EntreContos

Detox Literário.

A Garota sem Memória (C.C. Beludo)

 

As luzes lá fora entram como personagens de novela. Uma sombra com curvas voluptuosas vibra na minha frente, suspiro e penso se devo me aliviar. A mocinha confronta o antagonista. Ela grita sobre as mentiras e verdades que contei para seu noivo deixá-la. Ela chora, xinga e bate. Diz que sou um crápula, que só me importo com dinheiro. Seguro seu pulso e digo que a sacana é ela, se faz de inocente, mas colocou todos os funcionários contra mim. O cuspe no meu rosto é o pavio para a explosão de luxúria que temos no meu escritório, percorro seu corpo com a língua, mordo seus seios em busca de sangue. Ela se contorce na minha língua raivosa com espasmos orgásticos.

Todo ódio esconde uma vontade de trepar.

Assim que o leite da vida flui, fico desanimado. As sombras voltam a ser sombras. Penso no passado, procuro as lembranças esquecidas. Fazem mais de vinte anos que minha esposa morreu. 

Olho para a pílula sobre a bancada. No aplicativo programo uma dose de serotonina. É melhor do que chorar novamente como um pobre diabo.

 

Roberto mastiga uma pastilha de magnésio enquanto assistimos os garotos da academia. Um jovem promissor cabeceia a bola para o fundo da rede enquanto o técnico xinga a defesa.

— Por que você não toma uma pillbot? Eu nunca mais tive dor de estômago.

Ele ri.

— Não curto esse tipo de coisa.

— É uma maravilha, tem tratamento pra tudo. Inclusive pro seu outro problema.

Ficamos em silêncio por um tempo. Olhamos um dos garotos chutar a bola na trave. 

— Você…

— Por quarenta anos tive quatro apartamentos — ele me interrompe. — Já tive mais de mil mulheres, não é força de expressão, eu tinha um caderno. 

— Hoje só tenho uma que mal olha na minha cara. Todos os dias ela se masturba pensando num cara mais comedor que eu. Ela sonha domesticá-lo, fazer com que ele desista da vida de mulherengo e coma apenas ela. 

Roberto olha para o campo com tristeza, não por ter perdido o amor da esposa em algum ponto do passado, lamenta por não ser mais o macho alfa, o líder da matilha que consegue todas as fêmeas. 

— É só você tomar uma pílula que vai levantar mais que virgem em sauna mista — tento fazer uma piada. Ele ri por educação e não fala mais nada. 

Quando o treino acaba ficamos ainda olhando algumas mães que foram buscar seus filhos. Aos poucos o terreno fica vazio.

— É sério, não vejo o problema de tomar uma coisa tão comum. 

— Deixa pra lá — ele diz triste. — Não é só ficar de pau duro, tem todo um estilo de vida.

 

O resto do dia passo sentado na poltrona olhando para a parede. Penso no passado, as pessoas são apenas sombras, lembranças que a manhã apagou. Coloco um podcast sobre política, mas mal presto atenção no que Chicago Maia fala, provavelmente o governo anda ferrando outra vez. 

Abro o app de fotos, mas já ultrapassei a cota. Depois que o TB passou a custar mais que ouro, não consigo pagar um serviço de nuvem decente. 

Suspiro e vou cozinhar um ovo. O sol brilha em uma tarde agradável. Resolvo sair pra comer, é um crime ficar em casa num dia tão bonito. Um pão de queijo de vez em quando não mata ninguém.

 

Na volta, encontro um monte de pano na minha porta. Desconfiado, decido deixar ali, a espera do dono. Afasto com o pé para liberar passagem. Algo se mexe e me encara com olhos suaves. Meu corpo trava por um segundo, tento não olhar para os seus seios.

— Desculpe — falo sem graça — eu preciso entrar.

— P-por favor, senhor — ela se agarra nas minhas pernas. Seu rosto próximo da virilha. — Eu…

Ela desmaia e minhas costas quase se arrebentam para segurá-la.

 

O resto do dia entro em desespero. Levo aquela beldade para a cama, a livro do pedaço de pano imundo e a cubro com algo limpo. Por poucos segundos vejo seu corpo nu e não consigo esquecer. Minha vontade é de arrancar o lençol e atirá-lo longe, descobrir aquela obra do Art Nouveau e admirá-la para sempre.

Caminho em círculos, sem saber o que fazer. Devo chamar a polícia? Devo chamar um médico? 

Tento ficar longe, esperar pacientemente na cozinha, mas não consigo, sinto algo no ar, uma força que me puxa até ali. Meu corpo vibra com um zunido. 

