EntreContos

Detox Literário.

ER 1 – Quarto Capítulo (Rubem Cabral)

Chamo-me Ismael, e com muito esforço consegui algum sucesso publicando histórias de mistério e horror: seis livros até agora. Sou bancário aposentado e não vivo só do escrever – não tenho ilusões a respeito – , mas já paguei muitas contas com a renda gerada pela última publicação e até troquei de carro, o que não foi de todo mau. Acabei de finalizar o penúltimo capítulo de meu novo livro, cujo título será: “Poelêmicas”.

(Sim, o nome é horrível, mas foi o resultado de um brainstorming por videochamada, junto da equipe da editora. Agora Inês é morta).

Nesse capítulo específico, meu protagonista, o inspetor Edgar Dupin, após seguir uma pista obscura cedida por um telefonema anônimo, encontrou certa fantasia peluda de gato preto, rasgada e descartada dentro de uma caçamba de lixo; o disfarce do assassino em série conhecido como “Plutão”.

Do alto de um prédio próximo Edgar pensou por um instante ter visto a silhueta do homem-gato, mas pode ter sido apenas uma sombra, no limite de sua visão periférica ou, de tão exausto, ele talvez tenha alucinado com a criatura demoníaca: os olhos de fósforo verde e pupilas fendidas, a mancha branca como uma corda ao redor do pescoço, o pelo sujo e falhado, as garras, tão afiadas… A lembrança dolorosa de ter tido na infância um olho parcialmente cegado por um gato de rua que ele, inocente, pegara no colo, ainda alimentava seus pesadelos, fermentava naqueles recônditos úmidos da mente, que não ousamos acessar. “Gatos não são confiáveis”.

Um bom parágrafo, eu penso ao relê-lo, acho que ainda estou na fase de gostar do que escrevo. Havia boa dose de ironia e graça nas mil referências às obras de Poe, para o deleite dos conhecedores e desespero dos leitores de Youtubers. Mas também havia medo, em contrapartida. Algo antigo e mal digerido e maligno, espreitando nas entrelinhas. Feito metáforas esqueleto-no-armário, feito borbulhas ácidas que afloram à boca.  Aquela caixa de sapatos imaginária, escondida  sob as tábuas do piso do porão mental, com ossos de animais de estimação misteriosamente desaparecidos na vizinhança, ou de um feto, fruto de incesto adolescente; pobres coisinhas que nunca viram a luz do dia, que apenas vegetaram para sempre no escuro, pensando, em suas cavernas de Platão, talvez,  que o breu fosse afinal tudo o que existia, ou tudo o que de fato mereciam. No fim, meu inspetor refletiria, havia apenas solidão e tristeza.

E a certeza da escuridão.

Edgarizar, feito eu às vezes brinco de dizer, me deixa com o coração pesado e a boca amarga. Assumir seus pensamentos, senti-lo, não é experiência da qual se sai incólume. Heath Ledger, comentaram os jornais à época do lançamento do segundo filme da trilogia Batman do Nolan, trancou-se por seis semanas num quarto de hotel até parir sua criatura. Escreveu um diário cheio de colagens e rabiscos e experimentou vozes, até assumir o manto púrpura e verde do Coringa. Até incorporá-lo. Igualmente, necessitou de mais tempo para deixá-lo, se é que de fato o conseguiu, se não tomou a derradeira superdosagem de remédios dando ouvidos ao canto do palhaço do caos. Edgar é meu Coringa, obcecado pela morte da esposa, escolhida por Plutão para morrer somente por ela se chamar Ligeia, talvez selecionada a partir duma lista online.

O inspetor é muito frustrado pelo rastro de corpos que se seguiu, de outras moças de nomes igualmente infelizes: Rowenas, Berenices, Eleonoras. Amaldiçoadas como sempre são as belas mulheres num conto de Edgar Allan Poe; natimortas desde o primeiro parágrafo porque a morte de uma linda mulher seria a coisa mais triste do mundo.

Sinto que meu Edgar quer vingança, mas também quer se redimir por seu casamento falido. Descobrira outra vez o amor na memória idealizada da esposa, agora para sempre perfeita e querida, sorrindo a partir de um retrato oval sobre a mesa de cabeceira. Em vida, ele nunca lhe dera atenção adequada, mas agora sentia o peito doer, como um menino apaixonado pela professora do fundamental. Agora, justo quando ela não é; “era”. Plutão fez com que ele voltasse a amá-la, mas cada morte, cada nova mulher emparedada, enterrada viva ou desdentada pelo homem-gato, era a repetição do ato que ocorreu com Ligeia, era uma pedra nova pesando sobre sua cova. Era mais culpa por não tê-la salvado, e por não ter conseguido evitar o destino terrível das outras. Outras Ligeias, igual e certamente negligenciadas…

Planejei meu livro em quatro grandes capítulos, cada um se passando numa cidade diferente onde já morei: Petrópolis, Rio de Janeiro, São Paulo. O último, Caxias do Sul, será certamente o mais desafiador: unir as mil pontas soltas, surpreender, mas não a ponto de causar descrença ao leitor, nada de Dei ex machinis. Talvez mais ação, uma perseguição numa imensa cave desativada, durante o carnaval; Plutão enganando Edgar, drogando-o com ópio e o emparedando por detrás de um muro, revelando antes de deitar o último tijolo que ele realmente era o… Ou um pêndulo, daqueles com lâmina em formato de cunha, creque, creque, oscilando desde o teto e descendo mui lentamente sobre o peito da vítima amarrada e desperta, bela metáfora para a ceifadora, a morte inevitável.

Hum! Não… Um monte de clichês mais que gastos, não tenho a pretensão de escrever alta literatura, mas convenhamos… Quem sabe uma dose de absinto poderia me inspirar?

