EntreContos

Detox Literário.

O Telefone (Mallone)

Eu nunca quis aquela linha de telefone. Quem ainda liga para número fixo? Só telemarketing ou gente mais velha. Só que a empresa de internet praticamente me obrigou a ter a linha telefônica. Com ela, eu teria um desconto de 30% no plano, mesmo que não usasse o telefone. Eu, pela primeira vez bancando sozinha minhas despesas, aceitei.

Foi um erro. A princípio, o telefone parecia inofensivo. Só tocava em determinados horários, sempre com alguma oferta: cartões de crédito, plano de saúde, TV a cabo… Propostas que eu cortava, sem cerimônia. Aí, sem querer, contei para meus pais que eu tinha aquele número. Eu pedi a eles: “não precisa ligar no telefone fixo, é só me dar um toque no celular que eu retorno”. Mas, não. Eles são orgulhosos demais, não aceitam que eu gaste crédito ligando para eles. Preferem pagar a ligação de distância para número fixo, comprometendo o pequeno orçamento deles.

Até aí, tudo bem. De fato, era importante conversar com eles. O recomeço estava sendo muito difícil. Nunca esperei que meu casamento acabasse. Ainda mais da forma como foi. Depois das tentativas frustradas para engravidar, que minaram nossas energias. De repente, meu marido fazia horas extras, tinha arranhões nas costas e cheirava a perfume barato. Não fui criada para divórcio, mas também não aguentaria ser feita de trouxa.

Morar sozinha foi um desafio. Com meu salário, não tive muitas escolhas e acabei alugando um apartamento em um prédio antigo. Ficava bem no centro, eu iria à pé para meu trabalho, o que era uma economia. Ele tinha um cheiro que, francamente, me incomodava. Não era forte, mas era azedo. Como se tivesse comida perdida ali. Pensei que o cheiro vinha da pia da cozinha, que estava vazando. Chamei um bombeiro hidráulico para fazer o reparo. O cheiro continuou.

Meses depois, precisei trocar a válvula da descarga. Tive esperanças de que, desta vez, o cheiro desapareceria. Chamei novamente o bombeiro, um senhor obeso que fazia serviços para outros moradores do prédio. Reparo feito, a descarga passou a ter uma força vigorosa. O cheiro, entretanto, continuou. Derrotada, me acostumei com ele.

O apartamento me atendia bem. Tinha uma boa luminosidade, ideal para minhas violetas e orquídeas. Havia um quarto a mais, que acabou ficando com o Xavier, nosso gato que, com o divórcio, ficou comigo.

Não era a vida com a qual eu sonhara, mas, em vista do que ocorreria, eu estava bem. Meus problemas começaram numa madrugada de domingo para segunda, no mês de janeiro. Lembro nitidamente do meu sonho. Luiza, minha irmã mais velha, jogava baralho comigo e com seu namorado da época. No meio de uma partida, ela me pede para ir para o quarto, para deixá-los a só. Quando eu respondo que não, que o papai não deixava, o telefone toca. Luiza, irritada, vai atender. Ela tira o aparelho do gancho, mas ele continua a tocar. Ele chama ainda mais alto, sem parar. Ninguém entende nada e, de repente, eu acordei. Era o telefone do meu apartamento que tocava. O som parecia ecoar de forma ainda mais escandalosa fora dos sonhos. Talvez fosse pelo assoalho de madeira. Ou pelo silêncio, apesar de estarmos no centro. Meu coração estava disparado, pelo susto de ser acordada de forma tão brusca. E disparou mais ainda quando comecei a pensar nas possibilidades. Meu pai infartou? Minha mãe caiu no banheiro? Um assalto na casa de Luiza?

Corri até o aparelho, desesperada pelas diversas tragédias que poderiam ter ocorrido. Atendi, a aflição na voz trêmula, ansiosa e, por outro lado, com medo do que ouviria. Mas ninguém respondeu. Fiquei ali, dizendo alô, alô, contendo o choro. E do outro lado, quase que um absoluto silêncio. O único som que eu ouvia era o de uma respiração bem leve. Havia alguém lá.

