EntreContos

Detox Literário.

Sarcófago (Clemente)

 

Preciso continuar relatando o que aconteceu. Quando terminar de contar tudo que sei, começar contar novamente. Incontáveis vezes até minha sanidade termine de vazar espaço afora. O registro deve permancer para ser repetido. Que minha boca se transforme em emissor, meu cérebro um livro desse registro, como hieróglifos encravados na minha mente, para quem sabe um dia ser encontrado. Faço como um último recurso de salvação, não para mim, mas para quem for capaz de entender ou quem for chegar perto daquela luz. Essa cápsula que deveria me transportar inconsiente para um porto seguro, tornou-se o próprio inferno de catatonia. Repetindo-se, repetindo-se, repetindo-se…

***

Meu nome é Capitão Clemente Farias, comandante da missão da fragata astronáutica ONORIS II e meu relato começa nos confins da estrela mais instável da constelação de Órion, Betelgeuse. Nossa missão tinha objetivo de investigar sinais luminosos a partir do terceiro planeta conhecido do sistema: Betelgeuse-C, mais conhecido como Quimera. Estávamos de olho nesse pequeno planeta rochoso desde quando descobriu-se que ficava na zona habitável da estrela. Naquela época ganhou espontâneamente o nome de Andrômaca mas a descoberta de níveis enormes de gases nocivos na atmosfera do planeta, como a amônia, mostraram-se decepcionantes o suficiente para fins de colonização. Isso foi o suficiente para Andrômaca se tornar o desconhecido e antigo nome de Quimera.

Longe dos interesses financeiros maciços dos empreendimentos coloniais, a esquecida Quimera voltou a ganhar atenção novamente apenas após os registros de eventos misteriosos de luz no sistema Betelgeuse. Eram assinaturas de calor muito intensas e estreitas e difíceis de associar a tempestades solares. Boa parte da dificuldade da missão estava relacionada ao fato de Quimera ser quase tão desagradável quanto Vênus em praticamente todos os aspéctos. Para auxílio da missão, havia um posto avançado, numa das luas de Belerofonte, o gigante gasoso do sistema. Estivemos por cerca de seis meses ali reativando a base, até então abandonada por falta de recursos. Desse tempo, as últimas nove semanas, utilizamos a ONORIS II para orbitar Quimera.

A bordo da ONORIS II fizemos leituras comparativas nos arredores de Quimera com o os dados preliminares da ONORIS I tentando entender minimamente os eventos luminosos. Encontramos uma ocorrência apenas, como se ficassem tímidos com nossa presença. A sensação de que não foi apenas nós que ficamos mais cuidadosos com o fim da primeira missão era latente. Até onde se sabe, a primeira missão foi tragada pela gravidade de Belerofonte, sem registros mais detalhados além dos enviados automaticamente enquando a nave colapsava. Contudo, não estávamos lá para investigar ONORIS I, mas para investigar as luzes que poderiam ser o primeiro contato com uma inteligência alienígena de nível mais alto que bactérias ou microalgas.

O primeiro registro da luz que obteve-se naquela ocasião, acabou impulsionando a missão a permanecer em órbita, ainda que o impulso para descer tomou conta de cada indíviduo da tripulação. Apesar da obediência ao protocolo, A ONORIS II veio a Betelgeuse com o peso de ser mais cuidadosa. Assim estávamos progredindo, com calma, monitorando cuidadosamente Quimera quando a Sargento Carla viu pela escotilha o corpo congelado do Tenente Félix, que estava fazendo uma manutenção externa da nave. Estava com seu traje externo exceto pelo capacete que estava desaclopado. Os instrumentos de manutenção da nave flutuavam pacificamente ao seu redor, contrastando com a sinistra tonalidade cinza da pele de Félix, congelada de morte pelo espaço. As vozes nos comunicadores demonstravam variadas formas de tentar manter o controle. Lembro-me de ter me saído melhor nisso que os berros da Sargento e a voz trêmula do Tenente Otacílio mas o que apavororou a todos foi o silêncio do Tenente Felix, que não emitiu som algum até ser percebido por Carla. Isso gelou a espinha de toda a tripulação. Seu equipamento de comunicação ainda funcionava. Nada foi registrado. Nenhum grito, um gemido sequer. Seja lá o que o matou, foi incrivelmente instantâneo. Tentando manter o controle, ordenei que Carla continuasse o contato visual com o corpo do Tenente Felix enquanto tentaria puxa-lo para dentro da nave.  

–  Capitão, como não percebi nada? Estava monitorando Felix. Não faz sentido. – Carla disse e parou procurando racionalizar. – Ele estava falando aquelas besteiras de sempre, de como seu cunhado precisava trabalhar, e derrepente parou.

–  E depois, Sargento?

–  Eu não disse nada. Não perguntei nada. Simplesmente perdi a a vontade de conversar, não me importei por alguns segundos. – Carla falava se desculpando. Não era seu normal. Enquanto conversava com Carla, me preparava para aproximar a pinça externa da nave e puxar o corpo de Felix para dentro da nave, para poder investigar.

– Fique alerta desta vez, Sargento. Vamos puxar o Félix. Reporte qualquer outra coisa diferente.

Em menos de um minuto a pinça mecânica se aproximou do alvo. Lembro apenas do meu autocontrole, enquanto a câmera na ponta do instrumento dava o visual do rosto de Félix. Além da pele congelada, cristalizou-se a mais pura expressão do horror. A boca e olhos arreganhados e linhas travadas no seu último momento. Depois a câmera apagou.

