EntreContos

Detox Literário.

Seus olhos (Matheus)

 

A chuva castigava a cidade, transformando a madrugada em uma noite impiedosa.

Lúcio permanecia de pé sob a água incessante, segurando um guarda-chuvas que o protegia apenas da cintura para baixo. Adiante, a entrada da casa de Ernesto da Silva Neto, mais conhecido na vizinhança como Barril, era apenas um portão enferrujado espremido entre duas casas maiores.

Uma faixa de isolamento e alguns policiais militares separavam Lúcio da multidão de civis e repórteres que tentavam abordá-lo. Ele tentava ignorá-los.

 

Investigador Lúcio, este é mais um caso do assassino em série?

Investigador, quando a polícia civil resolverá o caso?

Investigador Lúcio… Investigador…

 

Uma pergunta em particular chamou sua atenção:

É verdade que a vítima era alguém que o investigador conhecia?

Todas elas eram conhecidos meus, ele respondeu para si mesmo, decidindo manter o silêncio. Ninguém sabia daquilo senão ele. Era o que o mantinha acordado nas últimas semanas.

Adiante, o portão da casa da vítima foi aberto por um policial que saía da cena do crime com alguma evidência pronta para ser levada para análise. O portão, que reclamou do movimento com um ranger preguiçoso, permaneceu aberto, revelando um corredor que mergulhava na escuridão e parecia levar a lugar nenhum. Um trovão cruzou o céu e iluminou por uma fração de segundo o limo e a tinta envelhecida na parede. Lúcio dirigiu o olhar para Matheus, seu companheiro de trabalho que permanecia ao seu lado. Ambos souberam, sem trocar palavras, que era o momento de entrar.

Enquanto abriam caminho pela escuridão, o celular de Lúcio vibrou. Ao tirá-lo do bolso o corredor foi parcialmente iluminado pela tela do aparelho, que exibia a foto de sua esposa sorrindo para ele.

Droga, pensou. Esqueci de avisá-la sobre a noite passada.

— Oi Suellen.

Você não dormiu em casa ontem?

— Desculpa amor. Não te avisei. Passei a madrugada na delegacia.

Suellen demorou algum tempo para responder. Quando o fez, sua voz continha um tom quase imperceptível de alívio, como alguém que acaba de saber que não precisa comparecer a uma festa que não gostaria de ir.

— Eu fico preocupada, Lúcio.

— Olha, eu tenho que desligar. Estou em uma cena de crime.

Lúcio mal podia enxergar Matheus que seguia em frente, os passos de ambos misturados ao som da chuva e muitas vezes abafados pelas poças de água que se formavam por toda a extensão do corredor. A única coisa nítida naquele caminho era a luz no final, que indicava uma curva brusca para a direita.

Do outro lado da linha, Suellen fazia silêncio.

— Olha – ele emendou — eu compenso neste fim de semana. A gente sai para comer alguma coisa.

— Está bem, amor. Se cuida. Bom trabalho.

Lúcio desligou. Após a curva no final do corredor, o casebre de Barril surgia repentino atrás de um vasto quintal. Matheus grunhiu:

— Puta merda.

Era um quintal como muitos outros. Havia um amplo espaço livre, calçado com ladrilhos desbotados que provavelmente datavam de cinquenta anos atrás. Havia uma quantidade razoável de entulhos espalhados por todo canto, como ferros retorcidos e pedaços de madeira. Dois canteiros tentavam quebrar a monotonia do lugar, mas estavam apenas preenchidos com terra; nenhuma planta, nem sequer grama, nascia ali. Boa parte da terra de um dos canteiros havia sido removida para preencher uma cova feita no outro. Uma elevação na lama indicava o local do enterro, mas ela estava revirada: a sujeira espalhava-se para fora do lugar e manchava os ladrilhos, como se o que quer que estivera enterrado ali cavara seu caminho para fora. Uma cruz feita com restos de tábua e mal amarrada com sobras de fio jazia no chão.

O azulejo da varanda na entrada da casa apresentava um rastro nítido de lama que seguia para dentro da residência. Alguns pontos do rastro estavam marcados por pequenas placas amarelas que indicavam algum tipo de evidência. Lúcio marchou para lá, seguido de perto por Matheus.

