurralei-a – isso eu sempre soube fazer quando devidamente motivado. E a vaidosa Ariane, o que poderia ter feito? Bem, ela poderia ter sido honesta e me dado um basta no devido tempo, mas não era de se esperar que, àquela altura da vida, a minha Lily conseguisse simplesmente abrir mão do cortejo e lisonjeios que tão bem lhe faziam ao ego. Ademais, nem ela, nem qualquer outra, poderia imaginar que, tal qual Lhosa, eu as imortalizaria num livro.

Papel higiênico – não havia lenços umedecidos -, retirou o restante da maquiagem. Um banho morno seria ótimo, mas meu chuveiro – elétrico – a desestimulou. Restaram-lhe a água fria, um sabonete vulgar e mais papel higiênico. Restituiu a maquiagem com aquela destreza que deixa a nós homens perplexos. Passou a escova nos cabelos e desenrugou o vestido alisando-o com as mãos. Um perfume, e pronto. Terminara, mas não queria sair. Abaixou a tampa do vaso, forrou-a com uma toalha e se sentou. Pegou seu telefone.

O carro chegou. Anunciou-me, finalmente abrindo a porta do banheiro. Sim, claro que pedira um carro, ou teria eu imaginado que ela dormiria comigo? Ofereci-me para levá-la – de fato, em meu devaneio idílico, queria mesmo era prolongar o prazer da sua companhia. Recusou, não tinha cabimento atravessar a cidade àquela hora e voltar só. Ademais, o vinho… Um toque de lábios – simples formalidade – e se foi sem olhar para trás. Não era necessário virar-se para ter a certeza de que, mesmerizado pela malemolência de suas ancas, eu a seguiria com meus olhos parvos – e essa ideia a teria levado a sorrir. 

Resignado pela convicção – pela enésima vez ratificada – de que o sexo alivia, mas não aplaca a penúria do espírito, e ainda assim pensando que os momentos mais felizes da vida merecem registros menos impessoais que fotos ou vídeos, ocorreu-me tomar logo nota das minhas considerações, mas sob o torpor do gozo – que por horas ainda reverberaria em meu espírito -, adormeci logo.

O que eu gosto em ti, Chico, é que com você consigo ter conversas de conteúdo. – Sim, era verdade. Era mais que isso, a mim Ariane confessava sentir-se mal por ter sido ríspida com uma subalterna – e eu contemporizava, aliviando sua consciência. Chico, será que eu sou má? – Sim, ela era. Certa vez, de algum ponto na costa mediterrânea, chamou-me de madrugada. Chorava, pois a filha havia terminado com o namorado e, do Rio, também lhe ligara chorando. Chico, às vezes acho que não sou uma boa mãe… – Não, ela provavelmente não era. 

Além das confidências, comigo ela conseguia, por alguns minutos, emergir das profundezas de seu mundinho fútil e apreciar uma peça literária ou compartilhar alguma reflexão ou crítica, social, ideológica e até mesmo espiritual. Apesar disso, sem nenhuma empatia, volta e meia dizia-me despudoramente coisas como, “só continuo te vendo porque uma vez por semana você me faz suar”; ou ainda, “minhas saudades não eram de você, mas do seu pau”. Enfim, Annie Lennox, nos 90, já me havia prevenido: “Some of them want to use you; some of them want to get used by you…” Mesmo jovem, eu deveria ter percebido logo que ela falava das mulheres.

O que Ariane nunca soube é que, tecnicamente, para mim nem era tão bom. Explico-lhes, no que tange ao sexo, na maioria dos casos, o casamento precoce não agrega a elas a generosidade que na cama tanto apreciamos. Pelo contrário, seus repertórios tendem a ser penosamente sumários. Culpa dos ex-maridos, diria eu que, de minha parte, sempre me esforcei por lhes reparar o erro. 

