EntreContos

Detox Literário.

A Criação do Homem (Mary Shelley)

 

A multidão em frente ao Grande Salão Memento estava agitada. Vários cartazes erguidos, vozes uníssonas e gestos agressivos protestavam contra o evento que estava prestes a começar. Ameaças haviam sido feitas durante toda a semana aos cientistas, mas eles decidiram manter sua presença com certa arrogância. O conhecimento não poderia mais ser obscurecido por ideais supérfluos. 

Entretanto, logo que notaram que a multidão crescia, resolveram mudar o acesso ao prédio. Todos os cientistas participantes foram orientados a entrar pela parte traseira para não serem percebidos. Dentro de um desses carros estava o motivo da arrogância e revolta. A primeira vida humana artificial havia sido criada há alguns anos e seria revelada ao mundo, pois o resultado era animador — ou aterrorizante, dependendo do ponto de vista. 

No banco detrás do carro preto blindado, enquanto dava a volta na rua para entrar no Grande Salão Memento, uma menina perguntou para sua tutora:

— Mamãe, eu tenho alma?

A mulher olhava pela janela do carro para a multidão enraivecida ao longe. Às vezes, ela os entendia. Com o olhar fixo na janela, respondeu:

— Pela milésima vez, não me chame assim, Dora. Eu não sou capaz de responder essa pergunta. Por que está insistindo nisso?

— Esse site diz que eu não tenho alma e que mereço morrer por isso.

Um raio passou por todo o corpo da mulher que prontamente se virou para a menina, tirando o celular de suas mãos. Olhou em seus olhos e disse “Não ligue para isso, você não merece morrer”. As bochechas dela eram rosadas, seus olhos eram meigos e ingênuos. Elas, a menina e a mulher, pareciam iguais, afinal. Mas não eram. Alguma coisa entre filosofia, fé e moral as separava como uma fina camada sobre a realidade. Elas nunca seriam iguais.

Voltou-se para o artigo escrito no site. Começou a ler perguntando-se se uma criança merecia ver aquelas atrocidades. A publicação datava três dias atrás. A mulher xingou em pensamento quem havia vazada a informação sobre o que seria anunciado pelo Comitê Científico. Tiveram que tirar a menina as pressas da escola e se mudar para um local seguro. A vida dela mudou de forma abrupta. A tutora sentiu-se um pouco culpada e, de certa forma, se identificava com Dora. 

O carro parou no estacionamento. O motorista desceu e abriu a porta. Logo, vários seguranças vieram escolta-las até a área principal do evento. A mulher segurava a mão de Dora. Estava fria. Ela olhava para a menina por cima. Não parecia nervosa, mas sua mão… Por um momento imaginou-se grávida de um pequeno ser sem alma. Aquele ser dentro de sua barriga. Uma casca vazia, uma aberração. Sentiu um calafrio. Mas logo se aliviou porque era estéril.

— Sra. Vae, o presidente do Comitê pediu para conversar com vocês antes do anúncio. Poderiam me seguir, por gentileza? 

Vae assentiu dizendo “Vamos, Dora”. Foram levadas até o segundo andar para uma sala espaçosa com um sofá luxuoso, alguns quadros nas paredes perpendiculares a porta e uma pequena estante com livros. Havia uma janela que, por segurança, estava trancada. Sentaram-se no sofá. Ainda dentro do cômodo era possível ouvir os gritos lá fora.

— Mamãe, cadê o papai? — questionou a menina enquanto balançava as pernas.

— Pandora — suspirou. —Já falamos sobre isso. Odãa precisou resolver um assunto.

Era a terceira vez que ela perguntava sobre seu “pai”. Vae preferia o termo “responsável” ou “tutor”. Nunca se sentiu preparada para dar a luz a uma criança nesse mundo de pessoas malucas e egocêntricas. Alguns afirmavam que, talvez, por sua relutância em ser mãe é que nunca havia conseguido engravidar. Olhou para Dora “Uma criança sem alma”, pensou.

— Se a gente subir lá pra cima do terraço, podemos ver nossa casa? Eu quero ir lá, mamãe!

— Não, não vamos. Temos que ficar aqui.

A porta abriu e prontamente Vae ergueu-se e cumprimentou o presidente.

— Como está a nossa Pandora?  — Sorriu falsamente para a garotinha que tentou se esconder atrás de Vae. Logo em seguida, direcionou-se para a mulher: — Fique fria, você não pode fumar hoje. Sem nervosismos. Eles não tentarão nada com todas as pessoas aqui. Cão que ladra não morde. E também os líderes religiosos são nossos escudos hoje, não é? Que fanático atacaria seu próprio povo?

Ela pensou em vários, mas disse:

— Pouco importa o ataque. Você foi precipitado em vazar a existência do projeto Z.E.U.S. e de Pandora. Como você acha que estão reagindo? Ela não merece isso.

— Já escondemos isso por tempo demais. Criamos vida humana praticamente do nada, caramba! Não jogue suas frustrações maternais existencialistas em cima disso, porque ela não merece nada — ele apontava para Dora. 

