EntreContos

Detox Literário.

Arrobobô (Sete Cais)

“De falar sobre a vida

Eu gosto”.

 

I

Foi o primeiro a aparecer.

Abancou-se sobre o tronco caído de um dos coqueirais que arrodeavam a praia e mirou a mesmice de todas as giras: as velas dispostas em círculo, os alguidares e os tambores fincados no chão como efígies de madeira e couro curtido. Pouco a pouco, outras pessoas passaram a se achegar também. Foram se ajeitando como puderam e, espremendo-se entre si, abriram caminho para a entrada de Mãe Estela e o cortejo de seus filhos-de-santo. 

 

“Iemanjá

É Dona Janaína que vem”.

 

Assim que o batucajé começou, Orungã observou as mulheres que saravavam no centro do ilê. Atentou-se a cada gesto, ao mais insuspeito fremir dos lábios, tentando antecipar qualquer sinal que denunciasse a chegada de Iemanjá. 

 

“Venha comigo até o mar

Para ouvir Odoyá”.

 

No instante em que baixou, a orixá dos mares dançou a dança das águas. Ondeou no ar, fez dos braços correntes marinhas e da mão esquerda um leque. 

“Odô-fe-iaba!”

Saudou Mãe Estela fazendo com que todas as cabeças se voltassem para baixo em reverência àquela que tinha chegado; ela que revolvia os oceanos, que chorava e sorria num só tempo por ser mãe e amante. Ela que tinha cinco formas, cinco nomes que somente aqueles que haviam nascido à beira-mar sabiam de cor:  

 

“Iemanjá e Dona Maria…”

 

Orungã, como sempre fizera, dissimulou. Então, certificando-se de que os olhares continuavam voltados para o chão, ergueu os seus e a encarou bem de frente. 

 

“Janaína…”

 

O desejo ardeu. E, enquanto muitos pediam dias de bem-aventurança, Orungã mentalizava de olhos fechados mil maneiras de possuir Iemanjá. Imaginava poder penetrá-la, apertar aqueles seios que agora se agitavam conforme ela volteava as ancas de sua mucama. Sentir o gosto de sal e sortilégio. 

 

“Inaê…”

 

Quando deu por si, notou que ambas as mãos estavam por dentro da bermuda. Despertou o olhar e topou com os olhos de Mãe Estela fulminando-o. Envergonhado, sem nem atrever-se a fazer conjecturas, desembestou na noite.  

 

“Princesa de Aiocá”.

 

Atravessou a prainha, forçando o fôlego de seus treze anos até alcançar a segurança do saveiro ancorado no cais.

– Tu acaba lascado, Orungã – admoestou a si mesmo.

Acendeu um cigarro. Depois, reconhecendo que ninguém o havia seguido, remontou a fantasia de um dia possuir Iemanjá. Porém, dessa vez fundamentou o desejo à luz das lendas que o seu avô costumava lhe contar. Buscou os contos do mar que conhecia como os do Canoeiro Rufino e do Afogado Mais Bonito de Pontal do Pilar e percebeu que eles sempre findavam com o mesmo desfecho: o de que Iemanjá só se deitava com aqueles que tinham se afogado em suas águas. 

– Menos Oxu…

O nome saiu quase que sem querer. Sorriu. Deu mais um catranco no cigarro e pôs-se a desfiar o abc da vida daquele lendário pescador que, de tanta certeza inconsciente que tinha dele, fora dele mesmo que acabara se esquecendo. 

– Ele é quem deve ter amado Iemanjá – ponderou e, como se uma súbita certeza  o tivesse acometido, concluiu: 

– Aposto que deve de tá é vivo para um dia voltar e contar sua façanha.

Afinal, não existia dúvida de que Oxu ainda vivia, pois até o próprio Mestre Tainha cansara de afiançar que vira o seu saveiro de nome “Arco-íris” apostando corrida contra a tempestade após dar a ela vento e meio de vantagem. 

– Oxu e Iemanjá – murmurou Orungã moldando ambos na imaginação. Teve uma ereção. Viu-os novamente, os dois estirados numa cama de coral, Oxu entrando nela como ela entrava nas negras nas noites de macumba. 

– Iemanjá…

Abaixou a bermuda e se tocou. Tentou reter o prazer, mas não conseguiu e acabou jogando tudo nas águas. Cansado, estirou-se no tombadilho e dormiu profundamente.