A esta altura, vocês talvez estejam a concluir erroneamente a respeito das razões pelas quais me estendo ao discorrer sobre Ariane. Justifico-me, à época desses escritos ela havia sido a última. Não, minhas saudades também já não são dela, mas da chama que então me consumia. Camões errara, não é amor, mas paixão, o tal “fogo que arde sem se ver”. E então, eu teria abdicado de mil paixões em vida pelo fastio do amor eterno. Porém, tal qual a vocês, Ariane também me enfastiou e eu compreendi, não era a ela, tão pouco por ela, mas ao que, e pelo, que ela despertava em mim. 

Francisco Terra! Posso lhe dar um abraço? Diz-me sorridente uma ruiva de, no máximo, vinte anos. Levanto-me para que ela, sem dar um passo à frente, projete os quadris e, do topo de seus saltos quinze – tão inapropriados quanto seu decote – incline o tronco até pressionar os seios contra o meu peito. Tentando não parecer constrangido, repouso suavemente meu antebraço sobre suas costas, ao que ela – mais alta que eu – puxa-me contra o busto, obrigando-me a inalar seu perfume. E a dedicatória, vai para quem? Pergunto, desvencilhando-me do que bem poderia ser um golpe de luta greco-romana. 

Sabrina. Juntamente com seu número, por favor. Responde, coquete, estendo-me o exemplar. Rabisco a contracapa e lhe devolvo o livro. Ela o abre e, conferindo, emite um gritinho. Obrigada, Chico! Diz para que todos ouçam. E, repetindo o movimento, curva-se mais uma vez, não para me abraçar, mas – para a inveja dos homens e contrariedade geral das mulheres presentes – com os lábios pintados tocar os meus por uma fração de segundos, arrematando assim sua pequena cena. Mais tarde, Sabrina, bem como outras jovens leitoras, descobrirá que aquele número não é meu, mas de Eliana, minha sisuda editora.

Interrompo a sessão para aceitar o café que me é oferecido. Enquanto o beberico, perscruto o salão. Na fila, também identifico Isadora e Vini. O menino costumava gostar muito de mim, talvez mais que a mãe – no mínimo, por razões mais nobres. Ao me flagrar olhando para eles, o jovem Vinícius acena. Isa, por sua vez, finge folhar o livro – será que ela já leu algum outro? Será que ao menos esse ela realmente leu?  Ocorre-me então que o rapazote, sim – como está grande! -, certamente o terá lido. Uma ruga emerge em minha testa. E se, durante a leitura, ele tiver reconhecido a mãe? Bem, ainda que tenha, parece crescido o bastante agora para não tocar no assunto. Aliás – penso comigo – Isadora também está bem maior – e, sadicamente, esta constatação me faz rir. 

Ela “tinha” dezoito anos menos que eu e as covinhas faziam-na parecer ainda mais nova. Hoje ninguém diria que a diferença é tamanha, mas então isso me causava indisfarçável inquietação. Virginiana, e como tal, voluptuosa. Porém, ansiosa e inepta. Eu sou boa de cama, não sou, Chico? Isa perguntava sempre, depois de acabar comigo. Não, também não era, e a necessidade de confirmação só fazia evidenciar sua insegurança. Enfim, era jovem e bela, o tipo que todo homem gosta de exibir. Ardorosa e sempre disposta, encontrou em mim uma fonte longeva e esta foi a minha ruína.

Certa noite, minutos depois de terminarmos – ignorante do próprio período refratário -, eu achei que poderia ter mais. Talvez pressentisse que fisicamente aquela mulher estava acima dos meus padrões e quisesse aproveitar tanto quanto possível o que, decerto, não duraria muito; ou ainda, porque a libido masculina por vezes não se aquieta, mesmo quando o corpo claramente já beijou a lona. Em suma, mal recomeçamos e, subitamente e sem advertência prévia, meu companheiro de guerra deixou-me miseravelmente na mão. 

Não. Não riam! Mais cedo ou mais tarde, nos acontece a todos. A princípio pontualmente e então, caso insistamos em não reavaliar nossas possibilidades, com frequência catastrófica. De fato, recordo ter me ocorrido antes durante o casamento, por consequência do álcool, estresse, cansaço físico ou tédio mesmo… não sei, mas então, ninguém se importava, pois poderíamos retomar a qualquer momento. Isadora, no entanto, se importou e, muito pior, ficou furiosa, tendo me censurado violentamente – por quê uma mulher reage assim, senão por se imaginar corresponsável pelo fracasso do parceiro? Abreviando, nunca mais consegui com ela.

