EntreContos

Detox Literário.

A Hora Certa de Dizer “Eu te Amo” (Gabriela)

 

Gotículas de garoa acumulavam-se na janela do escritório e, vez ou outra, escorriam, sem a menor pressa, desenhando no vidro azulado linhas tão imprecisas e aleatórias quanto os caminhos da vida e distorcendo o mundo de aço e concreto que se estendia até perder de vista lá fora. A chuva fina vidro afora, os bocejos vidro adentro, a apatia, a incontrolável vontade de ir embora, de estar em qualquer lugar exceto ali, estampada em cada semblante, em cada olheira, em cada consulta ao relógio, em cada suspiro. De minha cadeira sem apoio para os braços, a tudo isso eu observava. Era um dia frio e chuvoso, um dia de trabalho numa terça-feira no meio de agosto.

Em outras palavras, era um dia chato pra cacete.

— Dri, você trouxe sombrinha? Empresta? – perguntei à minha vizinha de baia. – Vou ali na Starbucks rapidinho, tá um tédio aqui que só por Deus.

— Ai, Gaby, você vai lá? Traz um descafeinado pra mim?– ela se animou, sacou a sombrinha da bolsa e a pousou na minha mesa.

Só então lembrei que Adriana não tinha muita noção de que certas coisas não combinam com certas pessoas como, por exemplo, guarda-chuvas da Minnie não combinam com ninguém que já tenha ingressado no mercado de trabalho. Seja como for, acho que consegui disfarçar emendando um “brigada, miga” e pegando a sombrinha. Afinal, como dizia meu vô: “a cavalo dado, não se olha os dentes” e, ademais, havia boletos empilhados na minha gaveta, ávidos por serem pagos por quem não gostasse de me ver na rua fazendo cosplay de Mary Poppins do jardim de infância. Então, prendi meu cabelo num coque frouxo e fui à Starbucks.

***

“Nome?”, a atendente da cafeteria fez a pergunta protocolar. “Gabriela”. “Graziela?”. “Gá-bri-é-la”, repeti, imaginando se havia um módulo do treinamento dedicado exclusivamente a errar o nome dos clientes.

— Oi… – alguém disse, cutucando meu ombro.

Olhei para trás e, pela primeira vez, vi o rosto do grande amor da minha vida. Lógico que ali na hora eu não sabia disso, então fiquei tentando reconhecê-lo. “Putz, eu ia me lembrar dessa barba… até que esse boy é gatinho, hein… tem uma monocelha que só por Deus, mas é gatinho…”, pensei.

— Você não me conhece, nunca nos vimos – ele se adiantou, percebendo minha cara de interrogação. – Meu nome é Roberto, apesar de no copo estar “Alberto” – ele se apresentou, mostrando o copo de café vazio com o nome errado. – Prazer.

— Prazer… Gabriela. Daqui a pouco vão me chamar por Graziela, mas confie em mim: é Gabriela mesmo.

— Você acredita em coincidências, Gabriela?

— Coincidências?

— Gabriela, quais as chances de, numa cidade desse tamanho, com tantas pessoas que entram, saem e têm seus nomes trocados aqui nessa Starbucks o tempo todo… – ele tomou fôlego, preparando a cartada final da conversinha mole que eu já estava doida pra cair: – Quais as chances de uma desconhecida com a sombrinha da Minnie encontrar um desconhecido com guarda-chuva do Mickey? – ele falou, revelando o objeto que ocultava ao lado da perna.

— Ah, não… meu, não é possível – fiquei impactada. Realmente parecia coisa do destino. E quando é do nosso interesse, conseguimos ver com bastante facilidade os sinais da providência divina. – É seu isso?

— Não, não é meu… bom, agora é – ele falou, balançando a cabeça e arqueando a sobrancelha à moda Monteiro Lobato. – É uma longa história, na verdade. Uma longa história que eu adoraria te contar em um jantar – fez o convite, me entregando um cartão com seu telefone.

— Tipo um encontro?

— Tipo um encontro.

