EntreContos

Detox Literário.

Os Presentes de Vvitaen (Ilma Conha)

 

A mãe estava na cozinha da casa quando um cassaco entrou e sentou na cadeira.

“Porque você só escolhe virar isso? Eu podia ter te matado sem saber. Olhe”, a mãe mostra um cassaco morto para o filho.

“A senhora vai me dar um presente de natal?”

“Não, vou fazer melhor. Vou te dar comida. Olhe aqui, tá quase pronto.”

“Eca, tá cru. Então não precisa me dar presente.”

“Que bom. Parece que já é um rapazinho.”

“Já tô desvirando. Dessa vez não durou muito tempo”, o focinho dava lugar a um rosto de menino. “Sim! Esse ano eu vou mandar uma carta pro papai noel.”

“Você não precisa de papai nenhum. Você tem eu.”

“Aham, mas ele passou por aqui ano passado e não parou. Acho que porque não mandei a carta.”

“Isso nunca vai acontecer, Vvitaen. Esqueça isso. Agora coma.”

“Não, tá cru.”

“E pra quê você tem dentes? Eles já são grandes. Sabe que não gosto de fogo dentro de casa.”

“Eu não gosto de cru.”

“É papai noel. É comida cozida. É o que mais?! Você tá na idade de entender que essas coisas não são pra você”, a mãe falava levantando a voz enquanto menino começava a chorar. “NÃO CHORE”, gritou e o menino passou por ela e correu pra fora de casa. Foi pela margem do rio e logo entrou na floresta.

Ele caminhou até os limites onde tinha as plantações. As macieiras ficavam depois de uma cerca e Vvitaen passou alguns minutos fitando as frutas. Pôs um pé para dentro e olhou ao redor. Nada aconteceu. Tirou o pé e depois colocou de volta e num impulso se pôs todo para dentro. Nada aconteceu. Então correu pela plantação degustando as maçãs maiores. Depois de alguns minutos, enquanto comia, ouviu um barulho e de longe viu um cachorro farejando vindo em sua direção e atrás deste, um homem. O homem parou onde Vvitaen estava segundos antes e o cachorro quiz seguir o cheiro para além da cerca, mas o dono não deixou. O menino assistia de cima da árvore para onde tinha corrido.

Quando o sol ficou fraco e o vento esfriou, ele correu para a árvore mais alta e escalou. Viu o pôr-do-sol em tons de laranja e rosa, abriu um sorriso quando este se pôs e ele viu as luzes da cidade acenderem. O azul do céu ainda não era escuro o bastante mas já dava pra ver o contraste dos pisca-piscas e no centro da cidade de Ladainha, numa praça, a árvore de natal gigante.

Vvitaen passou a noite admirando a vista. De manhã, quando voltava para casa, a mãe estava de costas buscando água no rio. Ele aproveitou para entrar sem que ela percebesse. Já dentro, viu o caldeirão e foi logo em sua direção, alçou as mãos para tirar a tampa, mas neste momento tudo ficou de cabeça pra baixo. Inclusive sua mãe que estava na porta. Ela foi em sua direção, cortou a corda da armadilha que prendia o pé dele e o segurou na mesmo posição.

“Onde você esteve a noite toda?”

“Na floresta.”

“Mentira, eu senti seu cheiro além das cercas, pras bandas das plantações.”

“O meu sangue ta descendo pra cabeça.”

“Eu já falei mil vezes, você pode andar pela floresta o quanto quiser e correr pra casa quando aparecer alguém. MAS NUNCA, nunca passar pela cerca.”

“A senhora cozinhou a carne?

A mãe tirou a tampa com um sorriso, colocou o menino dentro e tampou. Vvitaen permaneceu calado dentro do caldeirão. Até que ela o abriu e viu o filho sentado no fundo comendo carne e se lambusando com o molho.

“Vvitaen Vvitnaesmem, se alguém da cidade te vir sozinho é você quem vai ser cozido. Prometa pra mim que nunca vai fazer isso de novo.”

“Prometo.”

“Agora, sabe o que a sua mãe fez ontem quando estava te procurando na cidade?”

“Comeu alguém?”

“Não. Olha o que eu peguei!”, a mãe disse mostrando uma folha de papel.

“O que é?”

“Não toque com essas mãos imundas. Leia”, ela segurou a folha na altura do rosto do menino.

“For-mu-lá-rio de… Eu não acredito! I-ra!”, dizia Vvitaen pulando dentro do caldeirão. “Eu vou ganhar um presente do papai noel! Eu vou esperar a noite toda!”

“Calma, você só vai ter o trabalho de mandar a carta.”

“A senhora roubou de quem?”
“De ninguém, nem se quisesse. Esses formulários têm código de barras, não dá pra falsificar. E tem de graça na cidade.”

“O papai noel vai vir aqui em casa! Ele não deixa nenhuma criança sem presente!”

“Quando você estiver limpo vai poder preencher isso aqui.”
O menino saiu do caldeirão e passou direto pela porta indo parar no rio. Saiu limpo. Depois correu pela margem de um lado para o outro até voltar seco.

“No nome da cidade eu coloco o que? Cururu?”

