EntreContos

Detox Literário.

Por Amor (Ikú)

 

Uns anos atrás, morei em uma pequena cidade, próxima da divisa com o estado do Rio. Pequena de verdade, nem mil habitantes. Não direi o nome porquê isso causa problemas. Assim como os nomes das pessoas, é melhor esconder. Enfim. Os anos que fiquei lá foram os que passei mais tempo à toa. Observando as pessoas da cidade, lendo, conversando, e não fazendo de fato o meu trabalho de coveiro. Pois é, sou coveiro. A profissão está na família há algumas gerações. Eu me chamo Ikú, meu pai chamava Caronte, e meu avô, Leto. Mas não se adiante, isso não é uma história de terror. O povo não pode ver um coveiro que já acha que vou sair falando de fantasmas.

Vou falar do ser humano, de um homem bom e como o ajudei a cuidar da sua filha doente, que veio a falecer aos sete anos. Em dois momentos dessa história fui testemunha direta. Estava lá quando ela “nasceu” e também no fim, depois de seguir José quando ele passou em frente ao cemitério completamente perdido. Me adianto. O resto José me contou.

Vamos aos fatos, ao José, que tinha boas intenções, sei ver de longe um homem bom, mas você conhece o ditado. Ótimo carpinteiro. Na fábrica de móveis onde era empregado há quinze anos, fabricava móveis em geral, mas também fazia todo tipo de brinquedos de madeira nas horas livres e distribuía para as crianças que encontrasse no caminho para casa.

Dos brinquedos que fazia havia alguns especiais. Por algum motivo que nunca saberemos, José tinha um talento, uma habilidade especial para duas coisas: grandes móveis de madeira nobre, e bonecos. Pela primeira, ele era o único funcionário contratado há tanto tempo, manda-lo embora faria cair os lucros da fábrica em 50%, pelo menos. Mas José não se preocupava com a diferença entre o seu salário e o valor pago pelos clientes por um armário de oito portas, todo entalhado em mogno (ilegal, diga-se de passagem). Enfim. Não é a mais-valia o foco da nossa história. Se fosse teríamos uma história de terror de verdade. Mas já disse que não é. É uma história de amor. Do amor de um pai por sua filha. Se é que podemos chama-la assim.

Desculpem, tenho essa tendência a perder o fio da meada. É o tempo conversando com os mortos sabe?

Onde parei?

Sim, os talentos de José. Pelo primeiro ele estava empregado, pelo segundo ele recebia o largo sorriso de sua filha. Viram? Amor! Pelo menos uma vez por mês ele concluía um de seus bonecos. Tinham quase o tamanho de uma criança. Primos distantes de Pinocchio. Quando acabava o expediente na fábrica, José embalava o boneco em lona, amarrando com cordas e criando uma espécie de mochila, e o levava nas costas até a sua casa. Cerca de trinta minutos de caminhada. José fazia esse percurso duas vezes por dia, de segunda a sábado, há quinze anos. Nem mesmo quando sua esposa, Catarina, morreu, ele teve folga, já que o óbito se deu num sábado depois do expediente. José achou melhor voltar logo ao trabalho, para ocupar a cabeça, ele disse. Naquela segunda-feira, sete anos antes desses eventos, levou mais tempo pra chegar em casa, muito mais. Mas esse não é o ponto agora. Interessa que, quando José carregava o boneco, os comerciantes pelo caminho se alegravam.

—Essa é das grandes José! Dizia o Antônio da quitanda.

—Sim, ela tá crescendo!

— É uma menina dessa vez? Perguntava Josefa, da padaria.

— Hoje não, mas a próxima será!

Todos com sorrisos nos rostos, um prelúdio.

Quando chegava em casa entrava em silêncio. Cuidadoso para que ela não notasse sua chegada. Devagar, se dirigia até o quarto. Ela nunca saía de lá e na maioria das vezes estava cochilando quando ele chegava. Os olhos castanhos se iluminavam, o sorriso se abria. Eram os olhos de Catarina.

— Papai! Trouxe presente?

Ela perguntava com sua voz rouca.

Ele desfazia seu pacote, protótipo de embrulho. Surgia o brilho da tinta fresca, os detalhes dos entalhes, que davam vida aos seus bonecos. Cada linha, cada pedacinho de roupa de madeira, planejado e executado por ele, somente para ver sua filha sorrir. Ela logo abria o peito do boneco, pegando os generosos pedaços de carne. No começo foi de surpresa, mas com o tempo ela entendeu que ali teria comida da boa.

Isso aconteceu muitas vezes durante esses sete anos. Porém há sempre um porém. Se eu parasse aqui, e só contasse do meu conhecido, o José, que faz bonecos e bonecas para sua filha, você não gostaria. É preciso haver aquele negócio que não consigo pronunciar direito, mania do povo misturar inglês com português que não me desce. Como chama? Poti? Plóti! Algo assim. Clímax, reviravolta, essas coisas. Tem que ter reviravolta.

Era abril, e o ano 1997. Foi antes da internete ser um negócio popular, por isso você não encontra muitos registros do caso por aí. Causo se você preferir. Num desses dias, quando José chegou em casa sua filha não sorriu.

