EntreContos

Detox Literário.

A Desvirtualização (Arturinês)

1

– Tens a certeza, Inês?

– Sim.

A resposta, dada na sua habitual determinação, era uma das suas facetas que eu mais admirava. Da mesma forma como se mostrava firme nas escolhas mais triviais, como no perfume ou a roupa que iria usar no domingo, também naquele momento ela demonstrava a firmeza na sua decisão. Peguei na mão dela e entrámos pela grande porta azul do Registo Civil. No meio de algumas dezenas de pessoas que registavam casamentos, nascimentos e óbitos, encontrámos o nosso caminho. No sétimo andar uma jovem funcionária atendeu-nos a mascar chiclete que exalava um cheiro nauseabundo.

– Em que posso ser útil?

Eu e Inês entreolhámos, mas já não havia volta atrás na nossa decisão.

– Queremos ser desvirtualizados. – Informei, numa voz que denotava uma grande emoção.

 

2

O guitarrista iniciou o solo. O bar estava praticamente cheio, mas para ele apenas uma pessoa importava: a mulher que ele julgava apenas existir nos seus sonhos até começar a aparecer, sempre acompanhada por um homem novo de aspeto sofisticado. Os olhos estavam fixos uns nos outros. Parecia que só os dois existiam naquela sala apinhada, num feitiço antigo como o tempo. Ela pediu uma bebida, não parecendo minimamente afetada pelo facto da sua companhia a ter abandonado de uma forma contrariada e lançando-me a mim, o guitarrista em questão, um gesto obsceno. A música termina dando lugar a palmas e apupos. Eu aproximo-me. Ela sorri. Tem uns olhos da cor do mar e um corpo de estrela de cinema dos anos cinquenta.

– Posso fazer-lhe companhia? – perguntei, fazendo um gesto ao barman.

– A cadeira está vaga. Parece que a minha companhia não gostou da sua música.

– Dois crimes capitais. Merece um castigo. Ela riu-se e eu fiquei enfeitiçado.

  – Acho que ele já tem o seu castigo. 

  O meu Gin chegou e esse acontecimento coincidiu com chegada de um grupo de mulheres especialmente ruidosas.

  – Aqui não podemos conversar. Vamos para outro lado? – Perguntou ela. Eu conhecia alguns amigos que ficariam retraídos, mas eu não era machista – para além disso, estava na companhia da mulher dos meus sonhos, pelo que estava disposto a ceder a todos os seus caprichos. Ela levantou a mão e estalou os dedos. Nesse momento, tudo desapareceu. Já não estávamos num bar, no meio de uma multidão, mas aparentemente sozinhos numa praia aparentemente deserta, com o luar a tingir de luz as ondas do mar. Eu tinha ainda o Gin na mão. Ela bebia um Mojito. Não sei quantos créditos ela teria gasto naquela transformação, mas não me importei. A nossa vida começou ali, naquela praia à qual regressaríamos sempre que a vida exigia um porto de abrigo.

 

3

Tinha acabado de fazer 18 anos quando entrei pela primeira vez no Registo Civil. Fui com os meus pais e os seus rostos apreensivos não me deixava descansado. Iriam divorciar-se? Demorei pouco tempo até perceber que estavam ali por minha causa. A possibilidade de ser adotado cruzou a minha mente, mas a realidade não me passava pela cabeça. O homem baixo e calvo que estava sentado por trás da secretária exibiu um sorriso franco enquanto me explicava que a minha existência, todos os 18 anos, tinha sido uma farsa. Os culpados? Os nossos antepassados, que arruinaram o planeta ao ponto dos poucos humanos que sobreviveram se terem de esconder em complexos, muitos deles em cavernas, num ciclo que se completava depois de milhares de anos – os nossos antepassados também tinham vivido em cavernas, mas não pelos mesmos motivos. No nosso caso, os corpos eram mantidos num coma induzido e as mentes habitavam um ambiente simulado. As máquinas garantiam o nosso sustento. 

