EntreContos

Detox Literário.

O Terror de Tito (Jacob d’Veneto)

Tito era um rapaz extremamente magro, esguio e alto. Vivia numa cidadezinha no interior e nunca havia saído de lá, até que por um único motivo tivera que viajar.

Ficou muito nervoso com a situação que o destino lhe proporcionou. Era o décimo filho de uma família simples que viveu todo o tempo no cultivo da roça, e era de lá que todos tiravam o seu sustento. Depois que seus pais partiram deixou toda a família desamparada. Tito era o único filho que saiu para trabalhar fora daquele lugar, e quando possível voltava para  visitar os irmãos. A maioria não se casou e as três irmãs que haviam contraído matrimônio ficaram lá mas também não tiveram filhos, por que, os que nasceram foram de parteira e por serem partos complicados morriam ao nascer, outros morreram antes de completar a primeira infância e assim aquele lugar era só de velhos.

Aos poucos cada um de seus irmãos partiam. Uns pela idade avançada, outros pela doença que os assolava pelos poucos cuidados.

Já era próximo da virada do século e Tito percebeu que só sobrara três de seus irmãos,  com ele somava quatro integrantes da família, dos quais três ficaram na zona rural, sobrando apenas ele que morava na cidade.

Como era o único que sabia ler e escrever deu início ao processo de desmembramento da terra, que apesar de pequena havia acumulado valor. A cidade cresceu e já estava encostando na sua propriedade. Foi ele também que fez o inventário da família,  corria atrás de tudo.

Na juntada  de documentos e papeis para o processo,  ficou sabendo pelo cartório que faltava um documento importante e que não conseguiria tirar na cidade onde morava, mas que teria que ir para São Paulo, capital, para a sua expedição. Isso porque os antigos proprietários residiam por lá. Na realidade ele deveria procurar pelos filhos ou netos para o certificado que atestasse o documento necessário.

Já fazia mais de uma semana que Tito não dormia direito só em saber da necessidade da viagem à capital. No serviço falava com os colegas e do pavor que estava passando por isso. Alguns lhe encorajavam, outros, com conversas faziam aumentar seu pesadelo.

O tempo foi passando e ele teria que resolver aquele incômodo de qualquer jeito. Nesse meio tempo um de seus irmãos veio a falecer e complicou ainda mais a situação. Mas o problema tinha que ter um fim e ele era o único a resolver.

Conseguiu que uma amiga de trabalho o acompanhasse para a capital. Jurema já havia estado em São Paulo, mas fazia muito tempo. Porém, na sua visão, aquele lugar não era muito diferente de quando estivera lá, a três décadas.

Depois dos preparos partiram a procura dos antigos proprietários das suas terras. O cartório lhe ajudou na localização na capital. A meia noite tomaram o ônibus, deveriam chegar lá por volta das seis horas da manhã. Estava previsto a chegada na Estação Tietê. Entretanto, a Estação que Jurema estivera anteriormente era a da Luz.

Ao chegarem em São Paulo ainda dentro do ônibus, depararam com todo aquele movimento e com o tráfego lento. Jurema começou a entrar em desespero. Não era a cidade da qual ela imaginou guiar seu amigo. Porém, para Tito tudo aquilo era desesperador e ao mesmo tempo uma grande novidade. Seus colegas já haviam lhe contado como era tudo aquilo, mas ele tinha que testemunhar.

Assim que desembarcaram ficaram atônitos. Pessoas que iam e vinham sem se olharem. Era difícil para se localizarem e saberem para onde ir. Mesmo sendo desengonçado com sua altura e sua magreza não chamava a atenção nas pessoas, muito pelo contrário, era ele que ficara olhando para cada uma que passava e se ridicularizava com as vestimentas, os pierces e as tatuagens.

Depois de muito pra lá e pra cá, depararam com um dos integrantes do metrô, que os vendo desamparados foi até eles. Foi um milagre disse Jurema, pois já estava desesperada. Fora pra lá para ajudar seu colega e estava muito mais perdida que ele, que só ficava a observar. Tudo era novo, o metrô, as pessoas e as lojas que ali estavam.

Orientados pelo rapaz, já sabiam agora onde era os sanitários, onde deveriam tomar mais informações e onde poderiam comer com o pouco dinheiro que dispunham para aquela façanha.

Já estava começando a ficar melhor comentou Tito à sua companheira de viagem. Mas agora tinham que comer algo, antes de partirem para a busca das aventuras.