 

II

O saveiro que se aproximava aparentava ter o mesmo fabrico das embarcações feitas no mal-ajambrado estaleiro daquele porto. Entretanto, isso era demasiado estranho, impossível mesmo, já que nenhum barco havia saído para o mar nas últimas semanas ou muito menos estava sendo aguardado do torna viagem. 

– Será Chico Tristeza? – indagou um dos pescadores.

– Chico tá pra lá de Mocangüê – argumentou Damásio, a autoridade do lugar. – Não poder ser ele. 

– Vôtes! E quem é? 

– Quem é eu não sei – falou Orungã, aproximando-se. – Mas o cabra que tá detrás do leme entende o seu bocado. Tão vendo como êvem ligeiro?

Alternaram os olhares do saveiro para Orungã, de Orungã para o saveiro, espantados. De onde estavam, ainda mais contra a luz matutina, era impossível para qualquer um antecipar a velocidade do barco. Não para Orungã. Ele que agora tinha quinze anos, mas que ninguém naquele arraial lhe dava menos que trinta por conta da sisudez de seu rosto.

– Vai arribar! – berrou alguém no momento em que o saveiro fundeou. 

– Olhem…

– Tá saindo do barco…

– Arrepare no tamanho desse homem! – apontou um velhaco na multidão que se acotovelava em volta. 

– Que homem o quê!?

– Oxe!?

– Não vê que é uma cumadê?!

Orungã arregalou os olhos. Aquela mulher que desembarcara não se parecia com nenhuma outra que ele jamais conhecera. Era alta, prodigiosamente mais alta que a maioria das pessoas dali, de pele retinta, carapinha curta e porte de pinho-de-riga. Aparentava ter já os seus quarenta anos, mas os músculos nodosos que se sobressaiam por todo o seu corpo conforme ela caminhava davam-lhe um contraste de incrível vivacidade; e até mesmo esse caminhar diferia das outras mulheres, pois as pernas gingavam à maneira dos marítimos e os pés pisavam como se fossem mais afeitos ao chão do mar do que a terra firme. 

– Faça o favor de dizer quem é – disse Damásio, barrando o caminho da recém-chegada.

– Me chamo Marê…

– E arribou por causo de quê? 

– Sou irmã de Oxu! 

O nome inesperado atingiu Orungã em cheio.

Irmã de Oxu!

Repetiu consigo aquilo que nenhuma história havia lhe mencionado. Tornou a olhar na direção do saveiro que trouxera Marê e, sem saber explicar por qual razão fazia, correu até lá e inspecionou as letras desbotadas na lateral do casco:

Arco-íris! – gritou num misto de espanto e euforia, fazendo com que todas as bocas repetissem uma única frase:

– É o barco de Oxu!

No entanto, alheio a toda excitação, Damásio permanecia impassível. Proeiro escolado na lei do cais, não desconfiara de que fosse realmente verdade o parentesco entre os dois. Damásio sabia que um saveiro era um bem sagrado na vida de um pescador: a única herança que um homem deixava aos familiares quando morria. Porém, embora reconhecesse que Marê herdara o barco, não conseguia apartar a estranha sensação de familiaridade que aquela mulher causava. 

– E o que a irmã de Oxu êveio fazer no porto que um dia foi de seu irmão?

– Oxu… antes de morrer… Pediu que eu arribasse para ver Antúrio. Ele ainda mora aqui?

Um silêncio de luto abateu-se sobre o cais.

– Antúrio… – respondeu Damásio com evidente tristeza – Botou fogo na própria casa e nele mesmo. Faz tempo isso, uns onze anos quase. O que sobrou ainda tá lá – indicou o casebre semidestruído no canto da praia, à direita do farol. 

– Morreu… – murmurou Marê, atônita.

– Infelizmente. Seu irmão e ele eram muito amigados, não eram?

– Morreu… – tornou a dizer, afastando-se na direção do local indicado. 

E a Orungã pareceu-lhe que uma luz havia morrido naqueles olhos. A mesma luz que sempre vira desaparecer dos amantes no cais quando recebiam a notícia de que os amores haviam ficado nas águas de Janaína ou no desgosto de uma vida.

 

III

Não houve cantoria na tarde em que os pescadores arribaram com Chico Tristeza nos ombros. 

– Ele tinha bom peito para cantar na puxada – comentaram uns.