Aos dezoito anos, os habitantes da chamada V-realidade tinham a escolha entre continuar na simulação ou optar por uma realidade crua fechados num edifício. Poucos optavam pela desvirtualização. Eu decidi ficar, após alguns segundos em silêncio. Depois assinei o papel e saímos os três para comer um bolo na cafetaria da esquina – os bolos podiam ser uma farsa, mas sabiam bem e era isso que realmente importava.

 

4

Lembro-me de uma noite ter tido um sonho aterrador. Sonhei que a minha vida era novamente uma farsa e que não passava de um conto escrito e publicado numa plataforma web. Os eventuais leitores comparavam naquele exato instante a V-realidade com o Matrix e escreviam impropérios sobre a pouca imaginação do autor. Este era um dos nossos filmes favoritos, e tenho de reconhecer que a semelhança era muita, mas terminava no essencial: no nosso caso,  não há confronto com as máquinas. Isso era um expediente de Hollywood, destinado a aumentar o interesse dos espetadores. Na V-realidade o que estava em jogo era a sobrevivência da espécie e as máquinas tinham um papel primordial para garantir a nossa existência. Pensar que corpos humanos podiam ser usados para gerar energia elétrica era uma aberração. Contei o meu sonho a Inês e ela riu-se.

– És um parvo, amor.

 

5

Na Realidade, quando dois amantes decidem viver juntos, há sempre o dilema das casas. No nosso caso havia o problema acrescido do apartamento dela ser o atelier onde pintava e do estúdio que eu tinha na minha casa. Na Realidade isto teria sido problema, mas na V-realidade bastaram 5000 créditos para que as duas casas se juntassem numa moradia afastada do bulício do centro da cidade. O sistema de créditos garantia que ninguém passasse o tempo a fazer alterações. As pessoas eram remuneradas pelo seu trabalho e quando necessário podiam usar esse dinheiro em adaptações.

 

6

Para algumas pessoas, a experiência da V-realidade era mais radical. Pouco tempo depois de casarmos, tive um exemplo disso. Filipe era cientista. Tinha sido meu colega de escola, nos tempos em que ignorávamos a farsa que vivíamos. Ele desconfiava, com o seu sentido mais analítico do que o meu, que estava mais ocupado com raparigas, álcool e música. Encontrei-o por acaso e convidou-nos a ir jantar com ele. A Inês achou a experiência fascinante, mas a mim deixou-me francamente agoniado. A V-realidade de Filipe não tinha a menor ligação com mundo físico. Vimo-nos mergulhados em simulações de experiências e em viagens a outros planetas. Ele fazia parte do grupo que tentava encontrar uma via para salvar a humanidade, aquilo que o comum dos mortais denomina simplesmente de Solução, que podia passar pela correção da atmosfera da Terra ou pela viagem a outros planetas. Qualquer que fosse a versão, copiando a Natureza (que demorou milhões de anos a criar o planeta perfeito) ou plagiando os seis dias da versão divina,  o trabalho da equipa de Filipe era fodido (na minha opinião) e inspirador (na opinião de Inês, que pintou três quadros sobre o assunto).

 

7

– Porque estás tão contente? – Perguntou ela. Estávamos no topo do edifico mais alto da cidade a observar o pôr do sol. Mostrei-lhe a mensagem que tinha recebido no smartphone. Na Realidade, uma máquina estava a fazer-me uma colheita de esperma. A sensação era delirante e não me consegui conter no momento do orgasmo. Inês olhou em volta, para tranquilizar as pessoas que tinham estranhado o meu comportamento.

– Estou a ser enganada por uma máquina. Não quero saber mais de ti.

– Tu sabias que isto ia acontecer. Assinamos juntos os papéis da parentalidade.

– Artur, assinámos há três horas apenas! 

Naquele momento ela recebeu uma mensagem. Estava a ser feita a inseminação artificial.

– Dizias, querida?