Vae aproximou-se do homem, colocou a mão em seu ombro, apertando com força e surrou:

— Nunca mais diga essa droga na frente da menina, ou eu acabo com tudo.

Ela se afastou. O homem se recompôs e voltaram a conversar sobre os últimos acontecimentos daquela semana. Entretanto, ainda era visível seu constrangimento. Era a primeira vez que Vae falava de forma tão agressiva com ele. Após alguns minutos, foi embora dizendo “Perto das oito, irei fazer o anúncio. Virão buscar vocês”.

Dora estava quieta no sofá. Não balançava mais as pernas. Estava tensa.

— Dora, está tudo bem?

— Tô atrapalhando você de novo?

— Por que está dizendo isso?

— Você não queria ser minha mãe e agora que brigou com seu chefe pode perder o emprego.

Vae sentiu-se envergonhada. Sentiu pena por aquela criança jogada em um limbo sem sequer compreender a vida. Tentou amenizar alegando que não perderia o emprego por isso, porém Dora continuava triste. Vae a acariciou por um instante. Percebeu que estava com medo por essa criatura tão frágil. Quis chorar. Decidiu, então, respirar um pouco de ar. Queria afastar esses sentimentos, estava embriagada com eles e odiava essa sensação. Disse para Dora ficar lá na sala e que não saísse de forma nenhuma, que ela voltaria rápido. Avisou para o segurança do lado de fora da sala para ficar em alerta, pois a menina ficaria sozinha.

Vae desceu a escada depressa, foi até o primeiro andar e procurou uma sacada. Pegou um cigarro e começou a fumar. Cada baforada ela só conseguia pensar o que seus superiores e o seu marido, Odãa, diriam. Ela estava cansada de todas as regras que lhe eram impostas. “Vae, você e Odãa serão responsáveis por Pandora” disserem-lhe. Já fazia 10 anos. Subitamente, a pergunta feita mais cedo pela criança surgiu em sua mente. “Eu tenho alma?”. Como alguém criado pelos homens teria alma? Ela tentou se distrair olhando para as pessoas que transitavam abaixo. Notou que havia algum tipo de tumulto próximo a entrada. “Os homens são tão tolos,” pensou, “sempre brigando por coisas pequenas como se fosse superior de alguma forma”.

Deu uma baforada. Dento do Grande Salão Memento anunciavam o início do evento. “É com grande prazer que anunciamos a décima segundo edição…”. Vae viu um homem correr para longe da multidão e notou que algumas pessoas estavam brigando com os seguranças na entrada do evento. Ouviu gritos desesperados e uma correria. “Nessa edição, o Comitê da Ciência vai apresentar Pandora, a primeira humana artificial…”. Um tiro reverberou. Mais gritos. Ela já sabia o que aquilo significava. Pegou seu celular do bolso. “O Tempo Transversal também será discutido e… Que barulho foi esse lá fora?”. 

De maneira estranhamente sincera, ela só quis que tudo se explodisse. E foi o que aconteceu.

Um barulho enorme soou. O prédio interior tremeu. Vae soltou o cigarro. Enquanto a ligação discava, só conseguia pensar que Dora estava lá dentro. Sabia que o protocolo a ser seguido nesse momento seria salvar a própria vida. Até conseguiria descer pela sacada com a ajuda da árvore, mas ela tinha outra ideia.

— Odãa, ative o protocolo de resgate. Estou dentro do prédio e acabou de acontecer uma explosão — disse Vae às pressas para a outra pessoa na linha.

Vae desligou. O caos estava instaurado. Tiros soavam por toda parte. Ela não queria largar Dora lá, sozinha. Ela não merecia morrer assim. Entrou cautelosamente. Havia fumaça nas escadas. Correu para o andar de cima. Não ouviu tiros dessa parte, mas ouvia gritos dizendo “Onde está a aberração?!”. Foi direto para o quarto. O segurança não estava na porta. Ela entrou e encontrou Dora chorando desesperada. Ela não podia acreditar que deixaram a menina para trás.

— Dora, Dora, venha cá! — Agarrou a menina nos braços. — Vamos sair daqui, tá bem? Shh, shh! Não precisa chorar, tá?

A menina foi diminuindo o choro aos poucos. Vae ouviu um barulho de balas vindo da escada. Olhou pela fechadura da porta. Havia muita fumaça, entretanto, podia ver vultos abrindo as portas dos outros cômodos. “Dora, venha comigo, fique quietinha, por favor”. Levou a menina até o banheiro. Agachou-se com ela ao lado da pia. O telefone em seu bolso começou a tocar. Era o presidente desesperado perguntando onde ela estava. Vae respondeu.

— Mamãe, tão entrando na sala — sussurrou Dora.

Vae imediatamente desligou o telefone e começou a vasculhar em sua mente o que poderia fazer para sair dali viva com a garota.