Vou até a cozinha e derrubo água no chão, minha mão não para de tremer. O que preciso mesmo é de uma bebida bem forte. Fazia tempo que não me sentia assim.

 

A única coisa que me acalma é uma pillbot. Escolho no aplicativo um calmante e em poucos segundos meu corpo parece voltar ao normal. Minha cabeça diminui a intensidade, mas ainda penso nela. De onde vem aquela garota?

Atrás de mim escuto um miado, lentamente me viro e lá está ela, em pé, segurando meu lençol de forma descuidada. Eu tremo.

— O-olá — digo.

— Onde estou? — ela fala séria.

— D-desculpa — desvio o olhar para o chão, sentindo a vergonha me castigar. 

Vejo o lençol cair, preciso de toda disciplina para não olhá-la.

— Por que estou nua? O que você fez comigo?

Desesperado me lanço ao chão, encosto a testa no piso em reverência.

— Por favor, me perdoe, não tive a intenção — falo em desespero. — Não sabia o que fazer, te trouxe pro meu quarto…

— Velho tarado — ela diz sem expressão e bate a porta do quarto.

Levanto a cabeça ainda de joelhos. Permaneço naquela posição por tempo demais, até ter certeza que ela não vai voltar. Minha mão toma vida própria e puxa o lençol. Não tenho outra escolha a não ser cheirá-lo.

 

Ela sai do quarto pouco depois que o sol nasce. Veste uma camisa minha que deixa apenas suas pernas de fora. Quase tenho um treco.

— Então — ela me olha desconfiada — quem é você?

Da minha boca sai uma torrente de palavras, imploro por desculpas, conto a história da minha vida até o momento de encontrá-la, tudo misturado em frases que não fazem o menor sentido.

Ela solta uma gargalhada maravilhosa.

— Calma, devagar, sim?

Tento e agora viro gago.

— O senhor tem chá? — ela me olha divertida. — Pode ser que lhe acalme.

— Mauro — digo depois de apontar um armário na cozinha e ela começar a ferver a água. — Por favor, senhor não.

— Certo Mauro, e como você acabou com uma mocinha inocente na sua cama?

Meu rosto fica vermelho. Ela ri.

— Eu não consigo lembrar de nada — ela diz.

Conto tudo que aconteceu ontem, enquanto tomamos chá.

Ela abre os olhos assustada.

— Eu — ela diz e começa a chorar.

— Por favor, não chore, está tudo bem, não vou te fazer mal.

Ela sorri com o rosto em lágrimas.

— Não consigo lembrar de nada disso.

— Qual a última coisa que você se lembra?

— De agora.

— Não é melhor chamar um médico? 

— Não — ela se levanta. — Por favor, eu imploro. Tenho certeza que logo vou lembrar.

Concordo.

— E o seu nome? Lembra?

— Não — ela diz triste — Mas acho que é Sabrina.

 

Passamos o dia conversando e em um piscar de olhos anoitece. E que dia agradável! Fazia tempo que esse velho não sentia essa paz de espírito.

— Você pode dormir na cama, eu fico com o sofá.

Ela balança a cabeça.

— Eu jamais chegaria na casa de alguém e tiraria seu conforto.

— O sofá é aconchegante, as vezes até prefiro do que a cama.

— Ótimo, pode deixar que fico com ele — ela me atira um olhar desconfiado.

— Jamais, que tipo de anfitrião seria se não lhe proporcionasse o melhor conforto?

— Então o sofá não é tão bom assim.

— Ah…

— A gente pode dormir juntos — ela diz baixinho.

— Que? — meu cérebro não consegue processar as palavras.

— Eu não me importo — ela acrescenta com vergonha.

 

Não consigo dormir.

O silêncio é assustador. Parece que estou flutuando no espaço. Ela está do meu lado, imóvel. Se não fosse pela sombra voluptuosa eu não saberia que ela estava lá.

As duas da manhã decido finalmente me levantar, ir até o banheiro e terminar com o sofrimento.

— Onde você vai? — ela diz e eu me assusto.

— Está acordada?

— Eu não durmo muito.

— Preciso usar o banheiro — digo diante do silêncio.

— Não consegue dormir?

— Não.

— Apenas relaxa — ela diz no meu ouvido. Sua mão cobre minha ereção. — Eu te ajudo.

 

Acordo e de alguma forma estamos entrelaçados. O calor do seu corpo no meu me relaxa, não quero levantar nunca mais.

— Quer tomar café? — ela diz sem abrir os olhos.

— Agora só quero isso que está nos meus braços.

Ela sorri e se encaixa. Abro os olhos com vergonha.