Desliguei o telefone e disquei, imediatamente, para meus pais. Eu precisa conferir se estava tudo bem. Do outro lado da linha, meu pai, sonolento, teve a prudência de tentar me acalmar, estava tudo bem. Mas eu não ficaria tranquila. Liguei para minha irmã que disse que nada havia acontecido e que não era hora de ligar para os outros.

Não dormi mais naquela noite. Fiquei pensando em quem poderia ter me ligado. Depois de me preocupar com a segurança dos meus parentes, agora o medo era por mim. Por que alguém me ligaria naquele horário? Seria algum bandido querendo saber se eu estava em casa? Eu fui até a porta do apartamento e conferi se estava trancado. Estava. Trouxe o Xavier para junto de mim. Precisava de companhia. A noite custou mas, em algum momento, acabou.

No dia seguinte, no trabalho, Vanessa, minha melhor amiga, notou que eu não estava bem. Dormir me faz muita falta. Ela me disse que coisas assim acontecem, que na semana anterior haviam ligado para ela no meio da noite com o falso golpe do sequestro. Ela me sugeriu tirar o telefone do gancho durante a noite.

Concordei. Era lógico, afinal, ninguém me ligava naquela linha. Só meus pais. Tirei o telefone do gancho na noite seguinte e, por meia hora, me revirei na cama. Não encontrava posição, sentia calor, sentia frio. Não tinha paz de espírito. E se algo estivesse acontecendo naquele momento com meus pais? Meu pai não se cuida, não vai ao médico. Minha mãe é frágil, poderia sofrer um acidente fatal escovando os dentes. E por mais que eles me dissessem que não dariam má notícia pela madrugada, eu não acreditava. Fui até o telefone e o recoloquei no gancho. Depois, liguei para eles, para confirmar que estavam bem.

A semana passou e eu fui, aos poucos, voltando a dormir. Havia sido um episódio isolado, eu pensava. Até a semana seguinte, na mesma madrugada de domingo para segunda. Dessa vez, eu sonhava que estava trabalhando. Um desses sonhos que só servem para cansar a gente. De repente, lá estava eu, acordada, suando frio, enquanto o telefone chamava. Fiquei, em primeiro momento, sem reação. O telefone que tocasse, não havia de ser nada. Três toques depois, lá estava eu, de pé, a mesma camisola da semana anterior, insistindo para que a pessoa do outro lado respondesse. Eu dizia, “mãe, pai, são vocês? Por favor, digam alguma coisa”. Mas eles não diziam. Não eram eles. Era alguém que respirava. Aparentemente, ele, ou ela, fazia questão que eu ouvisse sua respiração. Forte e serena. Saboreando o meu desespero.

A pessoa também não desligava. Ele ficaria ali a noite toda se eu não desligasse? Eu não sei. Voltei para cama e, novamente, não consegui dormir. Não liguei para os meus pais dessa vez. Independente do que fosse, talvez fosse melhor estar desperta.

No dia seguinte, Vanessa me perguntou se eu não suspeitava de Jair, meu ex-marido. Mas não fazia sentido. Pelo que me diziam, ele estava morando com uma moça que tinha metade da minha idade. Não havia sido um divórcio litigioso. A mágoa era só minha.

Eu tentei tirar o telefone do gancho. Juro que tentei. Mas era mais forte do que eu, pensar em estar incomunicável com meus pais me deixava em pânico.

A expectativa, agora, era saber se ocorreria de novo na madrugada de segunda. Não aconteceu. Foi antes, na noite de quinta para sexta. Eu deslizava por um sono tão gostoso, envolvida pela roupa de cama recém trocada, sentindo seu cheiro de amaciante – que, por milagre, se sobressaía ao azedo que impregnava o apartamento. De repente, o telefone aprontava aquele escândalo. Eu havia reduzido o volume de seu toque, em vão. Continuava alto demais para as duas horas da manhã. Do outro lado, o mesmo silêncio, a mesma respiração intimidadora.