“Não. Eles não vão saber o que é a Cururu. Tem que colocar o nome da cidade dos homens: Ladainha.”

“Quantos anos eu tenho?”

“Você ta na idade do gato. Vai fazer seis anos. Ponha: cinco.”

“Nome de pai e mãe.”

“Do pai, bote: não declarado. Da mãe, você sabe: Vvitnaes Vvitaesmem.”

“Aqui pede cor da pele, mas não tem verde pra marcar. Eu marco o que?”

“A sua cor, meu filho. Marque a opção outra e escreva: verde. No final você escreve o que quiser. Diz o que quer ganhar.”

“Qualquer coisa.”

A mãe mandou a carta. Vvitaen só falou nisso a semana inteira. Saía e chegava em casa cedo. Sempre obedecendo a mãe. Na outra semana a carta voltou. Havia um xis vermelho onde era marcada a cor da pele e um escrito em cima dizia: indeferida.

“Eu te disse Vvitaen. Eles nunca virão aqui. Isso não é pra gente.”

“Mas porque? Foi por causa da cor? Era pra eu ter marcado outra. Eu fui bonzinho o ano todo. Não fiz travessuras.”

“E isso serviu de que?”

“Eu já sei! Eu posso me pintar…”

“Não vai. E não dá mais tempo. Amanhã já é véspera de natal.”

“Verruga! A senhora não quer me ajudar!”

“Você não precisa disso, Vvitaen! Isso é pra eles. Eles que tomaram nossa Cururu e só nos deixaram essa migalha. Você não precisa de um presente deles, meu filho. Isso tudo é seu, as terras, o rio, até onde se pode ver é seu por direito!”

“Eu não quero terra nenhuma! O menino disse saindo correndo pela porta.

Vvitaen correu e passou a noite vendo as luzes da cidade que agora pareciam mais brilhantes e coloridas.

No outro dia, o menino aparece na porta de casa.

“Eu poderia te dar um castigo tão bom que você não ia mais querer se esconder de noite, mas o velhote voador já fez isso por mim.”

O menino nada respondia e nem queria comer por boa parte do dia. Até que a mãe conseguiu quebrar sua birra.

“Eu estou fazendo um preparado que uma pessoa gosta muito. Tô botando raiz do pé de fruta de fígado e um pinguinho desse frasco roxo.”

Vvitaen olhou para o caldeirão com o canto dos olhos e na boca um sorriso se formou.

“Eu quero um cachorro!”

“Cachorro não. Sem domésticos.”

“Um lobo, então”.

“Se conseguir pegar, pode ser qualquer um dentro da floresta.”

“I-ra!”

“Não demore senão o caldo desanda. Eu sei que vai ser um cassaco de novo”.

 

Na floresta, o menino escolheu sua presa. A lebre passou quase sem tocar o chão. Os dois atravessaram a floresta levantando as folhas até que chegaram numa cerca. A lebre passou, mas ele hesitou. Quando quase não dava mais pra ver as longas orelhas do animal, o menino passou pela cerca. Deixaram frutas pelo caminho até que Vvitaen teve a lebre em suas mãos. O animal se esperneou e arranhou o menino até que este a soltou, mas a mão estava cheia de pelos.

Ele já ia voltar quando viu que estava sendo observado pelo menino que morava na casa no final da plantação. Isso lhe arrancou um sorriso travesso.

Em casa, a mãe se espantou com a quantidade de pêlos que o filho trouxe.

“Você sabe que um já basta.”

A mãe encheu um copo com o líquido ainda quente.

“Ponha logo senão não dá certo.”

O menino mostrou um pêlo cinza, liso e grosso, mas quando a mãe tirou a vista ele trocou por um fio preto, fino e encaracolado. Este se dissolveu assim que tocou a superfície do líquido.

Quando a mãe se deu conta, Vvitaen já tinha tomado todo e já saia de casa.

“Se der errado, volte pra casa. Se der certo, volte antes de desvirar. O que foi?”

“Um lobo”.

“Quero só ver”.

Vvitaen mergulhou no rio e passou alguns minutos se banhando até que saiu e não era o mesmo. Ao invés dele, um menino de pele marrom e cabelos cacheados saiu e correu para longe da casa. Quando a mãe olhou não viu ninguém. Levou mais de meia hora até chegar a cidade.

 

Apesar de ter aparência de um menino qualquer, Vvitaen era fitado por todos na rua. Demorou um pouco para achar o que queria. Já era final de tarde quando ele chegou ao centro da cidade e viu a grande árvore de natal no meio da praça ornamentada. Ficou hipnotizado quando se acenderam as milhares de luzes coloridas.

“Oi, menininho. Onde estão seus pais?”, perguntou um casal com duas crianças ao se aproximar dele.

“Eu não tenho pais”, respondeu quando o casal perguntou novamente.

“Como? Cadê sua mãe?”

“Ta em casa.”

“Ah, ta certo. Tome um doce.”

Vvitaen pegou o pirulito cujo disco colorido era maior que sua mão. Ficou olhando pro doce por um bom tempo até ver que cada uma das crianças que acompanhavam o casal também seguram um igual e os lambiam. Ele os imitou. Ficava tonto a cada lambida.

