EntreContos

Detox Literário.

Sob as Águas (Khalid Ibn Yazid)

 

Só não vejo, até agora inda não vi

O Deus que me mandou ressuscitar

Murilo Mendes

 

 

Paulo guiava o policial Dênis pela trilha no bosque. A escuridão da noite já havia sido dispersada pelos primeiros raios solares, e o azul ríspido do céu anunciava mais um dia de calor.

– É aqui – disse o pescador, parando abruptamente numa clareira. Estava exausto: havia passado a noite em claro colaborando com as buscas.

Os galhos secos da árvore se fechavam, como garras gigantescas, sobre o corpo, que jazia de bruços na margem da lagoa. Após avançar alguns passos, Dênis se agachou para examiná-lo melhor. Sentiu um aperto no peito ao olhar para aquele rosto inchado, o nariz afundado na lama. Era uma cena angustiante, a ponto de enlouquecer alguém que pensasse demais nela.

Joaquim chegou minutos depois, acompanhado da equipe do IML, e então eles estenderam o cordão de isolamento, viraram delicadamente o cadáver e o fotografaram. Estava pálido como papel, os lábios arroxeados.

O sol já ia alto no firmamento quando a ambulância partiu dali, levando o menino morto.

Dênis e Joaquim tinham vindo na noite anterior ao distrito de Remanso para atender a uma ocorrência. A família de Isaac estava desesperada porque ele saíra no meio da tarde para brincar com os amigos e não voltara na hora combinada, nem depois. Os policiais sentiram muita pena da mãe: com seus olhos úmidos e suplicantes, Dona Marta implorava para que trouxessem seu caçula de volta. Quando ela se distraiu um pouco conversando com a vizinha, Joaquim pediu permissão a André, o irmão mais velho, para darem uma olhada na casa, em busca de pistas do paradeiro de Isaac. O rapaz o fitou com os lábios brancos de tão apertados e bufou, mas depois fez um gesto amplo em direção ao corredor.

No quarto do garoto, Dênis encontrou algo que lhe chamou a atenção ao folhear um caderno. Era uma sequência de letras que não formavam palavras, a qual se repetia do meio quase até o fim:

 

CTHULHUFHTAGNCTHULHUFHTAGNCTHULHUFHTAGN

 

Na última página, um desenho. Tentáculos emergiam de um círculo azul, que Dênis deduziu ser a lagoa. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao ver o que estava escrito logo abaixo:

 

O MORTO ESPERA SONHANDO

 

Havia tirado o celular do bolso e fotografado o caderno, torcendo para que a frase não significasse nada. Agora, diante daquele desfecho, era difícil acreditar numa coincidência.

 

***

 

Joaquim conduzia a viatura de volta para a Delegacia. Acompanhando-o no banco do passageiro, Dênis olhava pela janela. O tom verde acinzentado da paisagem e o aspecto de abandono das poucas casas pelas quais passavam faziam Remanso parecer uma tênue recordação de um sonho prestes a ser esquecido.

– Coitada dessa mulher. Perdeu o marido faz cinco anos, e agora isso. – comentou Joaquim, consternado. – Que tragédia.

– Não sei se foi uma tragédia. – disse Dênis.

Joaquim franziu a testa.

– Como assim? Você acha que não foi acidente?

– Encontrei uma anotação bem estranha num caderno dele: “O morto espera sonhando.”

– Ele deve ter visto isso em algum filme de terror.

– Talvez.

– Que tristeza. Me diz uma coisa….Você crê em Deus?

– Não.

– Sério, cara? Ah, mas você deve acreditar em alguma coisa… Sei lá, numa energia, uma força superior…

–Olha, até tentei o budismo por um tempo. Me parecia uma visão interessante, por falar sobre a impermanência das coisas. Mas a ideia de renascimento estragou tudo. Não faz sentido promover o desapego ao ego pra depois dizer que esse mesmo ego vai ressurgir lá na frente. Não. Quando acaba, acaba.

– Como assim?