— O que houve filha? Você tá bem?

Ela não respondeu.

— Não gostou do seu amiguinho, não gostou da roupa? O que houve?!

O olhar dela penetrou na alma de José. Aqueles olhos, aquele olhar que era tudo que restara de Catarina, fulminando-o como se quisesse devora-lo.

— Eles não são de verdade pai. Você nunca me enganou.

Uma lágrima correu a face de José, lavando o pó de madeira.

— Eu sei filha, mas não posso trazer as outras crianças aqui. Eles não podem saber, lembra?

— Mas eu quero.

Ele não podia. Não devia. Sabia bem disso.

— Mas filha…

— Eu quero.

A voz, aquela voz.

— Eu quero! Eu quero! Eu queRO! EU QUERO! EU QUERO!

Aqueles gritos.

—TA BOM!

Ele não resistiu. Mais uma vez.

—Tá bom. Se acalma. Vou ver o que posso fazer.

É difícil de explicar, mas o que ocorreu nesses breves momentos (você compreende que isso se passou em menos tempo que levei para contar, certo?) fez com que José se lembrasse da noite após o enterro de sua esposa, sete anos atrás. Quando ele saiu do trabalho e foi para o túmulo dela, chorando e bebendo, duas coisas que ele não fazia com frequência. O dia em que conheceu a filha quem nem sabia que tinha. Só eu vi, e, bem, não existe mesmo criança bonita, não é mesmo? José soube que era sua filha quando viu s olhos, olhos de Catarina. Literalmente.

Isso lhe deu uma ideia. Uma péssima ideia, mas ainda assim. U(má) ideia.

Os dias seguintes foram torturantes. Ele nem entrava no quarto da filha quando estava em casa, e caminhava mais devagar para o trabalho, pra não ouvir o choro dela. Ela chorava quanto sentia fome.

Porém, há aqui um fato comum à toda boa história: Tiché pôs em curso o que as Nornir planejaram. Não há outra explicação.

Pouco mais de sete dias depois de ver a revolta nos olhos de Catarina, ao tentar retornar para casa depois do expediente, José se deparou com uma placa: Interditado. Uma seta vermelha indicava o caminho alternativo. Alguma obra da prefeitura havia bloqueado seu caminho habirual. José segui o desvio, achando que o percurso não adicionaria mais do que cinco minutos ao trajeto total até sua casa, quando, ao virar uma curva, se deparou com um cortejo.

Carro preto, coroa de flores, choro. Disso eu entendo. Ele não percebeu que o desvio o fazia passar em frente ao cemitério, e nem sabia que alguém havia morrido. Nesses dias estava quieto, sem conversar com ninguém, focando somente em seu trabalho pra tentar esquecer um pouco da vida. Não há jeito de passar por um enterro sem ser extremamente rude. Não dá pra sair empurrando os parentes do defunto, pedindo licença porque se está com pressa. Então ele seguiu em passo lento, tentando não se aproximar demais.

O problema com cidades pequenas é que todos se conhecem e todos sabem da vida dos conterrâneos. Da mesma forma que José sabia que o padeiro traia a esposa com o Zé da borracharia, e que o dono da floricultura tinha dois filhos fora do casamento, na cidade vizinha, e ia lá uma vez por mês para visita-los, as pessoas sabiam algo sobre a filha de José. Muito doente desde pequena, é o que diziam. Então, ao vê-lo triste, logo deduziam que ela talvez tivesse piorado. “Claro, nem batizou a menina! Como pode melhorar?” diziam uns. “É falta de deus, quem mandou engravidar e mulher antes do casamento!” essa era a explicação que o povo dava para o fato de ninguém saber que Catarina estava gravida antes de morrer, haviam escondido tudo, não é óbvio?

Acontece que era o enterro de Ana Luiza, filha de Roberto e Ondina Amaral, prefeito e primeira-dama da cidade. O povo achou de bom tom não falar com José, ainda mais nesse momento, em que a menina parecia ter piorado. Padre Antunes, ao notar José no fim do cortejo, se adiantou para poder amparar a pobre alma. Foi ele que, com todo cuidado, contou da situação e dos motivos de terem lhe escondido o fato. Mas José já não ouvia o que o padre falava. Havia ali uma oportunidade, um tanto mais simples que sua ideia anterior.

José acompanhou o enterro, e naquela noite, muito mais tarde do que o comum, viu sua filha sorrir novamente.

Vejam, há uma lição a ser aprendida aqui. História boa é assim, tem lição pra aprender! A lição é essa: ceder nos caprichos dos filhos é caminho sem volta. O problema, pra José, é que não tem enterro todo dia em cidade pequena, muito menos de criança. Teve que voltar ao plano anterior, e carregar uma pá para o trabalho em alguns dias do mês, na média a cada quinze dias, os bonecos de madeira duravam mais.

José fez do desvio o seu caminho padrão, e mesmo depois da obra acabada, continuou a passar todos os dias pela rua do cemitério. Era melhor não chamar atenção, e nessa rua tinha menos comércio. Praticamente só eu o via passar.