Enchi um copo com água bem fria e gelo, deitei a “fada verde” devagar e a mistura resultou leitosa. Derreti dois cubos de açúcar numa colher aquecida e lancei-os ao líquido enquanto girava um redemoinho, meu pequeno Maelström, levando barcos-cubos sem sorte a um epílogo de rochas afiadas ao fundo. Comecei a sorver a antiquada bebida quando o telefone tocou.

— Oi, Virgínia – eu falei, ao reconhecer o nome no aparelho. Ela era a voz por trás da Editora Dark Clouds.

— Oi, Ismael — ela soou cansada. — Bom dia. Hã, olha, sendo bem direta e sem querer ser chata, mas já sendo… Me desculpe, meu querido, não dá pra esperar mais! Adiantamos os seus pagamentos sem sequer respeitar às condições do contrato, já gastamos muito com a capa, ilustrações e divulgação, temos montes de resenhadores e blogueiros à espera… Sinceramente, a gente tá acostumado com atrasos, sabe que literatura não é movida a toque de caixa, mas… Eu lamento muito, gosto demais de você e do que você escreve… Tivemos boas experiências com a “História de Carne” e as “Crônicas Deformantes”, porém, já foram três adiamentos! Três! Então… Se não recebermos o livro completo para a revisão até no máximo 20 de novembro, teremos que aplicar multas contratuais, e isso não vai ser bom pra ninguém.

— Multas?!

— Ora, sim, leia as páginas 3 e 4 do nosso contrato. Tá tudo lá; preto no branco.

— Mas, mas, Virgínia. Que dia é hoje? Sete de outubro? É muito pouco para enviar o livro completo! É muito pouco… As musas não costumam sussurrar histórias completas em meus ouvidos quando eu as convoco! Não é assim!

— Assinamos o acordo faz quase um ano, Ismael. Você escreveu o quê? Duzentas páginas até agora?

— Duzentas e sessenta e três. Já terminei o terceiro capítulo… Falta somente o último.

— Não importa: tem revisão, diagramação e tudo mais ainda por fazer e não podemos perder o natal. Somos uma empresa; com despesas a pagar, salários, impostos. Somos até muito compreensivos, sabe? A Editora Ideias Brilhantes, por exemplo, segue seus contratos à risca. Aplica multas e tudo mais após um diazinho de atraso! Escreva, meu querido! Concentre-se, desligue-se de redes sociais e de outras distrações, isole-se. Compre uma caixa de bebidas energéticas por minha conta e vire algumas noites… No máximo, dia 21, quando eu chegar pela manhã ao escritório, quero o “Poelêmicas” completo, na pasta do Google Drive que compartilhei contigo. Sem faltas, sem desculpas, ou, infelizmente, terei que acionar o departamento jurídico. Me desculpa por soar assim, tão dura, mas estou sendo muito pressionada pra resolver o problema…

“Problema”, virei um… “O Problema Ismael”, seria talvez um bom título para um conto…

— Eu entendo, Virgínia. Darei tudo de mim pra terminar até o prazo, pode deixar.

— Tá bom, querido – ela suspirou. — Não me decepcione, ok? Beijos!

— Beijo…

Por alguns minutos, apenas odiei Virgínia, que com um nome desses deveria ser uma ex-contadora amargurada e aposentada, virgem de signo e de estado permanente do hímem, provavelmente, não sei, hã, maníaca por limpeza, organização e por… picuinhas gramaticais, com mãos ressecadas de sabão antisséptico pelo TOC. Se morasse numa casa com quintal, seria daquelas senhoras que furam as bolas de futebol caídas em seu jardim antes de devolvê-las, murchas, às crianças, com um sorriso sádico nos lábios.

***

Um ingresso de entrada para o Château Lacave, em Caxias do Sul, foi a pista encontrada com a última vítima, uma jovem ruiva de nome Madeline, que fora sedada e enterrada viva, por não sofrer, convenientemente, de catalepsia como a personagem d’A Queda da Casa de Usher. Sem outras pistas, Edgar seguiu para a cidade, cheia de turistas interessados em vinhos e gastronomia de origem italiana.

O Grande Circo Karel Čapek estava na cidade, junto ao estacionamento do Shopping Iguatemi. Não tinha mais animais, feito antigamente, o que era algo bom para os pobres bichos, embora Edgar sentisse falta de cães adestrados e, em especial, dos elefantes, girando no picadeiro seguindo os comandos de alguma mocinha vestida de bailarina, acenando com suas trombas e bramindo gentis. Felizmente, também não haveria mais tigres ou leões. Se gatos eram ruins, o que dizer de gatos maiores e mais ferozes?

Havia chovido na véspera. Um cartaz meio esfarelado, colado à banca de jornais de uma esquina próxima do Parque dos Macaquinhos, comentava as atrações: Globo da Morte, trapezistas, Labirinto de Espelhos, Madame L’Espanaye e os futuros!

“Estranho usar a expressão no plural”, ele pensou. “Por que futuros? Há mais de um?”.

Anotei num bloco: ele se consultaria com a cigana, que falaria de alguns futuros possíveis: Plutão soltaria a mascote, o leão do circo, aposentado há anos, mas ainda carinhosamente tratado pela proprietária, a herdeira do falecido Senhor Karel. Paralisado pela fobia de infância, Edgar não escaparia das garras do gato gigante, bem alimentado, mas contente em finalmente comer comida fresca ao invés de frango congelado. Ou Plutão deixaria pistas que levariam Edgar a investigar uma cave abandonada, onde haveria um último barril de Amontillado coberto de salitre e um fosso profundo, escondido pela escuridão. Ou Plutão se refugiaria no Labirinto de Espelhos do circo, usando uma máscara de carnaval. O assassino revelaria ser um jovem espadaúdo, de cabelos encaracolados e castanho claros, olhos verdes brilhariam através das frestas de sua máscara de arlequim. Lembrava a Edgar alguma versão muito mais nova de si mesmo, quando ele ainda tinha sonhos e cabelos. Futuros…

“Nunca aposte sua cabeça com o diabo”, pensei ter escutado alguém dizer baixinho, com voz rouca. Levantei da cadeira, trêmulo.