– Não existe essa coisa de alma, cara. Somos animais extremamente frágeis com cérebros muito desenvolvidos, só isso. O sofrimento causado pela consciência da inevitabilidade da morte é que  levou à criação de todos esses contos de fadas. Foi a maneira que o ser humano encontrou pra lidar com o problema. Mas isso não faz bem pra ninguém.

– Pera aí, mas alguém deve ter criado….A natureza, nós….Tudo que existe. Não pode ter vindo do nada.

– Por que não? E tem um problema nesse raciocínio. Porque em seguida vem a pergunta de quem criou o Criador. Ou se ele se criou sozinho pra depois criar o universo.

– Eu me recuso a pensar assim, cara – protestou Joaquim num tom áspero, balançando energicamente a cabeça. – Tem que existir um sentido. Aquele menino…. Não dá pra aceitar que uma criança morre daquele jeito e é só isso.

– O significado da vida quem constrói é a gente, Joaquim. Não tem um sentido inerente.

– Isso é a sua opinião. Você diz que a crença não faz bem, mas pensar desse jeito faz? Depois de ver aquilo você acha que é bom pra alguém ficar ouvindo essa….Filosofia barata? – Joaquim cuspiu as palavras como se elas fossem camarões podres.

– Foi você quem perguntou.

– Pior que é verdade. Se arrependimento matasse….

Ficaram quietos durante o resto do trajeto. Foi só na Delegacia que voltaram a conversar. Joaquim disse que poderia fazer o relatório, se Dênis não se importasse. Este agradeceu e, como estava no fim do plantão, despediu-se.

Ao chegar em casa, deitou no sofá, exausto, os polegares comprimidos contra os olhos fechados. Sentia-se amolecido pelo calor. Até o ar parecia exigir um esforço extra para ser carregado até os pulmões.

Sob suas pálpebras, surgiu a silhueta do menino morto, estirado na lama. E depois as palavras, muito nítidas:

 

O MORTO ESPERA SONHANDO

 

Então abriu os olhos, afastando aquele pensamento, e se pôs de pé num salto. Precisava comer alguma coisa. Ponderou por alguns segundos se deveria assar a pizza de caixinha que encontrou na geladeira ou jogá-la fora: estava vencida há dois dias. “Bactérias não usam calendário”, concluiu, enquanto a colocava no forno. Após a refeição, abriu uma cerveja. A razão lhe dizia que Isaac tinha ido brincar no lago e acabou se afogando por acidente: nenhum dos depoimentos indicava o contrário. Mas havia o caderno, e aquela frase perturbadora, que soava como uma mensagem cifrada.

Dormiu mal, sonhando que entrava numa casa feita de pedra, cujas paredes eram cobertas de musgo, e se deparava com um caixão aberto. Isaac estava dentro dele, parecendo apenas repousar num sono profundo, quando de repente abria os olhos e o encarava. Foi nesse momento que despertou, ensopado de suor, e com um medo horrível de sair da cama e encontrar o menino morto no corredor. Eram três da manhã, e Dênis não voltou a dormir.

 

***

 

Quando chegou à Delegacia, horas mais tarde, Joaquim foi logo lhe dizendo, agitado:

– Liguei pro legista. Ele tá finalizando o laudo, mas me adiantou alguma coisa. Parece que doparam o garoto e seguraram ele na água.

Dênis moveu levemente as sobrancelhas. Não demonstrava surpresa.

Joaquim prosseguiu explicando que pedira à estagiária uma relação de fichados do distrito de Remanso, e ela acabou encontrando alguém com um perfil bastante suspeito: Francisco Tavares. Morava a uma quadra da casa de Isaac. Tinha sido preso por “mostrar o pinto para mulheres e crianças”, nas palavras do policial.

No mesmo dia foram à sua procura. Receberam de uma simpática vizinha a informação de que o rapaz se comportava bem, e que nunca tinha visto ele causar problemas. Trabalhava como zelador na Pão Nosso, uma igreja evangélica.