Desse jeito, por alguns meses, voltou à sua rotina. De tempos em tempos chegava em casa com um boneco, tamanho real, embrulhado em lona e corda, e entregava a sua filha. Ela brincava com o presente, e depois abria o peito, e comia o seu conteúdo. Comia até se satisfazer, e não restar mais nada.

Agora sim, não é? Reviravolta. Mas não podemos acabar a história por aqui. Fico tentado a por um ponto final, mas não posso porque, bom, simplesmente porque a história não acaba aqui. A vida é assim, né? Ponto final vira início de parágrafo e ela segue, vai seguindo.

Eu li uma vez que pra história ser boa o personagem principal tem que enfrentar vários problemas, e problema não faltava pro pobre José. Pensa comigo. Se José morasse no Rio, como ele queria, perto do mar, teria ficado tudo bem. Tem muito defunto de criança nos cemitérios do Rio, e morre gente toda hora. Mas em cidade pequena não é assim. Numa cidade pequena tudo é pequeno, inclusive o cemitério e o número de crianças enterradas.

Uma vez ele tentou enganar sua filha, com uma mulher bem baixinha que encontrou nas suas idas ao cemitério, pois havia previsto esse desfecho. Ele tinha bastante tempo pra pensar nisso, já que o processo de abrir uma cova, tirar o defunto, embrulhar, colocar o caixão de volta e fechar a cova de modo que não se note que foi aberta é demorado. Eu observava, mas não ajudava, entende? Vida de coveiro é assim, a gente ve muita coisa, mas é melhor não se meter. Enfim, quando chegou em casa com essa “boneca”, viu de novo os olhos de fúria de Catarina. Fez essa tentativa um pouco antes de acabarem os “estoques”, sabendo que teria que se prepara para o próximo passo. Sempre há um próximo passo, não é? O amor que ele sentia pela filha, e principalmente, por aquele par de olhos que um dia foram de sua esposa, era grande demais, não conseguiria por um fim nisso, então tinha que dar o próximo passo.

Bom, vocês precisam entender que José era um fabricante. Fabricava móveis, fabricava brinquedos, mas além disso, produzia as próprias ferramentas para o serviço, em casa, plantava frutas e algumas verduras, criava umas galinhas, produzia sua comida, enfim, se o estoque havia acabado, José produziria mais bonecas.

Fazia sentido, não?

Uns dias depois, José esculpiu em pau ferro algo que parecia uma bengala, ou um pequeno cajado, como aqueles dos pretos velhos. Não chamaria a atenção, e serviria bem. Encontrou na oficina um leão, esculpido em ébano, restos de uma escrivaninha que fizera para o prefeito meses atrás. No fim do expediente, encontrou algumas crianças, lhe perguntando se havia brinquedos naquele dia

—Não, hoje não, mas tenho umas mexericas.

Foi preparado. Distribuiu as frutas entre as crianças, e elas partiram descascando e agradecendo.

Pensou duas vezes, é verdade, mas agiu.

—Ei, você. É, VOCÊ, vem cá, rapidinho.

Era o menor deles.

José abaixou, e disse em sussurro:

—Olha, hoje eu só tenho um brinquedo, um leão, você gosta?

A criança acenou com a cabeça, olhos de expectativa. José o conhecia, era o menor dos filhos do Tião da padaria (sim, aquele padeiro). Tião tinha sete filhos, então… Não terminou esse pensamento.

—Mas como é só um, não posso te dar agora, tá? Me encontra daqui a pouco, na rua de trás, tá bom?

O garoto concordou, e saiu correndo para encontrar as outras crianças

José andou passos duros, pesados, sentindo cada um deles.

Havia o mesmo brilho nos olhos daquele menino que nos olhos da sua esposa, agora em sua filha. Mas aquele brilho de antes, de quando Catarina estava viva. Ele foi até o local marcado, segurou o leão na mão esquerda e seu cajado na direita. Um golpe seria tudo? E depois, fazer o que? Talvez ele não morresse com um golpe, e levá-lo vivo seria ainda pior. Não seria? Cruel?

Os pensamentos o invadiam enquanto as certezas o abandonavam. O menino vinha correndo pela rua.

— Cheguei seu José, desculpa a demora. É que os muleque queria vir junto, aí eu falei que não!

Dizia sorrindo, se orgulhado da sua esperteza.

José estendeu a mão esquerda, que tremia, com lágrimas querendo rolar.

Caraca, que maneiro! Nunca vi um leão preto! Brigado seu José.

A caminhada para casa naquele dia foi a pior da sua vida. O peso era maior dessa vez.

Ele abriu a porta, foi devagar até o quarto. Aquele olhar, os olhos da sua esposa, olhando para ele, sem vida, sim, mas mesmo assim! Por pouco não o fizeram mudar de ideia.

—Papai trouxe presente hoje?

José estava com as duas mãos para trás. Estendeu a esquerda. Nela havia uma flor.

—Papai?

Na direita, o cajado de pau ferro era estranhamente leve de utilizar como um martelo. Muito leve, dado sua dureza.

Isso que chamam de amor pode ser meio feio, às vezes.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C3.