A primeira coisa que o investigador notou foi o cheiro de mofo e morte. Matheus soltou um suspiro de alívio ao poder livrar-se do guarda-chuvas, mas Lúcio mal se importou com a mudança de cenário. O rastro os levou até a sala e terminou no sofá posto diante de uma televisão ligada. A cena do crime estava ali.

A cabeça, braços e pernas de Barril estavam separados do corpo e estavam pendurados por barbantes que passavam por ganchos encravados no teto. A cabeça girava, os olhos esbugalhados encarando o cenário ao redor. Uma mudança de ângulo revelou uma ferida grotesca na lateral do crânio, de onde saía uma mancha de sangue que seguia até o que sobrava do pescoço. O torso de Barril estava em exibição, colocado metodicamente sobre a mesa de centro como que para lembrar a todos que o visitassem o motivo de seu apelido. A barriga protuberante e endurecida pelos anos de consumo constante de cerveja projetava-se para cima sobre uma poça do próprio sangue. Havia lama no sofá, no chão e nas paredes. Uma pá estava largada ao chão com uma placa amarela ao seu lado. Sua extremidade estava coberta com uma mistura sangue e lama.

O método era sempre aquele: remover da vítima partes do corpo e pendurá-las em barbantes. A primeira vítima, Bárbara, foi encontrada estripada dos olhos e dos silicones que usava nos seios.

Bárbara…

Imagens de todas as vítimas assomaram-lhe a mente; a de Bárbara em especial. Lúcio fez um esforço para ignorar os pensamentos e seguir com a análise.

Havia raiva ali, e aquilo era novo. Esta era a quinta vítima daquele assassino, e a primeira em que ele havia expressado algum sentimento. Seus primeiros quatro cenários foram mais organizados. O de Bárbara carecia de certo cuidado já que era a sua primeira vítima e mais parecia um rito de passagem. As outras foram limpas e planejadas.

A cena de Barril, por outro lado, denotava descuido e irritação.

Salvo o método usual dos barbantes, tudo estava feito de qualquer forma: os ganchos pareciam prestes a cair do teto; os cortes não tinham precisão nenhuma; a lama sujava tudo.

— Isso é fodido cara. É muito fodido.

Matheus estava enojado. Era veterano como Lúcio, mas nunca deixava de expressar desaprovação. Ao lado dele, Lúcio se perguntava se não tinha alguma disfunção social. Carecia de reações como a de Matheus e já estava acostumado com aquele cenário há anos.

Ou seriam dias?

Ele nunca investigou um assassino em série antes. Lembrava-se de seu tempo nas ruas, quando participou de sua parcela na invasão de morros e favelas. A carnificina existia, mas nada como aquilo.

Então por quê ele se sentia tão acostumado com aquilo?

 

Você me conhecia, não conhecia?

Era a voz de Barril. Pendurada pelo barbante e girando lentamente, sua cabeça balbuciava as sentenças em meio a gorgolejos.

Você me conhecia como todas as outras vítimas. Esse cara quer você.

A cabeça riu, forçando os ganchos que seguravam sua pele e quase fazendo o barbante ceder. Parte da pele em contato com o ferro se rasgou. Lúcio permaneceu impassível. Notou que os braços e pernas pendurados tentavam alcançá-lo, mas careciam de apoio. Os dedos se mexiam em vão na sua direção. Um trovão rugiu, iluminando os grandes olhos que o encaravam.

Você me matou.

 

— Senhor.

Era a voz de um dos policiais. Lúcio piscou os olhos. A cabeça de Barril era apenas uma cabeça morta a girar no centro da sala.

O policial segurava uma folha de papel nas mãos e evitava a todo custo olhar para os pedaços de carne pendurados no teto. Lúcio dirigiu o olhar para ele.

— Durante o levantamento de rotina foi constatado que a vítima ligou para a central de emergências ainda nesta madrugada.

— Isto é a transcrição?

— Sim.

Lúcio pegou o papel e leu imediatamente.