– A mulher dele tá prenha – cochicharam outros. 

– Vá em paz – apregoaram todos e enterraram-no no mesmo cemitério que haveriam de enterrar uns aos outros. Depois, retornaram em silêncio pelo caminho-de-lá-vai-um. 

Porém, Orungã preferiu voltar sozinho. Arrastando pés e pensamentos no dia em que também seria encontrado afogado em algum canto de praia desse mundo, chegou no arraial quase que de noitinha acompanhado por uma promessa de chuva que agitava as velas das embarcações.   

– Ninguém no cais? Devem de tá no Caravelas bebendo a morte de Chico – deduziu.

De repente, a luz de um fifó bruxuleando no mastro de um dos saveiros ancorados lhe chamou a atenção. 

– Marê – disse, notando que o barco era o Arco-íris.

A pedido da curiosidade, enveredou para lá. Se aproximou sorrateiramente, receoso dos humores daquela mulher que, desde o dia em que soubera do suicídio de Antúrio, mantinha-se sempre embriagada. Esgueirou o corpo pelo tombadilho até ficar debaixo da janela da cabine; então, levantando a cabeça, observou o interior. Ali, em meio àqueles cinco passos de nada, viu redes-de-arrasto emboladas, pedaços de cordame, tonéis e tonéis de querosene nos cantos, e, dependurados nas paredes de madeira, inúmeros retratos. 

Intrigado, mirou atentamente as imagens: haviam algumas fotografias de homens se abraçando, panoramas de paisagens desconhecidas, reproduções que eternizavam uma ternura esquisita entre dois rapazes e um desenho emoldurado de um moreno que terminava com metade do rosto encoberto por uma penca de rosas.

– Ela fez isso? – indagou-se, olhando para a mulher que roncava em meio à sujeira e garrafas vazias de cachaça. Nua, tendo apenas o sexo coberto por um lençol puído, Marê irradiava exuberância. Tudo era perfeito; até mesmo aqueles seios de aspecto duro, tão dessemelhantes dos seios das outras mulheres, pareceram belos a Orungã. 

– Linda…

Estava excitado. Brigou com o cinto enquanto as primeiras gotas de chuva caíam sobre o cais, as casas, as praias e a cova de Chico Tristeza. Por fim, quando finalmente conseguiu arriar as calças, se tocou com vontade. E, pela primeira vez em sua vida, chegou até o prazer sem nem precisar pensar em Iemanjá. 

 

IV

A voz de Damásio sacudiu a manhã: 

– Puxem! O xaréu tá se picando!

Os homens faziam força. Entretanto, a rede não se movia.

– Não dá – ofegou um dos pescadores. – Tem pouco cabra…

Era verdade. Cada ano que se passava ficava mais difícil para eles. Poucos homens na terra para a puxada do xaréu e muitos com Iemanjá. 

 – V’ambora! – Damásio incitou-os novamente. Sabia que tinha que continuar, do contrário passariam fome. – Orungã, vá para o final da fila! Puxe de lá. Essa rede vai sair nem…!?

 Uma gargalhada interrompeu sua fala. Imediatamente, os olhares se voltaram àquela zoada e deram com Marê vindo à passos oscilantes. 

– Quero ajudar…

– Você tá bêbada! – falou Damásio. – Não vê que vai atrapalhar? 

– Vou ajudar – respondeu ela, ignorando deliberadamente o aviso. Posicionou-se às costas de Orungã e berrou: 

–S’imbora, frescos! 

Orungã olhou de soslaio, notando-a entesar os músculos para começar a puxada. Assim que sentiu a potência daqueles braços, fez força e avisou os homens para fazerem o mesmo. 

– Tá se movendo! – gritaram, maravilhados. – Tá se movendo.

Marê riu seu riso canalha de bêbada e entoou:

 

“D’onde foi que saí pra ser escravo?

Lá do chão da Catumbela!

Quando foi que o levante foi tramado?

No porão da caravela!

Quem me deu coração de revoltado?

Foi Tereza de Benguela!”

 

Os pescadores deram coro ao cântico e até mesmo Damásio reforçou aquele refrão que, em tempos idos, ouvira apenas na voz de Oxu quando era este quem puxava as redes-de-arrasto: 

 

“Eu quebrei cada elo da corrente

E cada negro virou lugar-tenente

De Zumbi do Quilombo dos Palmares”.