— Tem alguém aqui? – indaguei às paredes alvas, que me esnobaram, como sempre.

Tentei voltar a meu texto, devia ser algum pensamento intrusivo aleatório, quando escutei outro sussurro: “Embora o diabo jogue bem, ele joga limpo. Trapaceie com cartas marcadas!”.

— Quem está aí? Vou chamar a polícia, eu tenho uma arma! – Menti. Novamente, fora o borbulhar da bomba de um aquário num dos quartos, não obtive resposta. As janelas e portas estavam fechadas, revistei todos os cômodos, olhei dentro de armários e sob as camas, sem sucesso. Estava, afinal, sozinho: eu e os peixes.

A adrenalina baixou. Senti fome, mas não tinha disposição de preparar algo mais trabalhoso. Quebrei três ovos e misturei com cubos de queijo e presunto. Fritei a omelete e quando a comi, recordei-me de um raro conto humorístico de Poe, O Duque de L’Omelette. Um malandro jogador de cartas que foi parar no Inferno. Que desafiou o diabo, que roubou no jogo e enganou o próprio Satã, usando cartas marcadas.

“É isso”, matutei. De tanto pesquisar referências às obras de Poe, de escutar audiolivros, comecei a sonhar acordado. Perder a cabeça com o diabo deve ser referência a outro texto obscuro, sobre um idiota que aposta a própria cabeça com Belzebu. Só nerds loucos notariam que até a cigana de meu livro é homônima da mulher morta em Os Crimes da Rua Morgue. Tanto esforço, pérolas aos porcos, nem Virgínia notaria tanta dedicação.

Algum tempo depois, para minha decepção, descobri uma aba aberta no Chrome, onde o áudio dos contos do Poe estava travado num loop e sussurrava baixinho. A minha suposta loucura tinha, afinal, alguma explicação racional.

No dia seguinte, resolvi que começaria, como Virgínia sugeriu, um tour de force para completar meu quarto capítulo em tempo hábil.

 

***

8 de outubro

Vinte e uma horas e quarenta minutos. Sim, eu não tive muita pressa… Abri um documento em branco e o encarei por alguns instantes, como se ele fosse me morder. Resolvi reescrever todo o início do capítulo IV:

Chovia, e Caxias do Sul fedia a mosto e serragem molhada.

Apaguei. Escrevi de novo. Deixei. Boa bosta começar falando do tempo, mas era uma primeira frase razoável. Não era uma grande primeira frase, mas era honesta, e honestidade numa primeira frase vale mais do que beleza.

Preparei uma dose de absinto — o ritual me acalmava, a lentidão deliberada do açúcar dissolvendo, o pequeno redemoinho no copo — e voltei à tela.

Edgar estava em Caxias do Sul havia dois dias. Eu sabia o que ele precisava fazer: encontrar o circo, encontrar a cigana, ser conduzido pelos futuros possíveis até o confronto final com Plutão. Sabia o arco. O problema nunca é o arco. O problema é sempre a primeira frase depois da primeira frase, e a seguinte, e a seguinte, o interminável esforço de fazer o tempo ficcional avançar um segundo de cada vez sem que o leitor perceba o esforço.

O Grande Circo Karel Čapek ocupava os fundos do estacionamento do Shopping Iguatemi como um delírio febril: colorido demais para ser levado a sério, grande demais para ser ignorado. Edgar parou junto da calçada molhada e olhou para as lonas vermelhas e amarelas que açoitavam no vento frio, para as luzes que piscavam em sequências que quase telegrafavam palavras. Havia música — um organetto distante, uma valsa levemente desafinada.

Não estava mal. Reli três vezes. O tom era diferente do que escrevi inicialmente. Parecia onírico… Continuei.

Meia-noite. Tinha seis páginas e a satisfação específica de quem encontrou o passo certo numa caminhada longa — aquele ritmo em que o esforço some e o corpo apenas anda. Edgar estava entrando no circo. A cigana ainda era uma silhueta no horizonte do capítulo, mas eu conseguia senti-la esperando, paciente, com suas mãos de asas de mariposa dobradas sobre a mesa de cartas.

Fui dormir às duas. Sonhei com um homem que me seguia pela rua, sempre a mesma distância, nunca se aproximando, nunca se afastando. Quando acordei não me lembrava do rosto dele, apenas da certeza, no sonho, de que se eu parasse ele também pararia.

 

10 de outubro

O dia anterior havia sido inútil. Tentei escrever de manhã, produzi três parágrafos que apaguei, fui ao supermercado, comprei queijo, uma caixa de Monster e uma garrafa de vinho, que não abri. Voltei, tentei de novo, produzi dois parágrafos que não apaguei mas que também não eram bons, desisti, assisti a um documentário sobre polvos que me distraiu agradavelmente por cinquenta minutos — polvos são criaturas extraordinárias, cada tentáculo com seu próprio sistema nervoso parcialmente autônomo, cada um processando o mundo de forma independente; às vezes penso que escrever um romance é assim, cada capítulo com sua própria consciência, e o autor apenas o organismo maior que finge tê-los sob controle.

A noite me fez voltar aos trilhos.