Fui a uma delegacia no sábado. Apesar das olheiras, do aspecto cansado em meu rosto, o delegado não se sensibilizou. Não havia qualquer crime ali, ele disse. A pessoa não me ofendia, não fazia ameaças. E eu não tinha provas. Podia, inclusive, ser um problema de telefonia. Ouvir a respiração podia ser coisa da minha cabeça.

Enfim, foi tempo perdido procurar a polícia. Só valeu pela sugestão que o delegado me deu: comprar uma bina. Isso não havia me ocorrido. Foi o que fiz já no caminho de volta para casa. Com o identificador de chamadas, eu conseguiria encontrar o número que me importunava.

Deixei um caderno e um lápis ao lado do telefone. Meu sono foi leve naquela noite, com a expectativa de receber a ligação. Ela não veio. Tampouco na noite seguinte. O que, em certo ponto, era um alívio. Melhor assim, que não me ligassem mais.

Mas cinco noites depois, eu finalmente ia tendo uma noite de sono digna, quando o telefone tocou. Não importava por qual espaço ou tempo os sonhos me levassem, o telefone me arrancaria de lá impiedosamente. E me trazia para um inferno. Daquela vez, ao menos, havia a expectativa de descobrir qual número fazia as ligações. Fui atender ao telefone e, novamente, o silêncio, a respiração. Na bina, uma mensagem: número não identificado. Não seria assim que eu descobriria o autor das ligações.

As noites mal dormidas e a sensação de medo foram me minando. Comecei a fazer hora extra no serviço para passar menos tempo no apartamento. Ao voltar, o medo estava lá, as ligações continuavam.

Quando o ralo do banheiro entupiu, precisei chamar novamente o bombeiro hidráulico, Seu Evair. Fiquei ali, aguardando ele fazer o serviço e, então, percebi como eu era vulnerável. Os telefonemas, afinal, eram a parte mais inofensiva da ameaça. O problema era aquele tipo de situação. Eu, sozinha, com um homem que poderia estar mal intencionado. Seu Evair, enquanto realizava o serviço, tocava insistentemente em suas partes íntimas. Aquilo, junto com os olhares que o homem lançava ao meu corpo, me fizeram temer.

Podia ser ele. O homem visitara minha casa em outras oportunidades, sabia que eu morava sozinha. Ele podia estar me provocando com aquelas ligações, confirmando que não havia um homem na minha casa. Não sei. Vê-lo tocando suas partes íntimas me deu repugnância. Abri a porta do apartamento, fiquei afastada. Quando terminou o reparo, paguei ele de longe, desconfiada de suas intenções. Pude ver uma grossa aliança em sua mão esquerda. Não significava nada.

Encontrei outros suspeitos. Waldir, um dos porteiros, me incomodava há algum tempo com sua atitude. Eu o cumprimentava com a atenção normal que dou a todos. E ele, um homem com idade para ser meu pai, sempre puxava conversa, perguntava se estava tudo bem. De repente, passou a me chamar de “linda”, “querida”. Queria me cumprimentar com beijo no rosto. Comecei a evitar o diálogo com ele.

Também havia os dois jovens que moravam no apartamento de cima. A princípio, sempre tive eles como inofensivos universitários, jogando videogames noite adentro. Mas, com a insônia que adquiri naquele período, comecei a ouvir sons estranhos vindos de cima. Não sei o que eles faziam. Mas, em algumas oportunidades, ao cruzar com eles pelo elevador, percebi uma troca de sorrisos de cumplicidade.

Podia ser eles. Todos eles. Inclusive meu ex-marido, como Vanessa suspeitava. Eu não sabia. A lista de suspeitos ia crescendo na medida em que eu definhava. Perdi peso, cabelo e acumulei advertências no trabalho. Não conseguia me concentrar em nada.