 

[Central de Emergências: 17/04/2019 02:14AM]

(Atendimento preliminar e aguardo na linha)

[00:00:38]

01 ATENDENTE: Qual a emergência?

02 ERNESTO: Eu acho que matei o assassino que cês tão procurando.

03 ATENDENTE: Desculpe senhor, pode repetir?

04 ERNESTO: Eu matei o cara. Quer dizer, é uma mulher, mas ela tentou me matar então eu matei primeiro.

05 ATENDENTE: Um momento.

(Aguardo na linha)

[00:01:47]

06 TN. MACHADO: Alô, Barril?

07 ERNESTO: Sou eu.

08 TN MACHADO: Aqui é o Tenente Machado. Como cê tá?

09 ERNESTO: Oi tenente. Tô bem, tô bem.

10 TN MACHADO: Cê tá bêbado, Barril?

11 ERNESTO: Tô não tenente.

(conversa ininteligível entre ATENDENTE e TN MACHADO)

[00:03:02]

12 TN MACHADO: E cê matou o cara?

13 ERNESTO: Era uma moça, seu tenente.

14 TN MACHADO: E essa moça tentou te matar?

15 ERNESTO: Uhum.

16 TN MACHADO: Barril, conta pra mim. Cê tá acordado nessa hora, você tá assistindo a luta na TV, não tá? Tá bebendo o quê?

17 ERNESTO: O de sempre. A cachacinha do primo lá do sul, lembra que te falei?

(conversa ininteligível entre ATENDENTE e TN MACHADO)

[00:04:15]

18 TN MACHADO: Ó, Barril, a gente vai mandar alguém praí mais de manhã, umas seis, pra ver se tá tudo bem, tá?

19 ERNESTO: Cê que manda, tenente.

20 TN MACHADO: Vai dormir Barril. Não liga pra gente à toa não, tá? Vai descansar aí. Abraço!

21 ERNESTO: Abraço.

 

Quando Lúcio terminou de ler, notou que os olhos de Barril o encaravam sem expressão. Inexplicavelmente a cabeça estava inerte agora, fixa na sua direção.

Sentiu Matheus tomando a folha de sua mão e, alguns segundos depois, vociferar:

— Mas que caralhos…? Isso é um absurdo! O tenente ignorou…

Lúcio interveio antes que o discurso continuasse:

— Ele ignorou a ligação de um bêbado famoso nas redondezas e que tinha um histórico de falar coisas sem sentido, além de provavelmente ser portador de alguma disfunção mental que ninguém se deu ao trabalho de diagnosticar. Não sejamos hipócritas. Nós o amávamos por ser engraçado, louco e gostar de beber conosco.

Lúcio dirigiu-se à entrada da casa novamente, cansado da culpa que aqueles olhos mortos lhe conferiam. Matheus andou ao seu lado.

— Mas o que o tenente fez continua errado.

O investigador meneou a cabeça, sem confirmar ou negar a acusação. Parou diante da porta. A chuva e a cova aberta eram a paisagem. Matheus, ao seu lado, acendeu um cigarro. Ainda parecia frustrado.

— Isso aqui tá muito fodido – o investigador não respondeu— Tá achando o mesmo que estou?

Apesar da obviedade das evidências, Lúcio não precisou olhar para a expressão do companheiro para saber que, assim como ele, a conclusão era perturbadora.

— A primeira parte é fácil – ele respondeu — o assassino… assassina… invadiu a casa de Barril e tentou matá-lo. Mas ele era grande e forte, reverteu a situação e matou a mulher. Como não vi nenhum sangue senão o presente próximo ao corpo dele, suspeito que a tenha asfixiado. Então ligou para a polícia. Como demorariam para chegar, ele resolveu fazer um enterro na própria casa. Provavelmente mostraria a cova para a polícia no dia seguinte, orgulhoso do próprio trabalho.

Matheus terminou uma longa tragada, soltou a fumaça pelo nariz e boca, então continuou:

— E a segunda parte?

—A mulher não morreu. Cavou seu caminho para fora, voltou até a casa e terminou o serviço, encontrando, desta vez, um Barril desprevenido, talvez sonolento. Matou-o com a própria pá que a enterrou.