O organetto parou quando Edgar entrou na tenda principal. Não gradualmente, não como uma música que termina — simplesmente parou, tal qual se alguém houvesse posto a mão sobre as cordas. Os poucos espectadores nas arquibancadas não pareciam notar. Aplaudiam alguma coisa no picadeiro que Edgar, da entrada, não conseguiu ver direito: uma trapezista que se movia rápido demais, que deixava rastros de luz no ar escuro feito se o espaço guardasse memória do movimento.

Parei. “Rastros de luz no ar escuro feito se o espaço guardasse memória do movimento” — de onde viera isso? Reli. Deixei. Às vezes o texto sabe mais do que o autor, já disse isso para mim mesmo antes e continua sendo verdade, ou pelo menos é uma mentira confortável o suficiente para continuar acreditando.

Pesquisei referências. Voltei a O Homem da Multidão — aquele conto estranho e inclassificável em que o narrador persegue um velho pelas ruas de Londres por horas, por dias, sem nunca alcançá-lo, sem nunca entender o que o move. Poe não explica. O velho é apenas um velho, a multidão é apenas a multidão, e no fim o narrador desiste e conclui que aquele homem é um livro que não se deixa ler. É um conto sobre obsessão, ou sobre culpa, ou sobre a impossibilidade de conhecer verdadeiramente outra pessoa — Poe não escolhe, e é exatamente por não escolher que o conto persiste na memória.

Pensei em Edgar perseguindo Plutão. Pensei em Plutão deixando-se perseguir.

Escrevi até as três.

Havia um homem parado perto da saída da tenda que Edgar notou e depois “desnotou” — o movimento natural dos olhos sobre uma multidão, o cérebro descartando o que não parecia relevante. Mas quando Edgar se virou para sair, o homem ainda estava lá, na mesma posição, e havia nessa imobilidade algo que não era descanso. Era espera. Edgar conhecia a diferença: um corpo em repouso relaxa; um corpo em espera se contrai, sutil, uma tensão que começa nos ombros e desce.

Contudo, então, sem mais nem menos, o homem se virou e foi embora, sem se importar com a estranheza que causou.

Talvez, às vezes, um estranho seja apenas um estranho.

Bom. Estava bom. Fui dormir satisfeito, com o gosto artificial da manga do energético na boca e uma leveza estranha no peito que às vezes confundo com felicidade.

 

13 de outubro

De manhã, enquanto tomava café, fiquei olhando para os peixes no aquário do quarto. Tenho dois, um laranja e um branco, sem nome porque nomear peixes me parece uma forma de se preparar para o luto — eles morrem tão facilmente, tão sem aviso. O branco ficou parado perto do fundo por um tempo longo demais e senti aquela contração familiar no peito, mas então ele se moveu, apenas estava descansando, e eu soltei o ar que não sabia que estava segurando.

Escrevi sobre Edgar caminhando pela cidade depois do circo, processando o que vira. Queria que ele andasse sem destino, como o narrador de Poe pelas ruas de Londres — queria que Caxias do Sul fosse para Edgar o que Londres fora para aquele narrador, uma cidade que pulsa com uma vida que não nos pertence, cheia de rostos que guardam segredos que nunca saberemos.

Havia vinho por toda parte: nas vitrines das cantinas, nos cartazes dos hotéis, nas conversas dos casais nas calçadas. Grandes vinícolas comerciais, pequenas vinícolas gourmets. Caxias do Sul cheirava ao tempo passado dentro de barris de carvalho, ao escuro paciente, à transformação que só acontece no silêncio e no fechado. Edgar pensou em Fortunato descendo as escadas da adega com seus guizos tilintando. Pensou em como um homem pode ser conduzido alegremente para sua própria ruína se alguém souber exatamente qual orgulho manipular.

Caminhava a esmo e se sentou num banco de madeira de uma praça sob um pinheiro-do-paraná, sem saber bem como havia chegado até ali — saíra do hotel apenas para andar, para escapar do quarto onde os arquivos do caso se espalhavam pela cama como ossos de um corpo.

A árvore era uma araucária velha, de tronco escuro e galhos horizontais que cortavam o céu cinza em camadas. Edgar a encarou sem pensar em nada. O vento movia as pontas dos ramos com uma lentidão quase deliberada.

Foi então que ele a viu.

Azul. Um azul impossível para um ser vivo — azul cobalto, azul de vitral, azul que não combinava com o inverno nem com a praça nem com coisa alguma daquele mundo cinzento. Cabeça preta e corpo azul: a gralha pousou no galho mais alto da araucária e ficou parada, olhando para baixo com olhos redondos e pretos como contas.

Edgar não se mexeu.

O pássaro abriu o bico. O som que saiu não era o grasnar áspero que ele esperava — era algo mais articulado, mais longo, como se a ave estivesse tentando organizar as sílabas antes de soltá-las. Edgar inclinou a cabeça para ouvir melhor.

E a gralha falou.

— Nesse pago onde a saudade bate mais forte que o vento…

Não era exatamente uma voz. Era mais um eco de voz, a impressão de palavras dentro de um som que talvez fossem só os galhos e o vento encontrando uma fresta certa e uma mente quebrada como receptora, ansiosa por fazer sentido do que não tem. Edgar sabia disso. Sabia e não se levantou do banco.

— …me diz, passarinho, se tem volta. Me diz se tem volta do que foi.

Os olhos pretos não piscaram.

— Nunca mais — respondeu Edgar, em voz baixa, quase sem querer.

A gralha inclinou a cabeça para o outro lado. Depois abriu as asas — aquele azul rasgando uma ferida no ar frio — e sumiu acima dos telhados, em direção ao sul, sem fazer barulho.

Edgar ficou olhando o galho vazio por um longo tempo.