— Tá, eu saio pra jantar com você se… se você acertar qual foi o café que eu pedi.

Ele fez menção de protestar, mas percebeu que era pegar ou largar.

— Hoje está frio, então é uma bebida quente, com certeza. Quase fim da tarde, a hora que bate aquele sono e precisamos de um bocado de cafeína para não dar umas pescadas no trabalho. Você não desceria aqui pra tomar um café simples. Então minha aposta é: expresso triplo.

— Ora, ora, parece que temos um Sherlock Holmes aqui!

— Acertei? – ficou surpreso ao descobrir seus talentos detetivescos e feliz com a comprovação de que os ventos do destino sopravam a favor de nossas velas. – Você me liga pra gente marcar?

Assenti e nos despedimos com um beijo no rosto. Ele saiu a passos largos, sem disfarçar a cara de menino arteiro levemente (ou já seria totalmente?) apaixonado. Antes que eu pudesse refletir sobre os complexos elementos químico-filosófico-espirituais do amor e da paixão, meu pedido finalmente ficou pronto.

— Graziela? – me chamaram pelo nome escrito no copo. – Um venti Frapuccino e um tall descafeinado pra viagem. Desculpa a demora.

Nunca contei a Roberto sobre essa minha pequena trapaça no direcionamento dos tais ventos do destino.

***

Saímos para jantar na sexta-feira. Conversamos sobre guarda-chuvas com motivos infantis, sobre bósons e quarks (não, não entendíamos nada sobre isso, só caímos nesse assunto por causa do filme do Homem-Formiga), sobre ressacas de vinho e sobre como foi péssimo o final de Game of Thrones. Conversamos sobre tudo, como se tivéssemos crescido juntos na mesma rua e nos conhecêssemos desde a Era Mesozoica quando os humanos moravam em cavernas e caçavam dinossauros e mamutes (isso a gente inventou depois tipo… da quinta taça).

Depois do jantar, caminhamos em silêncio. A noite estava bonita, mas um pouco fria, então ele tirou o paletó e cobriu meus ombros. Como quem não queria nada, deslizou os dedos pelos meus braços e desceu até encontrar minha mão. Havia um milhão de estrelas no céu. E, naquele instante, todas elas brilhavam para mim. Foi isso que senti quando nossos lábios se tocaram e, quando dei conta, estava apaixonada pela segunda vez na vida.

No dia seguinte, fui até a casa dele, para “assistir Netflix”.

***

— Casa de Papel ou Stranger Things? – ele abriu a porta, com essa pergunta inusitada e aquele sorriso que podia derreter toda a reserva de ouro do Banco Central da Espanha.

— Tá querendo que eu durma, é? – sorri de volta, mostrando a garrafa de vinho que havia trazido.

— Não, nem passou pela minha cabeça que você fosse dormir aqui… – ele falou, com uma cara de safado que me arrepiou todos os poros dos pés à… nuca. – Mas se você quiser, o sofá é bem confortável.

— Hum… então o sofá é confortável, é?

— Bom, a cama é mais…

Nem abrimos o vinho.

Nos beijamos e nos abraçamos e nos entrelaçamos, como só se faz quando as veias estão entupidas de serotonina, adrenalina, ocitocina e todos os hormônios que o corpo só produz quando estamos apaixonados e não sei por que diabos não produz a vida inteira porque todo mundo ia ser feliz pra sempre vivendo num constante estado de tesão. Ele me atirou na cama, confortável como prometido, me beijou com a medida certa de furor e carinho. Com habilidade de cavaleiro experimentado, fez incursões em reinos distantes, detendo-se, a princípio, em duas montanhas gêmeas que encontrou pelo caminho. Desbravador ávido por conquistas maiores, continuou sua jornada em direção ao sul, passando pela planície conhecida como “caminho da felicidade”, até encontrar uma campina de grama perfeitamente aparada. Ali, ele sugou com gosto tudo que aquela boa terra tinha para lhe oferecer e depois penetrou em seus meandros, chegando aos recônditos mais profundos, para depois sair e tornar a entrar, mais rápido… isso, mais fundo, entrando e saindo… de novo, isso… assim… até Gaia tremer numa erupção de puro deleite.