  – Shiu… –, Inês tapou-me a boca com a mão e enroscou-se nos meus braços com um olhar da mais pura malícia – Sabes bem que prefiro o sexo em silêncio.

 

8

Soubemos da gravidez através de uma mensagem de texto com de uma música infantil que nos fez rir. A acompanhar a mensagem vinha uma pergunta: “Pretende uma gravidez virtualizada?” Se Inês respondesse que sim, ela passaria por todos os estados da gravidez, acompanhando o desenvolvimento do feto no seu corpo real. Se respondesse que não, apareceria apenas um contador decrescente com o tempo que faltava para o nascimento. Sem dores, nem enjoos, nem apetites inexplicáveis. Ela não demorou meio segundo antes de carregar na opção sim, tal como eu adivinhara. Beijei-a ternamente e disse-lhe ao ouvido “Parabéns, mamã…”

 

9

A mensagem no telemóvel de Inês acordou-me a meio da noite. Ela dormia a meu lado, em paz. Há algum tempo que não a via dormir assim, mas acordei-a de qualquer forma.

– Deixa-me dormir, Artur!

Limitei-me a mostrar-lhe a mensagem de texto que vinha acompanhada por uma imagem de uma ecografia onde era perfeitamente visível um feto e o azedume foi prontamente esquecido.

– Olá, Hugo. – Disse ela, ternamente, passando o dedo pelo visor como se estivesse a acariciar o filho. O nome já tinha sido escolhido há muito. Era o nome do falecido pai de Inês.

 

10

«Se eu soubesse, tinha carregado na opção “não”.» 

Inês repetia está frase todos os dias, enquanto esperava impacientemente que os dias passassem. A mulher magra tinha ganho a forma de uma bola de futebol que corria para o quarto de banho de dez em dez minutos. Diziam que os enjoos passavam no final da gravidez, mas no caso dela só pioravam.

 

11

Compus uma música no nascimento do meu filho. Inês tinha desaparecido. Isso acontecia na V-realidade quando as pessoas eram sujeitas a algum procedimento cirúrgico. Quando regressou, passados alguns dias, chamou-me a uma sala do hospital. O Hugo ali estava, na incubadora. Contei seis bebés além dele, com os respetivos país babados à nossa volta, com os rostos ansiosos colados ao vidro. Estariam na incubadora durante seis meses como imagens virtuais dos bebés reais. Só depois seria ligado à V-realidade. Inês ansiava por esse momento. Considerava o nosso filho como sendo a sua maior criação.

 

12

Sentimento estranho: sei que o meu filho está a ser submetido a uma operação cirúrgica para lhe introduzir a sonda neuronal que o ligará para sempre à V-realidade. Imagino o seu pequeno corpo numa cápsula, com as suas funções básicas sustentadas por máquinas. É uma farsa, mas uma farsa necessária, e nós como país temos o dever de a continuar. Até que ele atinja os dezoito anos, não devem haver alterações à V-realidade. Acabaram as viagens para a nossa praia privada. Inês não se importa. Ela agora é uma extensão do filho, numa ligação que existe desde o início dos tempos e que se propaga mesmo aqui, na virtualidade.

 

13

O Hugo tem sete anos quando lhe compro a primeira guitarra. Quando for grande quer ser astronauta, e músico e cientista e conhecer o mundo. Aprendeu a ler. A mãe quer ensinar-lhe a pintar e a desenhar, mas não é a sua praia.

 

14

Pai, o que é a V-realidade? Hugo tem dez anos quando nos faz esta pergunta. Diz que leu num website que vivemos num mundo virtual. Apresso-me a dizer que são fake news. Depois, já sozinho e quando consigo recuperar a calma, vejo com alívio que o website já tinha sido retirado da Internet. Sei que a nova geração tem acesso a muito mais informação do que a nossa e duvido que ele chegue aos dezoito anos no mesmo estado de ignorância dos pais.