– Perdi o visual! Sargento!

– Diminui. Para, para capitão. Recolhe um pouco!

Tarde demais. A pinça bateu no corpo impulsionando para longe do corpo fazendo-o girar. Longe do alcançe da pinça.

– Puta que pariu! – Todos pensaram, mas apenas eu falei. O silêncio do fracasso berrou nos meus ouvidos: “O que vamos fazer agora?”. – Venham todos ao convés.

Tenente Otacílio e a Sargento Carla vieram de suas posições de observação, onde acompanharam a operação fracassada. Já estavam a tempo juntos e tinham o conhecimento do protocolo: O computador da missão escolheria um membro para o resgate exploratório com traje externo. Cada membro restante da missão, colocou a mão em uma tela leitora para colher dados médicos. No ecrã, haviam quatro telas. Três estavam sendo atualizadas, calculando desde o estado clínico até as reações ao acidente fatal com Félix. Então, o rosto do Tenente Otacílio foi realçado com um alerta de mensagem, delegando-o como o mais indicado a tarefa. A única reação visível foi uma engolida seca e um acendo de resignação.

– Aproximando-se do corpo do Tenente Félix. – Disse Otacílio mecanicamente pelo comunicador, enquanto a Sargento observava da escotilha da popa direita da ONORIS II.

– Não se aproxime demais, Tenente. – Disse para manter a comunicação constante, de forma a monitorar a consiência de Otacílio. Quando o Tenente parou, prosegui falando. – Prossiga, Tenente. Consegue aprovetar o instrumental de Felix?

– Sim, senhor. Está ao alcance da minha mão. Recolhendo o Martelo. – Disse Otacílio se referindo ao instrumento que fazia de tudo um pouco, de medição sensível à solda básica no casco.

– Muito bem, Tenente. Agora prossiga para o quadrante 6 da nave e continue a verificação de rotina.

– Realizando deslocamento em espaço aberto. Quadrante 6 no visual. Ajustando controles de locomoção do traje. – Disse Tenente Otacílio, que narraria qualquer coisa pelo simples medo de não conseguir mais fazê-lo. – Luzes de sinalização em perfeito funcionamento. Luzes em tons lilás, muito bonitas. Luzes lindas. Parece que estamos de dia. O senhor precisa ver isso. Consegue ver isso, Capitão? Tem plantas enrroladas no painel aberto do quadrante 6. Folhas verdes. É lindo. Como pode estar aqui? Lindas folhas. Meu deus, uma borboleta. Ela pousou no meu dedo. Tem mais. Várias. Estão em toda a parte. Conseguem ver o céu azul como vejo? O ar deve ser puro. Capitão, desaclopando o capacete. O ar está puro. Posso respirar. Posso resp…

–  Você está maluco, Tenente? Coloque o capacete imediatamente! Isso é uma ordem! –  Gritava para o Tenente Otacílio, que divagou sobre o que achou que estava vendo. Não tinha condições de travar o capacete da cabine de comando.

Quando resolvi dirigir minha atenção a Sargento, que estava silenciosa no comunicador, recebi o alerta na tela de descompressão no quadrante 6. O sinal de vida do Tenete Otacílio se apagou. Estava morto. O da Sargento começou a apitar depois indicou falta de sinal. No visual, os objetos da cabina de observação da Sargento estavam flutuando a esmo. A comporta de emergencia aberta. A nave iria descompressar por inteiro. Fui obrigado a colocar meu traje externo, por segurança, caso perdesse a compressão na ponte de comando. Tentei ver pela escotilha, pois minhas câmeras estavam fora do ar. Vi três corpos flutuando no espaço e uma bela luz. Me dirigi o compartimento da saída e depois pulei em espaço aberto. A luz me atraiu com uma linda sugestão de remover meu capacete. Então acionei a última contingência de fuga em espaço aberto.

A capsula de fuga disparou do casco parou por um instante. Acionou uma luz vermelha e se dirigiu até mim, quando se abriu e me envolveu. Aguardei para entrar em estado criogênico e ser direcionado até a base da lua de Belerofonte. Vi os dados sendo carregados da nave e derrepente, tudo começoua falhar. Um mostrador da cápsula informou que os dados estavam corrompidos, então ordenei vocalmente para que a cápsula me evacuasse imediatamente. Seus foguetes fizeram a capsula vibrar e ela disparou espaço a fora. Aguardei com apreensão pelo início do estado criogênico para que pudesse não ver mais essa luz medonha e estar de volta para casa. Foi com terror que percebi que o sistema iniciou o processo. Me mantendo vivo, preservado mas não inconsiênte. Não dormi, desde então.

***

Incontável tempo. Inúteis escalas de medida, por mais que seja possível medir. Meu tempo de existência fora desta caixa tornou-se indistinguivel de qualquer estrela que enxergo da pequena janela da capsula que rebatizei de Sarcófago. A vida, ou este estado de existência, virou uma história, a única a ser contada e o é a tanto tempo que inumeras gerações caberiam desde então. Mas não haviam gerações, não haviam distorções. Apenas distanciamento, uma breve lembrança de ter estado lá ou em qualquer outro lugar. Se algum dia existiu, foi porque existe esse registro. Esse registro existe porque continuo repetindo. Se eu parar de repetir, nada mais restará.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.