Pensei por um longo tempo se deveria incluir minha referência a O Corvo. Não existem corvos no Brasil, então usei a gralha-azul. Mas elas não falam, e a minha ainda falou em “gauchês”, o que poderia quebrar o precário realismo que tentei construir até então. Por enquanto ficará aqui, depois decidirei se corto essa parte ou não.

À tarde saí para caminhar. Precisava de ar e de perspectiva, que são frequentemente a mesma coisa. Havia um homem parado na esquina da Consolação que me fez parar por um segundo. Algo na postura — os ombros, a inclinação da cabeça. Não o conheço, claramente não o conheço, mas fiquei olhando tempo suficiente para que ele notasse e me devolvesse um olhar sem expressão. Continuei andando.

Na volta, abri o documento e escrevi por quatro horas sem parar.

O inspetor voltou ao circo na segunda noite. A tenda da cigana ficava no fundo, separada das outras atrações por um corredor de espelhos que durante o dia servia como entrada para o Labirinto — à noite, com a iluminação reduzida, os espelhos devolviam imagens que demoravam um meio segundo a mais do que deveriam, como se a luz viajasse mais devagar naquele corredor, ou se os reflexos precisassem de tempo para decidir o que mostrar. Edgar não olhou para eles. Tinha aprendido, cedo na vida, que há coisas que é melhor não conhecer.

A tenda de Madame L’Espanaye era incenso e algo por baixo do incenso — mais antigo, mais úmido, terra depois da chuva ou o interior de uma casa muito velha que nunca recebe sol. A cigana estava sentada à mesa quando ele entrou, feito se o estivesse esperando, se sempre o estivesse esperando, se sua vida inteira fosse uma espera interrompida apenas pela chegada de pessoas que precisavam saber o que não podia ser sabido.

— Sente-se — ela disse, sem olhar para ele.

Edgar se sentou. Sobre a mesa havia um velho baralho de tarot, um castiçal com três velas em alturas diferentes, e uma xícara de chá que não estava mais fumegando — esperara por ele tempo suficiente para esfriar.

— A senhora me conhece? — ele perguntou, curioso.

— Conheço as perguntas — ela respondeu. — São sempre as mesmas. Onde ele está. Como pará-lo. Se ainda há tempo.

— E há?

Ela finalmente o olhou. Seus olhos eram de uma cor que Edgar não conseguiu precisar — não eram castanhos nem verdes nem cinzentos, eram todas essas coisas dependendo do ângulo da vela, dependendo do quanto ele ousava olhar de frente.

— Há mais de um futuro — ela disse. — Isso não é uma profecia. É apenas a verdade que os homens insistem em ignorar.

Parei. Reli o trecho da cigana. “Há mais de um futuro” — ela estava falando com Edgar, naturalmente, mas eu ouvia a frase de uma outra forma, ressoando para fora do texto, para mim sentado à mesa com meu copo de absinto e minhas tantas páginas por escrever. Há mais de um futuro, Ismael. Há o futuro em que você termina o livro. Há o futuro em que não termina. Há outros futuros ainda, que você não está considerando.

Fechei o documento, abri, reli, fechei de novo.

Fui dormir pensando em futuros.

 

18 de outubro

Sonhei com a Ilha da Fada. Não com o conto em si — nunca sonhamos com textos, sonhamos com as imagens que os textos constroem dentro de nós sem pedir permissão. Sonhei com uma ilha pequena num rio de águas leitosas, com árvores cujas raízes entravam na água como dedos, com uma luz que vinha de algum lugar que não era o sol. Havia uma figura caminhando no limite da ilha, no estreito perímetro de terra entre as árvores e a água, e cada vez que completava uma volta a ilha parecia ligeiramente menor, as árvores ligeiramente mais perto da borda, como se a ilha estivesse se consumindo sob seus passos.

Acordei com a sensação de que havia entendido alguma coisa que agora não conseguia articular.

Poe escreveu A Ilha da Fada em 1841, e é um texto que os compiladores frequentemente ignoram em suas coleções por não ser bem um conto — não tem enredo, não tem personagens com nome, é apenas uma meditação sobre uma ilha vista de uma margem, sobre a fada que caminha seu perímetro em círculos decrescentes, sobre como cada volta é uma diminuição, sobre como a vida talvez seja isso: círculos que se fecham, cada um menor que o anterior, até que não reste mais ilha para percorrer. É um texto sobre a morte escrito com a serenidade de quem já fez as pazes com ela, o que é perturbador precisamente porque Poe não havia feito as pazes.

Anotei no bloco: a cigana como a ilha. Edgar como a fada. Cada futuro que ela mostra é um círculo menor.

Escrevi oito páginas. No fim da noite, Edgar havia saído da tenda da cigana com três futuros na cabeça e uma xícara de chá frio que ela lhe dera para beber antes de ir — “para ver com clareza”, ela dissera, e ele bebera sem perguntar o que havia no chá, porque havia chegado a um ponto da investigação em que perguntar parecia menos importante do que saber.

Lá fora, o circo continuava. O organetto havia voltado — a mesma valsa, o mesmo leve desafinar, uma memória de música mais do que música propriamente. Edgar parou no meio do corredor de espelhos e desta vez olhou. Seus reflexos o olharam de volta, cada um com uma expressão ligeiramente diferente — um cansado, um com raiva, um com algo que não queria nomear. Num dos espelhos, o reflexo tinha cabelos. Encaracolados, castanho-claros. Edgar piscou e o reflexo era ele mesmo, careca e de meia-idade, com olheiras e um casaco que precisava de limpeza.

“Reconheço você”, ele havia pensado, sem saber bem a quem se dirigia.