 

Orungã sorriu. Olhou para trás na direção dos olhos de Marê e reconheceu que a amava. Amava o esgar masculino de seu rosto, os seios disformes. Amava aquele riso inédito que se confundia com o seu e era maior que a miséria da vida. Amava até mesmo aquelas cicatrizes estranhas que se destacavam em ambos os seus pulsos.

Estava perdidamente apaixonado por aquela mulher.   

 

V

Procurou por todos os lugares, mas só foi encontrá-la no final da prainha.

Viu que o Arco-íris estava fundeado à beira-do-mar – como se fosse partir imediatamente – e que Marê, recostada num dos coqueirais que pontilhavam o lugar, cantava um canto na noite: 

 

“É doce morrer no mar,

Nas ondas verdes do mar”.

 

Sem dizer nada, esquecendo-se de todas as coisas que queria lhe falar, sentou-se do seu lado. 

– Cabrochinho… – disse a mulher ao sentir sua presença. Olhou-o nos olhos, deu um gole na garrafa de cachaça que trazia nas mãos e falou: 

– Já bebe?

– Hã-ram…

Passou a garrafa para ele. Mantiveram-se assim, observando as ondas que se desmanchavam, escutando na distância o som dos atabaques que anunciavam a cerimônia da Cobra Angorô lá no ilê.

– Eu sempre quis é ser mulher – monologou ela, visivelmente embriagada. – Toda a minha vida quis ser mulher…

Orungã não entendeu, tomou um longo gole e passou a garrafa.

– Já amou alguém, cabrochinho? – indagou Marê após entornar mais, lágrimas começando a se desentocar.

– Sim – respondeu, revezando a bebida. – Amo alguém… 

– Também… – murmurou e, voltando o olhar marejado para Orungã, tornou a perguntar: – O que faria se esse alguém partisse? Se o teu amor tivesse morrido de desgosto por você ter fugido? O que faria, cabrochinho?

– Morreria – disse Orungã. 

E beijou-a. 

– Morreria junto dela… – afirmou convictamente, beijando-a mais uma vez.

Rolaram na areia. Orungã cartografou cada linha daqueles seios com a boca, fazendo-os saltar para fora do vestido na noite carregada de estrelas. Marê arfava e imaginava Antúrio. Rememorava a tarde em que se beijaram pela primeira vez, o amor proibido, o passado em que os homens lhe chamavam por um outro nome.  

– Antúrio – pensava entre beijos e lágrimas. – Eu voltei. 

Orungã ficou por cima. Desvencilhou-se do calção. E, no momento em que tocou o meio das pernas dela, ao sentir o volume ereto que se destacava ali, retraiu-se imediatamente.

– Oxente! – balbuciou, coração descompassado e íris fixas em Marê. – O que é isso, mulher? 

Não houve resposta, apenas a brisa sussurrando nos coqueirais e o som dos atabaques marcando o ritmo de uma canção que agora preenchia tudo: 

 

“É macho 

E também é fêmea

É homem-mulher

Pororoca, arco-íris,

É Oxumarê”.

 

Marê se recompôs. Chegou mais perto de Orungã e colocou a boca no seu sexo ainda endurecido. Ele gemeu, contorceu-se todo com a sucção demorada, sentiu um prazer tão forte que acabou jorrando nos lábios dela. Sem falarem nada, como se já houvessem feito isso milhares de vezes, beijaram-se uma ultima vez e adormeceram estendidos na areia. 

 

VI

Era madrugada alta quando Orungã despertou.

Ficou de pé, a mente em desalinho pela bebida. Ao olhar para os lados, percebeu que estava sozinho. Meneou a cabeça. Caminhou à linha do mar e divisou o saveiro que até então estivera ancorado ganhar distância. Pôs-se a observar a rota que ele fazia, conscientizando-se de que Marê estava partindo para o nunca mais.

– Marê – falou baixinho. 

Então, subitamente, uma coluna de fogo se elevou da embarcação. Chamas brilharam, iluminaram as águas, o vento trazendo um cheiro de querosene queimado no ar.  

– Marê! – berrou Orungã, dobrando os joelhos. – Marê! 

E uma luz se apagou de seus olhos. A mesma luz que desaparecia dos amantes no cais quando recebiam a notícia de que os amores haviam ficado no desgosto de uma vida ou nas águas de Janaína.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.