“Não fique até tarde por aí, menino. Como é mesmo seu nome?”

“Vvitaen.”

“Tá bom, Vitor. Sua mãe deve tá te procurando.”

Vvitaen fez uma cara de espanto e correu tão rápido que o casal nem viu por onde ele passou. Assim o fez por toda a noite, quanto mais comia o doce mais rápido corria pela cidade e chamava atenção das pessoas. Perdeu a conta dos lanches que roubou das outras crianças.

“Quanto falta pro Papai Noel chegar?”,perguntou para uma velhinha que o parou antes que ele tropeçasse na calçada.

“O que?”

“O Papai Noel! Eu vou pedir um presente quando ele chegar!”

“O que?”, a velhinha perguntou dando uma risada, mas o menino já tinha ido embora.

Depois de dar a volta pela praça e ter corrido por todas as casas tocando os enfeites, outra pessoa o parou. A mulher tinha os olhos arregalados.

“Gente, essa criança não está bem! Olhem, tá verde”, a mulher gritava para todos na rua. Vvitaen tentou se soltar, mas um homem o segurou.

“Olha a orelha dele”, disse uma criança apontando. “É um monstro!”

Começou a juntar gente ao redor. As crianças gritavam assustadas.

“BRUXARIA.”, ouviu-se gritar no meio da multidão. Vvitaen teve a roupa rasgada, mas conseguiu se soltar. Nesse momento algumas pessoas o seguiram, do outro lado da rua um homem armado perguntava pra onde o filhote tinha corrido. Ouviu-se tiros e as pessoas começaram a correr para todos o lados. Nesta hora, Vvitaen já tinha se desvirado completamente. Um homem conseguiu pegá-lo pelo pé, ele o mordeu, mas outro já o tinha segurado e em segundos um grupo levava o menino em cima de suas cabeças ao encontro do caçador.

“FAÇAM UMA FOGUEIRA”, gritou o homem armado enquanto os outros amarravam Vvitaen. Ele continuava gritando para os outros, mas estes não conseguiam aumentar o fogo por causa do vento.

“MÃE”, gritava Vvitaen depois que seu rosnado não adiantava mais, só para receber um soco na boca.

De repente, o vento começou a soprar balançando as árvores e levando lixo pela rua. No céu, nuvens elétricas cobriam as estrelas. As luzes da rua e os pisca-piscas começaram a falhar.

“MÃE”, o menino gritou quando ao longe um vulto apareceu no céu. A multidão olhou assustada. Com um chapéu pontudo, vestido cor da noite e em cima de uma vassoura, Vvitnaes vinha sacudindo os telhados das casas e a fiação de energia.

Foi quando tudo ficou escuro. Só se ouvia tiros e gritos de horror. De repente, um ponto de luz se formou. Vvitnaes deu ao fogo o que precisava para crescer, a árvore de natal da cidade se tornou uma fogueira gigante. O homem se preparava para atirar em Vvitaen, quando uma língua de fogo atingiu seus olhos. Ele começou a atirar para todo os lados. Em meio as pessoas que caíam atingidas pelos tiros, a mãe pegou o filho, rasgando a corda com as unhas. O menino agarrou em seu pescoço com força e vento soprou de novo. Os dois ascenderam enquanto o fogo se espalhava pelos enfeites de natal. Eles viram de cima a destruição e seguiram em direção à Cururu.

Vvitnaes pousou perto de casa, Vvitaen ainda estava ofegante.

“Eles iam me queimar, Mãe. Eu só queria um presente”, ele dizia agarrando a mãe.

“Eu sei, meu filho. Eu te avisei. Mas ninguém vai queimar você!”, ela limpava as lágrimas dos olhos antes que caíssem.“Eu faço essa cidade virar cinzas antes disso. Agora eles sabem que não estou sozinha. Você vai crescer, meu filho. Vai ser forte. Eles vão ter medo.”

Nesse momento, o barulho de sinos cortou o silêncio. Os dois olharam pro céu e viram um cortejo de renas levando um trenó.

“Não deveria ter me desobedecido, nem valeu a pena”, ela disse acariciando a cabelo do filho.

“Mas eu não mereço um presente mesmo, eu não fui um menino bom”, disse Vvitaen abraçando mãe, mas esta não retribuiu.

Ela tirou as mãos do menino e o vento começou a soprar, “não merece um” não tinha terminado de dizer e já estava a metros de altura. O menino viu a mãe subir pelo ar ao encontro do trenó. Quando ele limpou os olhos da poeira que subiu, a visão tinha mudado, as renas tinham se dispersado e o trenó ameaçava cair. Vvitnaes fazia acrobacias no ar até que pegou distância e de uma vez investiu ao encontro do trenó e o menino só viu os pontos coloridos caindo. Depois já era perto o bastante para perceber que eram presentes.

Vvitaen corria juntando todos os que caíram perto da casa. Ao longe, as renas se juntavam de novo. E depois de alguns minutos, o trenó já voava em direção a cidade.

Anúncios

Sobre Fabio Baptista

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C3.