Fechei o documento às duas da manhã com boas páginas novas e a sensação estranha, levemente inquietante, de que o livro estava indo para algum lugar que eu havia planejado mas que agora parecia maior do que o plano, como uma planta que cresce além do vaso sem pedir licença.

O peixe laranja nadava em círculos no aquário. Sempre em círculos. Nunca me havia perturbado antes.

***

25 de outubro

Acordei às onze da manhã com a boca pastosa e a certeza imediata, antes mesmo de abrir os olhos, de que havia algo errado com o dia. Não errado de forma identificável — nenhum barulho fora do lugar, nenhuma luz estranha entrando pela janela — apenas aquela qualidade específica do ar de um apartamento quando algo mudou sutilmente durante a noite sem deixar evidência.

Levantei. Verifiquei os peixes. Os dois estavam bem.

Fui ao banheiro e ao me olhar no espelho notei que havia dormido com a luz da mesa acesa — conseguia ver o reflexo do quarto atrás de mim, a tela do notebook ainda aberta, o documento ainda lá. Fui ver. Havia uma linha nova no final do texto, depois de onde eu havia parado na noite anterior:

Havia alguém esperando do lado de fora da tenda.

Não me lembrava de tê-la escrito. Era possível que a tivesse escrito antes de dormir, naquele estado de semiconsciência em que às vezes continuo trabalhando sem saber — já acontecera antes, frases escritas no limite do sono que de manhã parecem de outro autor. Era possível e era a explicação mais razoável e era a explicação que decidi aceitar.

Deixei a frase. Não era uma frase ruim.

Café, torrada, duas aspirinas preventivas. Abri as pesquisas de Poe que havia deixado abertas no navegador — havia uma aba sobre O Demônio da Perversidade que não me lembrava de ter aberto. Li o resumo. O conto é narrado por um assassino que cometeu o crime perfeito e viveu anos em liberdade e prosperidade, e que um dia, sem razão identificável, começa a sentir o impulso de confessar. Não por culpa — Poe é cuidadoso nisso. Por perversidade. Pelo prazer específico e irracional de se autodestruir, de aproximar a chama do dedo apenas para ver o que acontece, de dizer a coisa que não deve ser dita apenas porque não deve.

O narrador tenta resistir. Quanto mais resiste, mais forte fica o impulso. No fim, confessa em voz alta na rua, como se as palavras tivessem saído sem sua permissão, e é capturado.

Fiquei olhando para a tela por um tempo.

Há um impulso, quando estou perto de terminar um livro, de apagar tudo. Não é algo que faço — nunca fiz — mas o impulso existe, reconhecível, aquela voz baixa que diz e se você simplesmente selecionasse tudo e apertasse delete, formatasse o HD, e se, e se. Sempre atribuí isso ao cansaço ou ao medo do julgamento alheio, mas Poe teria chamado pelo nome certo: perversidade. O prazer de destruir o que se construiu, a vertigem na beira do abismo.

Não apaguei nada. Escrevi doze páginas.

A figura do lado de fora da tenda era uma mulher bem jovem, de cabelos escuros e um casaco vermelho que pertencia a outro clima, outro país. Ela olhou para Edgar com uma expressão que ele não soube ler imediatamente — não era medo, não era reconhecimento, era algo anterior a esses dois, algo que precede o momento em que o cérebro decide como se sentir.

— O senhor é o inspetor — ela disse. Não era uma pergunta.

— Sou — respondeu Edgar.

— Ela me contou que o senhor viria. — A mulher olhou para a tenda da cigana.

— E quem é você?

Ela hesitou — a hesitação de quem está decidindo o quanto da resposta dar.

— Meu nome é Morella — ela disse.

Parei.

Não havia planejado isso. Havia planejado uma informante, uma testemunha, alguém que ligasse o circo à cave e à última pista, mas não havia planejado o nome. O nome havia chegado sozinho, com a naturalidade das coisas inevitáveis, e agora que estava lá não conseguia imaginar outro.

Morella. A mulher de outro conto de Poe — uma mulher de erudição extraordinária e saúde frágil, que morre e retorna através da filha, que diz “Eu estou aqui” e faz o marido compreender que a morte não é o fim que esperava. Uma mulher que persiste. Que recusa o esquecimento, que renasce na filha também chamada Morella.

Edgar tinha Ligeia, morta. E agora havia uma mulher viva com nome de morta ressurreta chamada Morella, esperando do lado de fora de uma tenda de cigana em Caxias do Sul.

Continuei escrevendo.

— Conhece o homem que usa a alcunha de Plutão? — Edgar perguntou.

Morella fechou o casaco vermelho com as mãos, um gesto que não era de frio.

— Conheço — ela disse. — Ele se chama Valdemar. Ele é meu pai.

***

28 de outubro

Não dormi bem. Acordei várias vezes — às duas, às quatro, às cinco e meia — com a sensação de que havia esquecido alguma coisa urgente, uma tarefa, um compromisso, o tipo de esquecimento que o cérebro fabrica às três da manhã para justificar a insônia. Ficava deitado no escuro repassando a lista: o livro, o prazo, Virgínia, as páginas de ontem. Tudo estava no lugar. Não havia nada esquecido.

Às seis desisti de dormir e fui escrever.

Havia uma névoa fina lá fora que apagava os contornos dos prédios e fazia a rua parecer um esboço de rua, uma sugestão. Fiquei olhando pela janela com o café na mão por mais tempo do que pretendia. Há algo na névoa que sempre me faz pensar em limiares — lugares que são duas coisas ao mesmo tempo, nem dentro nem fora, nem dia nem noite, nem sono nem vigília.