— Bom dia — ela diz divertida mexendo a cintura.

— Bom dia — eu respondo.

 

Sinto sua energia me preencher. Nossos corpos buscam o equilíbrio térmico, trocando calor através dos nossos órgãos sexuais. Daqui de baixo ela fica ainda mais linda. Experimento o universo entre nós, a vida me sussurra seus segredos. Somos um só, masculino e feminino em amálgama. Sinto um big bang se formando dentro de mim, meu corpo vibra a caminho da explosão.

Ouço um estalo forte. Sabrina cai desfalecida ao meu lado. Seus olhos vazios como o nada.

Eu me assusto e sinto como se uma pedra caísse em mim.

— Mauro? — escuto uma voz. — Acorda cara.

Roberto dá tapas no meu rosto com cuidado. O mundo parece girar.

— S-sabrina — eu sussurro.

— Porra cara, achei que tinha morrido.

— O que? — digo me recuperando, na minha mão descubro um copo de whisky.

— Tem quase um mês que você não aparece, achei que tinha feito a passagem.

— Um mês? Que caralho? Eu te vi ontem. 

Viro em direção de Sabrina, mas Roberto não deixa.

— O que você fez? — digo assustado.

— Você tá brincando com uma coisa perigosa.

— Ela está…? — começo a chorar.

— Só desligada. Porra cara, você quase morreu.

Ele puxa o corpo de Sabrina que se estatela no chão.

— Seu puto — cuspo no seu rosto.

Roberto me passa seu telefone, vejo a foto de Sabrina na tela.

 

A série S foi desenvolvida com a promessa de mudar o paradigma de como vemos os autômatos. Ela foi criada para ser mais que uma ferramenta, uma tentativa de diminuir o abismo social que as tecnologias antigas criaram. Os androides são dotados de uma poderosa rede neural, que foi desenvolvida por um conjunto de seis máquinas equipadas com a mais avançada inteligência artificial. Hardware e software foram aprimorados durante dez anos até a perfeição, um marco para a engenharia moderna.

Os testes não foram promissores. A série S evoluiu de tal forma que incorporou perfeitamente os humanos, o problema é o fato da humanidade ser fundamentalmente podre. Perversão é algo comum e foi instaurada como sobrevivência durante a adaptação da espécie. Para melhorar seu relacionamento com os humanos, os androides tentaram replicar, sexo é só a ponta do iceberg. Se a morte é o destino final, morrer em êxtase é o sonho.

A série S foi apelidada de Succubus.

 

— Você tem problemas mentais? — pergunto.

— Olha pra você — ele me leva até o espelho e vejo uma figura deplorável. Meu rosto parece o de um esqueleto. Meus olhos são pequenas bolas no meio de uma máscara preta.

— Tenho certeza de que foi um mês muito bom. O dia todo no rala e rola com uma beldade dessas — ele assobia. — O negócio é que ela só ia parar quando teu coração explodisse.

— Isso tudo é tão…

— Com certeza. Foi sorte eu ter te procurado. A série S nunca foi lançada, não faço ideia de como você conseguiu uma.

Eu me jogo na cama com as mãos no rosto.

— E como você sabe de tudo isso?

— Dos meus amigos aposentados da polícia federal.

— Eu a amo — começo a chorar desesperado.

— Não ama não. É algum tipo de conexão neural que ela fez, esse modelo consegue se conectar com o cérebro humano e ativar uma porrada de neurotransmissores que te faz sentir todo tipo de coisa. Parece um pouco com aquela bosta de pílula que você queria que eu tomasse. 

Tento me levantar para confrontá-lo. Minha vontade é de comê-lo no soco. Ao invés disso meu corpo se joga no chão. Roberto me segura.

— Vai com calma, chamei um amigo meu médico, ele vai cuidar de você. Uns dias e você volta ao normal.

— Eu a amo — balbucio.

— É. Por isso disse que tecnologia é uma merda.

 

No resto da vida não encontro graça. Sentado na cadeira, sem porra nenhuma para fazer, assisto a parede vazia. A bosta da lâmpada fluorescente impede das sombras aparecerem. 

Eles me alimentam por um tubo, fui jogado aqui depois que tentei me matar.

Não sei porque se importam, não tenho ninguém. Roberto aparece de vez em quando, mas não falo com ele, jamais vou lhe perdoar. Os enfermeiros vão e vem enquanto fico aqui sentado, sozinho, sonhando com as sombras que costumavam me visitar.

Já não sinto mais nada. Queria ter forças para sonhar com Sabrina.

Será que quando os androides morrem também vão para o céu?

 

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.