Chegaram ao templo em meio ao culto. Um homem trajado de terno dançava no palco e pregava; suas palavras vinham embaladas numa cadência vigorosa semelhante a de uma feroz canção de rock:

– Foi esse Deus que me deu uma nova vida, irmãos. Por isso que nosso símbolo é o pão, e não a cruz. Não a morte – e sim a vitória sobre a morte. Não a miséria – e sim a vitória sobre a miséria. Jesus alimentou 5 mil, irmãos, multiplicando alguns pães e peixes. Jesus trouxe Lázaro de volta à vida. Ele mesmo voltou dos mortos, porque nem a morte vence Jesus, nem o diabo, não, ninguém pode com Cristo!

– Aleluia! Aleluia! – berrava a multidão em resposta, vibrando com cada uma das palavras do pastor Moisés.

Após o fim da celebração, os policiais se dirigiram a ele. Cumprimentaram-no, mostrando seus distintivos, e perguntaram onde podiam encontrar Francisco.

– Ele deve estar fazendo faxina na nossa colônia de férias. Me desculpem a indiscrição, mas isso tem algo a ver com o Isaac? Aliás, que Deus o tenha. Era um bom menino, sempre vinha nos cultos.

– São só umas perguntas de rotina – desconversou Dênis.

– Certo. Espero que esclareçam tudo. Chico é uma boa pessoa. Fez muita coisa errada no passado, mas aquele que não pecou que atire a primeira pedra, não é? Eu mesmo já trilhei um caminho que, com certeza, ia me levar direto pro cemitério, antes de encontrar Jesus. Era um viciado. Cheguei a pensar em suicídio. Sorte a minha que Deus é generoso.

– O senhor poderia nos dizer como chegar à colônia? —indagou Joaquim.

Moisés indicou a eles o caminho. “Que Deus os acompanhe” – falou, ao se despedir.

 

***

O lugar ficava próximo da floresta que cercava a lagoa. Entreolharam-se no momento em que a doce voz feminina do aplicativo de direção anunciou que estavam a 800 metros de seu destino: tinham acabado de passar pela entrada da trilha que dava para a cena do crime.

Estacionaram em frente a uma fileira de casinhas rústicas. Cessado o ronco do motor, o bucólico silêncio de uma colônia de férias fora da temporada se impôs. Saltaram e olharam em torno.

Uma das cabanas estava com a porta escancarada. Joaquim espiou por ela, e então o viu.

Ele estava sentado no limiar do banheiro, abraçado aos joelhos. Balançava para frente e para trás, encarando o vazio.

– Francisco? —perguntou Joaquim.

O homem se virou para o policial. Suas olheiras sugeriam que não dormia há dias.

– Eu não queria ter feito aquilo…. Não queria…. – disse, numa voz que parecia vir de uma longa distância, através de um bosque denso.

 

***

 

Caminhando pela sala de interrogatório, Dênis se deteve ao lado do zelador e pôs paternalmente a mão sobre seu ombro.

– Sei que você é um homem de fé, Francisco. Eu também sou. E se existe algo de que tenho certeza, é que Deus nos ama.

Empoleirado numa cadeira, Francisco o fitava, com o rosto contraído. Parecia prestes a chorar.

Dênis prosseguiu, apontando para o alto:

– Ele é generoso, irmão. E tem uma capacidade infinita de perdoar. Mas pra isso você tem que dizer a verdade. Toda a verdade.

Na sala contígua, Joaquim assistia à cena pelo monitor e balançava a cabeça, pensando: “Vai ganhar o oscar, seu filho da puta.”

– A verdade vos libertará. Esse é o caminho, Francisco. – prosseguiu Dênis, sentando à frente do preso.

Francisco olhou para o chão.

– Eu estava levando ele para o morto.

– Que morto? – questionou Dênis, com o coração acelerado.

– O morto que vive na água. Ele espera sonhando.

– O que significa isso?

Subitamente, os cantos dos lábios de Francisco começaram a repuxar, e seu rosto se contorceu numa careta.

– O morto espera sonhando…. O morto espera sonhando…. – choramingou, tremendo.

Dênis ia dizer algo, quando Joaquim surgiu na porta, fazendo um sinal para que o acompanhasse. Após saírem da sala, falou:

– Ligaram de Remanso. Uma garotinha desapareceu.