Morella contou a história de seu pai em partes, como se algumas peças ainda lhe custassem ser ditas em voz alta. Afinal, ela nunca entrou em contato com as autoridades para denunciá-lo. O homem que Edgar perseguia havia sido, antes de tudo, um pai. Antes da máscara de gato, antes dos nomes das vítimas, antes de Ligeia — havia sido um homem comum, técnico de manutenção do circo, que reparava geradores, trapézios, lona rasgada e o organetto quando desafinava além do razoável. Um homem que amava sua filha e que um dia, sem que Morella conseguisse precisar quando exatamente, começou a se perder.

— Ele lia muito — ela disse. — Sempre leu autores antigos e Poe era seu favorito. Mas começou a ler de forma diferente. Estava procurando alguma coisa específica.

— O quê?

— Não sei. — Ela olhou para as mãos. — Acho que uma justificativa. Ou uma permissão.

Travei nessa frase por um tempo considerável. Uma justificativa. Ou uma permissão. Às vezes a ficção formula coisas que a não-ficção não consegue — não porque a ficção seja mais verdadeira, mas porque a ficção tem a liberdade de dizer o que sabe sem precisar provar.

À tarde tentei descansar e não consegui. Pensei em Morella e em Ligeia e na diferença entre uma mulher que retorna e uma mulher que nunca foi embora de verdade, apenas mudou de forma. Pensei no retrato oval sobre a mesa de cabeceira de Edgar. Na ideia, que Poe explorou mais de uma vez, de que amar alguém morto é mais fácil do que amar alguém vivo, porque o morto não decepciona, não abandona, não envelhece, não tem dias ruins — o morto é apenas a versão que escolhemos lembrar, polida e imóvel como um retrato.

Edgar havia amado mal a esposa em vida. Agora a amava perfeitamente, o que é o tipo de amor que não custa nada porque não exige nada.

Voltei a escrever.

— Ele falava de uma mulher — disse Morella. — Nos últimos meses antes de eu deixar o circo. Uma mulher que tinha que morrer para voltar e amá-lo sob um novo nome, um novo corpo. Ele dizia que saberia quando finalmente a encontrasse. Eu nunca pensei que ele iria além dos delírios.

Edgar trincou o maxilar, sem emitir som algum. O conto sobre Ligeia  a descrevia como sobrenaturalmente bela e sábia, com olhos e cabelos castanho-escuros, como sua falecida esposa. Ela morria de causas naturais e o narrador se casava de novo, dessa vez por conveniência, e não por amor, com a loura Rowena, que também morreria poucos meses depois. No velório da segunda esposa, o corpo de Rowena reviveu e morreu várias vezes, até ficar finalmente inerte, com os olhos e cabelos escuros de Ligeia.

— E por que a fantasia de gato? — Edgar perguntou, depois de ter causado certo silêncio desconfortável.

— Temos um gato preto e branco, que ele adora. É grande e muito manso, embora fosse um gato de rua antes de o adotarmos. Dorme na minha cama até hoje.

Morella o olhou.

— Sim. Se chama Plutão — ela complementou. — Bem óbvio, não é? Ele sempre foi literário demais para o próprio bem.

Algo nessa frase me fez rir sozinho no apartamento vazio, o que foi simultaneamente reconfortante e levemente perturbador. Literário demais para o próprio bem. Sim. Conheço essa condição. Sou portador crônico.

À noite, ao reler o trecho de Morella, notei que havia escrito, num parágrafo do meio, a seguinte frase que não me recordava de ter composto: Era o tipo de amor que só existe quando já não há nada a perder, o que é outra forma de dizer que não era amor nenhum, apenas o hábito do luto vestindo roupas alheias.

Reli três vezes. Era a melhor frase do capítulo. Não me lembrava de tê-la escrito. Salvei o documento e fui dormir sem olhar para o espelho do banheiro, o que foi uma decisão que tomei sem pensar e que só percebi depois, já deitado, no escuro.

 

1 de novembro

O peixe laranja estava morto de manhã.

Flutuava perto da superfície com aquela imobilidade particular dos peixes mortos, que é diferente da imobilidade dos peixes vivos descansando — mais definitiva, mais sem equívoco. O branco nadava em círculos ao redor dele com uma expressão que eu sei que peixes não têm expressões mas que parecia, naquela manhã com pouco sono e muita cafeína, notavelmente próxima da consternação.

Retirei o laranja com uma peneira, enrolei em papel toalha, coloquei no lixo. Não havia muito a fazer além disso. Não lhe dera nome justamente para evitar este momento mas o momento havia chegado de qualquer forma, como sempre chega, nomeado ou não.

Fiquei mais tempo do que deveria olhando para o peixe branco nadando sozinho.

Escrevi mal durante a manhã. Quatro parágrafos fracos sobre Edgar seguindo Morella pela cidade, nada que não pudesse ser reescrito ou descartado. À tarde tomei o energético e melhorei.

Havia uma livraria fechada na Rua Os Dezoito do Forte — fechada como que falida, a vitrine vazia exceto por alguns volumes esquecidos que ninguém havia achado conveniente levar, abandonados feito se os livros em si não tivessem valor.. Edgar parou diante da vitrine. Um dos volumes, tombado de lado, tinha a lombada virada para fora: Works of Edgar Allan Poe, uma edição antiga, capa escura com letras douradas desgastadas. Ele ficou olhando para o nome na lombada por um tempo que não soube precisar.

Existia algo ligeiramente cômico nisso, ele reconhecia. Perseguir um assassino que se inspirava em Poe enquanto se deparava com Poe nas livrarias fechadas da cidade. Como se o autor morto há cento e tantos anos estivesse participando da investigação, oferecendo pistas em sua própria caligrafia.

Ou como se a investigação fosse, desde o começo, uma história que alguém estava escrevendo.

Edgar afastou o pensamento. Era o tipo de pensamento que não levava a lugar nenhum útil.