Logo que saíram daquele local se depararam com as bancas dos vendedores de comida. Era ali que iriam se abastecer antes de iniciarem a caminhada. Ele pediu um cachorro quente, era sua comida predileta, e ela um pão com presunto. Não tomaram nada para economizar, porque não sabiam o que poderia vir acontecer até o final da sua encomenda cartorária.

Embarcaram no ônibus conforme as informações tomadas e lá foram num deslumbre pela cidade da garoa. Antes de chegarem ao destino já não sabiam mais onde estavam e o nervosismo tomou posse dos dois. Mas um queria ser mais sabido que outro e não trocaram informações entre si e foram viajando pela cidade. Desciam e subiam pessoas nas paradas e eles lá sentados e seguros com as mão geladas e suadas na barra do banco.  A uma certa altura depois de muito andarem perceberam que o coletivo estava voltando de onde embarcaram. Todos os passageiros desceram e eles como ficaram sozinhos também se viram na obrigação de descerem.

Diante da mesmo movimentação de quase três horas atrás se viram perdidos novamente. subiram as escadas rolantes, foram ao banheiro que já conheciam e partiram novamente para os afazeres. Passaram pela mesma banca e comeram novamente.  Além de perdidos estavam agora com mais fome. Acharam por bem comerem o mesmo pedido. O sol já estava em seu pleno furor e o calor umedecia todo o corpo com o suor que escorria entre o corpo e as roupas de frio. Seus colegas de trabalho os tinham  orientados que a capital era muito fria naquela época do ano.

Tito depois de comer o terceiro lanche com molho de tomate, percebeu que suas vísceras deram de queixar. Pediu à sua companheira que voltasse com ele para a rodoviária, pois tinha que fazer uso do banheiro novamente.

A cada passo que dava sentia as cochadas na barriga que viajavam para cima e para baixo. Quando subiam o deixava enojado daquela comida e quando desciam tinha que prender para não se sujar.

Assim foi todo o percurso até a rodoviária. Suas pernas longas davam passos gigantescos, ainda mais com aquele mau estar. Porém, era segurado pela colega que não conseguia lhe acompanhar. Quanto mais ele caminhava mais ela o obrigava a diminuir seus passos. Foram eternas as distâncias daquelas quadras que os distanciavam do terminal.

Ao chegarem ele disparou na frente correndo desesperadamente. Jurema também corria, porém, não o alcançou. Esbarrava nas pessoas sem noção do que fazia. As cochadas aumentaram muito e ele achava que não daria tempo. Se dirigiu desnorteadamente até a direção dos sanitários e tal qual um animal irracional queria chegar ao seu destino definidamente.

Entrou como um louco esbarrando nas pessoas que saíam e o olhavam sem entender o que acontecia com aquele bambu ambulante. O ambiente estava repleto de pessoas, também à espera de uma cabine. Assim ele se postou diante de uma, e mal a pessoa saiu ele entrou como num raio.  

Mal conseguiu abrir o botão da calça e aquilo que ele mais temia aconteceu. Desesperado sentou-se com as mãos segurando o queixo e ali ficou imóvel, quase sem sentido com o cheiro impregnado em seu nariz. Aos poucos foi voltando a sua consciência e pode tomar ciência do que acontecera. Despiu-se muito cuidadosamente e enrolou a calça para esconder ao máximo o mal feito.

E agora? Era a pergunta que lhe via repetidamente na cabeça. E agora, o que fazer?

Via a porta do box ser empurrada por outras pessoas a procura de um box vazio. No entanto, segurava a porta para se certificar que não abriria. O suor, a dor, o mau estar do estômago, a vergonha, lhe tomaram conta. Pensava em abrir a porta para tentar falar com alguém que estivesse à espera, por várias vezes fechou e abriu a porta.

Já devia ter passado mais de uma hora e ele ali sem saber o que fazer. Era um terror o que lhe havia acontecido. E Jurema? Onde estaria? Será que ela entendeu toda a sua pressa?

Passado alguns minutos diminuiu a movimentação e ele abriu a porta novamente bem devagarzinho para se certificar que ninguém a empurraria como das outras vezes. Abriu um pouco mais e viu algumas pessoas diante das pias, outras saindo e outras entrando, mas sem muito tumulto. Levantou com muito esforço e viu o rapaz que passava panos no chão. Chamou por ele.