E aí vocês subtendem que com outras, sim. É verdade, mas nem por isso pensem que foi fácil. Um bom escritor lhes suscitaria empatia ao contar o drama de um homem nessa situação, mas eu sou apenas um preguiçoso com sorte e, narrando na primeira pessoa, não tenho disposição para lamúrias. Basta lhes fazer saber que, desesperado, busquei ajuda profissional para o que, segundo meu urologista, era somente um bloqueio psicológico. A jovem psicóloga do meu plano de saúde barato também não foi lá de grande ajuda. Pelo contrário, por, às vezes, durante as sessões, eu perder o fio da meada ao fantasiar com ela vestindo unicamente o jaleco branco, imaginou que sofresse de algum distúrbio de atenção. Enfim, a mulher que me salvou foi outra.

Não na fila, mas circulando entre as estantes, minha redentora também está por aqui nessa tarde. Conheci-a poucas semanas depois do desastre com Isadora. Ainda que isso não atenuasse meu desespero, eu tinha certeza que era mesmo só um bloqueio e que muito em breve meu amigo e eu estaríamos novamente por aí, errando noite adentro. Ademais, conhecer outras mulheres é a tábua de salvação preferida por nove de cada dez homens combalidos por uma paixão não curada – o décimo é geralmente um alcoólatra. Eventualmente, eu flertava com ela e algumas outras – era importante ter alguém para ratificar Rafaela, a psicóloga, tão logo ela me desse alta, mas Laís se antecipou. 

Ainda que outros caras possam dizer que isso é trivial, e enquanto muitas mulheres alegarão que é tudo de que precisamos, quero crer que para um homem não há nada mais afrodisíaco do que saber-se alvo do desejo de uma bela representante do sexo oposto. E então, Laís foi surpreendentemente explícita. 

Sério que você já vai me deixar em casa? Ela protestou com justiça, afinal nosso primeiro encontro não tardou a aquecer e evoluir – se é que se pode chamar evolução – para uns bons amassos. Ainda é cedo e nós bem poderíamos ir para algum lugar mais reservado. Sussurrou, claramente excitada. Respondi-lhe que poder nós até poderíamos, porém… e, resumidamente e sem qualquer pudor, contei-lhe meu então recente e inconcluso trauma com Isadora. Complementei advertindo-a de que havia chances de me acontecer novamente e que, neste caso, o risco seria todo dela. 

Felizmente não aconteceu com Laís e nem depois, com nenhuma outra. Após agradecê-la com um presente, ela revelou não ter acreditado em mim na ocasião. Achou que fazia gênero ou coisa assim. Aceitou minha lembrancinha, mas preferiu fazer melhor uso da minha gratidão, levando-me a admitir que sim, com o ego também se goza. 

Curado? Não sei se posso afirmá-lo. Talvez não de Isadora, mas também nem me interessa saber. Não que me ressinta, apenas me livrei do encanto. Lembro dela como uma garota inexperiente, não a culpo. Restou algum carinho. Já por Ariane, nem isso. A futilidade certamente me é mais difícil perdoar que a inépcia no trato com outros seres humanos. Não estou feliz – Isadora alegou ao me dar o fora. Ela ao menos foi assertiva.

Pauso para uma água e as sondo de soslaio, a alcateia agora inevitavelmente próxima. Quantas darão vazão ao ressentimento ou despeito? Alguma se mostrará verdadeiramente feliz pelo meu sucesso? Qual delas, seduzida pela fama, cinicamente se insinuará para mim? 

Houve, noutros tempos, outras mulheres. Quiçá, igualmente haverá outros livros e neles, além das respostas, possivelmente Eliza, Maria, Eduarda… a tradutora francesa que me visita quinzenalmente ou a repórter que me aguarda para a entrevista. Com boa ventura, uma delas inusitada, apaziguadora, eterna, a última de todas. Mas, antes preciso encará-las, às lobas do homem, por meio das letras, conjuradas do meu passado.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.