Parei. Reli o último parágrafo. Como se a investigação fosse, desde o começo, uma história que alguém estava escrevendo. Edgar afastando o pensamento porque era inútil. Eu mesmo, Ismael, com nome de personagem de livro clássico, tendo escrito o pensamento e depois mandado meu personagem descartá-lo.

Fiquei sentado por alguns minutos sem escrever, com o cursor piscando.

À noite ouvi passos no corredor. Passos reais, de vizinho, absolutamente normais, mas fiquei ouvindo até pararem — parei de digitar, fiquei completamente imóvel, ouvindo. Pararam diante da minha porta por um momento, ou imaginei que pararam, e depois continuaram e sumiram escada acima.

Fui verificar que a porta estava trancada. Estava.

Voltei ao texto. O aquário borbulhava no quarto, regular e indiferente, e o peixe branco nadava seus círculos sozinho, e eu escrevi até meia-noite pensando, sem querer pensar, que nomear as coisas não as protege mas que talvez o contrário também seja verdade: não nomear não protege de nada.

 

5 de novembro

Sonhei com Edgar.

Não é incomum — quando estou fundo num projeto os personagens frequentemente invadem o sono, aparecem em contextos impossíveis, dizem coisas que às vezes anoto ao acordar porque parecem úteis. Mas este sonho era diferente. Edgar estava sentado à minha mesa, no meu apartamento, lendo o manuscrito do livro (no sonho o livro era escrito à mão). Não “Poelêmicas” — um livro sobre ele. Eu estava parado na porta do quarto observando, e ele lia em silêncio com uma expressão concentrada, e eu tinha a certeza, no sonho, de que não devia interrompê-lo, de que havia algo importante naquele ato de um personagem lendo a própria história, algo que se eu interrompesse se perderia para sempre.

Ele virou uma página. Depois outra. Depois parou, com o dedo sobre uma linha específica, e levantou os olhos — não para mim, para algum ponto na parede, como quem relê mentalmente algo que leu. Sua expressão era indecifrada. Não estava com raiva. Não estava triste. Estava com a expressão de alguém que acaba de entender alguma coisa que suspeitava há muito tempo.

Acordei antes que ele se virasse.

Escrevi o sonho no bloco antes de esquecer. Depois fiquei olhando para o que havia escrito e pensei em William Wilson — o conto do duplo, do alter ego que persegue o protagonista por toda a vida, que aparece nos momentos cruciais para impedi-lo de cometer os piores atos, que no fim é morto por ele e com a morte do duplo vem a destruição do próprio Wilson, porque o duplo era sua consciência, sua parte melhor, e sem ela não resta nada que valha ser chamado de pessoa.

Edgar é meu Wilson. Ou eu sou o Wilson de Edgar. Não sei mais ao certo em que direção a analogia funciona e isso, reconheço, pode ser um problema.

Morella levou Edgar à cave no terceiro dia. Não o Château Lacave dos turistas — outro lugar, mais antigo, que ficava sob um casarão abandonado no bairro histórico, acessível por uma porta de madeira escura num beco que não aparecia nos mapas digitais. Ela tinha uma chave. Edgar não perguntou como.

Desceram uma escada de pedra úmida. O cheiro que encontraram lá embaixo era o cheiro que Edgar havia identificado no ar da cidade desde que chegara, mas mais concentrado, mais puro: mosto e carvalho e o tempo dentro dos barris e alguma coisa que não era nenhuma dessas coisas, que era mais antiga que todas elas, que era o cheiro do que acontece quando se fecha um lugar e se deixa o escuro trabalhar.

Havia fileiras de barris ao longo das paredes. Muitos estavam cobertos de salitre — uma crosta branca e irregular como neve suja, como a casca de alguma coisa que estivera viva e parara. Sobre um dos barris, ao fundo, havia uma presilha de cabelo, vermelha como o casaco dela.

— É minha— disse Morella, com uma voz de onde havia saído toda a emoção, como água de um copo virado. — Eu devo ter deixado cair aqui na última vez que vim.

— Quando foi isso?

— Uns cinco meses antes de ele matar a primeira mulher — ela disse. — Descobri que ele invadiu essa propriedade,  que fez uma chave e que passava os dias aqui, bebendo vinho no escuro, remoendo ideias esquisitas. Vim tentar trazê-lo de volta à normalidade. — Pausa. — Não consegui.

Havia algo mais no chão, ao lado do barril mais distante. Edgar foi até lá com a lanterna. Um espelho pequeno. E abaixo dele, gravado no chão de pedra com o que parecia ser uma faca, ou uma garra de metal: um nome.

Ligeia.

Edgar ficou olhando para o nome na pedra por um tempo que não soube precisar. Eu fiquei olhando para o que havia escrito por um tempo igualmente impreciso, com o mesmo tipo de imobilidade.

Não havia planejado o nome na pedra. Havia chegado assim, inevitável, como sempre chegam as coisas inevitáveis — sem pedir licença, sem se anunciar, simplesmente lá quando você olha.

Escrevi mais dez páginas. Na última, sem planejamento consciente que eu pudesse identificar, escrevi:

Edgar percebeu, naquele momento, que havia dois tipos de investigação: a que procura o culpado, e a que procura entender por que o culpado fez o que fez. A primeira tem fim. A segunda não tem.

Salvei o documento. Fui à cozinha beber água. No reflexo da janela escura meu rosto parecia levemente diferente do habitual — as sombras talvez, o cansaço, o ângulo. Olhei por mais tempo do que precisava e depois fui dormir, deixando a luz do corredor acesa.

E Então? O que achou?

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Publicado às 1 de maio de 2026 por em E-Rom G4, Entre Romances e marcado .