 

***

 

Interrogaram os pais de Amanda, e os vizinhos, em meio a uma atmosfera de medo e aflição tão densa que parecia palpável. Como no caso de Isaac, as respostas conduziam a um beco sem saída.

Enquanto Joaquim  fazia mais perguntas, o olhar de Dênis percorria a cozinha, até que se deteve na geladeira. Fixado à porta, havia um desenho infantil; nele, um enorme vulto, dotado de tentáculos, irrompia de uma lagoa.

O pensamento atravessou seu espírito, como um raio de luz do sol abrindo caminho num céu nublado. Seria possível?

Segurou o braço de Joaquim e o puxou, caminhando em direção à porta.

– Vamos. Acho que sei onde ela está.

 

O sol se punha, tingindo o horizonte de um vermelho sangrento, quando chegaram à colônia de férias. Empunhando suas armas, arrombaram uma por uma das cabanas, até que a encontraram. Amanda chorava e tremia da cabeça aos pés.  Estava amarrada e amordaçada, mas não tinha sido ferida.

Enquanto Joaquim a libertava, Dênis seguiu adiante, deixando a área dos chalés e enveredando por uma trilha no bosque. Gravetos e folhas secas crepitavam sob a sola de seus sapatos durante o avanço entre as árvores, cujas copas, sob o vento, inclinavam-se ameaçadoramente na direção dele, como punhos sendo brandidos.

Ao enxergar a beira da lagoa, caminhou alguns passos naquela direção, e então estacou de repente, engatilhando o revólver. A poucos metros um homem fitava as águas, de costas para ele.

– Se vira bem devagar, pastor. O senhor está preso.

Moisés obedeceu. Quando ficou de frente para o policial, Dênis notou a arma em sua mão, que ele apontava para cima, com o cotovelo flexionado. Havia um ar de profunda dor em seu rosto.

– Vocês não deveriam ter vindo. Ele está chegando.

– Larga a arma.

– Mas não importa – prosseguiu Moisés, indiferente à ordem do investigador.– Sei que vai acabar hoje, aqui, onde tudo começou. Quando, de tão desesperado, entrei nessa lagoa e deixei que a água entrasse nos meus pulmões. Eu morri nesse lugar. Mas então encontrei ele. E voltei.

Dênis estremeceu. É só mais um maluco, pensou. Por que então sentia tanto medo, um terror profundo que fazia sua alma congelar?

– Eu acordei na margem, confuso e assustado. Depois, quando vi que tinha acontecido de verdade, que não era um sonho, achei que só existia uma explicação: era um milagre – continuou Moisés. – Resultado: me converti, e acabei me tornando pastor.

Tudo ia muito bem, até que começaram as visões. O tempo todo eu via a mim mesmo matando crianças, e de alguma forma eu sabia que aquilo era um futuro inevitável, sabe? Quando o Isaac me mostrou o desenho, achei que era um sinal. Que Jeová testava minha fé, e que Ele ressuscitaria os garotos, como fez comigo. A coisa também falava com elas, e com o Chico, e todos pensavam que aquela era a voz de Deus. Por isso o Chico me ajudou.

– Vou repetir só mais uma vez: larga a arma – rosnou Dênis.

– Tudo bem.

Então o pastor baixou um pouco o revólver, e com um movimento ágil, meteu-o na boca e disparou.

O ruído ecoou por todo o bosque; a Dênis pareceu que se repetiria pela eternidade. Aproximou-se do corpo e viu o cérebro de Moisés espalhado na água. Balançando a cabeça, respirou fundo. Não era esse o desfecho que esperava, mas poderia ter sido muito pior.

Quando ia dar meia volta, algo chamou sua atenção. A lagoa estava agitada demais. Era algo impossível: não se tratava de um rio, de modo que aquilo não poderia ser obra da correnteza. Tampouco havia vento o suficiente para provocar ondas tão grandes. A despeito disso, o movimento prosseguia, cada vez mais intenso, até parecer que as águas tinham ganhado vida. E Dênis ficou repentinamente petrificado ao notar que a superfície da lagoa ia se tornando mais e mais escura, como se algo gigantesco estivesse emergindo dali.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C3.