Suor e sorrisos denunciavam a perfeição do momento. Então, para meu estupor, ele disse:

— Sei que vai parecer loucura, mas: eu te amo.

Foi a vez dele ficar espantado ao me ver fechar a cara, pegar minhas coisas e ir embora sem dizer nada nem olhar para trás.

***

“Eu te amo”. Três palavrinhas tão curtas e tão difíceis de dizer. Eu já havia falado, na primeira vez em que me apaixonei por alguém, na longínqua oitava série.  Era o menino mais popular da sala (com uma napa de tucano que só por Deus, mas um charme em forma de pré-adolescente) e eu, sempre meio tímida e desengonçada, não acreditei quando ele disse que estava a fim de ficar comigo. Ficamos. Uma, duas, três vezes, todas no corredor atrás da cantina, apelidado por alunos e inspetoras como “beijódromo”. Decerto com o intuito de alçar voos maiores do que os beijos, ele disse: “eu te amo”. E eu, boba, respondi sem conter a felicidade: “eu te amo”. O plano dele provavelmente teria dado certo, se não tivesse ido ao beijódromo naquela mesma tarde, não comigo, mas com a minha (assim eu considerava até então) melhor amiga.

Talvez pareça exagero, mas aquilo me traumatizou demais. Nunca imaginei que se pudesse dizer que se ama alguém da boca para fora, sem amar de verdade, sem ter certeza. Ao mesmo tempo em que não queria mais me ferir, também não queria magoar ninguém. Hoje eu amava, mas e se amanhã esse amor viesse a morrer? Quando é possível se assegurar? Com um mês de namoro? Dois meses, um ano? No altar, quando nascer o primeiro filho? Qual a hora certa? Na falta de uma resposta conclusiva, eu preferia me abster.

***

Voltei a falar e a sair com Roberto. Expliquei sobre meu trauma e ele foi compreensivo, mas não conseguiu disfarçar certa chateação. Ainda tentou algumas vezes, porém, diante do meu desconforto e falta de reciprocidade nas palavras, acabou desistindo. Nós viajamos, saímos, jantamos, fomos ao cinema, tomamos vinho e “assistimos Netflix” tantas vezes e de tantos jeitos, em tons pra E. L. James nenhuma botar defeito. Mas sempre faltava alguma coisa. Eu tinha medo de que essa fosse a pequena rachadura que acabaria por derrubar a muralha. Mas não conseguia fazer nada a respeito e isso me sufocava.

Até que um dia, sem mais nem menos, acordei com o sentimento de “de hoje não passa”. Eu diria as famigeradas três palavras e deixaria completo o nosso amor. Era um sábado e eu dei um “bom dia” tão animado ao sair do prédio que o porteiro deve ter pensado que eu estava sob efeito de drogas. Não deixava de ser verdade – o amor é o mais doce e mais viciante dos entorpecentes (é o que dizem… eu mesma nunca experimentei muitos entorpecentes para comparar). Fui comprar vinho, pão e queijo para fazer fondue à noite e finalmente dizer o que eu tanto queria dizer e Roberto tanto queria escutar. No caminho, ele ligou. Atendi, eufórica:

— Oi, amor! Tô indo no mercado, hoje à noite vamos… amor?

— Dona Gabriela? – uma voz desconhecida falou do outro lado da linha, abafada numa sinfonia de buzinas e sirenes. – Seu número está cadastrado para chamadas de emergência no celular do senhor Roberto. A senhora o conhece?

— Conheço… conheço, sim… o que aconteceu?

— O senhor Roberto sofreu um acidente – a socorrista falou, com a firmeza e serenidade trazidas pela experiência, mas com a humanidade de quem nunca se acostuma por completo a dar más notícias. – Está sendo encaminhado ao hospital Santa Catarina.