 

15

18 anos feitos. Recebemos a carta para nos dirigir-nos ao Registo Civil com ele. O homem que fala com Hugo é o mesmo que falou comigo. Está praticamente na mesma, muito embora se note na rapidez do seu discurso a passagem do tempo. Hugo recebe a novidade sem grande admiração. Assinou o documento e fomos comemorar com uma ida à nossa praia privativa.

 

16

Hugo tem 22 anos e estuda na Universidade. Quer ser professor de Ciências. Inês tem desaparecido misteriosamente. Por vezes, mais do que um dia. A resposta surge numa mensagem de texto, a mais dolorosa que recebi na vida depois da notícia da morte do meu pai: Inês tem um tumor no cérebro. É uma massa ainda pequena, pelo que a esperança de vida é grande. É submetida a uma operação e começa a fazer sessões de quimioterapia. Nesses momentos ela torna-se apática, uma sombra da Inês que eu conhecia.

 

17

Susana entrou na nossa família de repente. É uma rapariga alta, com a pele sardenta e um longo cabelo da cor do fogo. Ela e o Hugo estão apaixonados. O ciclo fecha-se. Inês está cada vez mais fraca. Pede para falar comigo a sós. Não que morrer na V-realidade e quer optar pela desvirtualização.

– Eu vou contigo. O Hugo fica bem.

Ela sorri. Não esperava outra resposta da minha parte.

– Vais ficar sozinho, quando eu morrer.

– Tenho as nossas recordações. Não te preocupes, amor.

 

18

Não há regresso possível depois da desvirtualização. A sonda neuronal é cortada num procedimento cirúrgico rápido. 

Acordo numa cama. Sinto-me estranho. Mal consigo levantar os braços. A cabeça arde de dor. Um robot com a forma quase humana pega no meu corpo raquítico e coloca-me cuidadosamente numa cadeira de rodas, como se fosse feito de porcelana – a diferença, conforme me indicariam os médicos, não seria muita. Observo os meus braços e as minhas mãos. São tão finos que parece que se poderiam desintegrar a qualquer momento. Assumo com um negrume na alma que a ideia de conseguir tocar guitarra na Realidade tem de ser posta de lado, pelo menos por enquanto. 

O robot empurra a cadeira para o exterior. Passo por algumas pessoas de aspeto simpático. Noto que os sorrisos são muito mais bonitos na Realidade do que me lembrava na V-Realidade. Ela está num salão com vista para um deserto, também numa cadeira de rodas e com o corpo ainda mais débil do que o meu. Tinha pouco cabelo, por causa dos tratamentos, mas o olhar ainda mantinha a mesma paixão.

– É lindo. – Disse ela numa voz fraca, quase inaudível, a mão levantada e apontar para o exterior. O deserto em que se tinha transformado o Amazonas era, de facto, bonito, com os seus tons vermelhos e castanhos. Dei-lhe a mão. Senti-lhe a pele quente e os ossos salientes. Ela sorriu e eu senti que estava em casa.

 

19

Demorei alguns anos até conseguir tocar guitarra, nunca conseguindo o mesmo nível que tinha na V-realidade. Pelo menos tentei, para descargo de consciência. Tocar era a única coisa que tinha para fazer, agora que Inês partiu. Por vezes troco mensagens com Hugo. Ele diz que tem saudades minhas e que se foi abaixo com a notícia do falecimento da mãe.

 

20

Recebi hoje uma mensagem do Hugo com um código numérico. Mostro-a ao robot de serviço, ele pede-me para o acompanhar até a uma rede de galerias onde conseguia ver os casulos onde estavam os corpos reais dos habitantes da V-realidade. Sigo-o até uma divisão onde estava três casulos. Reconheci o meu filho e a esposa, com tubos que os ligavam às paredes do casulo. No terceiro casulo, ainda aberto e desprovido de tubos,  estava o meu neto recém-nascido. Peguei nele ao colo, tirei uma selfie com ele e, emocionado, mandei-a ao meu filho.

 

Fim

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série C.