— E a hipótese mais “pé no chão”? Você sempre tem uma.

Lúcio tomou um minuto para pensar. Não desviava o olhar daquela cova.

— Eu não acho que nada diferente do que falei tenha acontecido aqui.

Sua voz soava derrotada. Súbito, notou que não havia nada mais ali para ele. Abriu novamente o guarda-chuvas e iniciou o caminho de volta para as ruas.

— Você quer dizer… que a assassina voltou dos mortos? – indagou Matheus, ainda na soleira da porta.

— Eu nunca disse isso.

Mas, quando olhou para trás e viu os olhos de Barril seguindo seus passos, já não tinha certeza.

 

Horas depois, na delegacia, Lúcio encarava as fotos das vítimas sem saber o que fazer. Em uma decisão repentina, levantou-se e foi até o carro com o intuito de tirar um horário de almoço prolongado. Precisava pensar; precisava colocar a cabeça no lugar.

Lá fora a chuva havia cessado. Poucos raios de sol atravessavam nuvens cinzentas. Lúcio dirigiu até o restaurante que frequentava em dias estressantes, quando não queria ser importunado por ninguém. Não desligou o carro.

Bárbara.

O nome sempre voltava quando ficava sozinho. Sentia-se amargurado desde a sua morte. Talvez ela tenha sido o estopim para a sua insônia e a dor que pulsava em sua cabeça.

Lembrou-se de Suellen e a culpa pesou no coração. Rumou para casa.

 

Quando estacionou o carro a cabeça já estava cheia novamente. Além do caso não resolvido, ainda pensava na cena que presenciara mais cedo. Começava a se arrepender de ter ido até lá.

Tarde demais para voltar atrás, ele pensou.

Destrancou a porta da frente, lembrando-se de tirar os coturnos. O estômago roncava. Ouviu a voz de Suellen no segundo andar.

— Amor?

— Sou eu, Suellen. Vim almoçar.

Ele viu os pés descalços descendo a escadaria e, dois segundos depois, sua esposa o abraçava.

— Que surpresa agradável – ela sussurrou em seu ouvido.

Ele sorriu, então estranhou o próprio sorriso, como se o movimento fosse algo que não fizesse há anos.

— Não foi bom o que fiz – ele falou, olhando-a nos olhos — Me desculpe.

O casal se beijou. Lúcio tencionava apenas um toque nos lábios, mas ela separou-os com a língua em um beijo que não dividiam há muito tempo. Quando se afastaram, Suellen soava satisfeita.

— Vou esquentar alguma coisa.

Lúcio ficou impressionado com o sorriso que se manteve eu seu rosto. Ouviu a esposa munir-se de uma faca e começar a remexer as panelas na cozinha. Ele caminhou até a área de serviço, onde gostava de passar algum tempo observando os pássaros nas árvores do quintal. Fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o sol tocar-lhe a pele. Ao abri-los, notou as roupas de Suellen largadas no tanque. Estavam sujas de sangue e lama, rasgadas em diversos lugares.

Assombrado, Lúcio se virou mas, assim que o fez, foi recebido por uma facada na barriga. A esposa estava a centímetros dele. Tentou alcançar a arma no coldre, mas ela cortou-lhe os tendões do braço. Ele escorregou em agonia pela parede com um olhar atônito, encarando-a confuso.

— Era esse o olhar que eu queria – ela falou. Tinha um sorriso satisfeito no rosto — Era isso que eu queria o tempo todo. Agora você está me notando, não está?

Sim, ele queria responder, mas o choque o emudeceu. Ele notava agora os hematomas no pescoço da mulher; a pele ainda suja em alguns pontos; o cabelo endurecido de quem havia passado algum tempo enterrada sob a lama.

Ela tentou se limpar, ele pensou, notando-a por completo agora. Mas eu cheguei durante o processo. Como não notei isso?

— Shhhh.

Suellen o acalmava, e ele percebeu que tentava falar algo sem sucesso. Ao sentir o toque suave da esposa em seus lábios, deixou-se tombar ao chão. A visão foi sumindo aos poucos.

A última coisa que viu foi Suellen munindo-se de um grande rolo de barbante.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série A.