– Moço! Ô moço! Moço!

O cara olhava pelos lados sem saber de onde vinha aquele chamado. Tito insistiu chamando um pouco mais alto. Talvez pela vergonha tivesse falado só para si.

– Moço! Moço! Moço!

Uma pessoa que também usava o banheiro veio até ao box onde ele estava, mas ele rapidamente fechou a porta com vergonha. Meu Deus! que terror estou passando! Pensava.

A pessoa entendeu que o  chamado era para o faxineiro e assim o fez.

Quando abriu novamente a porta o rapaz uniformizado apareceu diante dele. Mas o que ele iria falar? Não sabia! Nem como iria começar a conversa. O funcionário  tentou empurrar a porta apesar da resistência de Tito, e lhe perguntou:

– O senhor está passando bem?

– Sim!

– O senhor me chamou?

– Não! Sim! Sim!

– Aconteceu um problema comigo, gostaria que me ajudasse a resolver.

O rapaz empurrou mais a porta e notou o chão sujo e o mau cheiro que exalava daquele lugar.

– Eu não posso lhe ajudar, vou chamar a polícia.

– Não! A polícia não!

– Como posso lhe ajudar então?

– Preciso de uma outra calça.

– Uma calça? Mas eu não tenho? Venho trabalhar assim.

Tito fechou a porta novamente. E agora? Pensava ele, se pelo menos Jurema estivesse ali tinha certeza que o ajudaria. Abriu novamente a porta e clamou pelo faxineiro.

– Tem uma moça lá fora de nome Jurema, poderia achar ela pra mim?

– O que? tem milhares de pessoas lá fora, como vou achar essa moça? Não! Isso não dá pra fazer!

– Mas e aí? Como vou sair daqui? Estou pelado! – Disse a última palavra quase sem som de tanta vergonha. – Como pode me ajudar então? – Questionou novamente.

– Não sei! Posso conseguir um pano.

– Um pano? Mas como sair daqui envolto num pano? A polícia me prenderia.

Fechou a porta novamente quando aumentou o fluxo de homens naquele lugar. Mais uma vez empurravam a porta para se certificar se estava vazia. O odor havia se espalhado de tal maneira que os comentários lá fora eram alto. Ele queria entrar naquela bacia de tanta vergonha. Logo que percebeu a diminuição do fluxo abriu a porta novamente clamando pelo moço.

– Me ajuda moço!

– Mas como posso te ajudar?

– Tem alguma loja de roupa aqui perto?

– Loja! Tem muitas!

– Pode comprar uma calça pra mim?

– Comprar uma calça? Eu não sei comprar roupa! Minha mulher que compra pra mim. E eu também não posso sair do meu trabalho. A não ser que seja numa loja de roupa  aqui do terminal.

– Pode ser! Meu número é trinta e dois, mas tem que ser bem comprida pela minha altura.

– Trinta? – Retrucou o rapaz.

Ele não respondeu só moveu com a cabeça positivamente,  fechou a porta rapidamente porque o fluxo aumentara novamente. Retirou do bolso da fatídica calça com muito cuidado um enroladinho de dinheiro. De lá tirou cinquenta reais,  sobrando apenas alguns miúdos.

O rapaz olhou para o dinheiro e disse:

– O que eu compro com isso?

Sem responder fechou a porta rapidamente.  Olhou para o relógio e viu que já era quase quatro horas. O dia já tinha ido embora e a passagem de volta já estava comprada para a meia noite. Ficou em silêncio aguardando a chegada da sua encomenda. Até que ouviu dois toques na porta.

– Quem é? – Perguntou assustado.

– Quem seria? – Indagou o rapaz

Abriu a porta novamente e pegou a sacola de plástico preto. Ao abrir era uma calça jeans para criança de número trinta e a cor não lhe agradou nada, era rosa.

Deu um grito  lá de dentro.

– Não! Não posso usar isso! Não cabe em mim! E essa cor!

O moço voltou para certificar se teria acertado na compra. A barra da calça vinha até o meio da canela e a cor realmente não combinava com aquela vareta. Todos dali riram.

Saiu com a sacola debaixo do braço com a calça suja dentro. Deixou aquele lugar sem olhar para lado algum e rapidamente galgou a porta. Queria sair dali o mais rápido possível. Lá fora saberia que muitas pessoas nem iriam notar sua vestimenta. O que queria agora era achar Jurema e voltar para sua cidade.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C3.