Até que numa madrugada, quase quatro horas da manhã de quarta para quinta, o telefone tocou. E eu ia atender, como sempre fazia, mas escutei algo. Parecia ser um passo. O assoalho de madeira do apartamento era barulhento. Eu escutei algo, havia alguém ali. A porta do meu quarto estava fechada. Meus batimentos cardíacos foram à mil. Escutei outros ruídos, um estalo, talvez um osso estalando. Era alguém que não queria ser ouvido. Ou eram só os barulhos que um apartamento faz à noite? Foi a única vez que eu não atendi o telefone. Não tive coragem. Fiquei o resto da noite toda apavorada, olhando a porta, esperando ela ser aberta. Se eu me concentrasse, conseguia ouvir sua respiração. Fria, calma, como no telefone. Havia alguém lá. Fiquei com medo por mim, pelo Xavier. Eu suava, tremia, arregalava os olhos. Mas a porta não abria.

O dia amanheceu e eu tive que levantar. Abri a porta com cuidado, para ver o que estava lá. Eu tive muito medo do que encontraria. Não havia ninguém. Se houve algum invasor naquela noite, ele foi embora.

Nessa época, apesar de todo o caos na minha vida, eu comecei a conversar com o Gustavo. Ele era dez anos mais jovem do que eu, estava começando na empresa. Tinha uma sensibilidade enorme. Ele percebeu que eu não estava bem, começou a se aproximar com cuidado. A gente almoçava junto, ele me acompanhava até o prédio no fim do expediente. E só. Não dávamos as mãos, não nos beijávamos. O Gustavo me respeitava.

Um dia, ele me chamou para ir ao cinema. Ainda lembro de cada detalhe do filme, uma comédia bem boba. Ele me trouxe em casa e eu achei que não havia mal em chamá-lo para tomar um suco. Era tarde, ele disse, podíamos combinar outro dia. E foi embora. Não achei ruim. Ele era respeitoso, isso não era defeito. Entrei no prédio e o Waldir, na portaria, me olhou desconfiado, talvez, por me ver acompanhada.

Entrei no apartamento, não eram nem 22h00, e o telefone fixo tocou. Estranhei, era tarde demais para o telemarketing. Podia ser meus pais. Atendi e, do outro lado da linha, o mesmo silêncio de sempre. A respiração, porém, não estava calma. A pessoa estava apreensiva. Eu, da minha parte, também fiquei:

– Alô?

Silêncio. E então, finalmente, uma voz masculina respondeu:

– Não fica sozinha com ele, deixa a porta aberta. Ele está armado.

– O quê? De quem você está falando?

A ligação foi desligada. Pela primeira vez, ele desligava. Também foi a primeira vez que eu escutava sua voz. Não parecia ser alguém que eu conhecesse.

Da escuridão, com Xavier no colo, surgiu Jair, meu ex-marido. Ele tentou ser casual, simpático. Mas algo estava errado com ele, o suor escorria pela sua testa, suas mãos estavam agitadas. Ele não tinha as chaves do meu apartamento, se ele havia entrado, algo muito estranho estava acontecendo. E, sim, havia algo em sua cintura.

– Helena, eu preciso conversar com você. Fiquei sabendo que está de namorico com um guri bem mais novo do que você. Você quer me humilhar, é isso?

Eu poderia discutir com ele, dizer que minha vida pessoal não era da sua conta. Mas eu sabia do risco que estava correndo. Escutei a porta do elevador se abrindo e corri para ele. Um dos jovens que morava no apartamento de cima estava lá e viu Jair me seguindo com a arma na mão. Foi testemunha. Dessa vez, o delegado aceitaria minha denúncia.

No dia seguinte, com Gustavo, voltei ao apartamento só para buscar meu gato. Mudei dali na semana seguinte.

A operadora até tentou, outra vez, me fazer aceitar a linha de telefone móvel para ter desconto na internet. Mas eu preferi pagar mais caro.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 2, Série C - Final, Série C3.