— Vamos orar? — questionou Dora.

A mulher não conseguia imaginar como isso poderia ajudar, mas concordou.

— Fecha os olhos, tá? Ora em silêncio.

“Pai Nosso que estais no Céu…” Vae praticamente conseguia ouvir os pensamentos de Dora. Ela também quis orar, mas… não acreditava que houvesse alguém ouvindo as preces de um ser sem alma. E o que mais podia fazer?

Viu a maçaneta girar vagarosamente. Não poderia fazer nada.

Quando a porta abriu, era um oficial do protocolo de resgate. Ela sentiu um alívio escorrer por todo seu corpo. Talvez as preces tivessem sido ouvidas. O oficial puxou Vae pelo braço com força, fazendo a largar Dora sozinha no canto. Ele apontou sua arma e atirou na criança. Vae viu tudo acontecer lentamente e não conseguia acreditar. Nem percebeu que havia gritado.

Logo em seguida, o homem colocou a arma em sua própria boca e puxou o gatilho. Vae caiu no chão em choque. Ouviu os outros oficiais chegando ao cômodo e tomando-a pelos braços para tirá-la de lá. Alguns se perguntavam o que havia acontecido. Jamais suspeitariam que um dos oficiais fizesse parte dos extremistas.

Dora balbuciou algo. Nesse momento Vae recuperou todos seus sentidos e começou a se espernear nos braços do homem que tentava tirá-la do banheiro. Ela gritava “Me larga! Me larga! Ela está viva”. Então por pena, ou por força, o oficial a soltou e ela correu para Dora. Olhou seu ferimento e começou a chorar.

— Mã-mãe… al-…?

— Me perdoa, Dora, me perdoa! Você tem alma sim! Está me ouvindo? Você tem alma sim! Você tem… — Sua voz foi engolida pelo choro.

À medida que a menina desfalecia, um zumbido forte soava nos ouvidos da mulher. Quando a respiração parou, o zumbido também sumiu. Vae nunca soube o que havia sido esse som, mas acreditava secretamente que havia sido alma de Dora partindo para algum destino digno da inocência. Os oficiais tomaram-na pelo braço, pois tinham ordens expressas de tirá-la dali o mais rápido possível.

Depois dessa tragédia, uma longa discussão política foi levantada em relação aos experimentos feitos pelos cientistas. Discutiram-se várias questões éticas, teológicas sociológicas, filosóficas. Uma discussão que durou meses até que entraram em um consenso que experimentos como esses fossem permitidos seguindo diretrizes específicas que garantissem que esses novos indivíduos fossem integrados de forma plena na sociedade. Vae manteve-se distante do mundo durante esse período, pois ainda estava dolorida e com remorso. 

O assassinato de Pandora comoveu o mundo. Ninguém mais questionava se ela possuía alma, mas sim se os humanos eram dignos de ter essa presença etérea dentro de si. Na verdade, Vae nunca havia questionado a alma naquela criança. Ela sabia que Dora tinha alma, pois ela era uma humana comum. Não foi gerada a partir de um experimento. Dora foi usada apenas como uma distração para que o presidente do Comitê soubesse como as pessoas reagiram a esse tipo de avanço na Ciência. Esse era o verdadeiro projeto Z.E.U.S. Bem, as pessoas reagiram mal.

Mas, mesmo que Dora não tivesse sido criado em laboratório, o experimente foi um sucesso, pois Vae e Odãa eram os verdadeiros humanos artificiais. Quando o Comitê anunciou a verdade sobre Pandora, uma semana depois da tragédia, todos ficaram horrorizados.

Passou-se um ano. Uma estátua de dois metros foi construída em homenagem a Dora. Vae sempre a visitava. Ficava encarando a estátua tentando encontrar a mesma tonalidade rosada de suas bochechas, o que era impossível.

— Era para eu estar no lugar dela, Odãa. — disse sem tirar os olhos da estátua.

— Não temos culpa de nada do que aconteceu — respondeu.

— Tivemos sim. Fomos parte dessa farsa. Somente naquele momento… que eu fui capaz de dizer a verdade. Ela morreu com as pessoas a chamando de aberração — suspirou. — Ela salvou a minha vida. 

Vae não se considerava uma humana, por isso não acreditava ter uma alma. Porém, depois de ouvir aquele barulho quando Dora estava morrendo, ela passou a se questionar se não era “alma” tudo o que ela havia sentido. Se o amor, o medo, a ira, a compaixão, o remorso, a felicidade, o prazer, a dor que sentia pela falta de sua filha, se tudo isso não era a “alma” que tantos falavam. Somente uma alma seria capaz de sentir outra. “Se um dia nasci sem alma, eu a conquistei através de tudo o que senti pela Dora” pensou. “… Uma pena que nem todos os homens nascem fiéis as suas” concluiu.

Ela baixou a cabeça e passou a mão em seu ventre.

— Odãa, eu estou grávida.

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Informação

Publicado em 1 de agosto de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 3, R3 - Série B.