O resto foi um borrão. Não lembro como cheguei ao hospital, não lembro de preencher fichas, nem passar por catracas. Só lembro da angústia desesperadora, do sentimento de impotência aguardando horas pelo término das cirurgias, caminhando a esmo nos corredores brancos, sem notícias, sem saber o que estava acontecendo, sem poder fazer absolutamente nada. Só de ver o semblante do médico que veio dar a notícia, já comecei a chorar. O estado era gravíssimo. Há dois tipos de lesões em órgãos vitais – um deles pode ser tratado e recuperado; o de Roberto era o outro. Ele estava na UTI e passaria por uma nova cirurgia no dia seguinte. Mas, de alguma forma, eu sabia que não haveria dia seguinte.

Diante da situação irreversível, após muita insistência e um quase escândalo, me concederam quinze minutos de visita. Entrei no quarto. Silêncio desolador interrompido apenas pelos bips periódicos do monitor cardíaco. Roberto estava ligado a tantos fios e coberto com tantas faixas que mal se podia reconhecer. Ele iria embora e tudo que eu podia fazer era segurar sua mão. Quinze minutos. O bip ritmado do monitor. Dez minutos. Cinco. Veio a enfermeira avisar que meu tempo estava acabando. Veio a urgência, veio o desespero e, então, a serenidade. Com ela, a certeza. Quebrando todos os protocolos hospitalares, me debrucei sobre a maca, beijei sua boca e disse em seu ouvido:

— Eu te amo. Desde o primeiro jantar, desde o primeiro beijo, desde a primeira vez que vi você lá na cafeteria… sinto que sempre te amei, mesmo antes de te conhecer. E, aconteça o que acontecer, vou te amar por toda minha vida. Adeus. Adeus, meu grande amor.

Queria poder dizer que minhas palavras surtiram efeito imediato, que o bip do monitor cardíaco acelerou, que ele teve uma recuperação milagrosa graças ao poder do amor. Mas não foi assim. Roberto morreu na manhã seguinte.

E aquele foi o dia mais triste da minha vida.

***

Isso foi há muito tempo.

Depois de toda dor e tristeza, depois de todo luto e de todos os dias sem cor e sabor, a vida volta a florescer, meio a contragosto e repleta de medos e dúvidas a princípio – terei esperado o suficiente? A vontade de ficar com um novo alguém agora não macula a imagem do amor que senti no passado? –, mas volta. Acabei me envolvendo com outros caras. Com uns não deu certo provavelmente por eu buscar neles o pouco (ou o muito) de Roberto que eu não haveria de encontrar em mais ninguém. Com outros, porque não era pra dar certo mesmo. Até que conheci um homem maravilhoso (com uma pança que nem minha xará musa fitness Pugliesi daria jeito, mas maravilhoso), ao seu modo, com pouco de Roberto, mas muito de Thiago – com suas próprias virtudes e suas próprias imperfeições, que me acolhiam e me completavam. E assim eu me apaixonei pela terceira e última vez na vida.

E o “eu te amo”? Ah, esse eu falei quando meu coração sentiu que deveria falar. Sem hesitações, sem pressas descabidas. E então não se passou um dia, mesmo após as brigas mais ferrenhas, sem que eu tivesse falado. Eu te amo. Tivemos dois filhos e três netos – eu não imaginava que pudesse caber tanto amor num só coração. Tanto amor que transbordava e tornava inevitável e irresistível dizer – eu te amo. Eu te amo.

Hoje o dia está bonito e os meninos brincam com o avô e com os cachorros no quintal. Da minha cadeira de balanço na varanda, a tudo eu observo, agradecendo a Deus por ter sido tão abençoada. Com o sol chispando suas fagulhas no lago e nos banhando com a luz da vida, me perco em lembranças que são só minhas. Permito-me um sorriso bobo e, também, uma lágrima solitária. Não sei se tudo isso é muito clichê, ou muito piegas. Só sei que foi assim. E eu faria tudo de novo.

Porque essa é a história da minha vida.

Essa é a minha história de amor.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série A.