EntreContos

Detox Literário.

Olhos (Rejana)

Desenhando corações no bafo da janela, Renata bufava, amargurada. A garota detestava aquelas viagens intermináveis dos encontros familiares.  Todo fim de semana prolongado, seus pais insistiam em se meter por 6 ou 7 horas num trem até a casa da vó Nena. Não podiam pegar um avião, pra variar? “Tradição, minha filha. Um dia você vai entender, e vai dar continuidade.”

Não entendia muito bem – e nem ligava –  para o significado da palavra. Mas, afinal, o que uma menina de 12 anos podia decidir?

Entrara emburrada em seu vagão, acompanhada do inseparável fone de ouvido. Pelo menos, dessa vez, conseguira um vagão separado dos primos barulhentos. Era uma menina quieta, e não gostava muito das crianças de sua idade. Já sabia muito mais sobre a vida que eles. Dessa vez, dividia a cabine apenas com a Jana, sua priminha cega.

A garota também parecia quieta, e as duas quase nunca haviam conversado. Seus pais, imaginando que pudessem fazer uma amizade, haviam deixado Renata cuidando da prima. Assumiu a função com certo orgulho, pois já era madura para cuidar de uma criança de 9 anos. Mal sabia que os pais ficariam o tempo todo espiando pela janelinha.

Dessa vez, a viagem tinha um significado diferente. A vó Nena acabara de falecer, e toda a família, espalhada pelo Brasil, se dirigia aos confins de Minas Gerais para o velório. Os pais tiveram uma longa conversa com Renata, explicando sobre a vida, a morte e o amor. A menina não chorou na hora, mas ainda sentia aquela dor aguda no peito. Dessa vez, bufava de angústia, e não de tédio.

– Pode chorar, se quiser – entreouviu a voz fina, em meio ao som alto do fone.

A contragosto, removeu o acessório.

– Falou comigo, Jana?

– Achei que só tivesse a gente no vagão – a menina olhou em volta, em dúvida. Renata teria considerado uma provocação, mas soube pela expressão da menina que era apenas inocência.

– É, não tem mais ninguém aqui. Seus pais me deixaram cuidando de você. Já sou 3 anos mais velha que você, e em março faço 13 anos.

– Nossa, quando eu tiver 13 anos, acho que também não vou chorar quando alguém morrer – os olhos da garota lacrimejaram, e Renata percebeu, pela primeira vez, as olheiras em seu rosto e os olhos vermelhos, de íris dum estranho azul esbranquiçado.

Desviou rapidamente o olhar. Sentiu as próprias lágrimas escorrerem. Podia chorar livremente perto da prima. Como ela soubera o que sentia, se não podia vê-la?

– Vai se sentir melhor assim. Tenho chorado bastante, também. Foi a vovó que me falou sobre as nuvens, sobre o sol, sobre os pássaros. Ela falou que as nuvens são como o algodão. Como tá o céu hoje? Tem muitas nuvens? – a garota falava num ritmo irrefreável.

– É… sei lá, tá bonito – respondeu, oscilante. – Você já nasceu sem enxergar, né?

– Sim. Mamãe falou que é genético, não sei bem o que significa. Mas e as nuvens?

A teimosia incomodou Renata. Será que a menina não percebeu que ela tentava fugir do assunto? Crianças são realmente irritantes.

– Bom, as nuvens são bonitas. Tem muitas delas, hoje. O sol tá forte, e isso deixa as nuvens ainda mais brancas, e o céu muito azul, sabe?

Falara sem pensar. Claro que a prima não sabia nada sobre branco ou azul. Sentiu o rosto corar, e um aperto no estômago que já não tinha relação com a avó.

– Ah, dizem que meus olhos também são azuis, e que sou muito bonita. Talvez o céu seja tão bonito quanto meus olhos, então – a resposta de Jana foi surpreendente. Uma sombra de sorriso chegou mesmo a percorrer o rosto de Renata.

– Você fica muito melhor sorrindo. É o que a vovó sempre dizia. “A Renata precisa sorrir mais, ela é uma menina tão linda”. Foi a vó que me ensino tudo sobre as cores, também. Sobre como o vermelho é quente, o branco é brilhante…

Um pouco irritada, Renata interrompeu a tempestade de palavras e perguntou, desconfiada:

– Como você sabe que eu sorri? – fitou aqueles olhos profundos, desconfiada.

– Acho que você dá muita atenção ao que os olhos dizem, Re. Tem coisas que não pode ser vistas com os olhos. Tem pessoas que se tornam importantes em nossa vida. E essas pessoas preenchem nossos sentidos, como se fossem cores…

O trem sofreu um solavanco, interrompendo as palavras da menina. Renata olhava atônita para a prima, incapaz de responder. Um baque no vagão ao lado seguido de um grito e o choro de um menino interromperam a conversa. As duas correram até a porta e se juntaram aos muitos rostos que apareciam às portas das cabines.

Minutos depois, quando o primo Caique já havia recebido os cuidados adequados de seus pais e o barulho de choro e risadas se acalmara, as duas já estavam novamente sentadas em seus lugares, quietas.

Renata pensava sobre a conversa interrompida. Sentia um misto desconhecido de sensações. Olhava com curiosidade para a prima, que cantarolava algo distraidamente: parecia sorrir, apesar do rosto cansado e marcado pelos dias de luto.

Algo naquela criança a atraía. Sabendo que nascera cega, sempre pensara nela como uma menina triste e quieta. Como podia encarar a vida de forma tão alegre e otimista? Sem falar no carinho que a menina demonstrava por ela, que agora se sentia um pouco envergonhada de lembrar que havia tentado de todas as formas convencer os pais a não deixarem as duas viajarem juntas.

O trem sacolejava tranquilamente enquanto a tarde caía, apresentando os primeiros sinais da noite. O sol, já em posição de poente, tingia de vermelho o horizonte, transformando-se gradativamente num alaranjado vivo. Renata observava a paisagem com a testa encostada na janela. Sempre gostara do pôr-do-sol, e agora imaginava como seria não poder vê-lo.

– Hmm, Jana?

– Oi, Re – seguiu o chamado com a cabeça, sorrindo convidativa.

– O pôr-do-sol tá lindo hoje. Senta aqui comigo – completou a frase com batidas de leve no espaço vazio em seu banco. A prima deslocou-se com leveza, acomodando-se com a ajuda da outra. – Existe uma linha fininha, que contorna a curva do planeta, sabe? É difícil de explicar. Essa linha é o horizonte. O sol meio que se desloca lentamente, bem lentamente, e aos poucos vai desaparecendo pela linha do horizonte, sumindo cada vez mais. As cores são lindas. É como uma grande pintura, como se o horizonte aos poucos fosse abraçando o sol, uma linda cena de amor.

Jana ouvia tudo com os olhos marejados. Aos poucos, timidamente, abraçou a prima, envolvendo-a com força em seus braços. Chorava com os olhos fechados, a cabeça apoiada contra o peito de Renata. Esta também chorava silenciosamente, os olhos ainda voltados ao horizonte, acompanhando a marcha final do astro.

Sentia crescer algo dentro de si. Algo naquele abraço, naquelas duas vidas se encontrando e entrelaçando. Sorriu novamente, um sorriso salgado de lágrimas, e beijou a cabeça da prima. Seguiram abraçadas em silêncio, e o sol logo foi totalmente engolido, dando lugar à escuridão pontilhada de infinitas estrelas.

Os vínculos que se criam quando se abre os olhos do coração são indestrutíveis, e onde quer que vovó Nena estivesse, ela sorria, sabendo que aquelas duas almas jamais voltariam a caminhar sozinhas.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série B.